30.10.09

Mar

Guarujá - TucaKors



Mar

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

28.10.09

Morada

henri Lecaire




Morada

Presença profunda
quase invisível -
crística luz em mim.

TucaKors




Polaridade

life - Italia- George Girnita




Polaridade

Volto ao reino do gelo.
A timidez não é difarce -
lapida cristal de lágrima, com arte.

TucaKors




Os amigos invisíveis

Latvia - Zanda Bernane



Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade. Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.
Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira. Temos o costume de confundir amizade com onipresença e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão. Amizade não é dependência, submissão. Não se têm amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra. É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.
Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa. Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas. E já se está falando mal dele por falta de notícias. Logo dele que nunca fez nada de errado!
O que é mais importante: a proximidade física ou afetiva? A proximidade física nem sempre é afetiva. Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.
Amigo mesmo demora a ser descoberto. É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.
Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios. São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem-estar.
Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade. Aqueles que não estão perto podem estar dentro. Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente. Não vou mentir a eles ¿vamos nos ligar?¿ num esbarrão de rua. Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.
Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados. Ou passar em casa todo o final de semana e me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Caso encontrá-los, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação. Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.
Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia, do blog. Significativos em cada etapa de formação. Não estão em nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinando, de modo imperceptível, as nossas atitudes.
Quantas juras foram feitas em bares a amigos, bêbados e trôpegos? Amigo é o que fica depois da ressaca. É glicose no sangue. A serenidade.

- Fabricio Carpinejar


Eugene Martin's Ornithology Lesson, Part I.

Pierre Verger registra cenas de uma Andaluzia pacífica


Pierre Verger: «Sorbas, Almería» (1935)


27/10/2009

Pierre Verger registra cenas de uma Andaluzia pacífica


de Folha Online

Cenas do cotidiano, na região de Andaluzia, foram clicadas pelo fotógrafo Pierre Verger em 1935. Esse material reunido deu origem à exposição "Andalucía 1935 - Ressucción de la Memória", que será aberta ao público nesta quinta-feira (29), na Galeria Olido (região central da capital paulista).

Realizado durante uma viagem de bicicleta, o registro do fotógrafo franco-brasileiro tem um valor documental por exibir cenas de uma Andaluzia pacífica, um pouco antes do início da Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

A mostra que chega a São Paulo contempla 70 fotografias em preto e branco, que foram encontradas por pesquisadores da Fundação Ceiba, e eterniza anônimos que caminham por ruas, mercados locais e procissões religiosas.

Viajante incansável, Verger também dedicou-se ao estudo da sobrevivência das culturas das populações negras da África nos Estados Unidos e da diáspora africana.

Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro já receberam a mostra, que permanece na galeria até 22 de dezembro.


"As Coisas"






do livro"As Coisas", de Arnaldo Antunes






Um nome...

The National Print Museum Dublin - Janek Kloss




Um nome...

Um nome, um nome apenas, evocando alguém,
um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente
para avançar pela noite dentro, esperar a morte,
ou iniciarmos o regresso...

Al Berto

de O Anjo Mudo, Contexto, 1993

Adivinha quem é?

pushkins_Latvia - Inese Vanaga






Você me diz
para separar o joio do trigo
como se fosse possível assim a ruptura
sem fincar alguma lasca de osso no ouvido
Como se fosse possível dar à borboleta outro viço
em velho colorido
Não se quebra asa de pássaro sem ruído
Além do mais é misturado que se dá o gosto
-meu pecado, sua santidade
(e também o oposto)-
Ouça o que lhe digo
sem joio não haverá bom trigo
nem amoras
nem luas
nem tarântulas de luas
nem pássaros
nem perigo de pássaros
Sem joio só restará o escasso plantio do depois,
com sua escancarada nudez, a dançar em estéril ventania.
Lázara Papandrea


Ovelha na névoa


Colinas mergulham na brancura. 
Estrelas ou pessoas 
Me olham com tristeza, desapontadas comigo. 

Um fio de hálito fica no caminho. 
Ó, lento
Cavalo cor de ferrugem, 

Cascos, sinos doendo – 
A manhã toda 
Manhã ainda escurecendo, 

Essa flor ao relento. 
Meus ossos sentem um sossego, os campos 
Distantes dissolvem meu coração. 

Eles ameaçam 
Me abandonar por um céu 
Sem estrelas e órfã, água escura.


