28.2.10

(olhar)



FICHA TÉCNICA
FOTÓGRAFO: Paulo Pampolin
DATA: 7/2/2010
PAUTA: Chuva caindo sobre muro na cidade de Atibaia

DÚVIDA DE ESCRITOR, por Fernando Paixão
Sorte grande quando o fotógrafo clica e descobre o milagre. A gota d'água se transforma em galáxia. Coisa assim, ao natural, o olho deparado com o mistério. Mas, o difícil é convencer os leitores de que não é montagem, artimanha de computador. Alguns contestarão detalhes e muitos vão enxergar apenas a chuva e se lamentar. Uma gota a mais no mar digital. Melhor talvez sugerir como outdoor para um anúncio de água mineral.

Revista Folha - 28.02.10



27.2.10

Outro pioneiro

blue_sky_for_teresa - Maria Jose Con




Pepe Arias fundou a primeira empresa virtual. Meio século antes de nascerem os negócios on line e o índice Nasdaq, ele pôs à venda um terreno de quatro mil metros quadrados em pleno centro de Buenos Aires.

Pepe recebia os interessados com o contrato na mão, prontinho para ser assinado. Os recebia de pé, porque o espaço não dava nem para uma cadeira.
- Onde está o terreno? - perguntavam.
- Aqui.
- Aqui?
- Sim senhor - explicava Pepe, erguendo os braços para o céu. - São quatro mil metros quadrados, só que para cima.

Eduardo Galeano
"Bocas do Tempo"

Milton Nascimento




Cais
Milton Nascimento
Composição: Milton Nascimento/Ronaldo Bastos

Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar

Ouro Preto

Vista de Ouro Preto, que já foi a capital do Estado de Minas Gerais Mais Kevin Moloney/The New York Times





Augusto

"Anjo" - Viena - Antonio Silva




AUGUSTO
Déborah de Paula Souza

Com ele inventei Portugal
compreendi azeites de oliva
jogo de cartas, conhaque e anarquia

Devo a ele esta facilidade
de me encantar com os homens
mas também o medo esquisito
de um dia vê-los morrer
meio loucos meio meninos
confundindo o nome dos filhos
na aflição de quem se pergunta
onde termina a vida
onde começa Deus


Alguns poemas de Oswald de Andrade

"Retrato de Oswald de Andrade" - Tarsila do Amaral - 1923



3 de maio

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi


#


Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português


#



Relógio

As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão


Oswald de Andrade

" Poesias Reunidas"



Lições da tarde

JOSÉ PAULO MOREIRA DA FONSECA (1922 - 2004) Casa Azul
Arte brasileira



LIÇÕES DA TARDE
Ronaldo Monte


Com a tarde nova
aprendo que tenho sombra

Com a tarde alta
aprendo a cair em silêncio

Com o fim da tarde
aprendo a ir embora

Com a tarde morta
aprendo a lição do nada.





Kiyoshi Saito

Kiyoshi Saito [Japanese Printmaker, 1907-1997]


26.2.10

Com sol ou com chuva, o Rio é sempre lindo!

Vista da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, durante uma tarde de fortes chuvas, que provocaram alagamentos e transtornos Mais Antonio Scorza/AFP - jan.10



Outra dúvida

Michel VAN THOURNOUT



Outra dúvida



Não sei se é
amor

ou

minha vida que pede
socorro

Eunice Arruda


De Invenções do Desespero (1973)



Devias estar aqui



Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

Eugénio de Andrade




Será que não sente frio?

Um pássaro em campo coberto de neve, perto de Bucareste, na Romênia Vadim Ghirda/AP/fev.10




Serenando

Nicholas Hughes



Serenando
Ronaldo Monte


Deixa cair a noite,
cair sereno
o olhar sem fome
de seda e âmbar.
Aprende a ver sem esforço
o que a névoa quer te mostrar.

Deixa ficar no escuro
o que não queira
virar lembrança.
Deixa a memória
fazer escolhas.
Deixa o tempo brincar de esconder.

Deixa minar a prata,
arcar os ombros,
riscar as rugas,
dançar os nervos.
Testemunhas das carícias do tempo no
[ teu corpo.

Deixa de presente a madrugada
aos novos feixes de luz e voz
que aprenderam contigo a caminhar.

