29.11.09

Eis-me

Suecia - Ozcan Yilmaz




EIS-ME

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face.

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio.

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque és de todos os ausentes o ausente.

Sophia de Mello Breyner Andresen





Comeu e bebeu as Palavras preciosas

fillune - Andre Pelletier





Comeu e bebeu as Palavras preciosas -
O seu Espírito tornou-se forte -
Deixou de saber que era pobre,
E que o seu corpo era Pó -

Dançou ao longo dos Dias sem cor
E este Legado de Asas
Não passava de um Livro - O que a Liberdade
Concede a um espírito emancipado

Emily Dickinson, "Poemas e Cartas"

1º Domingo do Advento

Hoje acendemos a primeira vela!






Hoje é o primeiro domingo do Advento, época em que a igreja começa a se preparar para o Natal. Tradicionalmente hoje é o dia em que começamos a decorar a árvore de Natal, simbolizando a época de preparação para o nascimento de Jesus. Nas igrejas,a cada domingo, durante as missas, acende-se uma vela da coroa do Advento, até completar quatro, e então na noite de Natal a luz maior que simboliza o próprio Jesus, filho de Deus entre os homens. Segundo as antigas tradições, a árvore deve ser montada aos poucos,da mesma forma como são acesas as velas da coroa do Advento, até culminar com a noite de Natal, quando a árvore e o presépio recebem a figura do meninos Jesus. O presépio e a árvore ficam assim completos até o dia 6 de janeiro, dia de Reis, quando são desfeitos.

28.11.09

Advento, Tempo do Encontro




Tempo de Advento 2009: De 29 de novembro a 24 de dezembro


Sobra Tanta Falta





Sobra Tanta Falta

O Teatro Mágico
Composição: C. Trevisan

Falta tanta coisa na minha janela
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero
Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo (2x)

Sei lá,
Se o que me deu foi dado
Sei lá,
Se o que me deu já é meu
Sei lá,
Se o que me deu foi dado ou se é seu (4x)

Sei lá... sei lá... sei lá.... (2x)
Se o que deu é meu...

Vai saber,
Se o que me deu , quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salve
Vai saber,
O que me deu, quem sabe?

Vai saber,
Quem souber me salve... (3x)


Cores de Chagall

Tela "O Poeta deitado" (1915) óleo sobre tela, de Marc Chagall (1887-1985), que retrata uma aldeia russa.

Ai Se Sêsse




Ai Se Sêsse
Cordel Do Fogo Encantado
Composição: Zé Da Luz

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

El Senior Gato

um azulejo cordobés


foto "roubada" de um blog muito interessante:

http://prosimetron.blogspot.com/




Solidão







Solidão

Alceu Valença

A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.

A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.

A solidão é fera,
É amiga das horas,
É prima-irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração.

A solidão dos astros;
A solidão da lua;
A solidão da noite;
A solidão da rua.

A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.

A solidão é fera,
É amiga das horas,
É prima-irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração.

A solidão dos astros;
A solidão da lua;
A solidão da noite;
A solidão da rua.



Medo da Libertação

Paysage aux Oiseaux Jaunes - Paul Klee




Medo da libertação

Se eu me demorar demais olhando Paysage aux Oiseaux Jaunes (Paisagem com Pássaros Amarelos, de Klee), nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito que temos de olhar através das grades da prisão, o conforto que traz segurar com as duas mãos as barras frias de ferro. A covardia nos mata. Pois há aqueles para os quais a prisão é a segurança, as barras um apoio para as mãos. Então reconheço que conheço poucos homens livres. Olho de novo a "paisagem" e de novo reconheço que covardia e liberdade estiveram em jogo. A burguesia total cai ao se olhar Paysage aux Oiseaux Jaunes. Minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Começo até a pensar que entre loucos há os que não são loucos.
E que a possibilidade, a que é verdadeiramente, não é para ser explicada a um burguês quadrado. E à medida que a pessoa quiser explicar se enreda em palavras, poderá perder a coragem, estará perdendo a liberdade. Les Oiseaux Jaunes não pede sequer que se o entenda: esse grau é ainda mais liberdade: não ter medo de não ser compreendido . Olhando a extrema beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me bate no rosto. E, antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava - só para não ser livre.

Clarice Lispector
in "A Descoberta do Mundo"

Fidelidade




Se tu queres um amigo, cativa-me!
__Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
__É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei para o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
__Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas então, estarei inquieta e agitada:descobrirei o preço da felicidade!