- Sylvia Plath, em "Poemas – Sylvia Plath". [organização, tradução, ensaios e notas Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça]. São Paulo: Iluminuras, 2007. 

Gatices

Conversa de gatos

Gatos & Janela

26.10.09

Estátua viva

Lambriana Peleka




Daisies-mandala

daisies - Yanni Arvanitis







Amor ao mar







Colin Barron






Grecia - Dusan Stefanovic






Serena idade

The Clock Keeper - Yitzhak Avigur


Serena idade

Piso sem fazer alarme.
Plena calma -
quase alma.

TucaKors




Desapontamento

Finlandia - Timo Hirvonen


Desapontamento

Tentei segurá-lo, em vão.
(As pessoas somem tão rápido!)
Gelo em minhas mãos quentes.

TucaKors




TV ligada

moon_face - Dinamarca - Michael Dolby



TV ligada

Heróis infantis
lutam contra o mal.
Na tela mental: desejos animados...

TucaKors

Epigrama

daisy_tree_ Kristina Iolob


Epigrama



Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.



Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranqüilo

diante da vida ou da morte.

Marly de Oliveira

V

cristais - Germany - Bernd Matheis




v



Quando flores e nuvens,

mosaicos de silêncio repentino,

frescos vales e montes,

onde a erva cresce e o gado se apascenta,

e o rio sua prata

oferece gentil, à móvel brisa

de sede sossegada,

quando tudo o que tenho for lembrança;

que será do que vejo,

se a mais fiel memória transfigura

o que lembra? No entanto,

o mesmo milho crescerá no campo,

repetindo o ritual

de há milênios; as mesmas-outras águas

espelharão no dorso

de vidro movediço os mesmos ramos.

Estas serão as árvores,

as verdadeiras, íntegras, antigas,

que só com o pensamento

eu não alcançarei em plenitude



de silêncio e de vida.

Pois uma coisa é ter, outra, lembrar.

Uma coisa é viver,

viver em bruto, o sol dando na pele,

o vento levantando

cortinas de esperança e esquecimento;

outra coisa é criar.

Criar quase prescinde do que existe.

O que existe é somente

um rascunho ou um ponto de partida.

Enquanto posso, vivo

a fértil realidade destes longes.

Laboriosa construo

com este mel, para os futuros sonhos, aprazível morada.

Marly de Oliveira



III

banka - Wojciech Ryzinski




III



Hoje não vou colher

nem laranjas, nem flores, nem amoras.

Vou ver crescer o dia

no redondo das frutas,

e ouvir sem pressa o canto destas aves.

Serão as mesmas de ontem?

Um dia a mais que fez de mim, que faz?

E as aves que cantavam,

se não são estas, onde

estão? O canto apenas se repete?

Aquela que ontem via

o que ora vejo} não é mais em mim?

Então eu me renovo

como as águas e as plantas?

Sou outra} ou me acrescento ao que já sou?

No entanto, é tudo igual,

embora eu saiba que só na aparência;

e meu prazer me vem

de estar sentada aqui,

detendo um tempo que se não detém.

Marly de Oliveira



Múcio Góes estava ouvindo Stairway to Heaven.
 
era noite, nós dois entre estrelas, teus cabelos emaranhados em minha barba, rosto a rosto , gostos gêmeos na boca, suor, saliva, promessas de infinitude, tudo para sempre. lá fora, lua e mar loucos
para invadir nosso fusca.

25.10.09


"Você se decepcionou sozinho, ignorando o direito das pessoas serem o que são. Então você é responsável pelo que está sentindo."

"Eu não estou neste mundo para viver correspondendo às expectativas de ninguém, nem acho que o mundo deva corresponder às minhas."

(Fritz Perls)




24.10.09

Marguerite Yourcenar



Marguerite Yourcenar

Marguerite Yourcenar nasceu em 1903, em Bruxelas (Bélgica). Yourcenar é um anagrama imperfeito de seu sobrenome verdadeiro: Crayencour.

Descendente de uma família de origem aristocrata, não chegou a conhecer a mãe, que morreu poucos dias após o seu nascimento. Educada pelo pai, estuda línguas - latim, grego, italiano e inglês - e viaja em sua companhia durante grande parte da infância.