Fica nesta noite que começa
em ondulações de luz e sombra
curiosas de te conhecer.

Na biblioteca

Uma estante da Universidade de Coimbra, Portugal.




Na biblioteca

Charles Simic

Para Octavio

Há um livro chamado
Dicionário de Anjos.
Ninguém o abrira em cinqüenta anos.
Eu sei, porque quando o abri
as capas rangeram, as páginas
se esmigalharam. Ali descobri

que os anjos já foram tão numerosos
como espécies de moscas.
O céu ao entardecer
ficava coalhado deles.
Era preciso agitar os braços
para mantê-los a distância.

Agora o sol brilha
através das altas janelas.
A biblioteca é um lugar tranqüilo.
Anjos e deuses se amontoam
em livros escuros não-abertos.
O grande segredo está
em alguma estante, junto à qual
a srta. Jones passa
em suas rondas diárias.

Ela é muito alta e mantém
a cabeça inclinada como se escutasse.
Os livros estão sussurrando.
Não ouço nada, mas ela sim.

Tradução: Carlos Machado

25.2.10

Bico gelado:)


Cisne é fotografado com neve em seu bico na margem do rio Main, em Frankfurt, Alemanha. Neve e frio extremo atingiram regiões da Europa neste sábado, causando caos para milhares de viajantes, e a previsão é de que o frio, o mais severo nos últimos 30 anos no Reino Unido, continue. Viagens ferroviárias e aéreas foram interrompidas no Reino Unido, França e Alemanha Mais Kai Pfaffenbach/Reuters/jan.10

Psicórdica



Psicórdica

Adélia Prado

vamos dormir juntos, meu bem,
sem sérias patologias.
meu amor este ar tristonho
que eu faço pra te afligir,
um par de fronhas antigas
onde eu bordei nossos nomes
com ponto cheio de suspiros.




Numeral

arabian letters - Elena Zapassky


NUMERAL


16

Para Mário Rosa

Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva.

14 VIII 2001





23

Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.

Armando Freitas Filho

10 XII 2001

De Numeral/Nomimal, 2003

Poemeto do Millôr



Fim de tormenta,
Lua reposta.
Brotam carneiros
Nas encostas.

Millôr Fernandes

Ocaso

Os Profetas de Aleijadinho - Congonhas do Campo - MG - foto de Renato Alves




OCASO
Oswald de Andrade


No anfiteatro de montanhas
Os profetas do Aleijadinho
Monumentalizam a paisagem
As cúpulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte de meu país
Onde ninguém mais subiu

Bíblia de pedra-sabão
Banhada no ouro das minas




Fotógrafo flagra golfinhos surfando na África do Sul

Americano dedicou três meses por ano durante seis anos para filmar e fotografar os animais (Foto: GregHuglin.com/Solent via BBC)


O fotógrafo e diretor americano Greg Huglin, de 57 anos, acaba de lançar o filme "Golfinhos Surfistas", que mostra imagens desses animais pegando ondas na África do Sul.


19/02/10
Da BBC



Paul Signac - Plane Trees, Place des Lices, Saint-Tropez



Paul Signac
(Pintor francês)
11-11-1863, Paris
15-8-1935, Paris


Signac, que começou como impressionista, foi, ao lado de Georges Seurat, o criador do "pontilhismo" (1883-1884), uma variante do neo-impressionismo que consistia na aplicação de cores puras em pequenas pinceladas consecutivas ("pontilhismo" procede do francês pointillisme, formado a partir da palavra point, "ponto"). Signac pintou sobretudo paisagens, entre as quais numerosas vistas de Saint-Tropez, portos e marinhas (O Porto de Antibes, 1909). Exerceu influência considerável sobre outros estilos, como o fauvismo e o cubismo.

Fonte: http://www.netsaber.com.br/biografias/index.html



Mark Rothko Red, Orange, Tan, and Purple, 1949


Mark Rothko
[Pintor Letóne/Americano, 1903-1970 - Expressionismo Abstrato]


ALL POSTERS OF MARK ROTHKO (CLICK HERE!)



