31.7.08

Entre o fascínio e o ludíbrio - Ferreira Gullar




FERREIRA GULLAR

Entre o fascínio e o ludíbrio





ROSTO e máscara são temas inesgotáveis. Fui mexer com eles e agora não consigo me livrar. Eis que, por acaso, deparo-me com um artigo de Roger Caillois, publicado numa velha "Nouvelle Revue Française" (outubro de 1957), intitulado "Le Masque".
Como eu, ele também havia sido arrastado a especular sobre o tema, só que com mais competência e originalidade: partiu da relação entre homens e insetos, alguns dos quais também "usam" máscara. Caillois se refere, precisamente, a um tipo de hemípteros chamados "fuegosos" (de fogo), que o dicionário descreve como "insetos luminosos de países quentes", ou vagalumes, como os chamamos no Brasil. O principal desses insetos -fulgosa lanternalia- emite uma luminosidade tão intensa que, segundo a lenda, daria para ler um jornal sob ela. Mas o que importa, para nós, neste caso, é que sua cabeça se alonga como uma protuberância que fulge igual a uma estranha lanterna. Os cientistas descobriram, porém, que a função daquela cabeça desproporcional -que lembra a de um minúsculo crocodilo- é assustar. Mas assustar a quem, se a cabeça, embora monstruosa, é tão pequenina? Caillois, levando em conta o fato de que as asas do inseto são coloridas e lindamente decoradas, conclui que ele, na verdade, se acredita um feiticeiro, oculto sob aquela máscara, e o que pretende não é assustar e, sim, fascinar tanto as suas vítimas como os seus predadores. Essa é uma tese interessante, quando mais não seja, porque nos situa na fronteira imprecisa que separa o medo e o fascínio.
Mas não é a regra. Segundo ele, nas sociedades primitivas, o que importa é estar mascarado -e fazer medo; ou não estar- e ter medo, muito embora haja comunidades em que alguns têm medo de uns e fazem medo a outros. Nestes casos, já se aprendeu que a aparição assustadora do mascarado não é mais que um truque de alguém que se disfarça para assustar os profanos. Mas é inevitável que, aos poucos, as máscaras e os outros elementos utilizados para assustar se tornem com o tempo instrumentos litúrgicos, acessórios de cerimônia, de dança ou de teatro.
Ele afirma que talvez a última tentativa de dominação política pelo uso da máscara tenha sido a de Hakim al-Moquaunâ, o Profeta Velado (ou mascarado) do Khorassan que, no século 8, derrotou os exércitos do Califa. Hakim ocultava o rosto sob um véu de cor verde ou, segundo outros, sob uma máscara de ouro, que jamais tirava. Ele se dizia Deus e garantia que nenhum mortal poderia ver-lhe o rosto sem ficar instantaneamente cego. Mas alguns de seus seguidores quiseram provas disso e exigiram que lhes mostrasse a face oculta. Um antigo texto conta que 50 mil soldados de Moquaunâ se juntaram à porta do castelo, ajoelharam-se e pediram para ver-lhe o rosto, mas não receberam resposta. Como insistissem e implorassem, Hakim mandou um servo dizer-lhes que os atenderia em breve.
Ordenou, então, que cada uma das cem mulheres que o serviam segurasse um espelho e se postasse em determinada posição no alto do castelo, de modo que um espelho ficasse refletindo outro, no momento em que o sol brilhasse intensamente. Quando os soldados chegaram, aquele jogo de espelhos, dada a luminosidade que provocava, deixou-os cegos por um momento. Hakim então mandou que lhes dissessem: "Vosso Deus está presente. Contemplai-o". Os homens, aturdidos, ajoelharam-se.
Mas um dia a farsa se desfez. Hakim, para não se deixar desmascarar, envenenou suas cem servas, decapitou o seu servo particular, tirou as roupas e se jogou dentro de uma fornalha acesa.
Essa é a versão de Caillois, mas a de Jorge Luis Borges é outra. Conta ele que Hakim parecia buscar a morte a cada momento, seja nas batalhas quando as flechas silvavam em torno de seu corpo, seja abraçando e beijando leprosos que chamava para dentro do castelo. Mandara cegar as 104 mulheres de seu harém para que pudessem deitar-se com ele sem lhe ver o rosto proibido. Ainda na versão de Borges, no ano de 163 da Héjira, Hakim estava cercado por seus inimigos quando uma mulher do harém começou a gritar que a mão direita do profeta não tinha o dedo anelar e que os demais dedos não tinham unha. Dois capitães lhe arrancaram a máscara de ouro, pondo à mostra um rosto branco como se manchado de lepra e tão deformado que parecia uma careta: uma úlcera comia-lhe os lábios. Hakim ainda tentou um engano final: "Vosso pecado abominável vos impede de perceber meu esplendor...", começou a dizer. Não o escutaram e o trespassaram com lanças.