Antoine de Saint-Exupèry
in "O pequeno príncipe"




Vê como é lisa ...


Servia - Aleksa Stojkovic









Vê como é lisa a mesa aonde pomos
as nossas mãos entrelaçadas; e
serenamente como nos sorri
o próprio instante que fugaz nós somos,
presos e livres neste estar aqui...

Alheios nos olhamos e escrevemos
no mármore o silêncio do futuro.
Pelas janelas sopra o vento puro
daquilo que sonhamos e não temos,
tamborilando sobre o mármor' duro.

A mesa lisa como os sonhos lisos,
a mesa dura como o dia a dia...
À nossa volta há gargalhadas, risos,
e nós entristecemos no seria,
pois o será se perde em ventania.

E o breve instante desta hora mansa
deixa na mesa o único sinal
do frio que em adeus nos fere e alcança:
em cada hoje um amanhã igual
nos alimenta espera da esperança.

António Salvado


O meu olhar é nítido como um girassol

sunflower - Georgia Panakia





II



O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro
in "Fernando Pessoa, Poesia completa de Alberto Caeiro"

27.11.09

Internas paisagens

Labirinto na Catedral de Chartres



"A memória labiríntica é aquela que nos permite o acesso à cidade subterrânea que há em cada um de nós".
Olgária Matos

Crisântemos




Em teus dedos pus
um anel de crisântemos

Albano Martins
In "Vocação do silêncio"

"A cor da memória"

A penumbra/ do vento.

Iceland_Carol Dorion



Diríamos
talvez
o vento.
O ocre.
O cinzento.

A penumbra
do vento.

Diríamos
talvez
o vagar
do tempo
acre.

Sono
lento.

Albano Martins

in "Vocação do Silêncio"


O meu caderno de folhas

TrekLens



O meu caderno de folhas




Tenho folhas lanceoladas,
lobadas, lineares,
redondas, sagitadas,
elípticas, ovalares,
pilosas ou ciliadas,
filiformes, triangulares,
inteiriças, espatuladas,
em forma de coração.
E folhas A4 e A5,
lisas ou quadriculadas.
Mas estas não são
para aqui chamadas.
- Ou serão?



Jorge de Sousa Braga

Das janelas,/ pendentes,/ olham os deuses

Nikos Nztkds










Descalço
venho
para a noite.


in "Entre a Cicuta e o Mosto"


*

Das janelas,
pendentes,
olham os deuses
convertidos
no rio aprisionado
onde os barcos
adormecem
a sua
lenta
fadiga
de água.

*

Pões um pé no passado,
outro no futuro.
A distância que medes
é só este muro

de água e salina,
azul transparência.
De funda e nave
gável ausência.


in "Vocação do Silêncio"


Albano Martins



Corona

Bhilai-Chhattisgarh- India



Da mão o outono me come sua folha: somos amigos. Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar: o tempo retorna à casca. No espelho é domingo, no sonho se dorme, a boca não mente. Meu olho desce ao sexo da amada: olhamo-nos, dizemo-nos o obscuro, amamo-nos como ópio e memória, dormimos como vinho nas conchas, como o mar no raio sangrento da lua. Entrelaçados à janela, olham-nos da rua: já é tempo de saber! Tempo da pedra dispor-se a florescer, de um coração palpitar pelo inquieto, É tempo do tempo ser. É tempo.

Paul Celan
[Tradução: Flávio Klothe]



Bom dia:)

A.D.




Hadzas não choram

martin schoeller


"As cicatrizes em seus rostos podem ser de cortes feitos na infância para reprimir o choro - as lágrimas fazem as feridas arderem".


[Revista National Geographic - dezembro 09 - Hadzas, por Michael Finkel, fotos de Martin Shoeller]

Mapa das Sensações da cidade de São Paulo

Av. Paulista







Nesta terça-feira (24), aconteceu no Mercado Municipal o lançamento oficial do Mapa das Sensações da cidade de São Paulo. Com a presença do prefeito Gilberto Kassab, e do presidente da São Paulo Turismo (SPTuris), Caio Luiz de Carvalho, mais de cem convidados – entre autoridades, representantes de entidades do turismo, agências de receptivo e outros – puderam conhecer o novo projeto que visa lançar um novo olhar sobre a metrópole, revelando suas diversas nuances por meio do estímulo aos cinco sentidos.