24.2.10

Anish Kapoor





Anish Kapoor


Nascido em 1954, em Bombaim, Índia, de mãe judia, Anish Kapoor mudou-se para a Inglaterra no início dos anos 70. Estudou no Hornsey College of Art e no Chelsea College of Art and Design, em Londres, onde vive e trabalha até hoje.

Ganhador do Prêmio 2000, na Bienal de Veneza, e do Turner Prize em 1991, já participou com grande êxito da Bienal Internacional de São Paulo.

Sua obra está nas coleções da Tate Britain e Tate Modern [Londres], do Museu de Arte Moderna de Nova York, do Palacio Velázquez e Centro de Arte Reina Sofia [Madri] e Stedelijk Museum [Amsterdam]. Tem dezenas de exposições individuais na Europa, Ásia, Oceania, EUA, Canadá e participou das mais importantes mostras internacionais como a Bienal de Veneza, a Bienal Internacional de São Paulo [1983 e 1996] e da Documenta de Kassel, na Alemanha. Em 2002, Kapoor ocupou o Turbine Hall da Tate Modern, com sua gigantesca instalação Marsyas, de 250 metros de comprimento.

Segundo o artista, seu objetivo é fazer objetos e instalações que pareçam importados “de outro mundo”. Paredes com reentrâncias e protuberâncias, espelhos côncavos e convexos, cilindros abertos, formas orgânicas, o imaterial tornado objeto pairam entre a geometria pura. O trabalho de Kapoor conta com o envolvimento de cada espectador para transformar os espaços internos e externos das peças e é a experiência individual que, em última instância, dá vida à obra.

O efeito de algumas de suas obras desorienta o visitante, levando-o a questionar se trata de uma peça bidimensional ou tridimensional, sensação já prevista pelo artista. Ele acha que esta “desorientação” faz com que o observador pare e desacelere, “para fazer daquele momento uma pausa de maior duração possível”. Kapoor diz que, no cerne de sua obra, está “o medo da inconsciência, do vazio”, e a descrição do “vácuo”.

Fonte: http://www.britishcouncil.org/

23.2.10

À procura do sol

Cisnes levantam voo em um lago da reserva natural de Rongcheng, na China)Wu Hong/EFE - UOL




Destrói o que te mantém triste!
Bjork



De palavra em palavra

beach at Lhok Nga - Ari Widodo - Indonesia



De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Eugénio de Andrade



Amor di mundo





Amor di mundo

Cesaria Evora
Compositor: Teofilo Chantré


Nh'amor é doce
Nh'amor é certo
Nh'amor tá longe
Nh'amor tá perto
El ta na nim
‘M ca ta sozim
Ness mundo

Nh'amor ca so di cretcheu
El é amor du criston
Qui ca quré vivé
Na meio di breu

Nh'amor é tudo qu'm tem
El é amor dum irmon
Qu'atè ainda
Ca perdè fê

Tcha'm cantá-bo nh'amor
Ô mundo
Tcha'm canta-bo nh'amor
Pa nô amá

Pa nô amá
Pa nô amá...



Azul sobre amarelo, maravilha e roxo

geometrical - Nune Nikoghosyan




Azul sobre amarelo, maravilha e roxo

Adélia Prado

Desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.
Desejo, como uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.


cartas a um jovem poeta


maio 14, 1904, Roma

amar também é bom:
porque o amor é difícil.
o amor de duas criaturas humanas
talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta,
a maior e última prova,
a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.
por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo,
não sabem amar: tem que aprendê-lo.
como todo o seu ser,
com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário,
medroso e palpitante,
devem aprender a amar.
mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura.
assim, para quem ama,
o amor,
por muito tempo e pela vida afora,
é solidão,
isolamento cada vez mais intenso e profundo.
o amor, antes de tudo,
não é o que se chama entregar-se,
confundir-se, unir-se a outra pessoa.
que sentido teria, com efeito,
a união com algo não esclarecido,
inacabado, dependente?
o amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer,
tornar-se algo em si mesmo,
tornar-se um mundo para si,
por causa de um outro ser;
é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz,
uma escolha e um chamado para longe.
do amor que lhes é dado,
os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos.
a fusão com o outro, a entrega de si,
toda espécie de comunhão não são para eles;
são algo de acabado para o qual,
talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso
em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão
profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou sua vida.

Poetas andaluces

Espelho, espelho meu...