in Jornal Folha de São Paulo - Caderno Ilustrada - 28.07.08

Imagem: "Máscaras Negras dos Faróis" - Ederaldo Beline Silva


À Minha Mãe - Bertold Brecht


A MINHA MÃE


Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!


Bertold Brecht





A instalação Borboletas atravessa o fosso existente entre o pavimento térreo e o primeiro andar.
São 750 borboletas de laminas de silicone suspensas por fios de nylon. A instalação 8 metros de altura
e foi concebida com a artista plástica sulmatogrossensse Maria Eugenia Lima.]

Alguns Poemas de Bertold Brecht


Os que lutam



Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.



**



Nada é impossível de Mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.



**



A MÁSCARA DO MAL

Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mau



**



AS MARGENS


Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem




**


JAMAIS TE AMEI TANTO


Jamais te amei tanto, ma soeur
Como ao te deixar naquele pôr do sol
O bosque me engoliu, o bosque azul, ma soeur
Sobre o qual sempre ficavam as estrelas pálidas
No Oeste.
Eu ri bem pouco, não ri, ma soeur
Eu que brincava ao encontro do destino negro -
Enquanto os rostos atrás de mim lentamente
Iam desaparecendo no anoitecer do bosque azul.
Tudo foi belo nessa tarde única, ma soeur
Jamais igual, antes ou depois -
É verdade que me ficaram apenas os pássaros
Que à noite sentem fome no negro céu.


**
**
[Reprodução de pintura de Paula_Modersohn-Becker]



Para ler de manhã e à noite - Bertold Brecht


PARA LER DE MANHÃ E À NOITE

Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.


Bertold Brecht



Sabiá


Parque dos meninos
Limo e sombras sobre as pedras
Sabiá em silêncio.

Carlos Roque Barbosa de Jesus



[4º lugar no III Concurso Nacional de
Haicais Caminho das Águas, realizado pelo Grêmio
Haicai Caminho das Águas, de Santos, SP.]




Bem perto de mim,
O canto do sabiá –
Janela enfeitada.

Clicie Maria Angélica Pontes





(7º lugar no III Concurso Nacional de
Haicais Caminho das Águas, realizado pelo Grêmio
Haicai Caminho das Águas, de Santos, SP.)




Foto: Murilo Carvalho

Techno Kittens



Techno Kittens:)


Veja em:




Aqui eu te amo. - Pablo Neruda




Aqui eu te amo.
Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforece a lua sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Descinge-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.

Ou a cruz negra de um barco.
Só.
As vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.

Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.

Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta..
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.

Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento,
querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre


Pablo Neruda


Koan/Koantrix


"Qual o som de uma só mão batendo palmas?" é uma das frases enigmáticas do
Zen -- ou koan


Koan

Uma só mão
batendo palmas -
qual é o som que tem?

tuca_zen



Koantrix

Qual é o som

do teu coração
batendo assim,
dentro do meu?

Tuca_trix


Tapeçaria

A Vida escolhe
a tela, as linhas
e as dores.

Tuca Kors



"tapeçaria outonal"
Autor(a)
José Monteiro



Espera


Espera

Prendo o olhar
na dobra do tempo.
Sutil agonia.

Tuca Kors

O TODO/O NADA


O TODO

O arqueiro,
a seta e o arco.
Três em UM : Zen.


O NADA

O arqueiro é o arco.
O arqueiro é a seta.
arcosetarqueiro: Zen.

Tuca Kors
[Ilustração: Rivaldo Barboza ]

O Navio - Murilo Mendes


O NAVIO


O espaço do navio. Sua majestade.


