19.9.17

Entre os lagos


Esperei-te do nascer ao pôr do sol
e não vinhas, amado.
Mudaram de cor as tranças do meu cabelo
e não vinhas, amado.
limpei a casa, o cercado
fui enchendo de milho o silo maior do terreiro
balancei ao vento a cabaça da manteiga
e não vinhas, amado.
Chamei os bois pelo nome
todos me responderam, amado.
Só tua voz se perdeu, amado,
para lá da curva do rio
depois da montanha sagrada
entre os lagos.

Ana Paula Tavares



Aaron Morse (American, b. 1974) - Cloud World, 2003, synthetic polymer paint and pencil on paper, 40 x 56.2 cm

Paolo Uccello



Jorge amarra uma corda no pescoço da fera e a arrasta para a cidade, trazendo a princesa consigo. A princesa, conduzindo o dragão como um cordeiro...


Saint George And The Dragon Painting by Paolo Uccello




Barão vermelho Maior Abandonado(Rock in Rio 1985)




Eu tô perdido Sem pai nem mãe Bem na porta da tua casa Eu tô pedindo A tua mão E um pouquinho do braço Migalhas dormidas do teu pão Raspas e restos Me interessam Pequenas poções de ilusão Mentiras sinceras me interessam Me interessam Eu tô pedindo A tua mão Me leve para qualquer lado Só um pouquinho De proteção Ao maior abandonado Teu corpo com amor ou não Raspas e restos me interessam Me ame como a um irmão Mentiras sinceras me interessam Me interessam


"[...] O que você pode fazer, então?"
"Eu sei como pensar. Eu posso esperar. Eu posso jejuar ".
"Mais alguma coisa?"
"Nada. Mas ... Posso até mesmo compor versos. Você quer me dar um beijo por um poema? "

- Siddharta - Herman Hesse




NOTAS AVULSAS.


Nunca vou solicitar prefácio para um livro meu. Não existe prefácio contra. Todos são miseravelmente a favor.
Nunca fui um grande desonesto. Sou das desonestidades miúdas.
Nunca prenderia um passarinho. Se tivesse dinheiro, comprava todos e abria as gaiolas.
Nunca vou entender um zoológico. Se me esforçasse, poderia entender até cálculo tensorial, mas um zoológico foge à minha compreensão.
Nunca serei famoso. Nenhuma fama chega após os 65. E se chegar, chegou tarde, não precisa.
Nunca vou ser mau o bastante. Sempre me pedem mais maldade.
Nunca serei confiável.
Nunca serei dono de qualquer criatura viva. Aqui em casa tem uma gatinha de três cores. Ela é dela mesma.
Nunca vou sentir falta do passado. Tudo lá era muito ruim. Bom é agora.
Nunca vou ter um signo no zodíaco. Danem-se as estrelas e os planetas.
!carlos antonio jordão – 16 – 09 – 2017.

Amy Hempel

Ela costumava dormir com seu marido e outro homem ao longo de um dia, e então, durante o resto do dia, durante o que restava para si mesma do dia, ela se regozijaria ao repetir alto, "oh, como em um filme francês, como em um filme francês ".

Amy Hempel
Dona de casa
Histórias completas








Solía dormir con su marido y con otro hombre en el transcurso de un mismo día y luego, durante el resto del día, durante lo que le quedaba para sí misma del día, se regodeaba repitiendo en voz alta de forma embriagadora: "oh, como en una película francesa, como en una película francesa".

Amy Hempel
Ama de casa
Cuentos completos



Les Filles De Illighadad Live @ Vooruit Ghent - 26/11/2016



Apenas minha pele
E as formigas pululando entre as minhas pernas ungidas
Levando em sua tarefa as máscaras do silêncio.
Chega a noite e com isso seu êxtase
E meu corpo profundo esse polvo sem pensamento
Engolindo seu sexo latejante
Durante seu nascimento.

Joyce Mansour.






