28.9.08

Alta Noite




Alta Noite
Marisa Monte
Composição: Arnaldo Antunes

Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava
No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia
Ninguém com os pés na água
Nenhuma pessoa sozinha ia
Nenhuma pessoa vinha
Nem a manhãzinha, nem a madrugada
Nem a estrela-guia, nem a estrela d'alva
Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava
No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia
Ninguém com os pés na água
Nenhuma pessoa sozinha ia
Nenhuma pessoa vinha
Nem a manhãzinha, nem a madrugada
Nem a estrela-guia, nem a estrela d'alva
Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava
No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia


Paul Klee

27.9.08

Convite à mordida


Convite à mordida

pescoço cheirando a sol
doce moreno
aroma de amora

Tuca
.
[Fotografia: Torkill Gudnason]
.

Essência


Essência

eu e mins
somos o que somos
sem tirar nem pôr

Tuca
.
[fotografia: RTVELI]
.

Alma de poeta


Alma de poeta

madeira seca
perto do fogo da vida -
perfumada fumaça

Tuca

OUTRO POEMA DOS DONS


OUTRO POEMA DOS DONS
Jorge Luis Borges




Quero dar graças ao divino
Labirinto dos efeitos e das causas
Pela diversidade das criaturas
Que formam este singular universo,
Pela razão, que não cessará de sonhar
Com um plano do labirinto,
Pelo rosto de Helena e pela perseverança de Ulisses,
Pelo amor, que nos deixa ver os outros
Como os vê a divindade,
Pelo firme diamante e pela água solta,
Pela álgebra, palácio de precisos cristais,
Pelas místicas moedas de Ângelo Silésio,
Por Schopenhauer,
Que talvez tenha decifrado o universo,
Pelo fulgor do fogo
Que nenhum ser humano pode olhar sem um assombro antigo,
Pela caoba, pelo cedro e pelo sândalo,
Pelo pão e pelo sal,
Pelo mistério da rosa
Que prodigaliza cor e que não a vê,
Por certas vésperas e dias de 1955,
Pelos duros tropeiros que na planície
Arreiam os animais e a alva,
Pela manhã em Montevidéu,
Pela arte da amizade,
Pelo último dia de Sócrates,
Pelas palavras que em um crepúsculo se disseram
De uma cruz a outra cruz,
Por aquele sonho do Islã que abarcou
Mil noites e uma noite,
Por aquele outro sonho do inferno
Da torre de fogo que purifica
E das esferas gloriosas,
Por Swedenborg,
Que conversava com os anjos nas ruas de Londres,
Pelos rios secretos e imemoriais
Que convergem em mim,
Pelo idioma que, faz séculos, falei em Nortúmbria,
Pela espada e pela harpa dos saxões,
Pelo mar, que é um deserto resplandecente
E uma cifra de coisas que não sabemos
E um epitáfio dos vikings,
Pela música verbal da Inglaterra,
Pela música verbal da Alemanha,
Pelo ouro, que relumbra nos versos,
Pelo épico inverno,
Pelo nome de um livro que não li:
Gesta Dei per Francos,
Por Verlaine, inocente como os pássaros,
Pelo prisma de cristal e pelo peso de bronze,
Pelas raias do tigre,
Pelas altas torres de São Francisco e da ilha de Manhattan,
Pela manhã no Texas,
Por aquele sevilhano que redigiu a Epístola Moral
E cujo nome, como ele teria preferido, ignoramos,
Por Sêneca e Lucano, de Córdoba,
Que antes do espanhol escreveram
Toda a literatura espanhola,
Pelo geométrico e bizarro xadrez,
Pela tartaruga de Zenão e pelo mapa de Royce,
Pelo aroma medicinal dos eucaliptos,
Pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
Pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,
Pelo costume,
Que nos repete e nos confirma como um espelho,
Pela manhã, que nos depara a ilusão de um princípio,
Pela noite, sua treva e sua astronomia,
Pelo valor e pela felicidade dos outros,
Pela pátria, sentida nos jasmins
Ou numa velha espada,
Por Whitman e Francisco de Assis, que já escreveram o poema,
Pelo fato de que o poema é inesgotável
E se confunde com a soma das criaturas
E não chegará jamais ao último verso
E varia segundo os homens,
Por Frances Haslam, que pediu perdão a seus filhos
Por morrer tão devagar,
Pelos minutos que precedem o sono,
Pelo sono e pela morte,
Esses dois tesouros ocultos,
Pelos íntimos dons que não enumero,
Pela música, misteriosa forma do tempo.