Começa a escrever ainda na juventude, tendo publicado seu primeiro livro, O Jardim das Quimeras, aos 17 anos. Em 1924, numa de suas viagens pela Itália, conhece em Tivoli a villa Adriana e inicia o primeiro caderno de notas para o livro Memórias de Adriano (1951), até hoje sua obra mais conhecida.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Yourcenar fixa residência nos Estados Unidos; em 1947, naturaliza-se cidadã norte-americana. Em 1971, torna-se membro estrangeiro da Academia Belga de Língua e Literatura. Nove anos depois, seria a primeira mulher eleita para a Academia Francesa.

Marguerite Yourcenar morreu em 1987, nos EUA. Entre seus outros livros de ficção e ensaio, podem-se mencionar A Obra em Negro (1968), O Labirinto do Mundo (1974-77), Mishima ou A Visão do Vazio (1981) e O Tempo, Esse Grande Escultor (1983).



Trecho do livro "Memórias de Adriano"

“A construção de um templo dedicado a Todos os Deuses, de um Panteon, se me impunha. Escolhera seu lugar sobre as ruínas dos antigos banhos públicos oferecidos ao povo romano por Agripa, o genro de Augusto. Nada restava do antigo edifício além de um pórtico e de uma placa de mármore com uma dedicatória ao povo de Roma. Essa placa foi cuidadosamente recolocada, exatamente como era, no frontão do novo templo. Pouco me importava que meu nome figurasse ou não num monumento que era a expressão do meu pensamento. Agradava-me, muito pelo contrário, que uma velha inscrição de mais de um século o associasse ao princípio do Império, ao reino pacificado de Augusto. Mesmo quando inovava, preferia sentir-me, antes de tudo, um continuador. O ato de dedicação do templo de Vênus e de Roma foi uma espécie de triunfo acompanhado por corridas de carros, espetáculos públicos, distribuição de especiarias e perfumes.(…) A data escolhida para a festa foi o dia do aniversário de Roma, o oitavo após os Idos de Abril do ano 882 depois da fundação da Cidade. A primavera romana nunca fora mais doce, mais violenta, nem mais azul. No mesmo dia, com uma solenidade mais grave e como que abafada, teve lugar uma cerimônia consagratória no interior do Panteon. Eu próprio corrigira os planos demasiado tímidos do arquiteto Apolodoro. Utilizando as artes da Grécia como simples ornamentação, ou um luxo a mais, procurei voltar, pela própria estrutura do edifício, à época fabulosa e primitiva de Roma, ao mesmo tempo que reproduzia os templos redondos da Etrúria antiga. Quis que esse santuário de todos os deuses reproduzisse a forma do globo terrestre e da esfera estelar, do globo onde se encerram as origens do fogo eterno, da esfera oca que tudo contém. Era igualmente a forma das cabanas ancestrais, nas quais a fumaça dos mais antigos lumes humanos escapava por um orifício situado no topo. A cúpula construída de uma lava sólida e leve, que parecia participar ainda do movimento ascendente das chamas, comunicava com o céu por uma grande abertura alternadamente negra e azul, tal como a noite e o dia. Esse templo, ao mesmo tempo aberto e secreto, era concebido como um quadrante solar. As horas girariam naqueles caixotes cuidadosamente polidos por artífices gregos, e o disco do dia ficaria suspenso ali como um escudo de ouro. A chuva formaria uma poça de água pura no pavimento e as preces escapar-se-iam como fumaça em direção ao vazio onde costumamos colocar os deuses. Essa festa foi para mim uma dessas horas em que tudo converge.”