.


Os paços do navio. Os passos do navio. As naves ao ar livre do navio. Os órgãos do mar do navio. As rodas do navio. A ronda do navio. O radar.


.


O navio amarrado. O navio flutuante. O rítmo do navio. Os remos do navio. O rumo do navio. O navio correndo. O navio comendo. O navio fumando. O navio ventando. O navio horando. O navio chorando. As praias do navio. Os morros do navio. Os ogres do navio. As órgias do navio. Os filmes do navio. a dança do navio a barlavento. As donas do navio a sotavento: vamos a bordo delas, balançando. O enjôo do navio. O ô-ô-ô do navio.


.


O navio de passageiros, passageiros. O navio mercante, mercando águas. O navio avionando, ave. O navio de guerra, ahimé! As hélices do navio. Os lenços. O navio da paz. O navio sem bombas. O navio da paz com as pombas atracando.


["POESIA/CONVERGÊNCIA" - Murilo Mendes]



[O navio Artemis encalhado na praia de Sables d`Olonne, no oeste da França (Foto: Stephane Mahe/Reuters)]



Sobre a Velhice


"Fica idoso e bem quem se dá ao outro e aceita o tempo que passa, porque se transforma com ele".

[Betty Millan - revista Veja]
.

Haicai de Paulo Franchetti


Madrugada -
No quintal, a lua
E o lírio branco.

Paulo Franchetti

Haicai de Mestre Goga


Flores silvestres
pequeninas e sem brilho
à espera de abelhas...

H. Masuda Goga




[Imagem: "Flores Silvestres" - MOSAICO EM CASCALHOS ROLADOS DE PEDRAS BRASILEIRAS SEMIPRECIOSAS]

29.7.08

Contemplação


Contemplação

Deito meus olhos
no berço do horizonte.
Re_colho Deus.

Tuca Kors
.
[Foto: Treklens -Paquistão]
.

Mimo




Mimo

Teu perfume ficou
na minha pele.
Tão flor!

Tuca Kors
.
["Jimson-Weed"-1932 - Georgia O'Keeffe]
.

Superfície


Superfície

Olhos de chuva.
Eu, refletida lua,
fragmento-me em prata.

Tuca Kors

Com paixão


Com paixão

Bordando o silêncio
som de piano e sax.
Jazz é mantra.

Tuca Kors

Espiritualidade


Espiritualidade

Brisa sobre o lago.
Refletida,
a lua dança.

Tuca Kors





[Foto: Galeria de *nikita* - Flickr]

Gêmeos : primeiro decanato


Gêmeos:


Primeiro decanato: um jovem com um cinto; anuncia escritos, o fato de receber ou dar dinheiro, a procura e a sabedoria nas coisas não proveitosas; Júpiter.


["Dicionário de Símbolos"]


[Imagem - Autor: Vasco de Lucena]
Dupla face
claro-escuro
combinados
amo o que vejo
e o que não vejo
amo você por inteiro.
Tuca



Aquário - primeiro decanato


Aquário:

Primeiro decanato: Uma mulher sentada, fiando, sobre um rochedo; evoca um espírito ansioso, a aptidão para o ganho, o fato de não descansar nunca, o trabalho, os prejuízos, a pobreza, a mesquinharia. Vênus.
["Dicionário de Símbolos"]
.
Prazeres aquarianos
planto eterno estado de atenção
colho alegrias do trabalho
e das idéias
nutro-me do que é belo e intenso
viver é muito bom
tuca

Haicai: Quaresmeira



Cachorro vadio
À sombra da quaresmeira
Dorme sobre flores.

Autor: Antonio Moreira Marques / Contagem/MG
Este haicai ficou em 2º lugar no III Concurso Nacional de Haicai Caminho das Águas.


[Retirei a imagem de: http://vivilelis.blogspot.com/]



Alguns haicais do Jornal Nippo-Brasil: Poluição


Alguns haicais do Jornal Nippo-Brasil: Poluição


Poluição nefasta,
pombas se banham na poça
logo após a chuva.

Shinobu Saiki
São Paulo-SP

**

Poluição na festa -
A fumaça dos cigarros
Paira sobre as mesas.

