13.12.10

Tristeza Permitida

crying girl - Marina Abramović


Martha Medeiros

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e t arde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?


Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.


A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.


“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Viníc ius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.


Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos!



Muito obrigada pelo envio, amiga Sonia Maria:)




Tô no Rio, voltando pra SP. Acabei de chegar no Santos Dumont. Vim de Uber. Chegando no aeroporto, o motorista, com a cara e tamanho do Alexandre Frota, mas normal, lúcido, virou pra mim:
– Iiiii meu irmão, olha lá. Tem manifestação dos taxistas contra o Uber. Vou ter que deixar você bem antes.
Eu estava atrasado. Pulei para o banco da frente.
– Toca em frente. Confia em mim.
Ele foi. Paramos o carro na porta do aeroporto. Lotado de taxista bufando. Descemos. Eu gritei, fazendo cara de choro.
– Jorginho, me abraça! Vou morrer de saudade.
O cara me abraçou.
Eu grudei minha cabeça no peito dele. Dei mais um suspiro e disse:
– Tiamo, gato.
Ninguém desconfiou.
Só o amor salva.
***********************************************************************
– Alô, Tom?
– Quem é?
– O Marcos.
– Que Marcos?
– O motorista do Uber. O que você chamou de Jorginho ontem.
– Ahhh sim, tudo bem?
– Tudo bem. Irmão, você foi muito criativo. Nenhum taxista percebeu. Incrível.
– É, a gente se livrou de ser linchado. Não havia outra saída.
– Meu brother, preciso te dizer uma coisa.
– Diga.
– Passei a noite pensando em você.
– Como assim?
– Fiquei com vontade de pegar você no colo. Você gosta de cafuné?
– Marcos, aquilo foi uma performance. Eu não sou gay, cara.
– Eu também não, meu irmão. Sou casado. Mas quando você encostou a cabeça no meu peito, senti algo que nunca havia sentido. Gostei de tudo em você. Do seu cheiro, tudo.
– Do meu cheiro?
– Sim. Você tem cheiro de homem. Você é, sim, especial. Sabe disso.
– Num sei, não. Você não está confundindo os sentimentos?
– Não, quando você grudou a cabeça no peito, eu me arrepiei todo. Da cabeça aos pés.
– Não foi de medo não?
– Não. Foi desejo mesmo.
– Que bom, nunca é tarde para sair do armário.
– Posso ligar para ouvir sua voz de vez em quando?
– Cara, se você se descobriu, logo vai achar alguém pra chamar de seu.
– Mas aconteceu algo especial com a gente. Sabe como se chama isso, Tom?
– O que?
– Q-u-í-m-i-c-a.
– Vou ter que desligar, Marcos.
– Beijo. Tiamo, gato.
Fudeu.

Tom Cardoso



Você tem fome de quê?

"Os contadores de histórias das florestas falam de dois tipos de fome. Dizem que há a fome física e também a Grande Fome. Esta é a fome por sentido. Existe apenas uma coisa insuportável: uma vida sem sentido. Não há nada errado com a busca pela felicidade. Mas existe algo grande ... sentido ... que é capaz de transformar tudo.
Quando você tem sentido, você é feliz, você pertence." 

Sir Laurens van der Post, no documentário Hasten Slowly



O tempo presente

artwork_images - Marina Abramovic



Um apelo à simplicidade



Refúgio. Fotografia de série realizada este ano na Itália: depois de retrospectiva nos EUA, artista diz que sentiu necessidade de se desapegar de suas coisas



Segundo ela, alguma coisa mudou em sua vida depois que realizou a performance O Artista Está Presente (The Artist Is Present), o destaque de sua retrospectiva, de mesmo nome, este ano, no MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York. Além de fotografias, vídeos, documentações de seus trabalhos, a própria Marina ficava sentada em uma cadeira no museu encarando, em silêncio, quem se sentasse a sua frente.

Para a artista, que nós últimos tempos tem seu interesse voltado apenas a performances de longa duração, foi um desgaste sua ação, mas ainda assim a revelação de que "não precisamos mais ter tantas coisas". "Era muito estranho voltar para meu apartamento - que é lindo - e pensar: Não quero tudo isso, é muito grande, muito sofisticado, quero uma coisa monástica, uma coisa que possa refletir meu estado interior...", ela conta também na entrevista ao curador Jacopo Crivelli Visconti em entrevista reproduzida no catálogo de sua atual mostra em São Paulo.