fonte: http://www.urbanamente.net/blog/




Camafeu

dziesmu_sveetki_Latvia - Lelde Latkowska




CAMAFEU



A minha avó morreu sem ver o mar. Suas mãos, arquipélago de nuvens,
Matavam as galinhas com asseio; o mar também dá sangue quando o peixe
Vem arrastado ao mundo (o nosso mundo); no entanto no mar é muito diferente.
As gaivotas, mergulhando, indicam o caminho mais curto entre dois sonhos
Mas minha avó era feliz e doce como um nome pintado em uma barca.
Sua ternura eterna não temia a trombeta do arcanjo e o Dies lrae:
Sentada na cadeira de balanço, olhava com humor os vespertinos.
Sua figura pertenceu à terra, porém o mar, rainha impaciente,
0 mar é uma figura de retórica. No porto de Cherburgo, há muitos anos,
Ouvi na cerração o mar aos gritos, mas minha avó jamais ergueu a voz:
Penélope cristã, enviuvada, fazia colchas de retalhos fulvos.
0 mar é uma louça que se parte contra as penhas, enquanto minha avó
Fechava a geladeira com um jeito suave, anterior às geladeiras.
Igual ao mar, os dedos da manhã a despertavam num rubor macio;
Pelo seu corpo quase centenário a invisível vaga do sol se espraiava,
A carne se aquecia na torrente dos constelados glóbulos do sangue,
As pombas aclamavam outro dia da crônica do mundo (o nosso mundo)
E de uma criatura que se orvalha em suas bodas com a terra dos pássaros
Matutinos, das frutas amarelas, da rosa ensangüentando de vermelho
0 verde, o miosótis, o junquilho, e em tudo um rumor fresco de águas novas,
Um verdejar de abóboras, pepinos, um leite grosso e tenro, e minha avó
Com tímida alegria indo, vindo, a prever e ordenhar um dia a mais,
Assim como as abelhas determinam mais 24 horas de doçura.
E enfim no litoral destes brasis, o mar afogueado amando a terra
Com seu amor insaciável, dando um mundo ao mundo (o nosso mundo)
E a gravidade intransigente do mistério. Mas minha avó morreu sem ver o mar.

Paulo Mendes Campos



Arnaldo Antunes, concreto, firme e direto



Arnaldo Antunes, concreto, firme e direto


Ele pode ser definido como uma pessoa tímida, mas também como cantor, compositor, artista plástico, ator e desenhista. Para muito foi uma espécie de logotipo dos Titãs, para outros um ícone dos anos 80. Arnaldo Antunes também pode ser definido como um alquimista das palavras, e foi essa alquimia que fez abandar uma carreira sólida na banda Titãs e percorrer novos caminhos misturando musica e poesia, rock e canção de ninar.

Arnaldo Antunes em um dia inspirado escreveu e representou a voz de uma juventude e sociedade ao dizer que na musica Comida “A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor, a gente não quer só comer, a gente quer prazer prá aliviar a dor…”

Arnaldo Antunes o artista dos encontros, em 2002 ao lado de Marisa Monte e Carlinhos Brown, parceria essa que já havia composto outras canções para a cantora Marisa Monte, desta vez a mistura foi mais alem, juntando a voz doce e e veludada de Marisa, o grave timbre de Arnaldo e a percussão hipnotizaste e mística de Carlinhos, lançaram o álbum Tribalhista, aquelas coisas tipo um cometa que passa a cada 75 anos, mas que gostaríamos que fosse mais constante em nossas vidas!

O lado escritor de Arnaldo deu vazão em seu período como ensaísta na Folha de São Paulo, onde deixou evidente o substrato teórico que transparece no seu trabalho estético.

Veja abaixo um poço de sua poesia concreta, firme e direta!

Vejo Miro - 2002 Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Vejo Miro - 2002 Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Perder - 2002 Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Perder - 2002 Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Seja o que for - 2002 Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Seja o que for - 2002 Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Átomo Divisível - 1997 Publicado inicialmente no livro 2 OU + CORPOS NO MESMO ESPAÇO, ed. Iluminuras (1997).

Átomo Divisível - 1997 Publicado inicialmente no livro 2 OU + CORPOS NO MESMO ESPAÇO, ed. Iluminuras (1997).


Fonte: http://www.culturadebolso.org/

23.10.09

Felicity, meu amor!

TucaKors

Um jardim em fuga...

TucaKors



Um jardim de setembro

TucaKors



Um Casamento à Indiana (Monsoon Wedding)



Um Casamento à Indiana

* ano de lançamento ( Índia ) : 2001
* direção: Mira Nair
* atores: Naseeruddin Shah , Lillete Dubey , Shefali Shetty , Vijay Raaz , Tilotma Shome
* duração: 01 hs 59 min

Descrição
A diretora Mira Nair leva às telas a história de um casamento arranjado entre uma noiva indiana e um engenheiro texano




Sinopse
Segundo a tradição indiana, quando uma família se reúne para o casamento de seus filhos, todos ficam hospedados na mesma casa, onde todos comem, bebem, dançam, cantam e contam velhas histórias.Este é o clima de UM CASAMENTO À INDIANA, premiado filme da cineasta Mira Nair, que narra as núpcias entre a angustiada Adita (Vasundhara Das) e o engenheiro Hermant Raí (Parvin Dabas). Ela não ama o futuro marido. O casamento é apenas o pano de fundo para uma série de acontecimentos curiosos, que tem como cenário a Índia, país de tradições e costumes que merece ser conferido.