in "O OUTRO, O MESMO"

JOÃO 1, 14


JOÃO 1, 14
Jorge Luis Borges




Os contos orientais já discorriam
Sobre um rei do tempo que, submetido
Ao tédio e ao esplendor, ia escondido
E sozinho, e os subúrbios percorria
E se perdia entre a turba da gente
De calejadas mãos, nomes banais;
Agora, como aquele Emir dos Crentes,
Harun, Deus quer andar entre os mortais
E nasce de uma mãe, tal como nascem
As linhagens que em poeira se desfazem,
E lhe será entregue este orbe inteiro,
Ar, água, pão, manhãs, pedras e lírios,
Porém, depois, o sangue do martírio,
O escárnio, os cravos e o madeiro.

"O Outro, o Mesmo"
[Imagem: Caravaggio- pormenor de o Repouso durante a fuga para o Egito - cerca de 1596]

25.9.08

Impressões


Impressões

minha alma
escuta teus passos
nas trilhas do passado

Tuca
.
[Fotografia: Anedrejj Izosimov]

Sala de espera


Sala de espera

o medo pousa
em meus ombros
e espia o Tempo

Tuca

agradecido olhar


agradecido olhar

em paisagem de puras retas
a montanha se curva
e lava os pés no mar

Tuca




[Fotografia: Autor(a) João Valente]

Deus desenhista


Deus desenhista

o mar, o céu, a nuvem,
em rápidas pinceladas
e a suave onda da montanha

Tuca




[Fotografia: Galeria de Sinval Paes ]

lilás


lilás

o gari varrerá
toda a beleza
da rua em flor

Tuca



[Fotografia: Autor(a) M.Olivia C. B.]

ANOITECER - Cecília Meireles


ANOITECER
Cecília Meireles

"Poemas escritos na Índia"

Ao longo do bazar brilham pequenas luzes,
A roda do último carro faz a sua última volta.
Os búfalos entram pela sombra da noite.,
onde se dispersam.

As crianças fecham os olhos sedosos.
As cabanas são como pessoas muito antigas,
sentadas, pensando.

Uma pequena música toca no fim do mundo.

Uma pequena lua desenha-se no alto do céu.

Uma pequena brisa cálida
flutua sobre a árvore da aldeia
como o sonho de um pássaro.

Oh, eu queria ficar aqui,
pequenina.


PASSEIO - Cecília Meireles


PASSEIO

Cecília Meireles
"Poemas escritos na Índia"

agora a tarde está cercada de leões de fogo,
ao longo das tamareiras.

Mas quando o calor desmaiar em cinza,
iremos ouvir o tênue rumor fresco da água
- de onde vem? de onde vem? -
iremos passear em redor do túmulo,

ó suave amiga, ó nuvem de musselina branca!

Iremos ouvir sobre o silêncio do tempo
o suspiro da água
-de onde vem? de onde vem? -
enquanto os pobres adormecem,
escondidos nas suas barbas,
reclinados nas plantas.

No meio da noite morna,
os pobres dormem pelo jardim:
cama de flores,
cortinas de aragem,
o silêncio tecendo sonhos.

Ouviremos a frescura da água,
ó suave amiga, ó nuvem de musselina branca!
- de onde vem? de onde vem? -

Pisaremos com extrema delicadeza,
sem o menor sussurro,

porque os pobres estão sonhando.


[Fotografia: http://pt.trekearth.com/gallery/Asia/India/
]

Murilo Mendes - Frases escolhidas

Retrato de Murilo Mendes, por Guignard
MURILO MENDES

do livro PROSA/O DISCÍPULO DE EMAÚS - Rio de Janeiro, 1943

O invisível não é irreal: é o real que não é visto.

O reino de Deus está em nós. Não está sujeito ao tempo nem ao espaço.

Os pássaros sentem-se bem no ar, os peixes sentem-se bem na água: os homens não se sentem bem na terra.

O amor recolhe tudo.


A vida separa muito mais do que a morte.


Tocar é conhecer.


O inferno do amor é a falta de comunicação.


A saudade é uma lei espiritual - abstração do espaço e do tempo.


Deus não é somente o fim - é também o centro.


O corpo é também um oráculo.


O que distingue a infância é a naturalidade?


A eternidade será um tempo infinito - ou antes, um estado infinito?


A liberdade é o equilíbrio entre o bem e o mal.


O mal e seu castigo são inseparáveis.


Não há equilíbrio sem oposição.


Ó Deus meu e de todos, perdoai-me, porque eu sei o que faço - e o que não faço.


