31.1.10

Bom domingo:)

A.D.



Lalande




É como lágrima de anjo. Sabe o que é lágrima de anjo? Uma espécie de narcisinho, qualquer brisa inclina ele de um lado para outro. Lalande é também mar de madrugada, quando nenhum olhar ainda viu a praia, quando o sol não nasceu. Toda a vez que eu disser: Lalande, você deve sentir a viração fresca e salgada do mar, deve andar ao longo da praia ainda escurecida, devagar, nu. Em breve você sentirá Lalande[...]

Clarice Lispector
"Perto do coração selvagem"

46

Sarolta Ban


Em seda tão delida,
em laços tão sem cor,
esteve a nossa vida
pelo tempo do amor.

E eis o espelho tão baço,
e o ar sem repercussão,
para a chegada e o abraço
e a voz do coração.

Eis a fechada porta.
quem podia supor!
- mesmo a saudade é morta,
quase, quase sem dor.

Rios de serenata
para o mar levarão
o que morre, o que mata
e o que é recordação.

Cecília Meireles
"Metal Rosicler"



Páscoa

Brian Froud




Adélia Prado

Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui loura e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
"põe o agasalho"
"tens coragem?"
"por que não vais de óculos?"
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.




O meu sapato

A.D.



o meu sapato
E depois fiquei ali, com a cabeça baixa, sem desgrudar os olhos do meu sapato. Alguns modelos de sapato são assim: feitos com olhos grudados, não há solvente que os possa tirar. Há uma grande distância entre o pensar e o agir. A distância de um passo que o meu sapato, tão cheio de olhos, não soube enxergar.

Rita Apoena





El Desierto




El Desierto

Lhasa de Sela
Composição: Lhasa de Sela / Yves Desrosiers

He venido al desierto pa' reirme de tu amor
Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor

He venido a este centro de la nada pa' gritar
Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar

He venido yo corriendo, olvidándome de ti
Dame un beso pajarillo, no te asustes colibrí

He venido encendida al desierto pa' quemar
Porque el alma prende fuego cuando deja de amar


O Monte Roraima







O Monte Roraima faz parte de um terreno montanhoso com centenas de outras montanhas e montes chamados de Tepuis localizado ao Sul da Venezuela (área escalável), extremo Norte do Brasil e Oeste da Guiana constituindo a tripla fronteira. Fica na Serra de Pacaraima, é o ponto mais alto da Guiana, e a décima maior formação rochosa brasileira, com 2.739,3 metros de altitude.

O Roraima destaca-se por possuir características únicas. Estima-se que tenha se erguido há mais de 2 bilhões de anos, período em que nem sequer os continentes tinham se separado e adquirido a forma que possuem atualmente. Umas das peculiaridades que mais o diferenciam de quaisquer outros montes é o fato de se parecer com uma imensa "mesa", ou seja, seu topo é plano (e possui cerca de 90 km de extensão). Além disso, escorrem do monte milhões de litros de águascachoeiras; na Venezuela os índios a chamam de "mãe das águas". formando várias

Sua fauna e flora é muito rica, contendo várias espécies endêmicas. Seu cume pode ser alcançado por expedições a pé, feita por pessoas vindas de todo o mundo, iniciadas geralmente pelo lado venezuelano, a partir da cidade de Santa Elena de Uairén. A caminhada deve ser feita com auxilio de guias experientes que podem ser contratados no início da trilha, e pode levar até 2 dias somente para alcançar o cume. Geralmente toda a expedição, com visitação a vários pontos do cume leva 7 dias, incluindo a subida e descida.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Belo Horizonte, 1941

[Desconheço a autoria da fotomontagem]



"As mulheres daqui são quase todas morenas, baixinhas, de cabelo liso e ar morno. Aliás, quase só há homens nas ruas. Elas, parece, se recolhem em casa e cumprem seu dever, dando ao mundo uma dúzia de filhos por ano. As pessoas daqui me olham como se eu tivesse vindo direto do Jardim Zoológico. Concordo inteiramente".


Clarice Lispector
"Clarice"
Benjamin Moser



.



Um novo 0lhar

Les Demoiselles d 'Avignon - Fabio Rex





Les_Demoiselles_d'Avignon - Pablo Picasso




Um Casamento e dois olhares

Chagall - The Birthday - Fabio Rex







marc_chagall_geburtstag



30.1.10

Bom dia:)

huelamo






Anímico

malar-Premanand Thangavelu




Adélia Prado

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.



Às vezes é preciso recolher-se



"Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos".

