27.4.17

Libertango in Berlin Philharmonic 2014 (amazing!!!)

DOÇURA


Há no olhar
Geleia, mel e amoras,
Doces únicos de quem ama
Margaridas, lírios e rosas,
Perfume que o olhar derrama.
.
Há no olhar
Licores, múltiplos sabores:
Cereja, ginja e amores.
.
Há no olhar
Fogo perpétuo,
Verde água de raiz,
Janela, chama acesa
De quem quer ser feliz.

LUANA LUA, in VOO ENTRE FACES (Versbrava, Porto, 2016)



*

26.4.17

Thelonious Monk - April in Paris

Michael Jackson Billie Jean Live 1997 Munich

HISTÓRIA



Os mares se contraem, 
As nuvens esticam as asas. 
O espaço abre-se em sedes e clamores 
Dos que nasceram há mil anos 
E dos que ainda vão nascer. 
Há uma convergência de presságios 
Nos jardins cobertos de rosas migradoras 
E nos berços onde dormem crianças com fuzis. 

O espírito poderoso que fundirá os tempos 
Espera, impaciente, nos átrios celestes. 

(Murilo Mendes. In: As Metamorfoses)  

Gul Munawwar Khan

Victor Jara - Deja la vida volar

En tu cuerpo flor de fuego tienes paloma,  un temblor de primaveras, palomitay,  un volcán corre en tus venas Y mi sangre como brasa tienes paloma,  en tu cuerpo quiero hundirme palomitay,  hasta el fondo de tu sangre El sol morirá, morirá.  La noche vendrá, vendrá.  Envuélvete en mi cariño,  deja la vida volar,  tu boca junto a mi boca,  paloma, palomitay.  Ay palomay, ay palomay En tu cuerpo flor de fuego tienes paloma,  una llamarad mía, palomitay,  que ha calmado mil heridas Ahora volemos libres, tierna paloma,  no pierdas las esperanzas palomitay,  la flor crece con el agua El sol vendrá, vendrá.  La noche se irá, se irá.  Envuélvete en mi cariño,  deja la vida volar,  tu boca junto a mi boca,  paloma, palomitay. Ay palomay, ay palomay


DO ECLESIASTES


Há um tempo para
desarmar os presságios

há um tempo para
desamar os frutos

há um tempo para
desviver
o tempo.

Orides Fontela
[Poesia Reunida [1969-1996], São Paulo: Cosac Naify, 2006]




Um corre-corre, um susto:
o arco-íris imprudentemente
debruçado sobre o viaduto.

Raul Drewnick

Já é o agora.

É o som do vento, a chuva conta segredos às folhas.
Escute-os. Não se mexa.
Leve a ferver os sons e mexa até a morte, sem demora.
Sinta o som da água, molhe suas mãos no vapor.
Sinta o som do meu coração.
É outono, meu bem.
Encontre a primavera numa taça de vinho.
Tente procurar o calor no meu abraço.
Clarice Soares

Niko photo

Luke Howard - Oculus

AME-SE: NÃO ESPERE POR NINGUÉM!


Não é necessário saber lidar quando estamos no prazer. O problema é quando a festa acaba e o outro vai embora. Não sabemos o que fazer quando não temos. Não sabemos o que fazer com a nossa solidão sem seus adendos. Somos do prazer dependente. Nossa felicidade é de impor condições. Nossa alegria de viver é possessiva. Só sabemos falar a língua do ter para ser. Não temos um nome próprio que nos faça independentes. Ainda não nos descobrimos UM. Só sabemos de nós por dois. Nesses tempos de individualismo extremo, o melhor é começarmos a contentar com o que temos em nós. Infelizmente, criamos essa cultura louca de que a felicidade para ser, só se for à dois. Nunca acreditei nisso. Sempre achei que, no amor, as relações nunca são de simetria. Nenhum par goza igual: um, sempre deixa um pouco mais para o outro. Narciso nunca nos abandonou em nossas relações amorosas. Portanto, se queres amar, ame-se: não espere por ninguém.
Evaristo Magalhães - Psicanalista

Irene Pronk
" Não se brinca com as palavras - não se pode - quando você quer que dure " para sempre ".
Virginia Woolf, "Diário de uma escritora"


Alim Qasımov - Ay Qız Turkiye

INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA


“A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida…”
(Mário Quintana)


AS ROTAÇÕES PERFEITAS



Se me pedisses de repente e aqui:
«fala das luas e dos dias», eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
ofício de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem
.
Nem saberia por onde começar:
se no olhar, se na palavra,
ou se no teu sorriso
que me devastou o equilíbrio do igual
.
Não sei, meu amor,
como entender este pequeno girassol,
explicar-lhe o movimento certo,
a rotação completa e tão
perfeita,
as folhas muito verdes
de uma tal filigrama delicada
Sobretudo, este seu hino
em direcção a tudo
.
e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras



ANA LUÍSA AMARAL, in SE FOSSE UM INTERVALO (D. Quixote, 2009)