No caso das obras recentes de Back to Simplicity, foi uma paisagem na Itália que se tornou o refúgio de Marina Abramovic. Em fotografias de grande formato, vemos retratos da artista em comunhão com ovelhas e carneiros. Na primeira delas, ela leva nas costas uma "ovelha negra" entre um rebanho de ovelhas brancas. Depois, numa sequência de imagens, entre elas, a que ilustra esta página, Marina, vestida de branco, levanta um carneiro em meio a montanhas.


Trecho de "Um apelo à simplicidade" - jornal O Estado de São Paulo - 13.12.2010

12.12.10

Inverno europeu. Brrrrrrrrr!

Pássaro pousa junto às margens congeladas do rio Miljacka em Sarajevo, Bósnia-Herzegóvina, neste sábado (11/12/2010) REUTERS/Danilo Krstanovic/UOL - Imagens da Semana




O meu sorriso está com o dente-de-leão



O meu sorriso está com o dente-de-leão

Thich Nhat Hanh

Se uma criança sorri, se um adulto sorri, é muito importante. Se em nossa rotina diária pudermos sorrir, se pudermos ser felizes e cheios de paz, não só nós, mas todos se beneficiarão. Se realmente sabemos viver, existe melhor meio de começar o dia do que com um sorriso? Nosso sorriso afirma nossa consciência e determinação no sentido de viver em paz e alegria. A fonte de um sorriso ver­dadeiro está na mente alerta.

Como você pode se lembrar de sorrir ao acor­dar? Talvez você possa pendurar um lembrete ­como um ramo, uma folha, uma pintura ou algu­mas palavras inspiradoras – na janela ou no teto acima da sua cama para que você o veja no ins­tante em que acordar. Depois que você tiver de­senvolvido a prática do sorriso, pode ser que não precise mais do lembrete. Você sorrirá ao ouvir um pássaro cantar ou ao ver o sol entrando pela jane­la. O sorriso ajuda a encarar o dia com delicadeza e compreensão.

Quando vejo alguém sorrir, sei logo que ele ou ela está imerso na percepção. Esse leve sorriso, quantos artistas não se esforçaram para trazer aos lábios de inúmeras estátuas e retratos? Tenho cer­teza de que o mesmo sorriso devia estar estampa­do nos rostos dos escultores e dos pintores enquan­to trabalhavam. Dá para imaginar um pintor en­raivecido criando um sorriso desses? O sorriso da Mona Lisa é leve, apenas uma sugestão de sorriso. No entanto, mesmo um sorriso desses basta para relaxar todos os músculos do rosto, para expulsar toda a preocupação e o cansaço. O mais leve es­boço de um sorriso reforça a percepção e nos acal­ma como que por milagre. Ele nos restaura a paz que considerávamos perdida.

Nosso sorriso pode trazer a paz para nós e pa­ra os que nos cercam. Mesmo se gastássemos mui­to dinheiro em presentes para todos os nossos fa­miliares, nada que pudéssemos comprar lhes da­ria tanta felicidade quanto a dádiva da nossa aten­ção, do nosso sorriso. E essa dádiva preciosa não custa nada. Ao final de um retiro na Califórnia, uma amiga escreveu o seguinte poema:

Perdi meu sorriso,

mas não se preocupem.

Ele está com o dente-de-leão.

Se você perdeu seu sorriso e mesmo assim é capaz de ver que o dente-de-leão está guardando-o para você, a situação não é tão má assim. Sua cons­ciência está suficientemente desperta para ver que o sorriso está ali. Basta que você respire com ple­na consciência uma ou duas vezes para que recu­pere seu sorriso. O dente-de-leão é um dos inte­grantes de sua comunidade de amigos. Ele está ali, inteiramente fiel, guardando seu sorriso para você.

Na realidade, tudo que o cerca está guardan­do seu sorriso para você. Você não precisa se sen­tir isolado. É só se abrir para o apoio que está a todo seu redor e dentro de você. Como a amiga que viu seu sorriso sob a guarda do dente-de-leão, você pode respirar em plena consciência e o seu sorriso voltará.