Ilusão?

Salvador Dali e daqui - Alex Kors




memoirs-geisha-illusion - factum




jaguar-headscarf- Found at yeah-oops




"rosto - enquanto - máscara
máscara - enquanto- rosto"

Susan Sontag

Minha dona me ama...

pet-ra - Janos Balog

Passa, passa, passatempo

A.D.

Minha vida sem mim





Minha vida sem mim
13/05/2004
por Érico Borgo



Minha vida sem mim
My life without me
Canadá/Espanha,
2003 - 106 min.
Drama

Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet, Nancy Kincaid (livro)

Elenco: Sarah Polley, Scott Speedman, Deborah Harry, Mark Ruffalo, Leonor Watling, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Jessica Amlee, Kenya Jo Kennedy, Alfred Molina

O que você faria se tivesse apenas mais dois meses de vida?

A premissa é batida e parecia já ter sido suficientemente explorada pelo cinema. Entretanto, Minha vida sem mim (My life without me, 2003) revisita o tema com grande sensibilidade e não se apóia no sentimentalismo barato ou nas lições de vida engrandecedoras que geralmente pontuam as produções do gênero.

A protagonista é Ann (Sarah Polley), uma jovem faxineira de uma universidade que leva uma vida difícil. Com duas filhas pequenas pra cuidar - a mais velha nasceu quando ela tinha apenas 17 anos - e um marido desempregado (Scott Speedman), ela é obrigada a viver em um minúsculo trailer estacionado no terreno atrás da casa de sua mãe (Debbie Harry, da banda Blondie), uma mulher amargurada e infeliz.

Depois de um desmaio em casa, Ann faz uma consulta com um médico e descobre que tem uma doença em estágio terminal. Restam-lhe apenas mais dois meses de vida, afirma o tímido médico, incapaz de olhar a moça nos olhos. É exatamente a partir daí que o filme desvia-se do usual: Ann decide esconder o fato de sua família e parte para realizar uma lista de pequenas que nunca fez e que gostaria de experimentar. Nada de grandioso ou memorável. Coisas tão absolutamente comuns e humanas que fica impossível não se relacionar com a personagem. Não há heroísmos. Não há rompantes de compreensão do sentido da vida ou sofrimentos exacerbados. Existe apenas uma jovem colocando sua própria vida, pela primeira vez, como prioridade.

O filme foi produzido pela El Deseo, produtora dos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar, e foi dirigido com enorme equilíbrio por Isabel Coixet, uma profissional oriunda do mercado publicitário. A seleção do elenco foi bastante cuidadosa e o resultado é totalmente convincente. Polley (Madrugada dos mortos) atua com sutileza e revela grande talento, Speedman (Underworld) interpreta um marido devotado, Amanda Plummer (Ken Park) faz um ótimo trabalho como uma colega de Ann que vive metida em regimes e Mark Ruffalo (Em carne viva) está em um de seus melhores momentos como um rapaz que a protagonista conhece numa lavanderia.

Mas não pense que só porque Minha vida sem mim não segue a cartilha dos dramalhões que não se trata de um filme essencialmente triste. Esse é o tipo de história capaz de comover qualquer um, por incitar meditações sobre a vida, seu fim, e faz pensar e planejar seu tempo restante. Seja ele dois meses, alguns anos ou décadas. Como se fosse possível calcular algo assim...

Fonte: http://www.omelete.com.br/




Diários - Susan Sontag



Diários
Susan Sontag
1947 - 1963

Algumas frase recolhidas na leitura deste livro:


Em filosofia, a cobra engole o seu rabo; pensar sobre pensar.

A coisa mais preciosa é a vitalidade: vontade + energia + apetite para fazer.

Será que sou eu mesma quando estou sozinha?

rosto - enquanto - máscara
máscara - enquanto- rosto

Importante tornar-se menos interessante. Falar menos.

A gentileza não é uma virtude. É tratar as pessoas com inferioridade.

Quantas vezes podemos nos queixar da mesma coisa?

