31.5.10

Libertação

silkworm_cocoon__decorative panel in Northern Cyprus - zeynel yesilay



Libertação
Cyro Armando Catta Preta



A vizinha voou...


avezinha bem velhinha,

desengaiolou...





Paisagem doméstica

Morus Areis (Morus)




Paisagem doméstica

Carlos Vogt



Desavenças de casos
secam avencas
nos vasos







30.5.10

Letras e imagens - Rio de Janeiro

::CAMPO DE SANTANA - "O campo tem uma velha história, Dom Pedro foi aclamado imperador no Campo de Santana, tropas amotinadas ali acamparam enquanto aguardavam ordens de atacar, mas Augusto pensa apenas nas árvores, as mesmas daquele tempo longínquo..." (trecho de "A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro", de Rubem Fonseca)



::CENTRAL - "A rua geme, chia, chora, pede, esperneia, dissimula, engambela, contrabandeia. Espirra gente. A gritaria dos camelôs parece um comando. E os óculos franceses vieram de Cascadura, a seda do Japão saiu de algum muquinfo das beiradas da Central, os relógios suíços foram trazidos de algum buraco da Senhor dos Passos." (trecho de "As Três Cunhadas", de João Antônio)



::LARGO DO SÃO FRANCISCO - "O Largo de São Francisco estava silencioso e a estátua, no centro daquele pequeno jardim que desapareceu, parecia um simples enfeite". (trecho de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto)



::RUA DO OUVIDOR - "Em suas andanças pelo Centro da cidade, desde que começou a escrever o livro, Augusto olha com atenção tudo o que pode ser visto, fachadas, telhados, portas, janelas, cartazes pregados nas paredes, letreiros comerciais luminosos ou não, buracos nas calçadas, latas de lixo, bueiros, o chão que pisa, passarinhos bebendo água nas poças, veículos e principalmente pessoas". (trecho de "A Arte de Andar Pelas Ruas do Rio de Janeiro", de Rubem Fonseca)



::PRESIDENTE VARGAS - "Desce pela Presidente Vargas maldizendo os urbanistas que demoraram dezenas de anos para perceber que uma rua larga daquela precisava de sombra e só em anos recentes plantaram árvores, a mesma insensatez que os fizera plantar palmeiras-imperiais no canal do Mangue quando o canal fora construído, como se palmeira fosse uma árvore digna do nome, um tronco comprido que não dá sombra nem passarinho, que mais parece uma coluna de cimento". (trecho de "A Arte de Andar Pelas Ruas do Rio de Janeiro", de Rubem Fonseca)



::PRAÇA MAUÁ VISTA DA ILHA FISCAL - "Também um enrosco na Praça Mauá me largou sacaneado. Miçanga, o leão de uma das buates do cais, era faixa meu e andou mal na profissão". (trecho de "Leão-de-Chácara", de João Antônio)



::SANTA TERESA - "O sol está queimando no Tabuleiro da Baiana, dá de chapa no povo. Seus olhos pulam tudo e vão ficar na estação dos bondes de Santa Teresa". (trecho de "As Três Cunhadas", de João Antônio). Mais

Fotos de Gustavo Stephan




"CIDADE MÚLTIPLA"

avenida 9 de julho



As 14 ampliações expostas foram todas feitas na técnica pinhole, que utiliza câmeras feitas com caixas ou latas vedadas, nas quais a luz penetra apenas por pequenos furos feitos com uma agulha.
Acima, Largo da Memória, na região central de São Paulo .





"CIDADE MÚLTIPLA" (São Paulo): imagens captadas por cinco câmeras pinhole compõem a exposição do fotógrafo Ricardo Hantzschel, que será inaugurada neste sábado (29), na Caixa Cultural São Paulo. O ensaio fotográfico enfoca referências arquitetônicas da capital paulista, como a Catedral da Sé (foto), e foi construído com conjuntos de imagens sobrepostas. Até 5 de julho de 2010. Onde: Caixa Cultural São Paulo - Galeria Octogonal (praça da Sé, 111, São Paulo-SP; de terça a domingo, das 9h às 21h). Grátis. Inf.: 0/xx/11/3321-4400 Mais Ricardo Hantzschel / UOL



28.5.10

Cartão de visita


" A biografia mais breve do mundo é um cartão de visita".
Milton Hatoum




Nutrientes

Marko Kostovski




Nutrientes*

exagerou na dosagem
as flores morreram
de overdose...