(Do livro “Paz a cada passo” – Thich Nhat Hanh)


Labirinto gelado

Vista aérea do labirinto do parque Erlebnispark Teichland, em Teichland, nordeste da Alemanha. Na região, a neve chegou a 15 centímetros de altura (09/12/2010) AFP PHOTO/Patrick Pleul/UOL - Imagens da Semana




Greenpeace em Cancún


Versões de papel-cartão de importantes pontos turísticos do mundo são vistos na praia de Gaviota Azul, em Cancún; ação faz parte de estratégia do Greenpeace durante o COP-16, a conferência de clima promovida pelas Nações Unidas REUTERS/Gerardo Garcia/UOL - Imagens da Semana



30 anos sem John

Homenagens a John Lennon no mosaico Imagine no Central Park, em Nova York, nos 30 anos da morte do cantor (08/12/2010) REUTERS/Mike Segar



Sempre Clarice




Nome:
Clarice Lispector

Nascimento:
10/12/1920

Natural:
Tchetchelnik - Ucrânia

Morte:
09/12/1977




As águas do mar
Clarice Lispector



O mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra. São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é um mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar. Seu corpo se consola com sua própria exigüidade em relação à vastidão do mar porque é a exigüidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exigüidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo, mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem. Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que oposição pode ser um pedido. O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada. Agora o frio se transforma em frígido. Avançando ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora, já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol, quase imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes, bons. E era isso que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto. Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, e ela mergulha de novo; está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois.Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação. Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas – ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas – mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera. E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos são de náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.





1.12.10

Nós intersomos

Adrian Cintar - TrekLens







Você é eu, e eu sou você.
Não é óbvio que nós "intersomos"?
Você cultiva a flor em você mesmo
para que eu seja belo.
Eu transformo o lixo que há em mim
para que você não tenha de sofrer.

Eu apoio você,
você em apoia.
Estou neste mundo para lhe oferecer paz;
você está neste mundo para me trazer alegria.


Thich Nhat Hanh


Grupo Corpo

Um músico-pintor da Lituânia


Mikalojus Konstantinas Čiurlionis (1875-1911)



Música: web site M.K. Ciurlionis Musical Works

Pintura: the National Gallery’s virtual exhibition



Escute fragmentos:

Dainu dainele


Taip toli zadeta






30.11.10

"Família é prato difícil de preparar"




"O Arroz de Palma"
de Francisco Azevedo


Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo.
Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência.
Não é para qualquer um.
Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir.
Preferimos o desconforto do estômago vazio.
Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio.
Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite.
O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares.
Súbito, feito milagre, a família está servida.
Fulana sai a mais inteligente de todas.
Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade.
Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo.
Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante.
Aquele o que surpreendeu e foi morar longe.
Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia.
Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa?
O que nunca quis nada com o trabalho?
Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo.
Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida.
Não há pressa. Eu espero.
Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados.
Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola.
Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona.
E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco.
Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas.
Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre.
Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.
Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher.
Saber meter a colher é verdadeira arte.

Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe “Família à Oswaldo Aranha", "Família à Rossini”, Família à “Belle Meunière” ou “Família ao Molho Pardo” em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria.
Família é afinidade, é “à Moda da Casa”.
E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas.
Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de “Família Diet”, que você suporta só para manter a linha.
Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo.
Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa.

A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia- a -dia.
A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel.
Muita coisa se perde na lembrança, principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer.
Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas.
Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo.
Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.




Um beijinho de obrigada pelo envio, Sonia Maria querida:)




25.11.10

Você sempre teve a cabeça nas nuvens

Site The Register via BBC




RETÁBULO DE JERÔNIMO BOSCH

jardim das delícias terrenas - Hieronymus Bosch






Everardo Norões



O peixe-homem fugiu da tela
através do azul-turquesa
de um quadro de Klee.
Desconhecia
as plantas do Jardim das Delícias,

as classificações botânicas,
os itinerários, a música da sala:
flutuou no ar.

Suas palavras
brilharam como esferas magnéticas.
E num farfalhar de águas,
desapareceu da tela
em direção ao retábulo
de São Jerônimo Bosch.




William Shakespeare: Dormir, dormir... talvez sonhar... ( Hamlet)

Fotografia da Agência Espacial Europeia mostra aurora austral tirada do Observatório de Cupola, na Estação Espacial Internacional AFP/HO/ESA



24.11.10

Os Argonautas




Caetano Veloso

O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!...

Navegar é preciso
Viver não é preciso...(2x)

O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!...

Navegar é preciso
Viver não é preciso (2x)

O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!...

