30.8.08

Advogada indígena defende fim da violência contra índios




Advogada indígena defende fim da violência contra índios

VANNILDO MENDES - Agencia Estado - 27.08.08



BRASÍLIA - Em defesa das seis etnias que residem na reserva Raposa Serra do Sol, a advogada Joênia Batista Carvalho, uma índia da etnia Wapichana, disse que é preciso que o Supremo Tribunal Federal dê um ponto final na violência que há décadas é cometida contra os povos indígenas na região. Joênia Batista Carvalho, 34 anos, é a primeira mulher índia que recebeu registro na Ordem dos Advogados do Brasil(OAB). Ela é formada em direito pela Universidade Federal de Roraima.



Em sua sustentação oral durante o julgamento no Supremo, Joênia - que exibia pintura no rosto e indumentária de sua etnia , reservada a ocasiões solenes - fez uma saudação em dialeto indígena aos ministros do Supremo. Ressaltou os valores espirituais e culturais dos povos indígenas previstos na Constituição que espera ver reafirmados na decisão do STF.



Joênia mencionou a contribuição econômica que os seis povos da reserva dão à economia do Estado de Roraima. Disse que a região é a maior produtora de gado da região e que possui uma produção agrícola expressiva. Ela estimou em R$ 14 milhões o volume de recursos movimentados pela produção agrícola e pecuária da reserva. "Vivemos da troca, mas participamos ativamente da economia do estado", afirmou.



Emocionada, citou as agressões desencadeadas contra os indígenas desde que começou o processo de demarcação da reserva, na década de 70, por iniciativa da União. Conforme seu relato, desde então, foram assassinados 21 índios e até agora ninguém foi punido, dezenas de casas foram queimadas, e as populações indígenas vivem em permanente ameaça. "Somos acusados de ladrões, invasores, na nossa própria terra. Somos caluniados, e difamados dentro de casa" afirmou.



E definiu:
"a terra indígena não é só casa para morar, mas o local onde se caça , onde pesca, onde se caminha e onde os povos indígenas vivem e preservam sua cultura. A terra não é um espaço de agora, mas um espaço para sempre. Queremos viver conforme nossos usos e costumes. Conforme nossas tradições, num ambiente de harmonia e respeito com todos".



Posse



Ao defender a manutenção da reserva continua na área da Raposa Serra do Sol, a advogada indígena ainda questionou, no final de sua sustentação: "Que crime praticamos para ter a nossa terra retalhada? Não está em jogo aqui a definição de posse administrativa de uma terra. Já nos tiraram muito. Hoje querem nos tirar 10 mil hectares. Amanhã, mais dez mil. Depois, mais dez mil. Até que um dia só nos restará um lote. Já nos tiraram muito".



Companhia




Companhia

A alma da madrugada
encanta a janela aberta:
brilho da estrela d'alva.

Tuca
[Foto: Galeria de :: mario :: - Flickr]






Doce entrega


Doce entrega

Tuas mãos:
cântaros.
Chovo.

Tuca

agosto 2005 - último Dia dos Pais


Pai_xão

pão

chão

Tuca
[Foto: Rio Pader - Alemanha]

Viajante


Viajante

Entre montanhas e vales
descanso -
(c) olho paisagens.

Tuca
[Foto: China - TrekLens]

Impossivel adequação


Impossivel adequação


Passeia o elefante
pelos trilhas do coelho -
meu mundo de fantasias...

Tuca

Um haicai de Alenka Zorman



Aos seixos centenários
o riacho murmura
coisas da juventude...

Alenka Zorman - é presidente do Clube de Haiku da Slovenia, mora em
Ljubljana e é uma premiada autora de haikais.



[Foto: Rio Criz, Molelos,Portugal]

29.8.08

Amor à terra


Amor à terra

Laranja na mesa.
Bendita a árvore
que te pariu.

Clarice Lispector



[Foto: Autor(a) gPontomiguel]

Feliz


Feliz

piso na grama molhada de orvalho
-cheiro de mato -
sou presente no presente da vida!

