11.8.16

Uva, pedra, cavalo, sol e pensamento



O rio continua a passar na minha ausência. 
Eu não sei o que o pássaro pensa da chuva. 

A terra tem o gosto agridoce de uma uva. 
Tudo em que ponho o olhar tem mágica inocência. 

Magra como uma vara de anzol pode ser a mulher. 
Gorda como a cara do sol pode ser a laranja. 

Ligeiro, o cavalinho. Trem-de-ferro qualquer, 
apitando, tudo é bondade que a vida arranja. 

Os anos que a pedra vive no seio das águas. 
Os anos que o coração bate no peito do homem. 

Os pés e as pernas unidos na mesma faina. 
As mágoas que se consomem iguais aos ventos. 

Uva, pedra, cavalo, sol e pensamento. 

- José Godoy Garcia, no livro "Araguaia mansidão". Goiânia: Oriente, 1972.


Emily Dickinson

É tudo que hoje tenho para dar-te -
Isto - e meu coração -
Isto, e meu coração, e mais os campos
E prados na amplidão -
Não te percas na conta - se eu esqueço
Alguém tem de lembrar -
Isto, e meu coração, e cada Abelha
Que no Trevo morar.

("Vinte Poemas de amor e uma Canção", de Emily Dickinson - Tradução de José Lira)

Imagem: foto de Franco Fontana

POEMA DE DAHLIA RAVIKOVITCH



A boneca mecânica

Nessa noite eu fui uma boneca mecânica
Eu ia à direita e esquerda, todos os lados,
Caí de cara no chão e quebrei em pedaços
E tentaram unir meus cacos com mãos hábeis.

Depois voltei a ser uma boneca padrão
E meus modos eram pensados e obedientes,
Mas já era boneca de segundo tipo
Como um galho ferido preso por um fio.

Depois disso fui dançar numa festa, baile
Mas me deixaram entre os gatos e os cachorros
Ainda que os passos fossem medidos, ritmados.

E eu tinha cabelos loiros e olhos azuis
E eu tinha vestido cor das flores do parque
E eu tinha uma palheta ornada de cereja.

(tradução de Moacir Amâncio)




Joan Manuel Serrat- Cantares (Caminante, no hay camino, se hace camino a...

Carminho in concert - "Saudades do Brasil em Portugal" - 11.08.2016

Fotos de Bruce Davidson









 Bruce Davidson

Andaimes da vida

' No meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo que tivera valor enquanto secreto na bolsa,ao ser exposto na poeira da rua,revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz,recibo,caneta-tinteiro,ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida.'
Clarice Lispector - Laços de Família



Route 66 - Diana Krall

McCoy Tyner "Wave"

OFÍCIO


Maria Esther Maciel

Escrever
a água
da palavra mar
o voo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.



A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA


Dylan Thomas - (1914 - 1953)
A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.
Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.

26.3.16

Giovanni Mirabassi - Alfonsina y El Mar

Velhice

A impressão que eu tenho é a de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice.
O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente.
Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.
Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.
O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade.
Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.
Simone de Beauvoir

(Simone de Beauvoir by Erica Lennard)






Kovacs - The Devil You Know (Official Video)

BILLIE HOLIDAY NA PORTA DOS FUNDOS


Olhares/PT




quanto abismo cabe
na palavra abismo,

quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,

quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,

quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos

para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul

chamado névoa, vulcão,
solitude?



Ademir Assunção, A Voz do Ventríloquo