Após a solenidade, o público em geral também pôde participar e colocar à prova a ideia do projeto, interagindo com dez estandes cenografados que representavam alguns dos pontos turísticos presentes no Mapa e que remontavam aos cinco sentidos:

*
a visão foi ressaltada no espaço do Masp, com quadros digitais que exibiam imagens das obras de arte presentes no museu;
*
o olfato foi aguçado nos estandes da Banca de Flores da Dr. Arnaldo, com flores e plantas variadas, e dos parques, com o inebriante cheirinho de café servido na hora;
*
a audição foi estimulada nos espaços da Sala São Paulo, com um trio de violinistas, e ainda por fones de ouvido com sons típicos nos ambientes que representavam uma quadra de escola de samba, o Autódromo de Interlagos e o Museu do Futebol;
*
o paladar foi despertado nos estandes do Mosteiro de São Bento e do Mercado Municipal, onde as pessoas puderam fazer degustação de comidas tradicionais desses locais, como bolos e pães para o primeiro, frutas, sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau para o segundo;
*
e o tato foi instigado no espaço da Pinacoteca, com a presença de estátuas vivas que podiam ser tocadas.

Os presentes também puderam conhecer o sistema “medidor de emoções”, um tipo de detector de mentiras usado para captura e avaliação dos depoimentos dos turistas que participaram do projeto.

Segundo o presidente da SPTuris, a ideia de se elaborar um Mapa das Sensações surgiu quando com a necessidade de se pensar sobre a identidade de São Paulo e trabalhar a questão da economia da experiência para o turismo do destino. “Queríamos fazer alguma coisa diferente, que mexesse com as pessoas e que permitisse a interação tanto da população, quanto dos visitantes. Por isso usamos as indicações dos moradores pelo site e também o detector de mentiras durante a visitação dos turistas, já que assim pudemos avaliar o que estavam sentindo e ainda analisar os depoimentos e opiniões de uma maneira mais precisa”, revela Caio Carvalho. “O resultado é um olhar mais humano e mais emotivo sobre uma cidade que tinha a fama de ser dura”, completa.


[http://www.diariodoturismo.com.br/texto.asp?codid=1543]






Veja as fotos em

http://www.mapadassensacoes.com.br/mapadassensacoes/


http://viagem.uol.com.br/album/saopaulo_sentidos_album.jhtm?abrefoto=15#fotoNav=1








26.11.09

Se tudo pode acontecer - Alice Ruiz




Se tudo pode acontecer

Letra e Música: Arnaldo Antunes, Paulo Tatit, João Bandeira e Alice Ruiz

Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão

E a gente caminhando de mão dada
De qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer

25.11.09

ADIVINHA QUANTO EU TE AMO

Anita-Jeram-Guess-How-Much-I-Love-You



Vale a pena comprar e deliciar-se com a leitura e ilustrações deste pequeno-lindo livro. Encontrei o texto escrito em português de Portugal, no blog http://ouvi-dizer.blogspot.com/



Sinopse
Às vezes, quando se ama alguém muito, mas muito mesmo, fica o desejo de achar um jeito de mostrar quanto esse sentimento é grande. Nesta fábula, o Coelhinho e o Coelho Pai vão acabar descobrindo, que o amor não é uma coisa assim tão fácil de medir...




Adivinha Quanto Eu Gosto De Ti



A Pequena Lebre Castanha, que se ia deitar, agarrou-se bem agarrada às orelhas muito compridas da Grande Lebre Castanha. Quis ter a certeza de que a Grande Lebre Castanha estava a ouvir.
- Adivinha quanto eu gosto de ti- disse ela. - Ora bem, acho que não consigo adivinhar isso- disse a Grande Lebre Castanha. - Gosto assim- disse a Pequena Lebre Castanha, esticando os braços o mais que podia. A Grande Lebre Castanha tinha uns braços ainda maiores. Mas eu gosto de TI assim- disse ela. «Humm, é muito», pensou a Pequena Lebre Castanha. - Gosto de ti esta altura toda- disse a Pequena Lebre Castanha. - E eu gosto de ti esta altura toda- disse a Grande Lebre Castanha. «É mesmo alto», pensou a Pequena Lebre Castanha. «Quem me dera ter uns braços assim.» Então a Pequena Lebre Castanha teve uma boa ideia. Fez o pino, encostada ao tronco muito esticadinha. - Gosto de ti até à ponta dos pés!- disse ela. - E eu gosto de ti até à ponta dos teus pés- disse a Grande Lebre Castanha, fazendo-a girar por cima da cabeça. - Gosto de ti até onde eu consigo SALTAR! Riu-se a Pequena Lebre Castanha, dando pulos e mais pulos. - Mas eu gosto de ti até onde eu consigo saltar- sorriu a Grande Lebre Castanha, e saltou tão alto que as orelhas tocaram no ramo da árvore. «Isto é que é saltar», pensou a Pequena Lebre Castanha. «Quem me dera saltar assim.» - Gosto de ti o caminho todo até ao rio- gritou a Pequena Lebre Castanha. - E eu gosto de ti até depois do rio e dos montes- disse a Grande Lebre Castanha. «É mesmo longe», pensou a Pequena Lebre Castanha. Tinha tanto sono que já quase nem conseguia pensar. Então olhou para além das moitas, para a grande noite escura. Nada podia ser mais longe do que o céu. - Gosto de ti até à LUA- disse ela, e fechou os olhos. - Ora, se isso é longe- disse a Grande Lebre Castanha.- É mesmo, mesmo longe. A grande Lebre Castanha deitou a Pequena Lebre Castanha na caminha de folhas. Inclinou-se e deu-lhe um beijo de boas-noites. Depois deitou-se muito pertinho e murmurou sorrindo: - E eu gosto de ti até à Lua... E DE VOLTA ATÉ CÁ ABAIXO.