Tuca

Anoiteceu


Anoiteceu

e um passarinho
engoliu, feito barbante,
a linha do horizonte...

Tuca
[Foto: Paquistão - TrekLens]

28.8.08

LENDO "HAMLET"


LENDO "HAMLET"

I
No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pé
e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste; "Então
vai para o convento
ou casa-te com um idiota..."
Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu lembro dessas palavras:
deixem que elas flutuem por cem séculos
como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.

II
E como por engano
eu disse: "Tu..."
Iluminou-se a sombra com o sorriso
suave de meu amado.
Esse é o tipo de deslize da língua
que faz com que todo mundo fique te olhando...
Mas eu te amo, como quarenta
meigas irmãs.

Anna Akhmátova
(tradução de Lauro Machado Coelho)
[Ilustração: Ausra Capskyte]

Lua adversa


Lua adversa
Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha


Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.


E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Sinais sutis


Sinais sutis

Reconheço os avisos
do meu coração -
ouro e vigília.

Tuca Kors
.
[Foto:TrekLens]

Alguns tercetos de um Poeta de Belém, Pará - Paulo Roberto Ferreira Martins.


Alguns tercetos de um Poeta de Belém, Pará - Paulo Roberto Ferreira Martins.



ÂNCORA

Assim é a solidão,
pesada pedra presa
no fundo do mar.


CREPÚSCULO

Nessa pálpebra do céu,
em que cílios
e florestas me perdi?


IN-PACTO

Se morrêssemos hoje,
como nos encontraríamos
amanhã?


NINGUÉM

me tem direito
se não m'intende
o peito.


POEMA DA LUA CHEIA

Se pudesse,
rezaria o amém
dessa prece...
[Imagem: TrekLens]




Ousadia


Ousadia

Ao lado de Poetas e poemas,
não sou vice, nem verso...
Apenas registro.

Tuca Kors
.
[Imagem: Aleksandr Rodchenko - "Constructivism"]

Esse velho sentimento - poema de Antonio Manoel Conceição


[Imagem: " The Birthday" - Marc Chagall]


Esse velho sentimento

O amor é uma questão de jeito
De trocar verbos
E esquecer pronomes,
De confundir palavras.

O amor precisa de manha
De riscos, de um fogo perene
De pouca sobriedade
De algum peso e nenhuma medida

O amor cai bem aos loucos
Aos desajustados,
Prefere os caminhos estranhos
De onde nem sempre saímos ilesos

Sonhar não basta
Sofrer não é o suficiente
Ser ridículo é só mais um instante
Dessa hora interminável de tempo

O amor não tolera o tédio
É piegas, profundo, desarticulado
Torto, altivo e às vezes até meio idiota

Inesperadamente desponta na noite
Chega como se fosse uma criança com frio
Não dá explicações
Simples e dissimulado escolhe
O canto que melhor lhe parece
E sem desenhar um único traço do destino
Enche o peito de coisas
Que não se consegue entender

Mas quem pode dizer-se humano
Se uma vez pelo menos
Ainda que para sentir-se no inferno
Não tenha procurado o amor?

O que nos salva
É o que nos falta
Coragem




E que tudo possa acontecer assim
Sem equilíbrio,
Sem nenhum palmo de terra
A sustentar os pés

Contando apenas
Com uma quase possível incerteza
Respirando um ar emprestado da insanidade
E acreditando que somos invencíveis

Velho sentimento
Que nos maltrata
Velho sentimento, tão antigo
Quanto os mais inacessíveis caminhos do mundo

Antonio Manoel Conceição










26.8.08

FADAS E BRUXAS




FADAS E BRUXAS

Roseana Murray

Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorrí;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.

in Pêra, Uva ou Maçã, ed. Scipione, 2005






.
[Foto: TrekLens]
.










Luz natural


Luz natural

Trago no peito
um céu estrelado -
ó iluminada noite!

Tuca Kors
[Foto: Via Lactea na Serra da Estrela -Filipe da Veiga Ventura]

Sob a chuva




Sob a chuva

O silêncio.
Na avenida
escorre um enterro.