Metin Akpolat



Açafrão

Jim Lin - Taiwan



Açafrão
Silvana Guimarães

Uma coisa amarela,
é isso o que eu quero.

Quem sabe a lua nova,
quem sabe um dia manso.

Talvez um galho de sol
sobre um rio cansado.

Uma coisa amarela,
eu quero, porque quero.

Talvez, cheiro de outono,
quem sabe, um pedaço

de vento, folha, areia,
coisa que vem de dentro.

Qualquer coisa, eu quero.
Da cor que regenera.

Qualquer tom de amarelo,
que não seja sorriso.

Pode ser até um beijo,
alguma coisa acesa.

Fogo, faca, afago
de tirar meu fôlego.

Quero, porque preciso,
alguma coisa qualquer.

Quem sabe uma palavra,
ainda que fosse suja.

Quem sabe só uma flor
chegando com urgência.

Uma coisa amarela,
talvez. Como um susto.

Noite verde

abstrect - Pg Sulaiman Pg Anom



Ele pendura na sombra
o brilho das laranjas.
como lâmpadas douradas
numa noite verde.

Marvell, do poema "Bermudas"

XVI

Mehmet Hamurkaroglu


Luíza Mendes Furia

Acaricia
meu rosto com teu rosto
meu sexo com teu sexo
Ondula
meu mar, me salga,
me trespassa, reinaugura
a aurora entre meus seios

Venta em meus cabelos
Chove no meu peito
Semeia e colhe

Acolhe
minhas mãos, meus olhos,
faz-me ser tua

Porque eu desejo o teu desejo
Porque eu só me encontro quando me procuras.


Efeitos sonoros

Fantoches


Fantoches são vistos em teatro de sombras, também conhecido como "Pi Ying Xi, em templo de Pequim (15/02/2010) Grace
- UOL

E o Tempo

izbusena_kapljica - Servia - Nebojsa Radojevic




"E o Tempo deixa tombar sua gota".
Virginia Woolf
"As ondas"




Lembrar-se





"Lembrar-se com saudade é como se despedir de novo".
Clarice Lispector
"Água viva"




As armadilhas do tempo

still from The Mirror - Andrei Tarkovsky




Sentada de cócoras na cama, ela olhou-o longamente, percorreu seu corpo nu da cabeça aos pés, como se estudasse as sardas e os poros, e disse:
- A única coisa que eu mudaria em você é o endereço.
E a partir de então viveram juntos, foram juntos, se divertiam brigando pelo jornal no café da manhã, e cozinhavam inventando e dormiam feito um só.
Agora este homem, mutilado dela, quer recordá-la como era. Como era qualquer uma das que ela era, cada uma com sua própria graça e seu próprio poderio, porque aquela mulher tinha o espantoso costume de nascer com frequência.
Mas não. A memória se nega. A memória não quer devolver a ele nada além desse corpo gelado onde ela não estava, este corpo vazio das muitas mulheres que ela foi.
Eduardo Galeano
"Bocas da noite"

Observando

Janos Gardonyi




Observando


sim

as horas de trégua

Quando se afiam
as facas

Eunice Arruda






O Futuro


Eu sabia que tinha feito um poema
quando dissipei as manadas de estrelas
e fundei a angústia
nos meus pequenos dias
em Itapetininga.
Eu sabia que a viola e cachaça
e o copo e a ponta do cigarro
eram meu sacramento
e as flores do desespero
e a traição do capital
e a solidão do proletariado
semeavam a minha querência
e eu tinha que orquestrar
a santa distribuição.
Eu sempre amei meus dias pequenos
de crescer o musgo nas pedras
descansadas no sombreado
de árvores,
a açoita-cavalo-miúdo
que faz corte no vento
e sangra o ar.
Eu não me esqueço da ferida.
A vida foi.
Essa perdiz que não se notou existir.
Fico de sentinela na beira do campo.
Estou cansado e tenho a morte.
Deus deve ter nascido pros lados daquele outro
fim de mundo.
Onde se dobrou de escuro.
Lá correu uma estrela cadente
e pousou a harmonia de tantas cordas
celestes
na canção que me vai fazer dormir.
Não guardarei mais o mundo.
Sou a consumação das flores,
seu mais tardio desejo,
a presença estival do sol
na saudade de longas
estações de frio.
É de graça:
esse país me atravessa
como a lança medieval
dorme seu perfume
sobre a vítima.
Vão encontrar, milênios mais tarde,
em escavações,
entre dejetos de animais extintos,
vestígios
de um amor calcificado
que de nada mais vai servir.
Arqueólogos do futuro
concluirão que algum deus fracassou.
Fiori Esaú Ferrari

