31.10.08

Humildade




Humildade

Varre o chão de cócoras
Humilde.
Vergada.
Adolescente anciã.

Na palha, no pó
seu velho sári inscreve
mensagens de sol
com o tênue galão dourado.

Prata nas narinas,
nas orelhas,
nos dedos,
nos pulsos.

Pulseiras nos pés.

Uma pobreza resplandecente.

Toda negra:
frágil escultura de carvão.
Toda negra:
e cheia de centelhas.

Varre o seu próprio rastro.

Apanha as folhas do jardim
aos punhados,
primeiro;
uma
por
uma
por fim.

Depois desaparece,
tímida,
como um pássaro numa árvore.
Recolhe à sombra
suas luzes:
ouro,
prata,
azul.
E seu negrume.

O dia entrando em noite.
A vida sendo morte.
O som virando silêncio.



Cecília Meireles, do livro "Poemas Escritos na Índia "

Foto: Kuba Gornowicz




CONFISSÃO


CONFISSÃO

Pertenço à arqueologia
suave dos teus ombros
Amo-te sob os meus escombros

JAG
(23.09.04)
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/



Imagem: William Whitaker
.

Morada


Morada

Presença profunda
quase invisível -
crí(s)tica luz em mim.

Tuca




Jardim




Jardim


Alguém diz:
"Aqui antigamente houve roseiras" -
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.

Sophia de Mello Breyner - do livro "Poesia"

Imagem: Ivan Marchuk
.

30.10.08

Poeira


Poeira


Por mais que sacuda os cabelos,
por mais que sacuda os vestidos,
a poeira dos caminhos jaz em mim.

A poeira dos mendigos, em cinza e trapos,
dos jardins mortos de sede,
dos bazares tristes, com a seda a murchar ao sol,
a poeira dos mármores foscos,
dos zimbórios tombados,
dos muros despidos de ornatos,
saqueados num tempo vil.

A poeira dos mansos búfalos em redor das cabanas,
das rodas dos carros, em ruas tumultuosas,
do fundo dos rios extintos,
de dentro dos poços vazios,
das salas desabitadas, de espelhos baços,

a poeira das janelas despedaçadas,
das varandas em ruína,
dos quintais onde os meninozinhos
brincam nus entre redondas mangueiras.

A poeira das asas dos corvos
nutridos de poeira dos mortos,
entre a poeira do céu e da terra.

Corvos nutridos da poeira do mundo.

De poeira da poeira.


Cecília Meireles, Poemas Escritos na Índia





Lua nova


Lua nova

Uma cedilha
no coração
da noite.

(bel)



Meio-dia




Meio-dia


Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sonho alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner - do livro "Poesia"

Foto: "Legno" - Lucio Sassi

Parceria


PEDIDO

Para além dos montes
há um lugar de intenso silêncio:
Vem ouvir comigo!

Tuca




PROPOSTA

Para além das pedras
há um luar de extrema alvura:
Vem comigo!

Sonia R.



INCERTEZA

Para além da vida
haverá partilha?
Amor, vem viver o agora!

Tuca



Imagem: "Romance" - Lisa Linch Budding



VIAGEM


VIAGEM

Pássaro em vôo livre
renasço primavera:
dou asas às flores

Sonia R.


Foto: Edward Galagan


ESCULTOR




ESCULTOR

Eram de pedra os teus abraços
nas noites de despedida
Devagar tornei-me escultor

JAG
(4.9.04)


Foto: Ukraine_Kharkov - TrekLens
.

29.10.08

Simply Red - For Your Babies

Sobre a Alegria



"Afastar-se do sombrio pensamento de falta de valor e sentido.