Benedita Azevedo
Magé-RJ

**

Manhã da metrópole
hoje sem céu, sem montanhas -
Ah, poluição!

Neide Rocha Portugal
Bandeirantes- PR

**

Fim de semana -
Fugindo da poluição
Estradas cheias.

Mário Kassawara
Birigüi-SP

**

Velho caminhão
dispersando poluição,
pela rua afora.

Analice Feitoza de Lima
São Paulo-SP

**

Haicais do Jornal Nippo-Brasil: Rio minguante


"Eis alguns haicais publicados na página Haicai Brasileiro
do Jornal Nippo-Brasil. A seleção é de um grupo
de membros do Grêmio Haicai Ipê.

A página Haicai Brasileiro é quinzenal.

O jornal Nippo-Brasil (http://www.nippobra sil.com.br) é um
semanário totalmente em português, voltado aos interessados
em cultura japonesa e à comunidade nipo-brasileira. Nao é
encontrado para venda avulsa em todos os lugares, mas aceita
assinaturas". Informações em mailto:assine@nippobrasil. com.br
ou pelos fones 0800-10-9254 ou (11) 5904-6444.

Visitem a página do Haicai Brasileiro na internet:
http://www.nippobra sil.com.br/ zashi/haicai. html

Edson Kenji Iura
http://www.kakinet. com




Haicais: Rio minguante



Outrora piscoso
Os barcos abandonados
No rio minguante.

Izumi Fujiki
São Paulo-SP

**

Fim de semana -
Fugindo da poluição
Estradas cheias.

Mário Kassawara

**

Quase calado,
rio minguante corre lento.
Doce melodia.

Hyaku Ryuu Kei
Goiânia-GO

**

Tropel de boiada -
A poeira cobre o leito
Do rio minguante

Neiva Pavesi

**

Rio minguante -
O gado magro caminha
No leito seco.

João Toloi
Guarulhos-SP


**

Balança a cabeça,
Olhando pro rio minguante,
O velho haijin.

Reneu de Amaral Berni
Goiânia-GO

**

Rio minguante -
Na pouca água que restou
Peixes agonizam.

Jaíra Presa
Santos-SP


**

Em vez de água, barro,
em vez de peixes, pegadas
- subo o rio minguante

Madô Martins
Santos-SP

**

Não tem quem agüente
a morte, lenta que vive
O rio minguante

Sílvia Salas Devides
Mogi das Cruzes-SP


**

Haicais de Jack Kerouac


Haicais de Jack Kerouac traduzidos por José Lira


"Reproduzo, com pequenas alterações, algumas de minhas
primeiras traduções dos haicais de Jack Kerouac
(1922-1969. O escritor, o maior ficcionista da
geração Beat, foi também um dos primeiros autores a cultivar
o haicai nos Estados Unidos".

All day long wearing
a hat that wasn't
On my head.

Todo o dia usando
Um chapéu que não estava
Na minha cabeça.

The sound of silence
is all the instruction
You'll get.

O som do silêncio
Será todo o ensinamento
Que irás obter.

In my medicine cabinet
the winter fly
Has died of old age.

A mosca de inverno
No armário dos remédios
Morreu de velhice.

Grain elevators on
Saturday waiting for
The farmer to come home.

No sábado os silos
Esperando o fazendeiro
Voltar para casa.

Nota: "Tive problemas com a tradução de outros haicais de
Kerouac, mas esses me parecem, de modo geral, bem
resolvidos, apesar de algumas perdas evidentes. Não
adotei em nenhuma das traduções a grafia e o formato
originais, que dão aos poemas uma linearização sui
generis: podem ser vistos como haicais normais, de três
versos, e também como uma seqüência de dois versos
escritos numa folha estreita, com parte do primeiro
verso sendo transportado para a linha seguinte. Quase
todos os haicais do livro póstumo Book of Haikus (tenho
uma edição de 2003) são reproduzidos assim".



José Lira

[Grupo Yahoo de Haicais]

28.7.08

Cromo


Cromo

No silêncio luminoso da tarde
as árvores desfolham-se em pardais.