Sam McBratney, ilustrações de anita Jeram Guess





Sobre as dietas

Fernando-Botero-Ballerina-to-the-handrail




"As dietas para emagrecer ocupam uma zona crepuscular entre a medicina e a charlatanice tolerada, e nenhuma das duas dá resultado. As dietas entram e saem de moda como os vestidos e as filosofias. Só existe um meio infalível de emagrecer, comer menos. Mas quem sugere isto ouve logo a resposta:
- Também não vamos radicalizar. (...) "

Luís Fernando Veríssimo





Fotos que encantam

Foto- Hans Sylvester


As tribos do Rio Omo, nos confins da Etiópia, são gênios de uma arte ancestral. Eles têm o dom da pintura, e o seu corpo é uma imensa tela. A força da sua arte é definida em três palavras: os dedos, a velocidade e a liberdade.

Aos seus pés, o rio Omo, sobre um triângulo Etiópia-Sudão-Quênia, o grande vale do Rift que separa lentamente a África, uma região vulcânica que fornece uma imensa paleta de pigmentos, ocre vermelho, caulim branco, verde revestido, amarelo luminoso ou cinzento das cinzas que na ponta dos dedos deles se transforma em pura arte.

Desenham com as mãos abertas, da extremidade das unhas, às vezes com uma extremidade de madeiras, cobrem-se de colmo, um caule esmagado. Desenham circulos, linhas, pintas, flores e zig-zags ...

Hans Sylvester, fotografo alemão, fotografou durante seis anos essas tribos de Surma e Mursi e lançou um livro chamado "O povo de OMO".

Veja as fotos em http://www.scribd.com/doc/6002539/Tribus-de-LOMO-Hans-Silvester


ou assista ao vídeo:


Tribus de l'OMO
Enviado por africapax_international. - mais blogues videos e vlogueiros





24.11.09

Arte com livros




Sem enfeite

Um livro é um livro é um livro.
Ouro puro. Tesouro.
Arte em si.

Tuca

Confiança

kypkmaqm


Mãe, com você todos os caminhos são seguros!





Sobre a Impermanência


Monges budistas tibetanos preparam uma mandala - arte religiosa feita de areia colorida - durante uma exposição no Thank You Festival Índia, em Bangalore AFP


Impermanência: a arte de dizer adeus com elegância
Adília Belotti

Uma estação de trem, um aeroporto ou até um portão de garagem. Você de pé, um aceno mole na mão, gosto salgado na boca, olhar embaçado longe, e cada vez mais longe... Até breve ou para sempre, nenhum de nós escapa das perdas e das partidas.

Se eu for abrir aquela terrível gaveta de memórias horripilantes, com certeza vai pular de lá de dentro o lúgubre corvo do conto de Edgar Allan Poe, que respondia às perguntas do poeta enlouquecido de dor pela perda da mulher amada com um irremediável, solene e definitivo: "Nunca mais".

Até hoje, esse "nunca mais" tem o dom de fazer alguma coisa partir dentro de mim. Cruzes!! Mas com o tempo (esse corvo me conhece desde menina) aprendi que embora as perdas estejam lá na base do nosso edifício humano, tem jeitos e jeitos de lidar com elas. Penso naquela palavra saltitante que os budistas lapidaram num conceito supercomplexo: impermanência.