É mais importante ser refinado de coração do que de espírito.


Existem cinco elementos: o ar, a terra, a água , o fogo e a pessoa amada.


Só não existe o que não pode ser imaginado.


Ser amigo é repartir a vida.




24.9.08

Velhice


Velhice

ser
vil
idade

Tuca
[Fotografia: Guzel Grubum]



Submissão


Submissão

so
nega
dor

Tuca
[Fotografia: Nykolai Aleksander]



Teus olhos


Teus olhos

ver
te
douros

Tuca




23.9.08

Ouvindo Bach


Ouvindo Bach

Todo dia
tem suas surpresas.
Homem, que alegria!

Tuca

Corpo estranho


Corpo estranho

um mistério contendo outro
boneca russa
matriz oca - a matrióshka.

Tuca



Divina Providência


Divina Providência

meio surda
e míope -
feliz!

Tuca
.
[Fotografia: Victoria Prada]

Tu, Marte; eu? tua azarada Lua


Tu, Marte. Eu? Tua azarada Lua

Capturada,
fragmento-me em ti:
perturbadora gravidade.

Tuca

inocente imagem


inocente imagem

haicaio de amores
mergulho os olhos nestes mares -
sou lua

Tuca
.
[Fotografia: Autor(a) Miguel67]

Leitora

jnconradie



Leitora

Se disser que comento,
minto.
Como as letras - alimento.

Tuca




No Dia Mundial Sem Carro, SP tem trânsito maior que a média

Carolina Kors na Av. Paulista

São Paulo, terça-feira, 23 de setembro de 2008

Jornal Folha de São Paulo - Caderno Cotidiano




No Dia Mundial Sem Carro, SP tem trânsito maior que a média

Lentidão de 143 km às 19h foi 25% acima da média das 5 últimas segundas-feiras; de manhã, chegou a estar abaixo

Avenida Paulista foi palco de protestos de manifestantes com estruturas de plástico que ocupavam o espaço de um carro e de ciclistas

Foto: Eduardo Knapp/Folha Imagem

Manifestantes em ato na av. Paulista no Dia Mundial Sem Carro; capital teve 143 km de lentidão às 19h

RICARDO SANGIOVANNI
ESTÊVÃO BERTONI
DA REPORTAGEM LOCAL

Os 143 km de lentidão registrados às 19h de ontem -25% acima da média das cinco últimas segundas-feiras-, em pleno Dia Mundial Sem Carro, mostraram que um trânsito mais ameno em São Paulo ainda é um sonho distante.
De manhã, porém, o trânsito chegou a estar 25% abaixo da média -75 km às 9h, segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). "Estatisticamente, a eficácia [do Dia Sem Carro] é zero, a adesão é mínima. Mas nem por isso deixa de ter importância simbólica", diz o consultor de transportes Horácio Figueira.
Especialistas em mobilidade urbana, ambientalistas e ONGs também discutiram, em eventos, os prejuízos à saúde e ao ambiente causados pela emissão de poluentes dos carros.
Após debate com os candidatos à prefeitura organizado pelo Movimento Nossa São Paulo, o coordenador do Laboratório de Poluição da USP, Paulo Saldiva, leu manifesto em defesa do cumprimento integral da resolução 315/02 do Conselho Nacional do Meio Ambiente.
Ela prevê reduções das emissões a partir de 2009 e depende do fornecimento de diesel e motores menos poluentes. Mas corre risco de não ser cumprida integralmente, pois a Petrobras e as montadoras não garantem as mudanças.
"Cada real não investido para diminuir a poluição custa R$ 8 à saúde. As políticas públicas precisam levar isso em conta."
Segundo Saldiva, isso equivale a cerca de 3.000 mortes e gastos de R$ 1 bilhão por ano na capital paulista, conforme modelo de cálculo da Organização Mundial da Saúde.
A avenida Paulista foi palco de dois protestos. Por volta das 11h, manifestantes desfilaram no meio da pista, carregando estruturas de plástico que ocupavam o espaço de um carro. À noite foi a vez de ciclistas. Participantes estimaram pouco mais de 300 presentes; a expectativa era de reunir mil. A Polícia Militar não fez contagem.
Vestido de terno e gravata por ter participado horas antes de uma reunião de trabalho, o artista plástico Marcelo Siqueira, 30, contou que a intenção do ato era reocupar espaço urbanos originalmente destinados às pessoas, mas atualmente dominados pelos automóveis. "Estamos aqui não só para pedalar, mas para conscientizar as pessoas", disse.
O único evento ligado ao Dia Sem Carro organizado pela prefeitura foi a inauguração de uma exposição sobre a história do transporte coletivo, no parque Ibirapuera (zona sul).
De ônibus, o secretário Alexandre de Moraes (Transportes) chegou uma hora e 55 minutos atrasado ao evento, marcado para as 15h -disse ter gasto apenas 25 minutos da prefeitura ao parque. Ele foi recebido pelo secretário Eduardo Jorge (Meio Ambiente), que chegara pontualmente, de bicicleta.