Helena Kolody
"Poesia Sempre" Biblioteca Nacional - Outubro 1999

CAMPOS ENTARDECIDOS




CAMPOS ENTARDECIDOS



O poente de pé como um Arcanjo
tiranizou o caminho.
A solidão povoada como um sonho
se remansou ao redor do vilarejo.
Os cincerros recolhem a tristeza
dispersa da tarde. A lua nova
é uma vozinha do céu
À medida que vai anoitecendo
volta a ser campo e vilarejo.


O poente que não se cicatriza
ainda lhe dói a tarde.
As trêmulas cores se resguardam
nas entranhas das coisas.
No dormitório vazio
a noite fechará os espelhos.

Jorge Luis Borges
in Fervor de Buenos Aires
.
[Imagem: Galeria de mais_dois - Flickr]

Soneto XCVII


XCVII


Quão semelhante ao inverno a mim me foi tua ausência,

Meu doce amor e meu prazer de horas aladas!

Que silenciosa e escura esteve toda a ambiência

Nesse velho dezembro infecundo, de geadas!

Mas a estação da tua ausência foi o estio!

Estadeando o primor vernal, galas da terra,

O transbordante outono, a estuar de poderio,

Como ventre em que o filho orfanado se encerra,

Parecia trazer-me, assim tão farto, amigo,

Esperanças só de alma igualmente orfanada.

Porque o verão e seus encantos vão contigo,

Sem ti, não canta mais nem mesmo a passarada,

Ou, se canta, é um cantar de tão rude alegria,

Que até às folhas o horror do inverno prenuncia.


William Shakespeare

Tradução de Jerónimo de Aquino
[Imagem: "Miranda" John William Waterhouse]


Tempo de vento


Tempo de vento

nos galhos das árvores
coloridos rodopios
de pipas

Tuca Kors
[Imagem: Candido Portinari]

Mushkil ou Hem

Entrada para o Pátio de Koutoubia - mulher marroquina




...Eu me lembro de ter lido uma vez – no livro Sonhos de transgressão, que é de uma autora marroquina chamada Fátima Mernissi – uma passagem que expressa o que seria para mim o espírito feminino essencial deste conjunto de contos.
O livro em questão é um relato das memórias de infância da escritora num harém no Marrocos. Ela conta que, quando uma das mulheres se sentia angustiada, o mal que a afligia podia ser chamado de mushkil ou hem.
A mulher com mushkil tinha um problema definido, sabia o motivo do seu sofrimento. Mas se ela tivesse hem, não sabia por que estava sofrendo, era uma aflição estranha, uma espécie de depressão de origem desconhecida. Nesse caso ela subia até o terraço mais alto do harém e ficava em silêncio, contemplando a cidade lá de cima. Ela sabia que só a quietude e a beleza poderiam curar o mal de hem. Mais do que isso, quando percebiam que alguma delas sofria do mal de hem, as mulheres do harém esperavam que ela voltasse do terraço e a envolviam com muito hanan, quer dizer, uma ternura “ilimitada e irrestrita”.
“A quietude e a beleza da natureza, acompanhadas de ternura, são os únicos remédios que fazem efeito com esse tipo de doença”. Conta Fátima em seu livro.

(Do livro O violino cigano e outros contos de mulheres sábias)
Regina Machado


Texto que a Bel me enviou - obrigada, meu anjo:)
[Imagem - Marrocos - site Treklens]



26.7.08

Delicadeza poética


Delicadeza poética

abordo
e bordo
a borda da palavra

Tuca Kors
[Imagem: desconheço o autor]

Imutável


Imutável

Vocifera
a doce fera
do desejo

Tuca Kors




["Desir"- Jean-Luc Hippolyte]

Semente


Semente

É no Silêncio
que Ele habita.
Germine.

Tuca Kors

Rede


Rede

moinho
de vento sono
lento

Tuca Kors
[Autor(a) da foto: Eli de Souza Figueira]

Poeta do Futuro


Poeta do Futuro

Tem dois anos de vida.
Aponta o céu e exclama -
A LUA! A LUA!

Tuca Kors

Psico-análise


Psico-análise

Corte-se em fatias finas.
Salgue e leve ao fogo brando.
Mexa, até ver o fundo... do Nada.

Tuca Kors

Ternura


Ternura

Quero palavras novinhas em folha -
tenras, macias, orvalhadas.
Restauro um velho amor.