Tuca

* A mentora deste poetrix é Zi - um beijo, querida.




Biljana Kostovska



"A tristeza é um livro sábio que se tem no coração e que nos diz centenas de coisas - impede-nos de apodrecer como um cogumelo debaixo de uma árvore".
(Juliusz Słowacki
)



espólio







espólio

dele sobrou nada
muito
o pó da memória

Tuca




noite de lobo e homem

Andrzej Korzeniowski




noite de lobo e homem

nua lua fria
brilha frígida -
fantasmagórica mandala

Tuca

Foto de um baú


Desconhecida menininha e sua boneca




insones


Koscs Gábor


insones

Líria Porto



a noite roía as unhas

um vento forte zunia
imenso o leito vazio
até a lua minguava
e não havia estrelas


eu tive pena da noite

negro manto de graúna
os piados da coruja
nuvens densas carrancudas
intranqüilo céu de piche


uma sirene tocava

os mendigos sem abrigo
os bêbados a madrugada
a rouquidão os gemidos
a noite toda tremia


nem ela nem eu dormimos



lirismo de terça




lirismo de terça
Antonia Pellegrino

Ensino aos meninos os nomes das flores,
gérgera, astromélia, biquinho,
os meninos são o jardim onde me deito
como um inseto,
aranha, mariposa, borboleta.
Me integro,
como a gota da chuva à terra,
feito criança,
a brincar de cambalhota, de roda,
de amarelinha no chão do arco-íris.


27.5.10

Quando a tormenta

tuca



Quando a tormenta derrubou as árvores
altas e, ao que parece, sãs,
a erva voltou a erguer-se do chão
como se nada tivesse acontecido.
Göran Palm

26.5.10

O cachorro

ilustração de Marina Rheingantz




O cachorro
IVAN TURGUÊNIEV
tradução RUBENS FIGUEIREDO

Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada, assustadora.

O cachorro está sentado à minha frente -e me olha direto nos olhos.

Eu também olho para os olhos dele.

Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo -mas eu o entendo.

Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.

A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas...

E fim!

Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?

Não! Não são um animal e um homem que se olham...

São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.

E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro.


(Jornal "Folha de São Paulo" - caderno ilustríssima - 23.05.10)

Carlos Scliar

"Rosas Amarelas"
Arte brasileira



Mandalas de pedra


Pebble_Mandala_by_Cha0sCat






"Afinal, o que querem as mulheres ? "

Cientista Inglês encontra fórmula para entender as mulheres.
Candidato a Prêmio Nobel da Paz.




S. Freud certamente aplaudiria:)



Vida de fotógrafo

O fotógrafo belga Guido Sterkendries passou os últimos dez anos no alto de árvores em florestas tropicais do Brasil e do Panamá, registrando imagens de espécies raras e pouco fotografadas.Guido Sterkendries /Barcroft Media/UOL






Um muro de silêncio

Snow sculpture - Dave Wiebe





Um muro de silêncio

Camila do Valle

para Pedro Eiras




Sobre a página em branco repousa um reino de silêncio.

(Como pular este muro?)
É certo que todo texto começa antes do próprio texto.
Se não é, porém, na página em branco,
Onde tem, então, começo o texto?
No corpo que escreve?
É certo que todo corpo começa antes do próprio corpo.
Onde tem, então, começo o corpo?
Quiçá: na página em branco?
Eis o muro.

Jardins

AiPing Foo - South Korea





J A R D I N S

Carlos Vogt





Em frente à minha casa tem um pequeno jardim de rosas;

é o jardim da casa, mas antes o jardim de meu velho pai,
e sendo dele, porque ele o fez com zelo,
tem em cada flor a nostalgia de suas mãos de pai e de
[artesão.
No que me cabe é meu, por ser da casa,
que por ser minha na circunstância casual da posse e da
[ansiedade,
me deixa estar ali sentado nessa varanda de luz, ocaso e
[generosidade
a ruminarmos juntos e desdentados – velho um, outro
[criança –
a lembrança neutra de vegetais no vaso.


Viagem ao interior




Viagem ao interior

recarrego a bateria
e colho poesia
nos campos do Senhor

Tuca




24.5.10

Depois de Tanto Amor

mermaid - Patrick Dupont




Ao Eri, com todo o meu amor.