Navegar é preciso
Viver não é preciso...(6x)


Argonauta


Foto submarina mostra uma fêmea de argonauta (Argonauta argo) encontrada no Porto Okidomari, no mar do Japão Julian Finn/Museum Victoria/AFP




Vistas aéreas do Arquipélago de Bazaruto - Moçambique










Extensas faixas de areia recortam as águas azuladas de Bazaruto, região moçambicana cuja transparência e alta visibilidade de suas águas garantiram ao destino o título de um dos mais importantes centros de mergulho do mundo Mais Eduardo Vessoni/UOL






Resíduo







Carlos Drummond de Andrade

Composição: Drummond

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco


Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).


Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.


Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.


Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?


Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.


De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.



De tudo fica um pouco, Drummond

lovac-na-svetlo - Nebojsa Radojevic - TrekLens




Fabiana Borgia

Inspirado em Resíduo de C. D. A



De tudo fica um pouco. Do último raio de sol atravessando


a fresta da porta. Do vento que sopra, afastando tudo, mas deixando

um pouco. Da lua dos poetas, sonhadora e misteriosa. Do beijo

instantâneo, que não perde o gosto. Do suor do trabalhador. Dos

pais. Do DNA. Das estrelas com o som dos grilos numa noite vazia,

repleta de encantos. Do som do violão apreciado na fogueira.

De tudo fica um pouco. Das águas que correm e que se

esquecem do tempo, levando um pouco e deixando outro pouco.

Do cheiro da rosa que murcha, que permanece. Do perfume de

mulher. Fica um pouco...



Fica um pouco do sonho que acabou, do braço que abraçou.


Fica um pouco do sorriso amarelo. Fica um pouco da carne mole.

Da boca seca. Do rosto pálido. Do mau hálito. Do bafo de cerveja.

Fica um pouco verão, um pouco inverno. Fica um pouco do casulo

da borboleta. Fica um pouco de lágrima na mesa. Fica um pouco

de desilusão. Fica um pouco nublado. Um pouco sol, um pouco

chuva. Um pouco de suor na testa.

Também fica um pouco de amor guardado, reciclado. Fica um

pouco de bebida na garrafa. Do amargo. Da ressaca. Fica um pouco

de areia nos chinelos. E fica um pouco de cabelo na roupa. Um

pouco do brilho no olhar apaixonado. Fica um pouco de saudade,

um pouco de culpa, um pouco de remorso. Um pouco de mágoa.

Fica um pouco de música na cabeça. Um pouco do retrato

rasgado. Fica um pouco da carta de amor. Do nódulo. Do caco de

vidro estilhaçado. Da porcelana rachada. Do trapo. Da traça. Da

ferrugem. Um pouco de esmalte na unha. Da marca de batom. Um

pouco da dor do parto. Um pouco de carnaval. Da criança correndo na

sala. Um pouco de argila para brincar. Um pouco da cadeira de balanço.

Fica um pouco de lembrança, um pouco de esquecimento,

um pouco de ressentimento. Da sensação ao fechar os olhos. Fica

um pouco do gosto de desgosto ao abri-los. Um pouco da risada

marota. Um pouco de malícia. Um pouco da planta que secou.

Do cheiro da erva. Do cigarro. Do tapa na cara. Do nó na garganta.

Da humilhação. Do mofo da sala. Fica um pouco de vinho na

garrafa. Um pouco da granada. Da guerra. Do fuzil. Do ataque

terrorista. Da data.



Mas, de tudo, sempre fica um pouco. Fica um pouco do


choro e da vela derretida. Mas sempre há este pouco, que tantas

vezes parece muito, por se fazer lembrar.


POEMA 28




Disse Kabir: Sobre esta árvore está um pássaro.
Dança com a alegria da vida. Ninguém sabe onde está.
E quem poderá saber qual o tema do seu canto?
Tem o ninho onde os ramos fazem a sombra
mais profunda; chega ao anoitecer e parte, voando,
pela manhã, sem ter dito uma palavra
do que queria contar. Ninguém
me fala deste pássaro que canta dentro de mim.
Não tem cor nem, sequer, é incolor.
Não tem forma nem silhueta.
Descansa à sombra do amor.
Mora no inalcançável, no infinito e no eterno
e ninguém repara quando chega ou parte.
Profundo é o mistério.
Que os sábios procurem descobrir
onde descansa este pássaro.

JOAQUIM PESSOA in À MESA DO AMOR (Litexa, 1994)

DANAÇÃO

rose_for_eternal_rest_Francis Xavier Camilleri - TrekLens




Fernando Fábio Fiorese Furtado



Bom mesmo


Era morar num lugar de nome bonito

— Nossa Senhora dos Remédios,

São Tomé das Letras,

Dores do Turvo —

cultivar violetas e samambaias

e fazer do itinerário dos peixes

minha mística.