Para os budistas, essa nossa realidade firme e concreta, feita de acontecimentos e de certezas é um sonho. Na contramão de todas as aparências, o mundo das coisas e coisitudes, não é tão sólido assim. "A vida é uma série infindável de manifestações, um fluxo constante de criações, transformações e extinções, um constante vir a ser. (...) A realidade, no sentido budista, é impermanência anicca, ensina um livro, que acabou virando um clássico para entender esse olhar psicológico do budismo, escrito pelo Dr. Georges da Silva.

"Tudo vive em contínuo intercâmbio com o todo, transformando-se sem cessar". O mais incrível é pensar que essa idéia, que combina tanto com o que a ciência mais moderna anda discutindo, nasceu no século 6 AC! Esse vir-a-ser do universo, do qual somos uma partezinha, só ganha nomes e formas para que a gente possa falar dele, mas não deveríamos esquecer nosso caráter original de seres fluídos, refinadas moléculas do fluxo da vida. Que tal? Ser parte de um grande rio, sempre fluindo, não é tão mal assim, para quem começou o artigo se sentindo preso em uma armadilha preparada por um corvo existencial, certo?

E tem mais. Quando você percebe a natureza impermanente de todas as coisas, incluindo você mesmo, está na hora de começar a grande aventura que os budistas chamam de alcançar a serenidade que nasce do sentimento de desapego, do deixar passar as emoções, os sentimentos, os pensamentos...

Não tem nada de fantasioso nisso. O budismo é essencialmente pragmático, é método, caminho. Por isso, S.E. Chagdud Tulku Rinpoche, que viveu aqui no Brasil, lá no Rio Grande do Sul (faleceu em 2.002), avisa: "Com freqüência, pensamos que o único meio de criar felicidade é tentando controlar as circunstâncias externas da nossa vida, tentando consertar o que nos parece errado ou tentando nos livrar de tudo o que nos incomoda. Mas o verdadeiro problema encontra-se na nossa reação a estas circunstâncias. O que temos de mudar é a mente e a maneira como ela vivencia a realidade".

Refletir sobre a impermanência é um bom jeito de fazer as pazes com o mundo. Por exemplo: saber que um dia vamos perder alguma coisa nos faz dar mais valor a ela enquanto a temos. Rinpoche dá um exemplo delicioso: "Não há nada de errado com o dinheiro em si, mas se nos apegamos a ele, sofremos quando o perdermos. Em vez disso, podemos apreciá-lo enquanto durar, desfrutar dele e ter prazer em compartilhá-lo com os outros, sabendo, ao mesmo tempo, que ele é impermanente".

Apenas contemplar o fato de que as coisas no fundo no fundo não nos pertencem e que não podemos alterar o fluxo dos acontecimentos, que um dia vamos morrer, que muitas e tantas vezes, nossos desejos e nossos apegos são nossos maiores inimigos traz um profundo sentimento de tranqüilidade, é quase como flutuar. "Se contemplarmos a impermanência em profundidade, paciência e compaixão irão aparecer. Iremos nos apegar menos à verdade aparente das nossas experiências e nossa mente se tornará mais flexível".

Cada instante transformado em uma dádiva e cada encontro finalmente eterno enquanto dura. Despidos de tantas expectativas, preocupações, desejos de controlar, segurar, prender, vamos dar uma banana para o corvo triste e mergulhar de cabeça na aventura do viver.

Como você faz para lidar com a necessidade de controle que todos temos? É difícil? Você tem medo de se permitir flutuar no constante tornar-se do universo?
Fonte: http://somostodosum.ig.com.br/


Arte nas ruas

Menininha de dois anos beija pinguim de fribra de vidro que representa John Lennon em instalação "Go Penguins", que distribuirá por Liverpool, na Inglaterra, cerca de 240 pinguins pintados e decorados por artistas e celebridades para comemorar o ano do ambiente na cidade - REUTERS/Phil Noble
Fonte: Uol

23.11.09

Mãe

Ana Castro - flickr.com



Mãe

...
Eu só sei te abraçar como um menino.


Paulo Hecker Filho

"Houve uma vez um verão"

cool_husky - Romenia - Bor Neev




Uma estranha história!

Einar Wegener, por Gerda Wegener


Um homem chamado Lili

por Vange Leonel

Eles se conheceram em uma escola de arte de Copenhague e se casaram logo depois, em 1904. Einar, o marido, pintava paisagens, e Gerda, a mulher, trabalhava como ilustradora de livros e revistas de moda. A vida do casal começou a mudar no dia em que uma das meninas que posava para Gerda faltou. Precisando de um modelo para pintar pernas femininas, a artista pediu ao marido que posasse para ela usando meias de seda e sapatos de salto alto.