O perigo de nossa época é que, por puro narcisismo, não vemos mais o que faria bem às pessoas próximas a nós. E com isso também deixamos de ver aquilo de que precisamos. Pois se giramos apenas em torno de nossas necessidades nunca estamos contentes. As necessidades são como um barril sem fundo. Mas quando paro de olhar apenas para mim mesmo, quando medito sobre as pessoas ao redor e me ocorre espontaneamente o que lhes faria bem e lhes daria alegria, isso me afasta do pensamento sombrio de falta de valor e de sentido. De repente sinto que tenho algum significado para os outros. Posso provocar alguma coisa. Posso melhorar a disposição ao meu redor. E com isso melhoro meu próprio estado emocional. Ao propiciar alegria para os outros, a alegria com a vida volta a crescer também em mim. Não preciso mais me afligir, me perguntando se isso é egoísta ou não, ou se o faço apenas para me sentir melhor. Posso confiar na sensação de que isso faz bem para mim e para o outro. Parece ser esta uma lei interna da alegria: expandir-se e afluir em direção ao outro. E ao fluir para o outro flui de volta para mim. Segundo Philipp Lersch, a alegria comporta "essencialmente o gesto do abrir-se, do abranger, do presentear-se". E há um ditado que diz: "Alegria compartilhada é alegria dobrada".

Anselm Grun - "Reencontrar a própria alegria"
Foto: Gaziantep_fotomaraton- Turkan ARPACI - TrekLens

O Labirinto da Vida




O Labirinto da Vida

"Nossa vida nunca é estrada de mão única. E na estrada de nossa vida, tanto interior, quanto exterior, não existem apenas desenvolvimentos em linha reta. Muitas vezes precisamos andar por desvios. Não poucas vezes nos sentimos lançados de volta ao ponto de partida, como se tudo tivesse sido em vão. Parece que deveríamos começar tudo de novo. Os labirintos nas igrejas medievais apresentaram claramente esta experiência e a transformaram em símbolo de nossa estrada da vida. Quando caminho por eles com atenção, esses labirintos mostram para mim algo sobre mim mesmo. Há pontos de inflexão em que só aparentemente eu volto ao ponto de partida. Na verdade é um caminho em espiral. Por meio de uma curva sou levado a um ponto, a partir do qual sinto que houve uma mudança de rumo. Agora posso com nova força caminhar para o centro, para a verdadeira meta.
Mudar o rumo, dar novo rumo a um vida que entrou no trilho errado - isto dá nova perspectiva. Isto muda a pessoa. O caminho aparentemente errado torna-se condição para uma verdadeira virada e transformação. Aparentes contratempos têm efeito positivo. Mostram-se como experiência benéfica."

Anselm Grun, "O livro da arte de viver"
.
Foto: Orhan Kaymak - TrekLens



Delicado presente


sonhei com você e dentro do sonho eu sabia que você não mais existia e meu olhar de alegria segurou o seu rosto como quem pára com cuidado o segundo em que um pássaro vem e pousa na mão num instante mutante feliz
Tuca

As palavras...


[Foto de autoria desconhecida]



“As palavras devem ser um pouco selvagens, porque são ataques dos pensamentos ao não-pensado.”
John Maynard Keynes



Esta frase foi citada pelo jornalista Daniel Piza:http://www.danielpiza.com.br/interna.asp?texto=2424



Uma Parábola


[Foto de autoria desconhecida]



Uma Parábola

Certa vez, disse o Buddha uma parábola:

Um homem viajando em um campo encontrou um tigre. Ele correu, o tigre em seu
encalço. Aproximando-se de um precipício, tomou as raízes expostas de uma vinha
selvagem em suas mãos e pendurou-se precipitadamente abaixo, na beira do abismo.
O tigre o farejava acima. Tremendo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do
precipício, outro tigre a esperá-lo. Apenas a vinha o sustinha.

Mas ao olhar para a planta, viu dois ratos, um negro e outro branco, roendo aos
poucos sua raiz. Neste momento seus olhos perceberam um belo morango vicejando
perto. Segurando a vinha com uma mão, ele pegou o morango com a outra e o comeu.

"Que delícia!", ele disse.