E não

ficar polindo os ossos do mito.





além da etern(a)idade

Andreas Ayre - TrekLens



Euza Noronha


acima dos meus atos falhos
quero fazer pairar
a minha envelhescência

um ato de subjetivação
que me tornará sujeito
do correr das horas
que me fará significante
no encontro-desencontro
da alma que dança
do corpo que cansa

acima do desejo de etern(a)idade
quero pairar
envelhescente

e tecer
levemente
as tramas do tempo

Grupo de pássaros cerca avião militar nos EUA


Um grupo de pássaros foi flagrado ao cercar um avião militar nos EUA. A imagem, flagrada pela fotógrafa Kaia Larsen, mostra o instante que estorninhos parecem rodear um E-6B, avaliado em R$ 241,5 milhões, durante o pouso no aeroporto regional de Fort Smith, em Arkansas.


"Todos os pássaros começaram a voar ao redor do avião como uma grande bola", disse Larsen ao jornal britânico "Daily Mail". "Eu percebi que algo estranho estava para acontecer", completou. Larsen passava pela região quando notou a cena e sacou sua máquina fotográfica. A foto foi feita no último dia 29 de outubro.

O avião conseguiu pousar em segurança. Segundo o "Daily Mail", nos últimos 20 anos, 200 pessoas morreram devido a ataque de pássaros.



Do UOL Notícias

Em São Paulo- 18/11/2010




Para rir e se emocionar




Clique em:

http://www.snotr.com/embed/2938


Um beijinho de obrigada pelo envio, Zi querida.





Vivendo perigosamente


(Do G1, em São Paulo)


Um pequeno crocodilo se arriscou e foi flagrado nas costas de uma fêmea de hipopótamo no Rio Luwego, perto Lukula, na Tanzânia. A cena foi fotografada por Mark Sheridan-Johnson em outubro, mas divulgada na terça-feira pela agência "Barcroft Media".

10.11.10

'American Gothic' (ou a arte de perder a cabeça...)


Funcionário da Sculpture Foundation guia cabeça de estátua baseada na pintura 'American Gothic', de Grant Wood, em Indianápólis (26/07/2010) AP Photo/The Indianapolis Star, Kelly Wilkinson




Bebê perigoso

Homem segura uma cobra indiana naja que acaba de sair do ovo, em Bhubaneswar (Índia) AFP




Mosaico de Orfeu

Reconstrução do grande mosaico de Orfeu, considerado um dos projetos arquitetônicos mais significativos dos últimos tempos, é exibido pela casa britânica Chorley's.




Fractais

fero ondrejka - TrekLens




Everardo Norões




Pelo mergulho


das sombras

calculo o itinerário da luz.

Meço

os contornos de nossas ruínas

na matemática particular

dos desesperos.

Abro a janela

Da página do sonho:

Soletro devagar, o Aywu rapitá:

o ser do ser da palavra

(flor pronunciada

entre as estrelas.)



A noite


Desaba sobre as telhas

Na explosão de um meteoro.

Conto estilhaços,

recomponho parábolas:

um mínimo do que sou

lembra as fronteiras

do Universo.

passagem

Eduina Jaupi - TrekLens




Euza Noronha



o plano inclinado


onde derrapou nossa vida

jogou-nos cansados

indigentes

e separados

no abismo da estranheza



de tudo que vivemos


ficou este silêncio

que passeia

ingente

por paisagens

que os anos não adoçaram



mas há sempre


novos dias:

