9.12.16

JustSomeMotion (JSM) - Jamie Berry Feat. Octavia Rose - Delight - #neoswing

A ponte de Van Gogh


O lugar não importa: pode ser o Japão, a Holanda, a campina inglesa. 
Mas é absolutamente preciso que seja domingo. 

O azul do céu ecoa na esmeralda do rio 
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja 
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol virginal de miss 
Para ser no céu sem mancha a única nuvem. 
A calma é velha, de uma velhice sem pátina 
As cores são simples, ingênuas 
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar 
De listas vermelhas o teto de sua casinhola. 
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros a fazer caretas 
E a pressa com que o homem da charrete vai:
- A pressa de quem atravessou um vago perigo 
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo de a pequena ponte levadiça 
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina Rosseti 
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica do novo pastor da vila

- Vinicius de Moraes

Folhas pardas e vermelhas



galhos e ervas secas
são régios motivos       
que o chão abriga
para passos lentos
e alguma poesia
Para se evocar o escrito florido:
“toda carne é como erva”
e “roubar
o espírito” dizendo:
a carne é rosa branca, amarela,
encarnada
este espinho tão fundo é nada
Não dói.
Mas todo o sangue se vai
nesse morrer repentino. 

Lucinda Persona

Judith in den Bosch

J.S.Bach_M.Hess - Jesus bleibet meine Freude

*da madrugada


a luz do luar iluminava
a cama de lençóis revoltos.
gotas de suor desciam 
entre os seios e as pernas.
no rosto, um sorriso enamorado.
ah! essa lua encantada
deu agora de fazer amor
com mulheres apaixonadas...(11/2/2014).

Sonia Maria Carrasco Guilen

© Valeria Heine

Joseph Haydn - Deutschland Uber Alles

Mão sobre o corpo


A mão falha caminhou sobre o corpo.
Um acorde em cada dobra,
um beijo no que sobra
do amor, dos pensamentos
onde a saudade mora
e não tem recurso
de se nomear.
Que sente saudades quem já perdeu
a total possibilidade da palavra.
A mão falha se pensa sobre o corpo.
Esquecida, permissiva de desejo,
dorme no campo da pele
sua solidão prática.
Os costumes de carinho
fracassaram, adejaram
na franca sombra contra a parede
asas de brincar teatro.
A mão falha se faz recolhida
e guarda a ternura entre os dedos.
Pulsa igual o Sagrado Coração
daquelas pinturas de ficar
nas casas simples
beirando tristezas.
A mão falha impressionou
com a miragem de um momento
de loucura.
Depois quedou como a noite
sem esperança.
Está retirada de nervos e movimento.
Parece a lua que se deixou de espanto
na palma mansa do lago.
Fiori Esaú Ferrari


Terroristas

Um poema de Wislawa Szymborska, do livro "Um Amor Feliz", que vai ser lançado em setembro pela Companhia das Letras. Fala sobre a necessidade de colocar o terrorista (ou o machista, ou o racista ou tantos outros) como uma pessoa comum. Isso as aproxima, as tira do plano da ficção. Elas são reais.
A tradução é de Regina Przybycien.
Terroristas
Dias inteiros eles ficam pensando
como matar, para matar,
e quantos matar para matar muitos.
Fora isso comem com apetite,
rezam, lavam os pés, alimentam os pássaros,
dão telefonemas coçando o sovaco,
estancam o sangue quando machucam o dedo,
se são mulheres, compram absorventes,
sombra para as pálpebras, flores para os vasos,
todos gracejam um pouco quando de bom humor,
bebem suco cítrico da geladeira,
à noite olham a lua e as estrelas,
colocam fones de ouvido com música suave
e adormecem gostosamente até a aurora
— a menos que o que estão pensando devam fazer à noite.

The Ray Donovan Dance Extended RUN-DMC Walk This Way

Notas contra o esquecimento -




 Precisa de limites mentais. Não precisa esperar. Precisas de não esperar nada dos outros. Precisa não traficar com a tua dor. Precisas de orgulho e solidão. Precisas de ordem. Precisas de poesia.
Apontamentos contra o esquecimento - alejandra pizarnik



**


Apuntes contra el olvido - Necesitas límites mentales. Necesitas no esperar. Necesitas no esperar nada de los demás. Necesitas no traficar con tu dolor. Necesitas orgullo y soledad. Necesitas orden. Necesitas poesía.
Apuntes contra el olvido - Alejandra Pizarnik

Ray Donovan sings

Frases de Jacques Lacan

Não fica louco quem quer.

Deus sabe o que se agita por trás deste fantoche que se chama homem.

O desejo é a essência da realidade.

Penso onde não existo e existo onde não penso.

Amar é dar o que não se tem a quem não o é.

O inesperado é que o próprio sujeito confesse sua verdade e a confesse sem sabê-lo.

Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo.

Só há inconsciente no ser falante. [...]
O inconsciente, isso fala.

Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis.

Falo com meu corpo, e isto sem saber. Digo, portanto, sempre mais do que sei. É aí que chego ao sentido da palavra sujeito no discurso analítico. O que fala sem saber me faz eu, sujeito do verbo.

Amor é trocar nada por coisa nenhuma!

O falasser adora seu corpo, porque crê que o tem. Na realidade, ele não o tem, mas seu corpo é sua única consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo instante.

[...] o desejo do homem encontra seu sentido no desejo do outro, não tanto porque o outro detenha as chaves do objeto desejado, mas porque seu primeiro objeto [do desejo do homem] é ser reconhecido pelo outro.

Peço-te que me recuses o que te ofereço, porque não é isso.

... As palavras podem suscitar todas as emoções; pasmo, terror, nostalgia, pesar... As palavras podem desmoralizar uma pessoa até a apatia ou espicaçá-la até o deleite, podem exaltá-la a extremos de experiência espiritual e estética. As palavras têm um poder assustador.

Meu físico reage aos pensares , imbuído com a mente criam químicas ;para uns psicossomática que se esparsam pelo corpo, outras vasculham as conclusões se isolando nos aposentos neurais; com isto o corpo se blinda a tudo entretanto no íntimo ele aceita o interagir, a seu tempo.

Silêncio abandonado



Silêncio abandonado, doendo em redor. O silêncio das pedras, dos muros, das árvores. O mesmo silêncio deste céu calado, baixo, quase violento de tanto sossego. Tudo quieto, como entornado. Tudo sem vento, sem passos, sem pássaros. Tarde parada, o ar cansado, em repouso, o azul não mais que a sua ausência.
Silêncio imóvel de uma fotografia, fixado nas coisas e tolhendo-as, como se fossem culpadas. Também abandonado, cansado, quieto neste silêncio, só eu estou a gritar.
Tu é que não me ouves.
Joaquim Pessoa
*
in O Poeta Enamorado, Edições Esgotadas, Junho 2015, 1ª edição


Sê prudente. A tua vida abre
Só a ventos que trazem carícia
De afastamento.

Nathan Zach (poeta israelita)

Armand Amar - Le Piège