Cauí, minha lindinha, no jornal e no meu blog:)
Um beijo da tuca-coruja:)

Para que serve uma relação? - Dr. Drauzio Varella

Branislav Vaclav - Slovakia - TrekLens



Para que serve uma relação?



Definição mais simples e exata sobre o sentido de mantermos uma relação?
"Uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil".
Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom, e merece ser desenvolvido.
Algumas pessoas mantém relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão, por dinheiro ou por preguiça. Todos fadados à frustração.Uma armadilha.
Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo, enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio, sem que nenhum dos dois se incomode com isso.
Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada uma pessoa bonita a seu modo.
Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro, quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

Dr. Drauzio Varela


22.9.08

rascunhos amorosos


rascunhos amorosos

entre dobras e lençóis
passas nosso amor
a limpo

Tuca
[Foto retirada de http://2photo.ru/]

ser_estando


ser_estando

quero um canto
verdadeiro
no canto do teu coração

tuca
.
[Imagem: mosaic artist Stacy Alexander]

Vamos parar o mundo?


Vamos parar o mundo?

sinto minha língua
no céu da tua boca.
Meditas em mim...

Tuca
.
[Fotografia: John Wimberley]

Exigência


Exigência

Ter teu corpo,
é fácil.
Quero é a tua alma - por inteiro.

Tuca



[Fotografia: Michael Kenna]
.

Amoroso jogo


Amoroso jogo

A ele submete-se
e sobre ele domina.
Reconhece, assim, seu homem.

Tuca



[Fotografia: Arno Rafael Minkkinen]


Para atravessar contigo o deserto do mundo

Andrzej Korzeniowski




Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento



Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto (1962)

Limiar

cvet_i_voda - Servia - Nebojsa Radojevic





Somos ainda o limiar - espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.



Albano Martins
Assim são as algas

21.9.08

tentativa de definir um búzio


tentativa de definir um búzio

espaço para guardar
- de memória -
a voz do mar

tuca

Paródia


Paródia

vida entre aspas
desejo entre parênteses
autor desconhecido

Tuca

A vida ferve


A vida ferve

no quente da tua cama
a lâmina do desejo
fatia o tempo a esmo

Tuca

Final de inverno


Final de inverno

(an)danças inclinadas
da Terra.
Retalhos de sol.

Tuca
.
[Imagem do filme "Onde a Terra Acaba"]

Um Blog que leio diariamente

obvious

19.9.08

Quando estiveres velha




Quando estiveres velha
Yeats

Quando estiveres velha, grisalha e sonolenta
Junto a lareira, toma este livro,
E lê devagar, sonhando com o brilho
Que teus olhos tiveram, mas se apagou;
Quantos amaram teus momentos de graça,
E amaram tua beleza com amor falso ou sincero,
Mas um homem amou tua alma peregrina
E os sofrimentos, que marcavam teu rosto;
E, curvada sobre a lenha ardente,
Lamente, em murmúrios, a fuga do amor
Que se refugiou além das montanhas
E escondeu seu rosto entre as estrelas.







Canto a García Lorca

Ivancic



Canto a García Lorca

Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.

Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.

O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,

Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto

De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.

Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.

Murilo Mendes
"Poesia/Tempo Espanhol"



Polpa


Polpa

na casca das palavras
trincar os dentes -
sorver o fruto do pensamento

Tuca
.
[Foto: Obvious]



Centelha divina


Centelha divina

Em cada ser humano
há sempre uma semente.
Seu nome: insatisfação.

Tuca

REGINA


REGINA
Murilo Mendes

Tu dás e tiras a poesia ao mesmo tempo.
eu tenho olhos para não te ver - tenho braços para não te apertar - tenho voz para não te falar - tenho ouvidos para não te ouvir.

Eu ando de templo em templo - de coração em coração - de poema em poema - de filme em filme - de bordel em bordel - procurando com lúcido fervor te desenvolver em todas as coisas.

Nasceste poderosamente dentro de mim - e de agora em diante és a revelação que estabeleço entre todas as coisas.

