30.6.10

O Rio é sempre lindo!

Neblina toma conta do céu do Rio na manhã desta segunda-feira (28) (Foto: Marcos Teixeira Estrella/VC no G1)



Mania de (vi)ver



Gente, de longe, é muito atrativa.
Perto, nem tanto.
Sou voyeur da vida...

Tuca



Certeza



tanta tristeza
e um só destino -
do chão não passa

Tuca





Tristeza De Nós Dois



Nara Leão
Composição: Durval Ferreira / Mauricio Einhorn / Bebeto Castilho

Quando a noite vem
Vem a saudade
Do carinho seu
Olha meu amor
Chego a pensar
Que o nosso amor
Não morreu

Quando esta tristeza
Vem falar
Das coisas de você
Ouço a tua voz no ar
Vejo o teu olhar no céu
A chorar, como eu
Com saudade, também.


https://youtu.be/AXcFSHvwaas


Wave









Composição:
Tom Jobim


Vou te contar, os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho

O resto é mar, é tudo que eu nem sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho

Na primeira vez era a cidade
Na segunda, o cais, a eternidade
Agora eu já sei da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver

Da primeira vez era a cidade
Da segunda, o cais, a eternidade
Agora eu já sei da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver



(Imagem: George Dmitriev)

29.6.10

IDEROS: STÈLE POUR VIVRE


EROS
ECOS
EGOS
ELOS

Décio Pignatari





28.6.10

O brinco

de Ana Martins Marques


Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma de minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar

os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo que
uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
o frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor.


"Folha de São Paulo"
Caderno "Ilustríssima"
27.06.10




E que se ponha a roupa do vento

de Fabrício Carpinejar


O jogo é inventar a goleira
mais do que a bola.

Garagens são traves,
lápides são traves,
cercas são traves,
chinelos são traves.

O que pode ser levado
com uma mão,
adivinhado pelas pernas.

Postes de luz são traves,
placas são traves,
lixeiras são traves,
bancos são traves.

Marcar o chão numa linha imaginária,
daqui pra ali é o campo.
E o mundo não existe mais
fora do giz branco.

Um quarto está pronto a céu aberto.
Um quintal no meio da casa.
Uma rua cortando a praça.

Corra no jardim sonâmbulo,
pise a grama com raiva, raízes
são cadarços amarrados
nos tornozelos das árvores.

Há coices, quedas, uivos:
nada termina a vida,
essa explosão suspirada.

É um transe, a trave;
trânsito parado, feriado.
O defensor descansa
na tranca dos joelhos.
O pássaro voa de cabeça a cabeça,
descasca a chuva, espalha os cabelos.

A trave é montinho, formigueiro,
capuz de ciscos, ninhos.
Formigas transportam alimento
por dentro dos seus riscos.

Que seja capacete de moto,
um tijolo, um toco,
qualquer troco de mato e entulho.

Dez passos ao lado e uma altura infinita,
fazer endereço para receber cartas,
desenhar gol de letra.

Trave é o quadro-negro dos pés.
Caroço de brilho, queimadura de cometa.
Na praia, no calçadão, no descampado.
Tudo o que foi costurado pelo invisível
entre o corpo e uma porta.

Pedras são traves,
bambus são traves,
frutas são traves.
Até crianças são traves
para o adulto passar
de volta à infância.


Publicado na Revista Serafina
Folha de São Paulo
P. 18, Junho de 2010

Caprichosa Mãe Natureza

AlexKors






Brasil 3 X Chile 0

Bola açucarada

Juan, Luís Fabiano, Robinho
Brasil rumo
às quartas-de-final :)

Tuca



EFE/Marcelo Sayao


Bailarina dos mares

Cauda de baleia aparece para fora da água na costa de Hermanus, na África do Sul Franck Robichon/EFE/UOL







26.6.10

ABRIGO



Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado
.
há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço
.
Há dias em que nego
e outros onde nasço
.
há dias só de fogo
e outros tão rasgados
.
Aqueles onde habito
com tantos dias vagos.

Maria Teresa Horta

Um índio

Celso Japiassu



Apontou-me a cordilheira.

Mostrava meu destino, dizia

que os astros morrem e os homens agonizam.