Tuca Kors


Essência de Jasmim


Essência de Jasmim

espalhei pela casa
seu fantasma de volta
lembrança sem fim...

Tuca Kors

Com provação



Com provação

A tempestade passou.
Entre mortos e feridos,
uma grande baixa - o EU.

Tuca Kors
[Foto: Tuta]

Rebeldia, ainda que tardia...


Rebeldia , ainda que tardia

Abaixo os livros,
a teoria, a reclusão.
Viva a vida vivida, sem reflexão.

Tuca Kors
[Foto: Nuno Belo]

Amor


Amor

Do platonismo, já estou por aqui...
Quero garfo e faca.
Quero a gula.

Tuca Kors
Zã, um beijo de obrigada pela foto:)




A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Fliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

Adélia Pradovia http://pensador.uol.com.br/adelia_prado_poemas/

Esperada Primavera


Esperada Primavera

A Beleza teceu um tapete
e agora descansa suas cores
nos bancos do jardim.

Tuca Kors

Um beijo de obrigada por esta linda foto, amiga Sonia Maria!

25.8.08

In-consciente


In-consciente

Brinco hoje, sem temor,
não com o cavalo de São Jorge,
mas com o Dragão.

Tuca Kors
["São Jorge mata o dragão para libertar a donzela" - Paolo Uccello]

Alegria


Relendo "João e Maria":

Alegria

Uma casa de sonhos
e de valsas-
valeria mil diamantes negros?

Tuca Kors

Anna Akhmátova - Música

[Ausra Capskyte]




Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
Anna Akhmátova

Desses meus versos, escritos num tempo




Desses meus versos, escritos num tempo
em que eu nem sabia que era poeta,
brotando como a água das fontes,
como a labareda brota foguetes,

precipitando-se como se fossem diabretes
no santuário cheio de sonhos e de incenso,
desses meus versos de juventude, versos de morte
— desses meus versos que ninguém leu! —

perdidos na poeira das livrarias
(onde ninguém os pede, ninguém os pediu),
desses meus versos, como um vinho precioso, há-de chegar a vez.


Marina Tsvétaïeva
.
[Foto: TrekLens]
.

Palavras


Palavras

Nenhum ramo
é seguro. Frágeis
são as palavras.

Albano Martins
.
[Foto: TrekLens]

Helena Kolody




Arco-íris

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.



Jornada

Tao longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.



Poesia Mínima


Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.



Dom


Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

Helena Kolody

(1912 -2004 )

[Foto: TrekLens - Nova Zelândia]

Ambidestra




Ambidestra

Hoje acordei canhota -
direito jeito
de ser.

Tuca Kors
.
[Foto: TrekLens]



Tecer


Tecer

dor de ser só
de dor só ser
ser só de dor

Tuca Kors

Zeitgeist, The Movie



Zaninha, um beijo de obrigada por repassar este link !


Zeitgeist, The Movie


LINK DO DOCUMENTARIO:


http://video.google.com/videoplay?docid=-2282183016528882906

Romântico analfabeto


Romântico analfabeto

(Da série Poesia numa hora destas?!)



E disse o piloto à sua amada:

"Eu escreveria seu nome mil vezes no céu com o rastro do meu jato, Cecília, se não fosse tão difícil fazer a cedilha".



Luiz Fernando Veríssimo - Jornal Estado de São Paulo - 18.11.07





Qualquer amor


Qualquer amor já é um pouquinho se saúde, um descanso na loucura.

Guimarães Rosa (1908-1967)
Escritor mineiro

Vida calma


Tudo por uma vida calma, como disse o sujeito quando aceitou o emprego do farol.