Tuca Kors

De repente


De repente

Instala-se, entre nós,
um mal-de-se-estar-vivo.
A manhã envelhece.

Tuca Kors

25.7.08

O Gato - Orides Fontela


O Gato


Na casa
inefavelmente
circulam olhos
de ouro
vibre (em ouro) a
volúpia
o escuro tenso
vulto do deus sutil
indecifrado

na casa
o imperecível mito
se aconchega

quente (macio) ei-lo
em nossos braços:
visitante de um tempo sacro (ou de um não tempo).

Orides Fontela


Dica de site: http://www.blocosonline.com.br/sites_pessoais/sites/lm/leg/leilagpo.htm



[Foto: Maria Andrade in Olhares Fotografia Online]




Gatos - Folclore e Superstições




Folclore e Superstições



Gatos e Presságios

· Gatos podem predizer o tempo: Quando vai ventar eles unham os tapetes e cortinas; é muito provável que chova se um gato limpa muito suas orelhas.
· Na mitologia, acreditava-se que o gato possuia grande influência sobre o tempo. Bruxas cavalgavam sobre as tempestades sob a forma de uma gato. Os cães eram o símbolo do vento, os gatos de chuva torrencial. Talvez venha daí a expressão "chover cães e gatos" .
· Algumas pessoas acreditam que se o gato lava seu rosto e patas na sala de visitas, é porque alguém irá chegar.
· Se o gato olha continuamente pela janela, é porque vai chover.
· Alguns gatos pressentem terremotos.
· Os marinheiros utilizavam gatos para predizer como seriam suas viagens. Se o gato miasse alto, a viagem seria difícil. Um gato brincalhão, significava que a viagem seria tranquila e com bons ventos.
· Algumas pessoas acreditam que os gatos possam ver as nossas auras.
· Antigamente, na América, se um gato sentasse de costas para o fogo, os donos sabiam que viria uma onda de frio.
· Gato dormindo com as quatro patas escondidas debaixo do corpo, significa que um mal tempo está pra chegar.
· Algumas pessoas acreditam que os gatos podem ver o espectro da morte.
· Se você achar um pêlo branco num gato preto, terá boa sorte.
· Gatos tricolores podem ver o futuro e trazer o dom de sorte para uma criança.
· Os marinheiros acreditavam que, se um gato se lambe no sentido contrário ao pêlo, uma chuva de granizo estava a caminho. Se o gato espirrasse, choveria e se o gato pulasse, logo ventaria.
· No Antigo Egito, gatos sagrados eram mantidos em templos e constantemente observados por sacerdotes. Seus movimentos eram interpretados para saber o futuro.
· Antigamente na Pennsylvania, colocava-se um gato num berço vazio de um casal recém-casado, para garantir que teriam muitos filhos.
· Na Escandinávia, os gatos são símbolo de fertilidade.
· Era uma crença popular, no passado, que gatos poderiam começar tempestades, através da mágica de suas caudas. Por isso os marinheiros faziam o possível para que os gatos dos navios estivessem sempre bem alimentados e felizes.
· O Hindu acredita que o gato é o símbolo de nascimento de uma criança.


Maltratar um Gato

· Se você chutar um gato, terá reumatismo naquela perna.
· Se você for fazendeiro e matar um gato, seu gado morrerá misteriosamente.
· Se você afogar um gato, morrerá afogado também.
· Marinheiros acreditavam que era a garantia de terríveis tempestades e má sorte, caso se atirasse um gato ao mar.
· Acabar com, mesmo que apenas uma, das nove vidas de um gato, é ser perseguido por esse gato para o resto da vida.


Gatos e Sorte

· Crianças inglesas acreditavam que ver um gato branco a caminho da escola era sinal de problemas. Para evitá-los, elas tinham que cuspir ou dar meia volta, fazendo o sinal da cruz.
· Chaeles !, Rei da Inglaterra, possuia um gato preto que acreditava lhe trazer boa sorte. Ele tinha tanto medo de perder o gato, que mantinha-o sobre vigilância dia e noite. Um dia depois da morte do gato, ele foi preso.
· Um gato espirrando é bom presságio para quem ouvir.
· No folclore americano, sonhar com gato branco traz boa sorte.
· Na França, se acreditava que achando um pêlo branco num gato preto, a pessoa teria boa sorte para o resto da vida.
· Em Yorkshire, England, enquanto dá boa sorte possuir um gato preto, é extremamente de má sorte cruzar com um acidentalmente.
· No século 16, quem visitasse um lar inglês tinha sempre que beijar o gato da família, para trazer sorte.
· Mulheres de pescadores, mantinham um gato preto em casa para preveinir contra desastres no mar.