Depois de Tanto Amor
Paulinho da Viola

É será melhor
Não procurar
Um novo amor
Até saber
Se o coração
Já se refez
É será melhor
Viver em paz
Eu amei estando só
Portanto a solidão
Não é demais

Se algum dia eu encontrar
Um novo amor
Hei de ter amor pra dar
Amor e paz
Por isso eu vou
Guardar meu peito
Até quando por direito
Este amor chegar



Funeral

Foto: Ricardo Cacciato




Funeral

meu olhar não te procura mais
amor tecido
de vãos em vão

Tuca




O livre na paisagem





O livre na paisagem
Carlos Soulié do Amaral



Um gaturamo é mais nada

do que pássaro num ramo
de arbusto, de árvore, um
pássaro solto em plano
de ar, planando, voando
dono de si e suas asas.


Canta porque quer, pousa

onde quer e em sua pausa
toda liberdade é inverdade
porque ele a usa
sem sentido de ser
livre ou de querer.


Em verdade um gaturamo

só é pássaro num ramo
quando canta ou pia.
Então, mostra não ter amo
que não seja a alegria.
Tudo o mais nele é paisagem.
Folha ao ramo incorporada,
folha de árvore flanando,
folha no chão, semi-alada,
folha quieta entre folhagem,
no mais esta ave paisagem
é um gaturamo, mais nada.



Da natureza da realidade numa sexta-feira à noite




a vida é uma ilusão
o mundo é uma ilusão
o amor é uma ilusão
o que existe mesmo é esse copo de cerveja que bebo num só gole

Sérgio Villa Matta

Missão diplomática na China (pianíssimo)

dandelion - Zoran Dimitrusev



Missão diplomática na China (pianíssimo)
Caroline Gebara



Onde pousar a palavra?

Como se a caneta fosse a asa de uma xícara
de porcelana rara que eu estaria a segurar
com todo o cuidado
no ar.
Do ar ao pires, podemos,
ou não,
espatifar a dinastia Ming.
Delicadamente.


23.5.10

22.5.10

Roberto Magalhães

"Tema Eterno"
Arte brasileira



Enriqueta e Fellini

Notas para V. nº2

Rita Apoena

Quando um paizinho dorme para sempre, ele não atende mais o telefone, não aparece no portão, não adianta chamá-lo pelo nome ou dizer que é dia de futebol. É que quando um paizinho dorme para sempre, ele fica espalhado no mundo, em todas as coisas pequenas, e a gente precisa de muita delicadeza para encontrá-lo de volta.

No começo, a gente só o encontra nos suspiros da mãe, nos olhos do cachorro esperando no portão, na cadeira vazia, no remendo do armário, no prego segurando o quadro, na garrafa de vinho, pela metade. Aos pouquinhos e devagar, a gente começa a encontrá-lo nas alegrias do mundo, no vôo das cotovias, no desenho das nuvens formando barquinhos e caravelas, numa pessoa sem mágoa, na toalha sem nódoa, e até quando felizes nossos olhos vão se enchendo d'água...





Gaelle Boissonnard






presente


Carlos Fernando Filgueiras de Magalhães


um cavalo voando em nuvem plena


uma rosa azul tão sem cultivo

uma estrela recolhida dos telhados

um rio rompendo seu sentido

uma chuva caindo em contradança

um perfume de coisa sem memória

um vento peregrino sem destino

meu coração exposto em tua mão





tudo isto em vão



Carrego estações comigo

Carlos Felipe Moisés


Carrego as estações comigo

e tenho as mãos cansadas.
(No bolso esquerdo um riacho murmura.)
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.

Jardins de primavera circulam no meu corpo,
um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos,
mescla de memória e desejo,
meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo),
à procura do sonho de uma nuvem fria.

Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda (memória
e desejo) a semear meu corpo.

Ali planto meus braços,
debaixo daquelas árvores meus olhos ficam,
os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore
e o tronco multiplico em cem pedaços –
lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.

E pois que carrego as estações comigo,
os lábios deixo além, no descampado,
e peço ao pássaro que pelos cabelos atire
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
(e o desejo) do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.