21.2.10

AS PEQUENAS PALAVRAS


Music Battle




De todas as palavras escolhi água
porque lágrima chuva porque mar
porque saliva bátega nascente
porque rio porque sede porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.
De todas as palavras escolhi flor
porque terra papoila cor semente
porque rosa recado porque pele
porque pétala pólen porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.
De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga riso porque amor
porque partilha boca porque nós
porque segredo água mel e flor.
e porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolho dor.

ROSA LOBATO DE FARIA, in AS PEQUENAS PALAVRAS (Guimarães Ed., 1987), in A NOITE INTEIRA JÁ NÃO CHEGA - POESIA 1983-2010 (Guimarães, 2012)

Acorda, dia! Bom dia:)

Diane de Senneville



Silhuetas

Silhueta de crianças brincando com pipa na cidade de Bhubaneswar, na Índia Biswaranjan Rout - UOL



O Amor no Éter

Mehmet Hamurkaroglu




O Amor no Éter

Adélia Prado

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos
mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Olhando Miró

Joan Miró



Olhando Miró

Almir D'Ávila entrou criança, foi declarado demente e nunca mais saiu.
Nunca ninguém escreveu uma carta para ele, nunca ninguém o visitou.
Embora pudesse ir embora, não tem para onde; embora quisesse falar, não tem com quem.
Há mais de quarenta anos passa seus dias no manicômio de São Paulo, caminhando em círculos, com o rádio grudado na orelha, e em seu caminho tropeça sempre com os mesmos homens que caminham em círculos com um rádio grudado na orelha.
Um dos médicos organizou a visita a uma exposição de pintura de Joan Miró.
Almir vestiu seu único terno, velhinho mas bem passado debaixo do colchão, enfiou até os olhos seu boné de almirante, e marchou com os outros rumo ao museu.
E viu. Viu as cores que explodiam, o tomate que tinha bigode e o garfo que bailava, o pássaro que era mulher nua, os céus com olhos e as caras com estrelas.
Andou, de quadro em quadro, com o cenho franzido. Era evidente que Miró o havia enganado, mas o médico quis saber a sua opinião:
-Demasiada - disse Almir.
-Demasiada o quê?
-Demasiada loucura.


Revoada

Pássaros sobrevoam o lago de Geumgang, em Gunsan, Coreia do Sul Yonhap/AP - UOL




Você

Tallnn- Estonia - Martynas Milkevicius



"Você é a minha vela acesa. Eu sou a noite".
Clarice Lispector



A lâmina



A lâmina
Déborah de Paula Souza

Tonta com o vinho
das tuas palavras
tantra sob a lâmina
das tuas ciladas
morta de dar risadas
brilho como falsa jóia
— e tão cálida —
zonza entre tuas mãos e tuas facas
santa com perfume de dálias
sem sutiã, sem rumo, sem sandálias
criança pequena brincando com navalhas



Aos leitores

Imagens_whatatop



Aos leitores
Lucian Blaga

Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim
[ com colméias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre
[ as grades
e esperam que eu fale. ... Por onde começar?
Creiam em mim, creiam em mim,
sobre seja o que for pode-se falar quanto se
[ queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria
[ desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso... deixem-me
passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.

" Îm Marea Trecere" (A Grande Travessia), 1924

19.2.10

Bom dia:)

Belle - Valentina Marinova




tomo conta do mundo

detay for Mondrian - ataman ayvaz



"Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar e vejo as espessas espumas mais brancas e que durante a noite as águas avançaram inquietas. Vejo isto pela marca que as ondas deixam na areia. Olho as amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o céu da noite está estrelado e azul-marinho porque em certas noites em vez do negro o céu parece azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral. Gosto de intensidades".
Clarice Lispector
"Água Viva"

1 segundo de vida

A.D.