O arranjo deu certo. Einar adorou se travestir e passou a fazê-lo com frequência. Até inventou para si um nome de mulher: Lili Elbe. Gerda entusiasmou-se com a brincadeira e pintou uma série de retratos de Lili/Einar.

À medida que os quadros de Gerda ganhavam fama, o marido cada vez mais se via e vivia como mulher. Quando saía às ruas travestido, ninguém notava seu verdadeiro sexo. Lili adquiria vida, e Einar desaparecia aos poucos. Gerda, então, passou a circular com Lili a tiracolo, apresentando-a como a "irmã de Einar". Mas um dia o segredo foi descoberto: a mulher sensual dos quadros de Gerda era, na verdade, seu marido! Foi tão grande o escândalo que o casal teve que sair da Dinamarca. Decidiram morar em Paris, cidade então mais permissiva e liberal, onde Einar/Lili poderia se passar por mulher, e Gerda, por lésbica, sem serem incomodadas.

Ali, viveram anos felizes. Paris era uma festa, e o casal adorava badalar. Mas Einar/Lili queria mais. Na próxima coluna conto o resto dessa história.




Muito barulho por quase nada...

Açores- Portugal - André Couto e Silva



E a montanha rugiu, fez um barulho danado, tremeu, entrou em trabalho de parto... e pariu um camundongo.
(como dizia Horácio, poeta lírico e satírico)




La linea Sexilinea

Insônia

Latvia - Francis Millers




Insônia
Eugênio de Andrade

.....Apaguei outra vez a lâmpada, procurei agarrar os fios do sono, mas o que se aproximou foi um camponês muito jovem, que atravessou a noite para saber o que é que me doía.
.....- Meu nome é Guérassim.
.....Devia responder-lhe que o conhecia bem, mas limitei-me a perguntar-lhe porque deixara a casa de Ivan Ilich.
.....- Agora és tu que precisas de mim. Que é que tens?
.....O meu mal é sem remédio. O que eu queria era água, água. Água de quatro rios, sobre a garganta. Para adormecer. Com o sol na boca.

Sentido de sua ausência

autumnal_mood - Italia - Sergio Stella




Sentido de sua ausência

se eu me atrevo
a olhar e dizer
é por sua sombra
unida tão suave
a meu nome
lá longe
na chuva
em minha memória
por seu rosto
que ardendo em meu poema
dispersa harmoniosamente
um perfume
ao amado rosto desaparecido


SENTIDO DE SU AUSENCIA // si yo me atrevo / a mirar y a decir / es por su sombra / unida tan suave / a mi nombre / allálejos / en la lluvia / en mi memoria / por su rostro / que ardiendo en mi poema / dispersa hermosamente / un perfume / a amado rostro desaparecido



(poema extraído de: http://meldomelhor.blogspot.com/ )

22.11.09

o companheiro de viagem




desejava tomar o café da manhã numa toalha azul cheirando a leite, como em criança na casa dos pais: troca-se a toalha de mesa todo domingo, os rostos estão recém-lavados, os cabelos são penteados ainda molhados, as camisas alvejadas, as feições alegres em volta da mesa familiar. ali, mesmo a aguardente e o rum têm outro aroma. A pálinka* que a família entorna em jejum não faz mal. a galinha acaba de pôr o ovo fresco, a manteiga gordurosa sorri como uma jovem obesa entre folhas de parreira, os sapatos brilham, o pensamento carregado da noite se alça da roupa de cama com a brisa fresca da manhã, a empregada corre sobre pés de bailarina na saia engomada de véspera; nas ruas cobertas pela geada matinal, mesmo as carroças de esterco exalam um cheiro diferente, de tarde o estertor dos doentes graves silencia nas casas vizinhas, as verduras frescas da feira, a cabeça vermelha dos galos, o rosado das carnes balançam nas cestas de vime, a torre da cidade parece ter sido lavada com esponja durante a madrugada, o chapim de colete colorido saltita alegre no morangueiro congelado como a vida distraída que perdoa o passado e se renova...

* aguardente de pêssego, equivalente à cachaça.




 Contracapa do livro: Hungria, 1947, fotografia de Werner Bischof

20.11.09

As Olívias

1o episódio :




2o episódio :






Para saber mais: http://blog.asolivias.com.br/

Um beijo de obrigada pelo envio, Bel:)

Mágica





MÁGICA

Enlevada, a noite
veste seu manto prateado:
acende estrelas.