Charles Dickens (1812-1870)
Escritor inglês

Provérbio sobre o Tempo


Tempo e paciência transformam a folha de amoreira em seda.
Provérbio italiano








alguns Haicais


A lua fria-
Sobre o templo sem portão,
O céu tão alto......Buson

**

Mais fria que a neve,
Sobre os meus cabelos brancos,
a lua de inverno.....Jôsô

**

As estrelas no lago
aparecem e desaparecem-
Chuva de inverno.....Sora

**

Apenas estando aqui,
Estou aqui.
E a chuva cai.....Issa

**

Após urinar,
Um buraco perfeito
Na terrra do portão!.....Issa

**

Quietude-
O barulho do pássaro
Pisando folhas secas.....Ryûshi

**

Varrer o chão
E então parar de varrê-lo-
Estas folhas secas.....Taigi

**

Cem anos de idade-
A paisagem das folhas
Caídas no jardim...Bashô

**

Em vez de haicai
Um desenho no papel-
noite de lua cheia.....Edson Kenjy Iura

**

Entre os livros
na prateira
um girassol de madeira...H. Emanuel

**

aranhas tecem
ao relento
arames de vento...H.Emanuel

**

as marcas do tempo
apenas no meu rosto
Lua de primavera!.....Teruko Oda

**

a grama cortada
espalha um perfume novo
no velho jardim.....Zemaria Pinto

**

todos os verdes
em um só vaso
família de cactus.....Alice Ruiz

**

ano que termina
areia cheia
conchas mínimas.....Alice Ruiz

**

sopra o vento
sento em silêncio
sentir é lento.....Alexandre Brito
**

24.8.08

Capricho


Capricho

Bordo tua boca
com ponto cheio -
para meu beijo.

Tuca Kors
.
[imagem do filme "Beijo roubado"]

Placebo de amor


Placebo de amor

Chorei caixas de lenços de papel.
Agora, peço-lhe:
Dê-me a água com açúcar dos olhos seus.

Tuca Kors



[Imagem: Textportrait - Ralph Ueltzhoeffer - Brad Pitt 2006]



Relicário


Relicário

Deus nos deu braços para abraços
e boca para beijos.
Inútil, guardá-los como jóias.

Tuca Kors

Entrelinhas





Entrelinhas - "não tô nem aí"

Escondidas no não ligo,
não quero, não preciso,
há irreparáveis tristezas.

Tuca Kors
.
[Imagem: JMFCoutinho_UmaLagrima]

Ponto de Interrogação





Ponto de Interrogação

Um colo de cisne
na página azul do lago
interroga o dia...

Primo Vieira




23.8.08

Poema de ANNA AKHMATOVA



ANNA AKHMATOVA

Estou agora sozinha. A noite pronuncia os nomes necessários.
Havia outrora alguém que deixava cair sobre os meus ombros
a areia rugosa. Dissera mesmo, com um sorriso: «Os teus
ombros de clepsidra...» E eu sentia esse rumor límpido, que levava
as pessoas a fitarem-se durante instantes, com uma suspeita
inesperada; uma espécie de veneno, digo-vos. O olhar
pousado neste espelho imobiliza-se; os dedos que teceram
os dourados ícones esperam ainda. Ficou à minha volta
apenas um ligeiro odor de tabaco, porque há muito as conversas
esmoreceram. Recomeço o maquillage e sei como os dedos
perseguem um corpo frágil e destruído; ao tocarem
com cuidado as sobrancelhas ainda poderão erguer esse pó azul
que as transforma numa espécie de versos, quando Tomachevski
nos vinha explicar: «a rima é a forma canonizada, métrica
da eufonia.» E sinto ainda esse rumor triste, que ficou perdido
entre as vozes ciciadas, agora tornadas cúmplices. Uma mulher
aparecera com uma ave destruída nas mãos; o ar ficou
iluminado e sabíamos que ela pensava ainda num voo
que se tornara impossível. Foi assim que pude ver à minha volta
esta renda que chegava da idade, o tremor límpido que percorria
os braços, o contorno apenas adivinhado das veias. Sabia
que devagar começara o tempo a envolver-me; atravessei
um jardim e olhava para as folhas que ali alguém tinha calcado. Pensei
nos bolbos, nas escamas da terra. Junto às portas entreabertas podia-se ver
alguns sinais que não sabia interpretar: talvez as sementes que nasciam
da própria casa, e sozinha escutava o rumor que atravessa estes corredores
vegetais. Tornava-se maior a minha sombra
em cada quarto, um pouco inclinada para os móveis abandonados onde ficou um pano
estendido como se esquecêssemos o seu peso. Recebo daqueles que amei
a luz; assim me inclino um pouco sobre esta mesa e inicio
uma leitura morosa, paciente. Por vezes, em qualquer recanto, escuto ainda o grito
agudo dos que se suicidaram e reparo num vestígio de sangue
nas suas têmporas: como um fio vermelho que marca as páginas
de um livro. – Ficou caída, sobre os joelhos esta manta cujas pregas
componho devagar; atravessada pelo frio húmido, desce até ao soalho que cuidadosamente
enceraram. Quase em surdina, alguém ao meu lado disse: «Espero a noite
e os cavalos que a seduzem.» A noite... É nela que irei procurar os limites
silenciosos destas paredes a que me acolhi; a sombra e a luz confundem-se
sobre os meus cabelos que sempre gostei de ter um pouco curtos. Reparo
nos favos da casa; há uma janela próxima que estremece
quando as folhas a vêm tocar, e principio a escrever ali as palavras que ficaram esquecidas.
Era assim que começava um poema? Tornaram-se mais cansados os gestos. Apenas sei
que caminho ao encontro dos companheiros que nunca pude esquecer, e agora
os meus passos são de água.
[Imagem: modigliani_Akhmatova - 1911]