Sem culpa

vivendo o momento presente
saboreio o morango:
- que delícia!

tuca


Ciclos


[Foto:"bloodshot"-Per Hoj-Luxemburgo - TrekLens]



Ciclos

O choro da criança,
o olhar de um velho:
o mesmo barulho.
tuca
[Foto: "Kelimutu" - Stephen Harnett - Índia - TrekLens]


TURQUESA D'ÁGUA

As imensas rochas cinzentas
fecharam aquela turquesa d'água
num broche de chumbo.

E vinha o vento pelas altas fragas,
pelos muros de pedra,
escarpas calcinadas,
o vento de Golconda.
Com seus dedos de areia
que conheceram rubis e esmeraldas
e diamantes grandes como dálias.

E vinha o vento a gemer,
inquieto e cego,
o vento aventureiro.

Sentava-se ali na cinza das pedras,
à beira do lago.
Era uma lágrima, aquela turquesa,
única, redonda, azul.

Lágrima do vento.


Cecília Meireles
"Poemas escritos na Índia"



(...)



[Foto: Júlio C.]
http://olhares.aeiou.pt/




Quando São Francisco olhou intensamente para uma amendoeira no inverno e pediu a ela que lhe falasse sobre Deus, a árvore cobriu-se instantaneamente de flores.

Thich Nhat Hanh - "Vivendo Buda, vivendo Cristo"

28.10.08

MENINO

[Foto: Galeria de babasteve - Flickr]





MENINO



Trouxe o menino.
apanhei-o no bazar se ouro e de prata,
onde as jóias são como as folhas de mangueiras:
milhares, milhares.

Tudo ensurdecia: pulseiras, campainhas,
brincos de pingentes,
argolas para os tornozelos, correntes com guizos,
enfeites para tranças, corações com pedra sangrenta,
diamantes para a narina.

Mas eu só trouxe a criança.

Apanhei-o entre os carrinhos de comida,
grãos dourados, gomos de cana,
bolinhos fumegantes,
frutos de toda casta,
biscoitos de pistache e rosa,
açúcar em nuvens de lagodão.

Trouxe o menino.
Apanhei-o entre mulheres morenas, lânguidas,
sonâmbulas.
Entre velhos de barbas imensas, que recitam versículos.
Entre mercadores distraídos, de cócoras,
que fazem subir e descer douradas balanças.

Montes verdes, azuis, vermelhos: condimentos, colírio,
e óleo de gulab, rosa, rosa
para as tranças de seda negra.

Trouxe o meninozinho:
tem um sinal de carvão na testa
e furos nas orelhas
para muitos talismãs:
não ouvirá canto de sereia, nem sedução de demônio:
calúnia, mentira, lisonja,
ofensa ou engano das palavras humanas.

Trouxe o meninozinho - mas só na memória.
Menino que vai ser surdo, tão surdo
que jamais saberá deste meu doce amor.

As palavras rolarão sobre a sua alma
como pérola em veludo: sem qualquer som.

Trouxe o meninozinho nas minhas pálpebras:
um menino oriental, ainda de colo,
com os olhos negros circundados de colírio,
um menino que adormece com tinidos de pingentes de prata,
balanços de camelo.
Muito pobre, muito sujinho, de muito longe,
ainda do mundo dos anjos do Oriente:
enrolado em si mesmo,
pensativa crisálida,
na confusão do bazar.

Cecília Meireles - "Poemas escritos na Índia"





27.10.08

(...)




Sabíamos que os encontros jamais se repetem,
nem a emoção do alto amor.

Éramos todos de cristal e vento,
de cristal ao vento.

E andavam nuvens de saudade por cima dos jardins.

Tão grande, o mundo!
Tão curta, a vida!
Os países tão distantes!

E alma.
E adeuses.



trecho do poema Adeuses, de Cecília Meireles, Poemas Escritos na Índia, in Obra Poética - Volume Único, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1987

foto: Thich Nhat Hanh em meditação caminhando, Holanda ©Plum Village sites


Copiado do maravilhoso blog: http://paraserzen.blogspirit.com/




Luar


[Foto: ]Himalaya - Mikhail Perfilov - TrekLens]



Luar


O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.