Seu olho, arregalado, reluzia:

estrela agonizante que morria.



Difícil de entender

o dialeto em que dizia.

Os gestos disfarçavam

o medo que existia

naquela tarde em Cochabamba.



O medo e a fome nos unia.

Tantos aziagos dias, tanta inútil

miséria dos povos a que pertencíamos,

tanta luta, perda, espera,

busca, luto, tanto pranto.



Poucos nos olhamos pois a fala

compreendia. O que dizíamos

trazia susto e esperança.

Éramos surdos escutando

o que o vento maldizia.



25.6.10

Veleiros brancos

Ledusha B. A. Spinardi

Alheia confiro a curva bem feita dos meus pés
minhas coxas que guardam o último sol
onde se encontram

A lua acena veleiros brancos
beijando a janela escancarada

Faz muito calor por aqui
faz calor nas dunas do meu corpo
que sei, pressentes
como pressinto a delicada febre das tuas mãos

No umbigo da noite destilo vapores
lavanda e mirra para que me queiras
tanto
e temas quase nada

No teu silêncio de homem
sinto que vislumbras minhas veredas
Assim permaneço recostada
os travesseiros de pluma afagando o dorso
e te quero dessa forma inescrutável
entre o tesão e a perplexidade.




Ledusha B. A. Spinardi

Os que só tragam com filtro. Os que conduzem a dança. Os de papo requentado. Os que espalham o conflito. Os grosseiros de foulard. Os que fazem as cutículas. Os que têm presas no olhar. Os prósperos despreparados. Os que vão lamber o limbo. Os belos atormentados. Os previsíveis sem sal. Os ternos de abraço manso. Os que usam o saber como arma de poder. Os que citam sem parar. Os que gostam de mulheres. Os que gostam das mulheres. Os mitos desamparados. Vampiros por trás de lentes. Os que só querem mamar. Os que portam falos bélicos. Os marinheiros sem mar. Os que nos devolvem o riso. Sensíveis sem onde morar. Os que decifram. Os que devoram.
Casados infantilizados. Os que consertam cadeiras. Os indeléveis carnais. Os de coração falido. Raros sexys calados. Os gananciosos
banais. Marxistas que espancam mulheres. Os que se desmancham no ar.







Um beijo de obrigada pelo envio, G.!

Antonio Helio Cabral


"Flores e Paisagem"
Arte brasileira





Ansel Adams

Fotografia "Tempestade de Inverno Sumindo, Parque Nacional Yosemite" (1938), do norte-americano Ansel Adams (1902 - 1984) quebrou recorde para um trabalho do fotógrafo. A obra foi vendida na última segunda-feira (21) por US$ 722,5 mil, incluindo comissões, em leilão de fotos de coleção histórica da Polaroid (23/06/2010) Mais AP / Sotheby's/UOL




Intensidade no olhar

Garota olha para fotógrafo em bairro pobre da perifieria de Islamabad, no Paquistão Vincent Thian/AP




Amor

Celso Luiz Paulini



Eu sei é azul

Azul sereno.

Mas o teu

No meu

Brando olhar

Me põe extremo.



Se acampo

Colho este castigo

Desce ao peito

E calca

O pé do tempo

Deixando sorrateiro

De passar.



E se vires, é força,

Na noite alguma flama

Ou no verde da tarde

Rubor que não se explica,

Saiba: sou eu.

Perco-me em chama

Eu sou o mundo e o pânico

Eu sou quem ama.

A flor da pedra

Cida Almeida

Bem-me-quer
O querer aflito das pétalas
Ao contrário das voltas
Do meu redemoinho
Palavras palpitam na nudez
Da tua boca de mil cavernas
Em que me perdi e ainda rastejo
Réptil à procura de fendas
Onde brotas medrosa
Onde extingo
A palidez dos dias breves

Mal me queres
Se mal me olhas
Varando por dentro tempestades
Dessas de fazer tremer a razão sóbria
De um copo d’água
As tempestades estão aqui
Na palma da minha mão e são tuas
Noites! Ah, as noites que não te conto
Dessas distâncias palmilhadas
De muro e partidas
Exílio

As espirais da pedra e do sono
Os abismos tecidos com palavras
No fosso dos silêncios
Na fissura das esperas
No desamparo das ausências
Essa coragem sozinha e inútil
Às vezes ternura
Às vezes fundura
Às vezes nada

Um sopro na escuridão
A triturar a flor de todos os enganos.