Papel Machê



Capinan
Parceria com João Bosco



Cores do mar


Festa do Sol

Vida é fazer

Todo sonho brilhar

Ser feliz

No seu colo dormir

E depois acordar

Sendo seu colorido brinquedo

De papel machê



Dormir no teu colo


É tornar a nascer

Violeta e azul

Outro ser

Luz do querer

Não vai desbotar

Lilás cor do mar

Seda cor do batom

Arco-íris crepom

Nada via desbotar

Brinquedo de papel machê



“Poucas canções eu fiz tomando como ponto de partida uma melodia já composta. Ponteio e Papel Machê foram raras exceções. Gosto de escrever os poemas ou letras livremente, sem um padrão a ser alcançado... Esta parceria com João Bosco é um dos maiores sucessos de tudo que escrevi. Eu estava feliz e bem amado quando a fiz e me interessava muito pelas relações amorosas que dão certo, porque me sinto mal-educado afetivamente (...)”

José Carlos Capinan




Tropicália



Caetano Veloso

Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central
Do país

Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça
Viva a bossa-sa-sa
Viva a palhoça-ça-ça-ça

O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta
Estende a mão

Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta
Viva a mata-ta-ta
Viva a mulata-ta-ta-ta-ta
No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina e faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira
Entre os girassóis

Viva a Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia
Viva a Maria-ia-ia
Viva a Bahia-ia-ia-ia-ia
No pulso esquerdo bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança ao samba de um tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores ele põe os olhos grandes
Sobre mim

Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma
Viva Iracema-ma-ma
Viva Ipanema-ma-ma-ma-ma
Domingo é o Fino da Bossa
Seguanda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça

Porém
O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Viva a banda-da-da
Carmen Miranda-da-da-da-da

Viva a banda-da-da
Carmen Miranda-da-da-da-da

21.5.10

homem e bandoneón



carola saavedra

De perto, a pele morena, a barba por fazer, os lábios ressequidos que se moviam como se murmurassem, os dois vincos fundos ladeando a boca e o nariz inchado, estendendo-se feito garra pelo rosto. E seria um rosto agressivo, não fosse a suavidade da expressão ausente, os olhos pequenos e gastos que pareciam olhar para dentro, como se olhassem pelo avesso.

Afastando-se um pouco, era um homem de ombros murchos dentro de um paletó emprestado, era um homem velho em velhas roupas de domingo, e um tecido grave e áspero envolvendo o corpo, e um corpo grave e áspero que envolvia a caixa de madeira, com seus botões e relevos incrustados. Afastando-se um pouco mais, aquela mesma caixa era então instrumento, um bandoneón que o homem apoiava sobre uma das pernas, que o homem abria e fechava como quem abre e fecha um leque, extraindo dele notas e compassos. E se fosse possível afastar-se ainda mais, no chão, à sua frente, surgiria um chapéu de bordas puídas e interior vazio, as contribuições que nunca vinham, os gestos que faltavam, ao fundo, a calçada sem árvores, as casas com suas portas fechadas.

Fato é que o homem abraçava o bandoneón e desse abraço saía um choro alongado e insistente, como se o instrumento recontasse histórias e tristezas circulares. O homem tocava distraído e mal se dava conta da rua vazia, e mais ao longe, do outro lado, a exposição, os corredores, as salas do museu, onde as pessoas, alheias e rápidas, passavam a vista sobre as telas, sem perceber o lamento sincopado que vinha daquele pequeno quadro, e deixando o bandoneonista sozinho no silêncio dos aplausos.



Ali Babá revisto...




Todos eles traziam sacolas, que pareciam muito pesadas. Amarraram bem seus cavalos e um deles adiantou-se em direção a uma rocha e gritou: “Abre-te, cérebro!

Arnaldo Antunes





de TUDOS
São Paulo: Iluminuras, 1993

À terra provisória

Rastislav Durica




À TERRA PROVISÓRIA
Bruno Tolentino



Adeus cimos e vales e veredas,


e bosques e clareiras e campinas

soltas ao vento, sacudindo as crinas

das espigas do sol na luz de seda.

Adeus troncos e copas e alamedas,

esmeraldas selvagens que as neblinas

salpicavam de prata, adeus colinas

que iam subindo como labaredas

de cobalto no ar... Adeus beleza

irrepetível, que me viu nascer

e toca-me deixar: a natureza

também é feita de deixar de ser,

e eu levo agora a sombra e deixo a presa

à inevitável luz do amanhecer.