Sophia de Mello Breyner - "Poesia"



Estorinha


[Foto: Scarlett Johansson-Cinderella-Annie Leibovitz-Shoot]


Estorinha

sapatinho não serviu
pezinho grande
principe ? nunca existiu !

Rose

DOLORES

["Delta" - Linda Christesen]



DOLORES

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

Extraído do livro " - Poesia Reunida", Editora Siciliano, 1991.

Talvez


[Foto:Mehmet Hamurkaroglu]





Talvez

Há um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.
"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.
"Que maravilhoso!" os vizinhos exclamaram.
"Talvez," replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.
"Que pena," disseram.
"Talvez," respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:
"Talvez."

"178 Contos Zen"






lavras

[Foto: Shubhankar Basu]

lavras

plantei as sementes
pelos campos do saber
colhi belas palavras

ydeo oga

Primavera I e II

[Foto: Marcelo Almeida]



Primavera I


Jacarandás, ipês,pessegueiros.
fazem a cidade de tela,
tingem a cidade de cor.

(bel)


Primavera II

No broto da flor
O sinal da paixão:
- de Deus.

(bel)

25.10.08

Na Varanda







O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

Na varanda
Onde o ar anda depressa
Vai embora na conversa
Nossa pressa de ficar

Na varanda
Onde a flor se arremessa
Onde o vento prega peça
Nos traz festa pelo ar

Na varanda
A criança se debruça
Mãe, menina ainda fuça
Nos cabelos a ninar

Na varanda
Onde a lua se levanta
Nossa rede se balança
Serenata pra acordar

Joga a trança
Busca o chão e não o céu
Qual barquinho de papel
Sonha ir de encontro ao mar (2x)

E a noite vem
Sendo o descanso do sol
E a ponte vem
Sendo a distancia de quem tá só

Um sol
Com a cabeça na lua
A lua que gira, que gira, que gira...

E a noite vem
Sendo o descanso do sol
E a ponte vem
Sendo a distancia de quem tá só

Um sol
Com a cabeça na lua
A lua que gira, que gira, que girassol



Desejos


[Foto: Galeria de Diogo Mudryk - Flickr]





Desejos..

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu

Carlos Drummond de Andrade

Natureza

[Foto: Ankara - TrekLens]




Natureza

Tudo ao redor de nós
é perfeito.
Dispensáveis, o cálculo e o pensamento.

Tuca

Como beija-flor

[Foto: black_amp_white_spider_awards_2007]


Como beija-flor

voando sempre por aqui
uso silencioso olhar
sorvo a cor das palavras


Tuca

Sensações


[Foto: nidokidos org.]


Sensações

Barulho rouco de trovão. A faísca laranja risca o cinza do céu.
O temporal desaba.
Forte.
Incolor, a água amolece o marrom da terra, sacode e derruba folhas já
amarelecidas.
Um cheiro provoca o ar, sobe, se insinua, lembra o verde do capim santo que
ladeia a casa antiga e azul.
Abro as janelas, a água fria, minha pele quente, suada.
Há uma música ao longe, no tempo, tocada por estrelas e temporais. Só eu escuto,
só eu danço.
Perdida na chuva, sob as lembranças, danço pra você.
Estou toda sensações.
(bel)

Conto Zen: 43. Natureza


[Foto: "scorpions" -Amri HMS]



43. Natureza

Dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião e novamente foi picado. O outro monge então perguntou:
"Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?"
"Porque," replicou o monge, "agir com compaixão é a minha natureza."

(Outra versão deste conto descreve uma raposa que concorda em carregar um escorpião em suas costas através de um rio, sob a condição que o escorpião não o pique. Mas o escorpião ainda assim pica a raposa quando ambos estavam no meio da correnteza. Enquanto a raposa afundava, levando o escorpião consigo, ela lamentosamente perguntou ao escorpião por que tinha condenado a ambos à morte ao picá-la. "Porque é minha natureza.". A mesma estória é encontrada na tradição indígena americana. No Brasil a raposa é substituída por um sapo.)

de "178 Contos Zen"

24.10.08

amuleto da Sorte


Muiraquitã, espécie de sapo amazônico usado como amuleto pelos indígenas.