Cios de amor

Claufe Rodrigues



Você tem olhos azuis como tuiuiús

e a força de cem formigas.

A boca seduz pela forma

como ressuscita enigmas.

O sorriso é um quintal de sonhos

e o andar um manjar francês.

Vejo nuvens no céu azul dos seus olhos

Será que vai chover desta vez?

24.6.10

As casas populares

(Anna Mariani)


NINA HORTA


SEMPRE QUE alguma música, quadro, livro me surpreende muito, fico rindo que nem boba, feliz. Pois fui à exposição e ao relançamento do livro de Anna Mariani, "Pinturas e Platibandas", da editora IMS, e fiquei disfarçando, com a tal vontade de rir. Eu já ouvira falar muito nas casas da Mariani, mas, nas vezes em que as vi em jornais e revistas, me pareceram pinturas. Já viram essas fotos? São umas casas populares, em regiões bem pobres do Brasil, no Nordeste, no sertão, perto ou longe do mar, não importa, são casas "sem eira nem beira", a fachada é como um muro de taipa pintada de cal colorida, a porta e uma janela ou duas, de madeira. E a platibanda que esconde as telhas. É desse módulo que se desenvolve toda uma dança de diferenças. A começar com as cores. Cor-de-rosa, muito rosa, verde escandaloso, azuis, brancas inteiras como noivas, lilazes, ocre, amarelo manga. Vamos e venhamos, sem o telhado à vista a casa não se enfeita, é uma parede. O que não foi problema para os pedreiros, pintores e moradores. Coloriram tudo, e por que não uma decoração, uma firula aqui, outra acolá, afinal cada casa é uma, não é a outra. Quem seriam esses pedreiros pintores? De onde tiraram essa arte de ornamento tão especial e criativa? Estamos no Nordeste, as casas são pequenas, populares, o que significam esses adornos? De que pedreiros saíram? Um toque de Chrysler Building na fachada, espirais de Vitrúvio na platibanda branca, festões azul-marinho entre as janelas. Pedreiro lembra maçom, "arts and crafts", símbolos, selos das cartas, bandeiras esticadas, fotos nos jornais de antanho. Art déco. Lampião lia jornais para saber o mundo com chapéu enfeitado de estrelas. Desenhos geométricos, quadrados, triângulos, cruzes, o Sol, modernistas de Pernambuco, de Goiás, de Miami. A acácia, deltas, as réguas e compassos, coroas, treliças, estrelas de cinco pontas, pedras ingênuas desenhadas, cristãos, mouros e judeus amarrados com graça, despojamento e equilíbrio. No primeiro momento achei que num minuto eu saberia dizer quem morava dentro delas, como eram os trastes de couro, as vassouras, as cuias, o chão muito limpo, as panelas areadas, a bilha fresca, a corrida atrás da única franga pilhada em flagrante. Achei que poderia ouvir o barulho das crianças, o pigarro do homem com seu cigarro de palha, a cantiga da mulher cozinhando. Claro que o assunto caberia numa coluna de comida, pois são casas, são focolares, são fogões. Mas, acreditem, as casas não conversaram comigo de dentro para fora. Nada. Fui incapaz de adivinhar o doce de espécie, a piaba, o cheiro de chuva, de sol a pino (um pouco), de roupa batida na tina. As fotos guardaram a intimidade das pessoas. Afinal, não é essa a vocação das casas em contraste com a rua? Guardam. Fachadas cuja alegria nos desarma. Duvido que as pinturas sirvam como máscaras para disfarçar a tristeza de um povo desinfeliz. Quem pinta a fachada de azul pavão com listras vermelhas não está escondendo a chatice do viver. Nem vem. São bonitezas da alma. São sonhos fritos com canela e açúcar. O que vale a imaginação com um pouco de cal e pó de tinta. Os construtores das casas de Anna Mariani, além de entrarem no túnel do tempo, deram uma boa volta ao mundo antes de sentar praça no sertão. Sou pobre, mas sou feliz, é mais pobre quem me diz. Eis a questão.