Sonia R.

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada

Romenia - teodora danila





V

Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

Manoel de Barros

19.11.09

Espelho

1000_pieces_of_mirror _Irlanda - Aneta Zdradzisz



Espelho

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro---
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces no separam mais e mais.
Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim.
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

Sylvia Plath
tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça





18.11.09

Visita de solidariedade

peacocks_and_parrot - Romenia - Tomescu Cezar Valentin

Afinidades eletivas


Romenia - Tomescu Cezar Valentin







Braços

Latvia - Elena Jurshina



BRAÇOS

seus braços são a única coisa do mundo
sem morte

Fabrício Corsaletti

De Estudos para o Seu Corpo (2007)

Axioma

Lesson - Portugal - Eden Ochoa Iniesta



AXIOMA

Sempre é melhor
saber
que não saber.

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer

Sempre é melhor
desfazer
que tecer

Orides Fontela



Testamento de um Cão

aquil - Filipinas



Testamento de um Cão


Minhas posses materiais são poucas
e eu deixo tudo para você…

Uma coleira mastigada em uma das extremidades,
faltando dois botões, uma desajeitada cama de cachorro e uma vasilha de água que se encontra rachada na borda.

Deixo para você a metade de uma bola de borracha,
uma boneca rasgada que você vai encontrar
debaixo da geladeira, um ratinho de borracha sem apito que está debaixo do fogão da cozinha
e uma porção de ossos enterrados no canteiro de rosas
e sob o assoalho da minha casinha.
Além disso, eu deixo para você a memória, que aliás são muitas.

Deixo para você a memória de dois enormes
e meigos olhos cor de mel, de um nariz molhado
e de choradeiras atrás da porta.

Deixo para você uma mancha no tapete da sala de estar junto à janela, quando nas tardes de inverno
eu me apropriava daquele lugar, como se fosse meu,
e me enrolava feito uma bolinha para pegar um pouco de sol.

Deixo para você um tapete esfarrapado
em frente de sua cadeira preferida, o qual nunca foi consertado com o tipo de linha certo….isso é verdade.
Eu o mastiguei todinho, quando ainda tinha
cinco meses de idade, lembra-se?

Também deixo para para você as memórias da primeira surra que levei quando comi seu celular
e também todo o meu esquecimento …

Deixo para você um esconderijo que fiz no jardim
debaixo dos arbustos perto da varanda da frente,
onde eu costumava me esconder do sol nos dias de verão.Ele deve estar cheio de folhas agora e por isso talvez você tenha dificuldades em encontrá-lo.
Sinto muito!

Deixo também só para você, o barulho que eu fazia
ao sair correndo sobre as folhas de abril,
quando vagabundeávamos pelo sítio.

Deixo ainda, a lembrança de momentos pelas manhãs,
quando saíamos junto pela margem das lagoas do condomínio e você me dava aqueles biscrocks coloridos.
Recordo-me das suas risadas, porque eu não consegui
alcançar aquele coelho impertinente.

Deixo-lhe como herança minha devoção, minha simpatia, meu apoio quando as coisas não andavam bem, meus latidos quando você levantava a voz aborrecido… e minha frustração por você ter ralhado comigo todas as vezes que eu colocava o nariz debaixo da cauda.

Eu nunca fui à igreja, nunca escutei um sermão,
e sem ter dito sequer uma palavra em minha vida,
deixo para você lições de paciência, de tolerância,
amor e compreensão.
Sua vida tem sido mais rica porque eu vivi.

Frank Reinshstein





Te desejo

akpinar - halise ozdemir



“Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez”.
Caio Fernando Abreu




16.11.09

a casa de um grande homem



Wislawa Szymborska


escrito no mármore em letras douradas:
aqui viveu e trabalhou e morreu um grande homem.
ele próprio espalhou o cascalho nestas veredas.
este banco - não tocar - ele esculpiu na pedra.
e - atenção - três degraus - vamos entrar.

conseguiu vir ao mundo num tempo ainda adequado.
tudo que devia se passar se passou nesta casa.
não em conjuntos residenciais,
não em áreas mobiliadas mas vazias,
entre vizinhos desconhecidos,
em décimos quintos andares
para onde seria difícil conduzir excursões escolares.

neste quarto meditava,
nesta alcova dormia
e aqui recebia as visitas.
retratos, poltrona, escrivaninha, cachimbo, globo, flauta,
tapete gasto, varanda envidraçada.
aqui trocava reverências com o alfaiate e o sapateiro
que costuravam sob medida para ele.