Lya Luft

Livro "Deslembrar" mostra como lidar com as lembranças

Lembrança era o nome de uma menina que tudo lembrava e tudo guardava. Não importa o que fosse, podia ser uma pedrinha da beira do rio ou uma carta de amor




Lembrança guardava as coisas em caixas, em livros em armários ou gavetas. O importante era guardar para depois lembrar




Ninguém nunca disse pra ela, mas no fundo ela sabe que o maior tesouro da vida é levar aquilo que se lembra junto com a gente por toda a vida




Lembrança costuma chegar quando tudo está tranquilo e calmo. Chega e fica com a gente, ensinando a recordar Mais Rosinha



[UOL Crianças]

Dennis Stock

James Dean in Times Square - Dennis Stock




14/01/2010
Morreu o fotógrafo americano Dennis Stock, da agência Magnum


da France Presse, em Paris
Folha Online

O fotógrafo norte-americano Dennis Stock, conhecido principalmente por suas fotos de estrelas de Hollywood e de músicos de jazz, morreu na segunda-feira à noite aos 81 anos, anunciou nesta quinta-feira a agência Magnum, para a qual trabalhava há cerca de cinquenta anos.

"É com uma grande tristeza que informamos sobre a morte de Dennis Stock", indica a famosa agência de fotografias, sem indicar as causas e o local de sua morte.

Sua série de fotos de James Dean, em 1955, logo antes de sua morte acidental, é particularmente célebre: a imagem do ator caminhando sob a chuva, com a gola de seu casaco erguida, as mãos nos bolsos e o cigarro no canto da boca, na Times Square (Nova York), ocupou um espaço nas paredes dos quartos de gerações de adolescentes.

Suas fotos sobre o mundo do jazz, que captavam com maestria o ambiente enfumaçado dos clubes e a solidão dos músicos, e, principalmente, da Nova Orleans dos anos 1950, de Sidney Bechet, Louis Armstrong e Miles Davis, também ficarão na memória. Ele reuniu algumas das mais belas em seu livro "Jazz Street".

No final dos anos 1960, ele se apaixonou pelos movimentos de contestação, antes de se interessar pelas cores e pela natureza.

Ele publicou ao todo 27 livros, e suas fotografias foram exibidas em vários museus internacionais, como o Internation Center of Photography, de Nova York, ou o Museu de Arte da Cidade de Paris.

Nascido em Nova York em 1928, Dennis Stock deixou sua casa aos 17 anos para se alistar na Marinha. Após um estágio na revista Life, ele entrou para a Magnum em 1951.

Sobre seu trabalho de fotógrafo, Dennis Stock dizia: "Tive o privilégio de ver grande parte de minha vida através de minha objetiva, fazendo dessa viagem uma experiência esclarecedora", segundo o comunicado da Magnum.


Mais fotos em
http://www.mocp.org/collections/permanent/stock_dennis.php













Ciúmes

NorthWind_Charles Mozley




Para que ninguém o visse, ela cobriu o corpinho do filho com seus cabelos longos ...

29.1.10

Boa tarde:)


By Nemo- StreetArt- Paris-France




Às vezes tu dizias

reflection - Magdalena Reszke



Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.

Já gastamos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

Eugénio de Andrade





Down in the River to Pray

go to sleep little baby

Interlúdio

lulja - Jeton Neziri




As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

Cecília Meireles


XLIX

Lisboa - Portugal - Travis Bickle




Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,

A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro
"Poesia completa de Alberto Caeiro"

La Paz


"La Paz" by Lykke de Nina 2000





"La Paz é uma cidade extraordinária, tão perto do céu e de ar tão fino que é possível ver os anjos ao amanhecer, o coração está sempre a ponto de arrebentar e a vista se perde na pureza aflitiva de suas paisagens. Cadeias de montanhas e morros arroxeados, rochas e pinceladas de terra em tons de açafrão, violeta e vermelhão circundam a depressão por onde se estende essa cidade de contrastes".

Isabel Allende
"Paula"



28.1.10

Bom dia:)

um bonsai original!




Exposição mostra o Rio "através da teleobjetiva"

O Rio de Janeiro comemorou no domingo, 2o de janeiro, o dia de São Sebastião, padroeiro da cidade. A data é a mais importante comemoração municipal e concentra também as homenagens à cidade. O dia da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, 1º de março, não é feriado. A cidade completará 445 anos. Parabéns, Cidade Maravilhosa!


O fotojornalista Fernando Rabelo exibe imagens do Rio de Janeiro na exposição "Olhar distante: o Rio através da teleobjetiva"


o Cristo Redentor


os Arcos da Lapa


a rua do Russel, na Glória


a lagoa Rodrigo de Freitas


condomínio no Humaitá visto do mirante Dona Marta


o edifício Atlântico Bussiness visto da Torre do Rio Sul


a Urca vista do mirante Dona Marta


a enseada de Botafogo


prédio da Petrobras visto dos Arcos da Lapa





Eugene Martin

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada

chinese_characters - Joao Andre Serralheiro





I



Não tenho bens de acontecimentos.