Em todo casal existe alguém que é o historiador do relacionamento.

Existem graus de "verdade sobre"

Que instrumento delicado é a língua.

Sentir-se magoada é passivo; sentir-se zangada é ativo.

A fonte da depressão é a raiva reprimida.

Estou cheia de ter opiniões, estou cheia de falar.

Simplificar nossas necessidades e procurar ter um papel ativo quanto a satisfazê-las.

A única espécie de sensualidae que compreendi supõe o amor da volúpia + conforto.

Para escrever é preciso permitir-se a ser a pessoa que você não quer ser (entre todas que você é).

Não seja cuidadosa quando houver uma coisa boa.

O passado não é nada mais que um sonho.

Eu gosto das pessoas que exteriorizam seus sentimentos.

Tomar consciência dos"pontos mortos" dos sentimentos. Falar sem sentir nada.

Eu não fui a filha da minha mãe.

Mas eu nem cheguei a ser criança de verdade!

A razão porque não sou boa na cama - não "peguei o jeito" sexualmente.

Não profanar o mistério olhando.

Estou com fadiga cerebral e dor no coração. Onde fica a paz, o centro?

O olhar é uma arma.

Trabalho = estar no mundo.

Susan Sontag renascida: 'Diários (1947-63)'




Susan Sontag renascida: 'Diários (1947-63)'

Quando Susan Sontag morreu, em 2004, cem cadernos estavam empilhados num armário de sua cobertura no Chelsea, em Nova York. Eram os diários escritos por ela, continuamente, desde a adolescência até os últimos anos de vida. Onipotente como era, Sontag jamais pensou que fosse morrer — já sobrevivera a dois cânceres e achava que venceria a leucemia também. Falava o tempo todo sobre novos projetos e nunca sobre o que deveria ser feito com os diários.

Voz importante da cena intelectual americana, ela jamais permitiu que suas anotações nos cadernos fossem publicadas, nem nunca leu trechos para amigos ou parentes. Também sempre foi discreta a respeito de suas ambições profissionais e de sua vida particular — não escondia, mas evitava comentar sua homossexualidade, e manteve fora da mídia a relação de mais de uma década com a fotógrafa Annie Leibovitz, tão famosa quanto ela.

Uma adolescente entediada e extremamente crítica

Por tudo isso, foi difícil tomar a decisão de editar os textos particulares de Sontag. Reticente mas convencido de que eles acabariam públicos, David Rieff, jornalista respeitado e filho da intelectual, resolveu transformar os cem cadernos em três volumes, o primeiro deles, “Diários — 1947-63”, pronto para chegar às livrarias brasileiras na próxima semana com o selo da Companhia das Letras.

“Nos diários, eu não apenas me expresso mais francamente do que faria com qualquer pessoa; eu me recrio”, escreve a jovem Sontag. Sinal de que nada era verdadeiramente secreto? Aparentemente não, pelo menos nesta primeira compilação de anotações feitas nos anos de iniciação intelectual e emocional da romancista, teatróloga, militante dos bons combates que, com um pensamento original, participou da maioria das polêmi$da segunda metade do século XX e dos primeiros anos do XXI.

“Estes diários são reais e, ao lê-los, quero gritar: ‘Não faça isso’ ou ‘Não seja tão severa consigo mesma’ (...) Mas claro que cheguei tarde demais: a peça já foi encenada e o seu protagonista já partiu”, comenta o filho editor em seu comovente prefácio ao livro.
“Diários” começa com Sontag adolescente e entediada e termina às vésperas de ela se lançar $escritora com “Notes on camp”. Precoce, na primeira anotação Sontag tem pouco mais de 14 anos, mas já tinha lido e opinava sobre Gide, Dostoievski e muitos outros monstros sagrados da literatura. Aos 16, confessava, sem pudor, seu profundo desapontamento com Thomas Mann, depois de uma entrevista feita com o autor de “A montanha mágica” em companhia das colegas de universida$. Reproduz as respostas do escritor e, escreve: “Os comentários do autor, por sua banalidade, traem seus livros”.

Poucas linhas sobre casamento e nascimento do filho

Em contradição com sua segurança intelectual, o aprendizado emocional é sofrido como o da maioria das adolescentes daquela época. É com sinceridade quase infantil que Sontag conta seu susto com a descoberta do fascínio sexual que as mulheres exerciam sobre ela e, depois da primeira noite de amor, exclama “Tudo recomeça a partir de agora. Eu renasci...”, levando o filho a escolher “Reborn” (renascimento, em inglês) como título original do livro.