Não és mais uma determinada mulher - és diversas mulheres que emergiram do caos, aos pedaços, cobertas de esparadrapos - e que eu suturei e liguei numa só e única - a universal mulher sem idade, sem raça e sem temperamento.

E és também - quem sabe - a anti-mulher, a que se nega sempre, desde o princípio dos tempos, ao poeta, para que ele possa desejá-la eternamente - e nunca desmanche o Ideal.

"DISPERSOS / O SINAL DE DEUS"



[Imagem: Salvador Dali - "Medos"]



18.9.08

Inveja à La Quixote


Inveja à La Quixote

Tédio --
moinhos
sem vento

Tuca

Água da Memória



Água da memória

Tua lembrança durou
lentos femtosegundos...
Pesando eternidades

Tuca

O SONO

Oswaldo Goeldi - "Abandono"

O SONO
Murilo Mendes

Dorme.
Dorme o tempo em que não podias dormir.
Dorme não só tu,
Prepara-te para dormir teu corpo e teu amor contigo.
Dorme o que não foste, o que nunca serás.
Dorme o incêndio dos atos esquecidos,
A qualidade a distância o rumo do pensamento.

O pássaro magnético volta-se,
As árvores trocam os braços,
O castelo parou de andar.

Dorme.
Que pena não poder me ver - puro- dormindo

"POESIA /LIBERDADE"
LIVRO SEGUNDO
1943 - 1945

HOMENAGEM A OSWALDO GOELDI

Oswaldo Goeldi

HOMENAGEM A OSWALDO* GOELDI

Osvaldo gravas:
A ti mesmo fiel, ao teu ofício,
Gravas a pobreza, o vento, a dissonância,
A rude comunhão dos homens no trabalho.
Gravas o abandonado, o triste, o único,
O peixe que te mira quase humano
- É hora de morrer -
No preto e branco, no vermelho e verde.
Qualquer traço perdido,
A casa que espia pelo olho-de-boi
Testemunha de drama anônimo.
Gravas a nuvem, o balaio,
O geleiro es seus estilhaços,
O choque em diagonal de guarda-chuvas,
Tudo o que é rejeitado, elementos marginais,
A metade dum astro que se despe
Amado só do penúltimo vadio.
Osvaldo gravas,
Os peixeiros que partilham peixe e onda,
Pássaros de solidões de água e mato,
O sinaleiro do temporal próximo,
A barca puxada pela sirga,
O bêbado e seu solilóquio,
A chuva e seus túneis,
O mergulho em tesoura da gaivota.
És do sol posto, da esquina,
Do Leblon e do uivo da noite.
Não sujeitas o desenho à gravação:
Liberaste as duas forças.
Atingindo agora a unidade,
Pela natureza visionária
E pelo severo ofício
A tortura dominando,
Silêncio e solidão
Osvaldo gravas.

'POESIA/PARÁBOLAS"


*neste poema, Murilo Mendes escreve "Osvaldo"

DATAS




DATAS
Murilo Mendes

Os magos janeiram dia 6
Os peixes abrilam dia 1
A virgem setembra dia 8
Os mortos novembram dia 2.


"POESIA/CONVERGÊNCIA"

REVELAÇÃO


REVELAÇÃO
Murilo Mendes

Quando me inclinei sobre a água, a estrela saíra,
O parque elaborando curvas a seu gosto.
Um rumor de pássaros fixou-se na folhagem:
As árvores cantavam o que sobrou de Mozart.
Com as garras de veludo e ferro a noite
Ao seu colo atraía as demais formas.
Então a morte começou a filtrar palavras duras
Nos pares demarcados pela sombra,
- Desfaziam-se mãos, cabeças e cinturas -,
E o pequeno verme roeu a concha da vida,
Flechou a íntima dúvida nos corações
Que batiam em ritmo de marcha, apressados tambores
A aumentar o ruído das ruínas do céu
Tombando sobre nós todos, tombando.

"POESIA/PARÁBOLA"

Magnetismo




Magnetismo

preto no branco
branco no preto
quebranto

Tuca



[Ilustração: Ausra Capskyte]

17.9.08

←Capítulo XI-- Tao Te Ching


Capítulo XI Tao Te Ching
por Lao Tzu



Trinta raios cercam o eixo

O uso do carro está no seu vazio.

O jarro é feito de barro moldado

O uso do jarro está no seu vazio.

Fazem-se portas e janelas para a casa

O uso da casa está no seu vazio.

Portanto:

O ser serve para ser possuído

E o não-ser para ser utilizado.