O que não sei fazer desconto nas palavras.

Entesouro frases. Por exemplo:

- Imagens são palavras que nos faltaram.

- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.

- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.

Ai frases de pensar!

Pensar é uma pedreira. Estou sendo.

Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)

Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos,

retratos.

Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

Manoel de Barros
"Guardador das Águas"




Lhasa De Sela




El Pajaro
Lhasa de Sela


Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la
Pajarillo, tù me despertaste
Enseñame a vivir

En un abismo yo te esperé
Con el abismo yo me enamoré
Pajaro me despertaste
Pajaro no sé por qué

Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la
Pajarillo, tu me condenaste
A un amor sin final

En un abismo yo te esperé
Con el abismo yo me enamoré
Pajaro me despertaste
Pajaro no sé por qué

Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la
Pajarillo, tu me condenaste
A un amor sin final

En un abismo yo te esperé
Con el abismo yo me enamoré
Pajaro me despertaste
Pajaro no sé por qué

Mirenme a la vida vuelvo ya
La la la...



Bucólica Nostálgica

smoke - TrekLens



Adélia Prado

Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!


Traço comum

Praga - Farouk Chaabna




descalço-me de sombras para chegar a ti
as linhas do meu rosto são claríssimas
nelas não vês o velho, a criança, o adulto
vês apenas o traço comum
que é onde eu procuro a tua mão
na transparência da minha palavra inteira

Vasco Gato
"Um Mover de Mão"



Ausência

Sarolta Ban






Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

Por isso, de deixar alguns sinais - um peso

Nos olhos, no lugar da tua imagem, e

Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

Tivessem roubado o tacto. São estas as formas

Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

As coisas simples também podem ser complicadas,

Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.

Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a

Realidade aproxima-me de ti, agora que

Os dias correm mais depressa, e as palavras

Ficam presas numa refracção de instantes,

Quando a tua voz me chama de dentro de

Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

Como dizer que a tua ausência me dói.


Nuno Júdice

"Pedro Lembrando Inês"

27.1.10

Boa tarde:)

katinas - Lituania





E agora José - Carlos Drummond de Andrade

Goran Bregović - Lullaby

Passa, ave, passa

eagle - Mert Serter - Malasia




Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Alberto Caeiro

Não, as palavras não fazem amor

Sarolta Ban


Não, as palavras não fazem amor
fazem ausência

Se digo água, beberei?
Se digo pão,comerei?


Alejandra Pizarnik



Explicação

anna - Italia - Andrey Vahrushew



O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
E alguém mata os personagens.)


Cecília Meireles

O assombroso universo de Chagall




Resolvi passar a noite de Natal acordada para descobrir a verdade (sobre Papai Noel), mas apesar dos meus esforços o sono acabou me vencendo. Atormentada pelas dúvidas, tinha escrito uma carta-armadilha, pedindo o impossível: outro cachorro, uma multidão de amigos e vários brinquedos. Ao acordar de manhã encontrei uma caixa com potes de guache, pincéis e um bilhete astuto do miserável Papai Noel, cuja caligrafia era suspeitamente parecida com a de minha mãe, explicando que não me trouxe o que fora pedido para eu ser menos ambiciosa, mas que, em compensação, oferecia as paredes do meu quarto para que eu pintasse o cachorro, os amigos e os brinquedos. Olhei em torno e vi que tinham tirado os severos retratos antigos e o lamentável Sagrado Coração de Jesus, e na parede nua diante da minha cama descobri uma reprodução em cor, recortada de um livro de arte. O desapontamento me deixou atônica, por vários minutos, mas finalmente me recuperei o suficiente para examinar aquela estampa, que era uma pintura de Marc Chagall. A princípio pareciam manchas anárquicas, porém logo descobri no pequeno recorte de papel um assombroso universo de noivas azuis voando de pernas para o ar entre um candelabro de sete braços, uma cabra vermelha e outros versáteis personagens. Havia tantas cores e objetos diferentes que precisei de um bom tempo para me movimentar na maravilhosa desordem da composição. Este quadro tinha música: um tic-tac de relógio, gemidos de violinos, berros de cabra, roçar de asas, um murmúrio infindável de palavras. Tinha também cheiros: aromas de velas acesas, de flores silvestres, de animal no cio, de unguentos femininos. Tudo parecia envolto na nebulosa de um sonho feliz, por um lado a atmosfera era cálida como uma tarde de sesta e por outro se percebia o frescor de uma noite no campo.

Isabel Allende
"Paula", pgs 78, 79



26.1.10

Boa tarde:)

TrekLens




Pelicano

"Oasis of the Seas"- EFE


Adélia Prado

Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho
Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi - como vi o navio - um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
- a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.

"Poesia Reunida"