Fonte: Jornal "Folha de São Paulo" - caderno ilustrada - 24.06.10


23.6.10

Alberto da Veiga Guignard

(Autorretrato - 1961)


"Paisagem imaginante" (1955) óleo sobre madeira


Alberto da Veiga Guignard nasceu em Nova Friburgo (RJ) em 1896. Em 1917 ingressa na Real Academia de Belas Artes, em Munique, Alemanha, onde estuda com o pintor Hermann Groeber e com o artista gráfico e ilustrador Adolph Hengeleer,do grupo Sezession.

Em 1918 reside na casa de campo de sua mãe, em Grasse, França, seguindo para a Suíça e Itália, onde toma conhecimento da moderna arte européia. Retorna ao Brasil em 1929, após morar em Florença, e trabalha como pintor e desenhista na Fundação Osório, no Rio de Janeiro.


Transfere-se para Minas Gerais em 1944, a convite do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, para dirigir a Escola de Artes de Belo Horizonte, hoje Escola Guignard. Em torno do artista se agrupa a juventude mineira interessada na arte moderna. Por falta de espaço adequado, o curso funcionou em regime de ateliê livre, no Parque Municipal, num ambiente propício à criação.

Em 1944, é designado para organizar a Exposição de Arte Moderna e BH, durante um mês, debate e respira arte. A presença de Guignard em Belo Horizonte inspira subversão à ordem. O Parque Municipal torna-se pátio de discussões livres e as novas orientações artísticas causam espanto ao acanhado ambiente local. Quadros de seus alunos chegaram a ser destruídos durante uma mostra coletiva.


Ao registrar as paisagens bucólicas da vida mineira, Guignard recria a aura religiosa e saudosista que envolve as montanhas das cidades barrocas. Vivendo em Ouro Preto entre 1961 e 1962, intensificam-se seus registros da cidade. Morreu em 1962 e seu corpo está enterrado na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto.

Fonte: http://www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia_c_3388.html








"Ciclo da Vida"

LINDETE AMORIM - xilogravura
Arte brasileira







Abandono

Ando sem palavras.
No interior, silêncio.
O olhar basta.

Tuca

Observadora

Gaivota pousa em uma corda no mar cercada pelo reflexo vermelho de um barco , no porto de Pirineus, em Atenas (Grécia) Petros Giannakouris/AP



Prescrição de andarilho

Celso Gutfreind



Dar a volta ao mundo

para tocar flauta

Tocar cada volta

apesar do áspero

Parar num lugar

apesar do tempo

Dizer desdizer

até o som, a dança

Ver cor sentir cor

olhar um segundo

Esquecer a hora

sonhar muitos anos

Viver e viver

antes que seja arte





Retorno

Ledusha B. A. Spinardi

Gastei toda aquarela, recolhida. Silêncio de barcos acidentados, fruta madura espatifando-se na terra. Colhi no ventre da treva estas palavras tocando-as devagar, com medo de que por trás de suas faces frescas me aguardasse uma emboscada. Sei pelo avesso suas formas conturbadas, atormentam-me seus abismos híbridos. Vê-las pulsando salva-me da lábia estofada cotidiana, mas também me expõe à rude dimensão da liberdade e seu preço poucas vezes raso. Cintila a pedra noturna dos meus olhos nos seus olhos, sei que posso atravessá-los num sopro. Após tantas águas fugidias, o refluxo. As portas batem, como nos dias arejados.




Antonio Saggese

Foto de Antonio Saggese






21.6.10

Alberto da Veiga Guignard


Veja mais telas de Alberto da Veiga Guignard em Projeto Guignard:
http://www1.cultura.mg.gov.br/index.php?acao=busca_analisaBusca_bt








Último adeus





minha saudade
ainda a habita -
morada dos "passos perdidos*...