Mas no fim do verão de sexo e álcool em São Francisco, em que exercita sua homossexualidade, troca a UCLA na Califórnia por Harvard e volta a trabalhar com seriedade. Em apenas três comentários registra o encontro com o professor adjunto Philip Rieff e, 17 dias depois, o casamento. “Casei com Philip com plena consciência + medo da minha própria vontade apontada para a autodestrutividade”, comenta.

O nascimento do filho e os anos do casamento passam quase em silêncio, mas Sontag renasce outra vez ao abandonar casa e família para uma pós-graduação em Londres e uma imersão na cultura francesa, aprendida em livros e bares de Saint Germain, em Paris. Ao voltar a Nova York, Susan Sontag estava pronta para assumir seu lugar na história do pensamento.

Trechos de 'Diários (1947-63)', de Susan Sontag

23/5/49

Agora conheço um pouco da minha capacidade... Sei o que quero fazer da minha vida, e tudo isso é tão simples, mas era tão difícil para mim saber no passado. Quero dormir com muitas pessoas - quero viver e ter ódio de morrer - não vou lecionar, nem fazer o mestrado depois da graduação... Não pretendo deixar que o meu intelecto me domine e a última coisa que quero é cultuar o conhecimento ou as pessoas que têm conhecimento! Não dou a mínima para o acúmulo de fatos de ninguém, exceto quando se tratar de uma reflexão sobre a sensibilidade elementar, de que eu de fato preciso... Quero fazer tudo... ter um modo de avaliar a experiência - se me causa prazer ou dor, e tenho de ser muito cuidadosa quando rejeitar a dor - tenho de perceber a presença do prazer em toda parte e encontrá-lo também, pois ele está em toda parte! Quero me envolver completamente... tudo é importante! A única coisa a que renuncio é a capacidade de renunciar, de recuar: a aceitação da mesmice e do intelecto. Eu estou viva... eu sou linda... o que mais existe?

31/12/57

Sobre fazer um diário.

É superficial entender o diário apenas como o receptáculo dos pensamentos privados, secretos, de alguém - como um confidente que é surdo, mudo e analfabeto. No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto do que poderia fazer com qualquer pessoa; eu me crio.

O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Ele me representa como emocional e espiritualmente independente. Portanto (infelizmente) não apenas registra minha vida real, diária, mas sim - em muitos casos - oferece uma alternativa para ela.

13/8/61

Nunca entendi o ascetismo. Sempre achei que era proveniente da falta de sensualidade, falta de vitalidade. Nunca me dei conta de que existe uma forma de ascetismo - que consiste em simplificar nossas necessidades e procurar ter um papel mais ativo quanto a satisfazê-las - o que vem a ser exatamente uma espécie mais desenvolvida de sensualidade. A única espécie de sensualidade que compreendi supõe o amor da volúpia + conforto.

Escrever é um bonito ato. Criar algo que dará prazer aos outros mais tarde.


Fonte:
oglobo.globo.com/







22.10.09

Carlos Paredes



Carlos Paredes

Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. Estavam sempre abertas.

José Saramago

http://caderno.josesaramago.org/


Coisas que perdemos pelo caminho




Coisas que Perdemos pelo Caminho (Things We Lost In The Fire)

Elenco: Benicio Del Toro, Halle Berry, David Duchovny, Alexis Llewellyn, Alison Lohman.
Direção: Susanne Bier

Gênero: Drama
Distribuidora: Paramount Pictures
Estreia: 04 de Janeiro de 2008

Sinopse: Na história, Audrey é uma mulher que acaba de perder o marido de forma repentina. Para superar a dor da perda, ela convida o melhor amigo do falecido para morar com a família.

Curiosidades:
» Jennifer Lopez foi cogitada para estrelar o longa.

» Halle Berry foi vencedora do Oscar de Melhor atriz por 'A Última Ceia' e Benicio Del Toro foi vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por 'Traffic'.


Pequenas coisas

o retrato - Bulgaria - Biser Nedev



PEQUENAS COISAS


Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins

MEDITERRÂNEO - 2


foto do blog de José Eduardo Martins



MEDITERRÂNEO - 2



Um ponto azul
no branco
desta rota.