já escuto a algazarra

de passarinhos

balançando a alegria



de inclinado


só restará o galho

na memória das sementes



de silêncio


apenas o intervalo

entre bemóis e sustenidos



Manoel de Barros - Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

A Maior Flor do Mundo /José Saramago

A conotação pejorativa do Dia das Bruxas

Abóbora-lanterna - desconheço a autoria da foto




NA ESTRADA


MAYRA DIAS GOMES

A conotação pejorativa do Dia das Bruxas

O HALLOWEEN é uma data de extrema importância nos EUA. No Brasil, porém, para a infelicidade das crianças, só foi incorporado por escolas norte-americanas, cursinhos de inglês e brasileiros com costumes americanos.
Sem saber de onde vem o Halloween, deixamos a tradição passar em branco e ainda a chamamos de Dia das Bruxas. Mas qual é a história da data? E o que as bruxas têm a ver com isso?
A tradição tem duas origens que se misturaram, uma pagã e outra cristã.
Originalmente, surgiu de um festival celta irlandês chamado Samhain, que marcava o fim do verão e cultuava os mortos.
Os celtas acreditavam que, nessa data, o mundo dos vivos se misturava ao dos mortos e que, em 31 de outubro, os espíritos saíam dos cemitérios e andavam pelas ruas em busca de corpos para possuir.
Caveiras e abóboras iluminadas por velas enfeitavam as casas para assustar os fantasmas. Máscaras também eram usadas para espantá-los.
O festa cristã All Hallow's Eve deu origem ao nome Halloween. Para acabar com as manifestações do dia 31 de outubro, consideradas pagãs pela Igreja Católica, o papa Gregório 3º ordenou que todos os santos fossem homenageados no dia 1º de novembro. Antes, todos os mártires eram homenageados em 13 de maio.
Em vez de enfraquecê-la, a igreja acidentalmente fortaleceu a celebração celta.
No Brasil, o nome Dia das Bruxas carrega uma conotação negativa que muitos desconhecem. O Dia das Bruxas lembra a perseguição que aconteceu durante a Idade Média, quando pessoas consideradas pagãs eram chamadas de bruxas e queimadas vivas em público.
O termo Dia das Bruxas só é usado por povos de língua portuguesa e é considerado preconceituoso por muitos que acreditam na tradição do Halloween.

Folha de São Paulo - Folhateen - 8.11.2010

9.11.10

Vinicius de Moraes, o "Poetinha" e_terno



Samba em Prelúdio

Vinicius de Moraes

Composição: Baden Powell e Vinícius de Moraes
Eu sem você não tenho porque
porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz
jardim sem luar
luar sem amor
amor sem se dar
E eu sem você
sou só desamor
um barco sem mar
um campo sem flor
Tristeza que vai
tristeza que vem
Sem você meu amor eu não sou
ninguém
Ah que saudade
que vontade de ver renascer
nossa vida
Volta querido
os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinha
tenho os olhos cansados de olhar
para o além
Vem ver a vida
Sem você meu amor eu não sou
ninguém

Senta que lá vem história


Textão: Voltei a ler
Estou lendo quatro livros ao mesmo tempo,não que eu precise ler os mesmos,escolho aleatoriamente. Sempre incluo uns dois ou tres de poemas,pois estou com raiva da realidade.Esta realidade suja,hipócrita,conservadora.Que vivemos obrigados,dia após dia.Mas de certa forma todo este esforço pueril ,toda esta fuga, me afunda,me faz tropeçar.Então eu caio na realidade novamente,feito um sorvete na calçada.A mente adora fazer comparações bizarras.Se uma autor descreve Londres,eu percorro as ruas do centro velho de São Paulo,procurando o Big Ben no largo São Bento.Mesmo a neve caindo,coisa quase impossível de acontecer num pais tropical,transfiro a sensação ao ver os telhados das casas da Vila Brasilândia.Algumas de telhas antigas , mas a maioria é de laje mesmo e placas de amianto.
Paro, dou um tapa certeiro no braço. Mato um mosquito pousado distraidamente,estava cheio de sangue e agora não passa de uma sujeirinha.
Mas do que eu estava falando mesmo?
Voltei a ler e adoro fazer isto,assim posso ir a outro lugares.Respirar outros ares,pois raramente saio de casa.Raramente saio do bairro, ou da cidade.Tenho bastante preguiça e pouco dinheiro,antes fosse o contrário.Hoje deparei-me com a palavra contrafação e fui automaticamente consultar o google, para entender o significado este vocábulo.Quando estou lendo, isto acontece quatro ou cinco vezes seguidas.E tenho de descobrir novos sentidos e interpretações. Coisas que me enchem a cabeça de idéias.Logo escrevo um pouco para desaguar o que esta represado.
Vou descansar,tirar um cochilo, apagar a consciência do mundo.Isto é uma espécie de refresco,tento não evitar as palavras, mas estas obviedades me perseguem a todo momento.As palavras chamam as mãos, apertam com vontade.
Então, eu já falei então? Pois bem,percebo que estou vivo e viver é algo inevitável, acima de todas as vontades
CarlosAssis
terça feira de carnaval
dia quente de sol

Sobre o aborto



"Não conheço maior crime do que matar o que luta para nascer".
Henry Miller




8.11.10

Boa noite:)



Manhã

Slobodan Simic - TrekLens





Fernando Fábio Fiorese Furtado



na claridade do pátio

nada se move.



apenas o mármore das colunas

duela com o vento.



todo o solo prenuncia a queda

a palavra que fenda a manhã.



emigrado da sombra

me entrego ao desgaste do vento.



ah o azul

o azul me desampara.