Treze Versos - ANNA AKHMATOVA




TREZE VERSOS

ANNA AKHMATOVA



E finalmente pronunciaste a palavra

não como quem se ajoelha,

mas como quem escapa da prisão

e vê o sagrado dossel das bétulas

através do arco-íris do pranto involuntário.

E à tua volta cantou o silêncio

e um sol muito puro clareou a escuridão

e o mundo por um instante transformou-se

e estranhamente mudou o sabor do vinho.

E até eu, que fora destinada

da palavra divina a ser a assassina,

calei-me, quase com devoção,

para poder prolongar esse instante abençoado.




Poema de Anna Akhmátova


Anna Akhmátova

Sombra

Que sabe
certa mulher
Sobre a hora a morte?
O.Mandelstam
Sempre mais
elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura - tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me mas o tempo claro,
Flaubert, a insônia e os lilases tardios
De ti - bela de 1913 -
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar... Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
9 de Agosto de 1940. De noite.

16.8.08

Haicai


Um haicai publicado na página Haicai Brasileiro
do Jornal Nippo-Brasil.





Cigarro de palha
E uma boa conversa--
Tosse... tosse.

Tita Lopes
Brodoski-SP





Marina - Dorival Caymmi


Minha mãe cantava esta música para mim, quando eu era pequena.
Descanse em paz, querido Artista.



Marina
(Dorival Caymmi)

Marina morena Marina
você se pintou
Marina você faça tudo
Mas faça o favor
Não pinte este rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina você já é bonita
Com o que Deus lhe deu

Já me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar

Eu já desculpei tanta coisa
Você não arranjava outro igual
Desculpe Marina, morena
Mas eu tô de mal, de mal com você

De mal com você



O cantor e compositor baiano Dorival Caymmi morreu neste sábado, 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, por volta das 6h, em sua casa no Rio de Janeiro
Dorival Caummi nasceu em 30 de abril de 1914, na cidade de Salvador, Bahia.





CANÇONETA


CANÇONETA

Um colarzinho de contas no pescoço,
as mãos sumindo num amplo regalo.
Os olhos passeiam em torno distraídos
e já não têm mais com que chorar.
A seda, que é quase violeta,
faz o rosto parecer mais pálido.
A franja, de cabelos tão lisinhos,
já chega até quase as sobrancelhas.
Não se parece em nada com um vôo
esse jeito lento de andar
como se numa jangada pisasse
e não nas pranchas firmes do assoalho.
A boca pálida, entreaberta,
o fôlego cansado, ofegante...
contra o peito treme o ramalhete
deste encontro contigo que não houve.

Anna Akhmátova
(tradução de Lauro Machado Coelho)




[Imagem: Ausra Capskyte]