Paráfrase







Paráfrase


Antes ser sob a terra, abolição e cinza
Do que se neste mundo rei de todas as sombras
Sophia de Mello Breyner

LENDA







LENDA


Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, acenderam um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu assomava uma estrela que ainda não tinha recebido seu nome. À luz das chamas, Caim percebeu na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava prestes a levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado seu crime. – Tu me mataste ou eu te matei? – Abel respondeu. – Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes. – Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim –, porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer. – É assim mesmo – Abel falou devagar. – Enquanto dura o remorso, dura a culpa.



(...)

[Foto: Upul Premaratne-Butão - TrekLens]


"Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração."
(S.Lucas 12:34)
.
.
.

Vertente


[Foto: Coucelo - "Olhares - Fotografia Online"]



Vertente

nas linhas do teu rosto,
tristes palavras escorridas -
escrita de lagrimas

Tuca

Sementeira


[Foto: Agatha Katzensprung]



Sementeira


Uma flor quase seca,
não merece campo novo.
Deixe-a esperar no silêncio

Tuca

FRAGMENTOS DE UM EVANGELHO APÓCRIFO


[Foto: Donnie Sinongco - "Felizes os felizes"]



Jorge Luis Borges - "Elogio da Sombra"




FRAGMENTOS DE UM EVANGELHO APÓCRIFO

3. Desventurado o pobre de espírito, porque sob a terra será
o que agora é na terra.
4. Desventurado aquele que chora, porque já tem o hábito
miserável do pranto.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa
de glória.
6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.
7. Feliz aquele que não insiste em ter razão, porque ninguém
a tem ou todos a têm.
8. Feliz aquele que perdoa aos outros e aquele que perdoa a
si mesmo.
9. Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem
com a discórdia.
1O. Bem-aventurados os que não têm fome de justiça, porque
sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do aca-
so, que é inescrutável.
11. Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felici-
dade está no exercício da misericórdia e não na esperança
de um prêmio.
12. Bem-aventurados os de puro coração, porque vêem Deus.
13. Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa
da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu dês-
tino humano.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de
sua vida, não o é.
15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum
homem a veja. Deus a verá.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e tam-
bém os que digo e os que os profetas disseram.
17. Aquele que matar pela causa da justiça, ou pela causa que
ele crê justa, não tem culpa.
18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.
19. Não odeies teu inimigo, porque, se o fazes, és de algum
modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és
tua alma, e é árduo, ou impossível, precisar a fronteira que
os divide...
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que no
fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
25. Não jures, porque todo juramento é uma ênfase.
26. Resiste ao mal, mas sem assombro e sem ira. A quem te
ferir na face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que
não te mova o temor.
27. Não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a
única vingança e o único perdão.
28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça e não é
árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de agradar a
tua vaidade.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio,
e este, da tristeza e do tédio.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e, se não é assim,
não é teu o erro.
32. Deus é mais generoso que os homens e os medirá com
outra medida.
33. Dá o santo aos cães, atira tuas pérolas aos porcos; o que
importa é dar.
34. Procura pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar...
39. A porta é a que escolhe, não o homem.
40. Não julgues a árvore por seus frutos nem o homem por
suas obras; podem ser piores ou melhores.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas
nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...
47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante
a derrota ou os aplausos.
49. Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio
ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir
do amor.
51. Felizes os felizes.