Caixa n° 3


take_all_i_have_Karina Gerbst - TrekLens




Fernando da Rocha Peres


Recontar uma vida

não é ferver sopa de letrinhas.

Sabe a um novo parto,

(placentário e natural)

saindo para o mundo sem vontade,

nem fraldas.

As sentenças valem cada susto ou revelação:

andar, estudar, amar, morrer...

E a poesia não conta?

Pergunte ao bem-te-vi da criança,

ao desalento da adolescência
ao furor da maturidade.

Se tens coragem (re)abra seu abc,

sua tábua de lugar íntimo,

e cuspa seus dejetos.

Recontar uma vida

não é fazer quebra-cabeça,

mas é cruzar palavras.






7.11.10

Precisando de sugestões para o lanchinho?




Tour pelo mundo

Barcelona - foto de Admin


http://www.jcdurand.ca/Monde/Tour.html



Um beijinho de obrigada pelo envio, Zã querida:)




6.11.10

Sábado

kostka - Mariusz Biegaj - TrekLens



Carlos Vogt



Depois de amanhã


vou recomeçar vida nova:

ao invés de subir pelas paredes

toda vez que a vejo com felicidade

vou descer a pé

ante pé

a ladeira da saudade




Foto de família


Uma família de corujas virou a principal atração da rua Iraci Ferreira da Cunha, esquina com Avenida Barão Homem de Melo, no bairro Estoril, zona oeste de Belo Horizonte. Sem se importar com o movimento, um casal da espécie construiu um ninho em um muro, na lateral de uma concessionária de veículos. Conhecida como Coruja-buraqueira, por fazer os ninhos em buracos cavados no solo, as aves tiveram cinco filhotes e não parecem dispostas a deixar o local MARCELO PRATES/AG. O

Qual será a cor do seu cérebro?




Clique no lik abaixo, e responda ao teste classificando
As 4 alternativas de cada pergunta
.


http://delas.ig.com.br/comportamento/qual+e+a+cor+do+seu+cerebro/n1237538075077.html



Um beijinho de muito obrigada pelo envio, Sonia querida:)



Um haicai que ganhei de presente:)

foto retirada do blog "Crônicas Urbanas"





Tarde de inverno -
O por-do-sol sumiu
em meio a poeira


Antonio Mitori

Salesopólis-SP



Um abraço de muito obrigada, querido poeta e amigo.





Poeminha Triste

el_mariachi1_blue_Shawn McNulty



Fernando Mendes Rosendo



Nem chuvas nos campos


nem encantos na vida

nem sonhos em lugar algum...

Dobro as esquinas dessa avenida

e devagar caminho pelos passeios desertos

onde encontro os solitários e viajantes da noite...



Debruço sobre os entulhos de uma construção


minhas palavras que já foram poemas

e enfeitaram os jardins de algum sonhador...

Nada de novo

nada de falso nem de verdadeiro

as coisas simplesmente passam porque tem que passar...



Pobre é essa noite que já nasceu sem graças


e não inspirou nem uma poesia

e vai morrer sem saudades...


A Natureza Poética de Tim Flach


Nascido em 1958, na cidade de Londres, Tim Flach é um fotógrafo que nos conquista por sua capacidade de percepção. Seus conceitos abrangem o mundo animal em seu estado puro ou em contato com os seres humanos. Em seus retratos somos capazes de perceber sentimentos, que antes nos pareciam apenas comuns nas qualidades humanas, mas que agora, sob o olhar fotográfico de Tim, se tornam comuns também aos animais, trazendo-os para nosso redor.

(do Blog Obvious)


Ler o artigo completo

A faca e o diamante

Foto de fero ondrejka - TrekLens





Cida Almeida

Afio a faca numa pedra de diamante
O aço e o carbono exigem cortes
Impossíveis dentro da tarde
Em que mil correntes rangem
Mas a que me desespera
Reclama o elo que partiu
O outro lado da ponte
Aquece a espera de um tempo frio
Mudo e ignorado. E isso é eterno!