No hay gestos
Solamente mi piel
Y las hormigas pululando entre mis ungidas piernas
Portando en su tarea las máscaras del silencio.
Llega la noche y con ella tu éxtasis
Y mi cuerpo profundo ese pulpo sin pensamiento
Se traga tu sexo palpitante
Durante su nacimiento.

Joyce Mansour.

Chegando aos sessenta


Ruth Harriet Jacobs

Houve raiva e pavor
de chegar aos sessenta.
Agora eu só podia parir
minha velhice?

Hoje, quase com sessenta e um,
conto os dons
que os sessenta me deram.

Um livro fluiu da minha vida
para os que precisam dele,
e o amor fluiu de volta
para mim.

Num pátio que parecia cheio
abriu-se espaço para outro jardim.
Levei a uma reunião dos Quakers
minha solidão, e minhas mãos
voltaram ocupadas.

Caminhei mais longe pela praia,
nadei mais tempo em locais mais sagrados,
dancei a dança em espiral,
pedi margaridas para as mulheres
em meu ritual por uma bela amiga, 
e recebi o vinho dos poetas
de uma nova amizade que chegou
na noite da minha aflição

do livro "Quando envelhecer vou usar púrpura" / organizado por Sandra Haldeman Martz / tradução de Lya Luft. - São Paulo: Marco zero, 1997.


Brett Walker

18.9.17

A igreja de São Bosco

 A igreja de São Bosco tem vitrais tão esplêndidos que me quedei muda sentada no banco, não acreditando que fosse verdade.  Aliás  a época que estamos atravessando é fantástica, é azul e amarela, e escarlate e esmeralda. Meu Deus, mas que riqueza. Os vitrais tem luz de música de órgão. Essa igreja tão assim iluminada é no entanto acolhedora. O único defeito é o inusitado lustre redondo que parece coisa de novo rico. A igreja ficaria pura sem o lustre. Mas que é que se há de fazer? Ir de noite, bem no escuro, roubá-lo?

Clarice Lispector, um trecho do conto Brasília, de Todos os contos, Editora Rocco 

Igreja Dom Bosco - Brasilia, Brazil - by Graca Vargas



igreja dom bosco brasilia no distrito federal-ciaoviaggio






Siya Siyabend - Bir Seher Vaktinde

"Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessôas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de um distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe estava assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos (...) O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim. E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui em casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia."
.
- João Guimarães Rosa, da novela "Campo Geral", em "Manuelzão e Miguilim"/ no livro 'Corpo de Baile'. Rio de janeiro: Nova fronteira, 2001, p. 149-152.

ARTE POÉTICA


Que o verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Cai uma folha; alguma coisa passa voando;
Que tudo quanto veem os olhos criado seja,
E a alma do ouvinte fique tremendo.
Invente mundos novos e cuide da sua palavra;
O adjetivo, quando não dá vida, mata.
Estamos em um ciclo de nervos.
O músculo pende,
Como lembrança, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O verdadeiro vigor
Reside na cabeça.
Por que cantar a rosa, ó, Poetas!
Façam-na florescer no poema;

Somente para nós
Vivem todas as coisas sob o Sol.
O Poeta é um pequeno Deus.
Vicente Huidobro
Tradução: Leila Guenther e Marcelo Donoso

Helen Kerr(Irish)

16.9.17

Se caíres, levanto-te.
Ou deito-me ao teu lado.

J. Cortàzar

ph Tania Franco Klein


Se cadi ti rialzo.
Oppure mi sdraio accanto a te.
J. Cortàzar / Isola Mentale²

Ai Weiwei

Ai Weiwei , e um comentário dele a respeito do documentário "Human Flow":

Todas aquelas crianças não choram, quando estão no meio da noite, num barco no meio da escuridão. Quando você vê, os voluntários os ajudam a descer, puxam os barcos e todos pulam, ficam tão molhados que não conseguem andar. Sempre há crianças que ficam "cadê a mãe?". Muitas estão desacompanhadas porque as famílias  as mandam sozinhas, já que só têm dinheiro para pagar o barco para a as crianças. Elas ficam em choque, com medo; mesmo assim as crianças não choram.

(Jornal Folha de São Paulo, 08/08/2017)