Encontros com Gatos

· Se um gato correr à frente de um marinheiro, no cais, acreditava-se que traria boa sorte. Se o gato cruzasse seu caminho, traria má sorte.
· Gatos eram mantidos nos navios para trazer boa sorte.
· Dá azar ver um gato branco à noite.
· Na Irlanda, se um gato preto, cruzasse o caminho de alguém, em noite de luar, era previsão de morte numa epidemia.
· Na França, há uma superstição de que cruzar um rio carregando um gato dá má sorte.
· Na Normandia, ver um gato tricolor predizia morte por acidente

Gatos e pessoas doentes ou morrendo

· Uma antiga simpatia para curar terçol, era esfregar o rabo de um gato preto nele.
· Na Transylvania, se um gato pulasse sobre um morto ele se torna ria um vampiro.
· No início do Cristianismo, se um gato sentasse sobre uma sepultura, era porque a alma do morto estava no inferno.
. Ver dois gatos brigando próximo a uma pessoa morrendo, ou na sua sepultura, logo após o enterro, significava que o demônio e os anjos lutavam por sua alma.
· No século 16, se um gato preto deitasse na cama de uma pessoa doente ele morreria. Também se acreditava que um gato não permanecia na mesma casa em que alguém estivesse para morrer. Se a gato de uma família se recusasse a ficar na casa, era um mau presságio.
· Os Escocêses acreditavam que se um gato entrasse no cômodo onde estivesse um morto, a próxima pessoa que tocasse o gato ficaria cega.
· Se a procissão de um funeral encontrasse um gato preto pelo caminho, era sinal de que outro membro da família do morto também morreria.
· A lenda de que os gatos têm 9 vidas, possivelmente surgiu devido ao número 9 significar 3 vezes a Trindade, o que significa sorte.
· Um provérbio Inglês diz: "Um gato possui 9 vidas. Com 3 ele brinca, 3 ele perde e com 3 ele fica."


Gatos e Vida Após a Morte

· No Japão existe uma lenda de uqe os gatos se tornam grandes espíritos quando morrem. No Budismo, o corpo de um gato é o local temporário de descanso da alma de pessoas espiritualmente elevadas.
· Algumas pessoas acreditam que os gatos possam fazer viagens astrais. Também acreditam que se um gato adotar você, ele ficará ao seu lado mesmo após a morte.


Gatos e Bruxas

· Uma lenda Escandinava dizia que uma deusa do amor e fertilidade, chamada Freya, tinha sua carruagem puxada por 2 gatos pretos. Depopis de servir Freya por 7 anos, os gatos se tornavam feiticeiras.
· Antigamente, dizia-se que bruxas se transformavam em gatos à noite.
· Folklore has it that if a witch becomes human, her black cat will no longer reside in her house.
· Na Idade Média os gatos foram associados ao demônio. Por serem noturnos e vagarem pela noite, acreditava-se que fossem sobrenaturais e servidores de bruxas, ou mesmo, as próprias bruxas. Em parte pelo movimento insinuante e pelos olhos que brilhavam no escuro, eles se tornaram a personificação do mal, da escuridão, do mistério, possuidores de poderes apavorantes. Qualquer coisa que de ruim que acontecesse, sempre era culpa de um gato.


Miscelânea

· Em tempos passados, a punição por um crime algumas vezes incluía a amputação da língua. A língua do condenado era dada aos animais do rei. Como se pode ver, existe uma verdade histórica na frase "O gato comeu sua lingua?"
· Gatos domésticos não são mencionados na Bíblia.
· De acordo com a lenda, os gatos foram criados quando a Arca de Noé ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem, e do espirro do leão se formou o gato.




Matéria retirada do becodosgatos.com.br

Imagens: Andy Warhol

Gatos - Andy Warhol