não é mesma coisa que fotografia  em caixas,
canetas com tinta seca em canecas de plástico,
roupas em séries nos armários de série,
janela da qual se veem melhor nuvens do que pessoas.

feliz? infeliz?
não se trata disso.
ainda fazia confidências nas cartas,
sem pensar que no trajeto seriam abertas.

mantinha também um diário preciso e sincero,
sem temor de vê-lo confiscado numa revista.
mais que tudo o inquietava o passar de um cometa.
o fim do mundo estava só nas mãos de deus.

teve ainda sorte de não morrer num hospital,
atrás de uma divisória branca qualquer.
junto a ele havia alguém que memorizou
as palavras balbuciadas.

como se lhe tivesse sido dada
uma vida muitas vezes reutilizável:
mandava recapar os livros,
não apagava da agenda os nomes dos mortos.
e as árvores que plantou no jardim da casa
cresciam-lhe ainda como junglans regia
e quercus rubra e ulmus regia
e fraxinus excelsior.

Tradução de Regina Przybycien
Companhia das Letras




15.11.09

Boa noite *)

SJ LS - TrekLens





Amor ao mar

friends - Matosinhos - Porto - Portugal - Ricardo Inacio






Arquitetura tradicional da Ilha da Madeira

Pormenor de remates dos telhados na arquitectura tradicional insular.




“Quem visita a Madeira com um olhar atento já deve ter reparado nos elementos decorativos existentes nas esquinas dos telhados das casas mais antigas, que se podem encontrar por todo o lado, ao redor da ilha.
Os mais comuns são as caras de anjo, pombas de asas abertas, ou até mesmo figuras de cães ou gatos.

A origem concreta destas decorações é difícil de traçar, sendo que alguns autores a referem como tendo origens pagãs e outros como estando associados a elementos religiosos. Para a elaboração deste estudo foram analisadas 214 casas, situadas ao longo da Estrada Padre Alfredo Vieira de Freitas, e ruas José Pereira de Nóbrega e Clemente Tavares. Este levantamento permitiu verificar que 37% destas casas apresentam elementos antropomórficos (figuras humanas), 33% ostentam elementos vegetais e 12% representam aves. Neste levantamento foi possível inventariar vários tipos de modelos de remate: seta ou lança, menino penteado, menino com chapéu, pomba de asas abertas, pomba de asas pousadas, folha de acanto, bebé chorão, cabeça de fidalgo, gato, concha, palma, papagaio, cão ou outros.

Uma das curiosidades apontadas neste estudo é que vários elementos decorativos iguais aparecem agrupados por vários grupos de casas próximas entre si, numa evidente cópia do estilo da casa do vizinho do lado. Actualmente as casas mais recentes também apresentam alguns motivos decorativos nos seus telhados, mas que são importados do continente português e vendidos numa famosa casa de ferragens madeirense, que disponibiliza outros bichos, tais como caracóis, corujas ou até coelhos, para além das típicas pombas. O segundo capítulo deste livro refere-se à construção destes objectos decorativos em barro.
Inicialmente de fabrico manual, quando entrou em moda a decoração dos remates dos telhados, foi preciso aumentar a sua produção e para isso recorreram-se às formas de gesso, normalmente compostas por duas ou mais peças, que eram enchidas com barro, sendo estes bonecos posteriormente retocados pelos artesãos que os faziam nas olarias outrora existentes no Funchal (a do Lazareto ou do Pimenta, a Fábrica Funchalense, a Fábrica Conde Canavial e a Fábrica da Achada) antes de serem cozidos num forno a alta temperatura".

Texto e foto de Isabel Abreu

Fonte: Site TrekLens - http://www.treklens.com/members/isa/




Esfinge

Jos TAFKARD





ESFINGE

Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.

Orides Fontela








Preciso

Nazaré_Portugal - Lurdes Melo




Preciso
Marina Colasanti

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar

14.11.09

Teatro Dos Vampiros

worry -Irlanda - Radoslaw Dlubak






Teatro Dos Vampiros
Renato Russo

Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos.

Este é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos.

Vamos sair – mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas.

Vamos lá, tudo bem – eu só quero me divertir.
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal p’rá ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar.

Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei

Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir.

Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.




Contemplação da nuvem

TucaKors





CONTEMPLAÇÃO DA NUVEM


A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem
passando.

E uma nuvem passando
ensina-nos mais coisas que cem pássaros
mil livros um milhão de homens.

A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem.
Passando.

Antonio Brasileiro