O novo


[Foto: TrekLens - Malásia]



Paulo Leminski - "Caprichos e Relaxos"



o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol
apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo
pétala
não caia esse orvalho
olho
não perca essa lágrima
auras que já se foram
grato pela graça
a graça que eu acho
em tudo que fica
por tudo que passa



23.10.08

Resposta ao Tempo




Resposta ao Tempo
Nana Caymmi
Composição: Aldir Blanc/Cristovão Bastos

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, e ele não vai poder
Me esquecer

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer




Tocando em Frente


Tocando em Frente

Composição: Almir Sater e Renato Teixeira

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei,
Nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso chuva para florir...

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente,
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou.
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, e no outro vai embora.
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz,
E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz






Como o rumor...


Como o rumor


Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
algo emerge: primordial projecto

Sophia de Mello Breyner

Um Deus dançarino


[Foto: Shiva Nataraja, o Deus da Dança]


“Eu só creria num Deus que soubesse dançar… ” Friedrich Nietzsche

Casablanca


[Foto: "The-Last-Dance"-Fine Art Print]






Casablanca





Sei que não é tudo, e de tudo eu sei, ou pensei que soubesse.
Mas aquele papo no Chat me envolveu, tanto, que te convidei pra dançar.

Queria ler, e me sentir embalada pelo som da música, daquela música.

E você foi colando na tela, linha a linha.

You must remember this, a kiss still a kiss..

Eu cantarolava baixinho e respondia, fechava os olhos e talvez pudéssemos
estar no mesmo espaço, abraçados, agarrados. Quem sabe!

As letras, eu sei, chegavam de longe, mas você estava aqui.

E dançamos colados até passar o efeito, do chat, da paixão.

Foram muitos meses, muitos os encontros, e muita emoção.

Sem despedidas, nunca mais nos encontramos, não mais dançamos, nunca
mais te vi.



The fundamental things apply, as time goes by.......



(maria Izabel)






CANÇÃO DO MENINO QUE DORME

[foto: "O sonho" - José Afonso]


CANÇÃO DO MENINO QUE DORME

Cecília Meireles

Quente é a noite,
o vento não vem.
E o menino dorme tão bem!

Menino de rosto de tâmara,
tênue como a palha do arroz,
os bosques da noite vão tirando sonhos
de dentro de cada flor.

Águas tranqüilas, com búfalos mansos,
elefantes de arco-íris na tromba.
Pássaros que cantam nas varandas verdes
das mangueiras redondas.

Ah, os macaquinhos do templo de Rama
constroem rendadas pontes de bambu,
menino de luz e colírio,
são de ouro e de açúcar os pavões azuis!

Passam como deusas noivas escondidas
em cortinas de seda encarnada:
em volta são grades e grades de música,
de dança, de flores, de véus de ouro e prata.

Quente é a noite,
o vento não vem.
E o menino dorme tão bem!

Oh, a monção que levanta as nuvens,
que faz explodir os trovões,
não leva os meninos de retrós e sândalo
tênues como palha de arroz!

(...)

[Foto: Manee Makkala]



Os olhos dos cavalos são como rios passando.
Cecília Meireles

22.10.08

Sexta-feira 13

[Foto:"laventana"-Paco Arrufat -Espanha-TrekLens]



Sexta-feira 13

Há uma lua imensa
presa no céu.
Minhas bruxas estão à solta.

(bel)

O Pescador e seu Ajudante


[Fotografia: Lucian Muresan - China - TrekLens]

Complicando o que é simples

[Fotografia: TrekLens - China]




Gato Ritual - Complicando o que é simples

Quando um mestre espiritual e seus discípulos começavam sua meditação do anoitecer, o gato que vivia no Monastério fazia tanto barulho que os distraía. Então o professor ordenou que o gato fosse amordaçado durante a prática noturna. Anos depois, quando o mestre morreu, o gato continuou a ser amarrado durante a meditação. E quando o gato eventualmente morreu, outro gato foi trazido para o Monastério e amarrado. Séculos depois, quando todos os fatos do evento estavam perdidos no passado, praticantes intelectuais que estudavam os ensinamentos daquele mestre espiritual escreveram longos tratados escolásticos sobre a significância de se amordaçar um gato durante a prática da meditação...