Nasceu agora
do ovo
do sol

uma gaivota.

Albano Martins

POEMA PÓSTUMO

crazy sky - Paul Weizmann - Alemanha




POEMA PÓSTUMO


Duas horas em breve.
Estás deitada, talvez.
Na noite,
como um Oka de prata
a Via Láctea corre.
O tempo é meu, e os relâmpagos
que eram meus telegramas,
não mais te virão
despertar,
atormentar.
Como se diz: encerra-se o incidente.
A canoa do amor
foi-se quebrar de encontro ao quotidiano.

Eis-me quite contigo.
E é inútil o passar em revista
penas,
azares,
e recíprocas feridas.
Vê,
que paz no universo.
A noite
impôs ao céu
a servidão de tantas
tantas estrelas.
Chegou a hora
em que a gente se ergue e em que fala
aos séculos,
à História,
ao universo...



Vladimir Maiakovski




20.10.09

Sincronismo musical




Será preciso
explicar o sorriso
da Mona Lisa
para que você
acredite em mim
quando digo
que o tempo passa?
Paulo Leminski (quarenta clics em curitiba - 1976)

A Plenitude

kopie_-_pomi_big_retuse - Rep. Checa - Karel Struna




“[...] A plenitude é pois uma precipitação: alguma coisa se condensa, abate-se sobre mim, fulmina-me. O que me repleta assim? Uma totalidade? Não. Alguma coisa que, partindo da totalidade, vem a excedê-la: uma totalidade sem resto, uma soma sem exceção, um lugar sem nada ao lado (”minha alma não está apenas repleta, mas transbordante”.

[...] Plenitudes: não são ditas – de modo que, falsamente, a relação amorosa parece reduzir-se a um longo lamento. É que, se não traz conseqüências dizer mal a desgraça, em compensação, relativamente à felicidade, pareceria culpável estragar-lhe a expressão: o eu só discorre ferido; quando estou pleno ou me recordo de assim ter estado, a linguagem me parece pulsilânime: sou transportado para fora da linguagem, quer dizer, para fora do medíocre, para fora do geral: “Acontece um encontro que é intolerável, por causa da alegria, e algumas vezes o homem fica reduzido a nada; é o que chamo de transporte. O transporte é a alegria da qual não podemos falar.”

Roland Barthes
"FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO"

Sobre o desejo

A.D.


“Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa e especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente?"

Roland Barthes - "Fragmentos de um Discurso Amoroso"

DO RISO FEZ-SE O PRANTO

A.D.




DO RISO FEZ-SE O PRANTO

De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fêz-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais de repente.

Vinicius de Morais- O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO E OUTROS POEMAS

Rubem Millôr Braga Fernandes


O desenho acima foi feito por Millôr Fernandes para a capa da edição de 36 Crônicas de Rubem Braga recém-publicada pela Confraria dos Bibliófilos. Infelizmente, a confraria é limitada, só faz 350 exemplares (assinados pelo ilustrador e pelo editor, José Salles) e não põe os livros à venda. Mas ver uma das ilustrações de Millôr já dá um gosto, não? Como escrevi, acho a obra gráfica dele muito subestimada. Receber esse livro foi uma das maiores alegrias de leitor que tive nos últimos tempos.

De Braga, basta um parágrafo para iluminar toda sua prosa:

"Assim anda o homem solitário na longa praia. Mas aqui a praia não é deserta. Atrás de nós estão os edifícios fechados, e a cidade que desperta penosamente. Parados entre a solidão do oceano e a solidão urbana, estamos entre o mundo puro e infinito de sempre e o mundo precário e quadriculado de todo dia. Este é o mundo que nos prende; estamos amarrados a ele pelos fios de mil telefones." ("Da praia")

Os desenhos e textos de Millôr, embora ele seja mais ácido e irônico, remetem a essa falsa simplicidade do estilo de Braga, mais nostálgico e lírico. Falsa porque é uma simplicidade forjada no humor cético, na fina artesania, na recusa à pompa e às modas.

Millôr, que diacho, ainda faz "haicai" como poucos. Em antologia também recente, da série Boa Companhia, apenas Paulo Leminski é páreo. Millôr:

Há colcha mais dura
Que a lousa
Da sepultura?


por Daniel Piza
Jornal "O Estado de São Paulo"