20.5.10

Uma venda de tudo



NINA HORTA

Uma venda de tudo

Impulsivo nas compras? Não vá ao Lá da Venda. Não vá. Tudo o que você viu naquela cidadezinha de interior está lá


CONHECI HELOÍSA Bacellar há um bom tempo. Fui à casa dela para um concurso de receitas de fim de ano, nos divertimos à grande na sua cozinha maravilhosa, cheia de todos os badulaques próprios ao métier de cozinheira, advogada, professora de culinária, escritora de livros de cozinha e artesã.
Um azougue, a criatura.
Um dia eu soube que abrira uma venda. Os muito moços, mocíssimos, não sabem o que é uma venda.
"Vai lá na venda, menina, e compra uma lata de óleo na caderneta!"
"Mãe, ganhei uma moeda, posso ir na venda comprar bala de goma e marcar na caderneta?"
Uma empregada levava meu irmão no carrinho e eu de mãos dadas para o parque Trianon. Na volta, passava na venda do seu Manuel e pedia cachaça.
Deixava cair no chão uns pingos para o santo, perguntava se eu queria experimentar e glupt, com um movimento rápido da cabeça para trás, entornava o copinho.
Entenderam o que é uma venda?
Um espaço onde se vende de secos e molhados a brinquedinhos para crianças, bonecas de pano, agulhas, dedais, picolés e pés de moleque. De tudo um pouco, conforme a cabeça do dono, geralmente português.
Na venda do seu Salvador, tinha saco de arroz, em que a gente enfiava a mão até o fundo e sentia um friozinho, bacalhau dependurado na porta e aquelas garrafinhas de chocolate embrulhadas em papel brilhante e colorido com licor dentro.
Pois, então, a Heloísa abriu sua própria venda. Restaurante-venda.
Cheguei lá com fome, ah, não é venda, nada, é estilizada, clara, luminosa, passei reto por um balcão de doces e salgados. Vi bolos e uns sonhos gordos e recheados de creme amarelinho.
O restaurante é o pequeno quintal da casa. Nos muros, dependuradas, latas de óleo, principalmente, com plantinhas caipiras.
Nunca se pode falar da comida se se vai ao lugar uma vez só, mas isso é regra para crítico de comida, que eu não sou. E, além disso, acho que vou comer lá todo dia, porque é comida caseira e gostosa e perto da minha casa. E, principalmente, é quente.
Num dia gelado, a comida estava quente, pelando, queimando a língua. Como não me acontece há muito tempo de queimar a língua com comida quente, fiquei encantada.
Pedi uma carne ensopada, macia, com um bom caldo grosso, que veio acompanhada de arroz, uma salada vistosa e umas tiras de batata-doce.
Finíssimas, fritas. Huuum, delícia.
Almocei bem, minha amiga comeu camarão com chuchu e teríamos mais umas três opções, mais ou menos, na mesma linha.
Mas todo o juízo que você exerceu na escolha do prato voa pela janela quando você volta pelo caminho da venda. Impulsivo nas compras? Não vá ao Lá da Venda. Não vá.
Tudo o que você viu naquela cidadezinha de interior onde passava as férias está lá. Tudo.
Comprei agulhas de fundo largo, xicarazinhas de café de ágata. Bule de café branco, caipira, frigideiras de ferro, bolas de gude, cumbucas, echarpe de pescoço, pó de arroz Lady, goiabada cascão de gavetinha, balas de coco com coco fresco.
Minha amiga saiu com uma cesta de piquenique de palha com dobradiças para abrir ora de um lado, ora de outro. Panos de prato, toalhas bordadas em ponto de haste e uma chaleira de desenho bonito.
Deixei por lá vasos de vidro, lindíssimos, bons para dar de casamento a quem entende-vidro pode ser tão bonito quanto cristal- e alguns livrinhos de cordel. E essência de baunilha orgânica e cheirosa, doces de pêssego em calda.
Pedi farinha e não tinha. (Confundi tudo, achei que estava no seu Salvador.) Mas a moça que me atendia foi delicada. "Ainda não temos", disse ela, frisando o "ainda".
Como se fosse uma grande ideia a se pensar...

(Folha de São Paulo - caderno ilustrada - 20.05.10)