A faca que afio

Contra os fios que não alcanço
Contra a eternidade do diamante
Onde adormecem as luzes raras
Onde a única possibilidade de corte
Está na carne e na tormenta da alma.

A faca afiada tilinta
E perigosamente risca
Rompimentos no cristal da tarde
Na raiz das palavras e das artérias
A faca pulsa
Entre dormências e sonhos
A tosca lapidação das feridas
Aquece a tarde
E eu vibro.





5.10.10

É Bonito, é bonito, é bonito...


Bonito (MS) - foto de André Seale



Metonímico

fero ondrejka - TrekLens





Carlos Vogt



Enquanto repouso:

janelas

e quando já

nelas: cotovelos

de

lembranças



Solidão acompanhada

Pássaros sobrevoam a Ocean Beach, praia de San Francisco, EUA - AP Photo/Jeff Chiu



Medo

Eme Skve

RAYMOND CARVER
tradução CIDE PIQUET

MEDO

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso.

Breves momentos de felicidade

Adrian Cintar - TrekLens


NINA HORTA

Breves momentos de felicidade



DÁ ASSIM, de repente, numa dessas manhãs de primavera. Imagino que haja uma possibilidade de ser assunto de terceira idade, tipo "quem sabe é a última vez", mas me lembro que as crianças quase sempre têm esse dom de usufruir um momento de perfeita felicidade. Todos têm.
Mergulhar no mar. Fazer xixi quando se está muito apertado. Escrever o nome do namorado na areia úmida com um pauzinho. Tomar sol cálido numa tarde fresca ao lado de um amigo calado. Ter uma reunião de negócios cancelada. Deitar numa cama de lençóis trocados e limpos, muitos travesseiros e saber que não há necessidade de acordar cedo no dia seguinte. Fazer uma receita passo a passo e tudo dar certo, bonito e gostoso. A sensação do dever cumprido.
Desci para tomar café. A casa vazia, as portas abertas, entrava um cheiro de guaco e não sei de que flor, um jasmim comportado. Se tinha brisa? Claro. E uma roseira trepadeira cheia de flor, se enroscando no pé de louro alto e seco. O pão fora deixado na mesa, fresco, recém-chegado da padaria, dentro de um guardanapo de linho e de uma cesta de palha. A manteiga era salgada, mas não muito, inteira, numa manteigueira de vidro americano da Grande Depressão. Não desta, da outra. Encomendei na Ebay, paguei com "paypal". Li que o "paypal" está se estabelecendo aqui. Você se vincula a ele e pode fazer suas compras por internet em perfeita segurança. Desembrulhar um livro também pode ser um momento desses.
Tinha mais coisa para comer, geleia de laranja amarga, coalhada, queijo, um chocolate em pó semi-amargo para desmanchar no leite, mas, para mim, de manhã a benção é café puro e um pãozinho francês e três jornais. No domingo começo com a Folha e nem penso, vou direto para a Ombudsman, que conseguiu fazer de sua página uma leitura muito interessante, o que é raro na seção de ombudsman. Outros me fazem anotar livros para comprar, gosto desse crítico voraz e semanal.
Já saí do assunto dos breves momentos de felicidade. São assim. Tem a hora que você está varada de fome e cansada. E alguém, quando se menos espera, faz uma massinha mole, com um molho de tomate daqueles antigos, meio adocicado, com uma suspeita de canela e uma pimenta boa para avivar os sabores. Pimba!
São breves por não sabermos nos concentrar neles. Geralmente na hora do café, que é a única hora em que a empregada pode conversar com você, ela vem, fica em pé numa ponta da mesa e começa. "Dizque..." Para quem não sabe, o "dizque" é a introdução para o raconto de sonhos. Não se fala: "dizque estamos precisando de açúcar." Não.
"Dizque eu estava no sítio e a senhora apareceu muito magra, fiquei pensando, será que ela adoeceu?" A essas alturas, completamente hipocondríaca, já virei um feto apavorado na cadeira, o café esfriando, a manteiga derretendo no pão. Deve ser um sonho premonitório. Vou morrer. "Não; dizque a senhora estava com saudade do cachorro". Eu, com saudade do cachorro? Mas nem tenho cachorro!
Sentiram o drama? É só não deixar que os assuntos que não trazem a felicidade instantânea se misturem e cortem o barato da manhã com cheiro de guaco.

16.09.10 Folha de São Paulo
caderno Ilustrada