Tuca



*Olive Sacks cita "o lugar dos passos perdidos"
Isabel Allende cita "no corredor dos passos perdidos"




"Anna Mariani: Pinturas e Platibandas"

Imagem de Serrinha, na Bahia (1983)


"ANNA MARIANI: PINTURAS E PLATIBANDAS" (São Paulo): nesta quarta-feira (16), às 19h30, o Centro Cultural do Instituto Moreira Salles de São Paulo inaugura a mostra "Anna Mariani: Pinturas e Platibandas", com 24 imagens de fachadas feitas pela fotógrafa Anna Mariani em sete estados do Nordeste do Brasil: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Onde: rua Piauí, 844, 1° andar, Higienópolis, São Paulo-SP; de terça a sexta, das 13h às 19h, e sábados e domingos, das 13h às 18h. Grátis. Inf.: 0/xx/11/3825-2560 e no site do IMS (http://ims.uol.com.br/). MaisFotos:Divulgação


Imagem de Gravatá, em Pernambuco (1982).



Imagem de Cabedelo, na Paraíba (1985)


Imagem de Fazenda Nova, em Pernambuco (1985).


Imagem de Bola, na Paraíba (1985)


Imagem de Jatiuca, em Pernambuco (1982).


Imagem de Pindoba, na Bahia (1983).


Imagem de Iguatu, no Ceará (1983).






Soneto Vaivém


Carlos Soulié do Amaral


Para Fernão Lara Mesquita

Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.



Despojamento

Carlos Vogt


Deitou-se a céu aberto
com chuvas e trovoadas
teve de recolher-se
das estrelas
de sua imaginação




18.6.10

Aldemir Martins

"Floreiro"
Arte brasileira



Peônia Chinesa


Uma Paeonia Lactiflora, popularmente conhecida como Peônia Chinesa, é exibida durante a preparação para o Chelsea Flower Show, em Londres Stefan Wermuth/Reuters





Registro delicado*


traçou montanhas com ponta fina
e o mar fez pontilhado -
rascunho para bordado

Tuca


*idéia originada de uma frase de Amós Oz







Sem GPS


amor maduro
território conhecido
beijo você de cor e salteado

Tuca





Olhando as ilhas

Ledusha B. A. Spinardi

a primeira nuvem fosca nos olhos
a primeira alegria talhada no vácuo
o namorado esteta que chorava à toa
o atlas que homem nenhum me deu Ledusha B. A. Spinardi

Outubro termina a bordo de um ventinho de cambraias, perfeito para cílios e lábios. Ainda há borboletas soprando o véu da primavera. Do
outro lado da rua, através dos brincos-de-princesa na treliça que contorna a varanda, posso sentir o coração de um sabiá pulsar ao
compasso solitário de um assobio. A luz da tarde anuncia subitamente escuros, abafa-se, e logo a tempestade cai, despenteando o cenário com raios esplêndidos. Cai estrondosa e se vai, deixando a tarde fresca e perfumada. Nos intervalos entre gotas tardias, pesco um
sentimento ímpar de plenitude. Mosaicos de folhas e galhos repousam no asfalto cravejado de granizos.

6 de maio

Helena Ortiz




estávamos felizes em pleno domingo

a certeza próxima do outro
comida no fogo roupa
já passada
casa nem tão limpa
sapatos num canto
projetos alinhavados

a notícia chegou pelo telefone
apagou o fogo
separou nossos sapatos

notícia maior que a vida


Um descanso no caminho

José Saramago - 1922 - 2010




O viajante está feliz. Nunca na vida teve tão pouca pressa. Senta-se na beira de um destes túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo. É uma ilusão que o assalta de longe em longe, não lho levem a mal.

José Saramago
In Viagem a Portugal, Ed. Caminho, 21.ª ed., p. 137






14.6.10

A PAIXÃO NUA

A paixão nua e cega dos estios
Atravessou a minha vida como rios


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in O NOME DAS COISAS (Ed. Salamandra,1996)

Soseki Izadi


Sol Lua e Estrela

Letra da música
Palavra Cantada

Quando a lua chega de onde mesmo que ela vem?

Quando a gente nasce já começa a perguntar

Quem sou?

Quem é?

Onde é que estou?



Mas quando amanhece quem é que acorda o sol?

Quando a gente acorda já começa a imaginar

Pra onde é que eu vou?

Qual é?

No que é que isso vai dar?



Quando a estrela acende ninguém mais pode apagar

Quando a gente cresce tem um mundo pra ganhar

Brincar, dançar, saltar, correr

Meu deus do céu onde é que eu vim parar?



Quando a lua chega de onde mesmo que ela vem?

Quando a gente nasce já começa a perguntar

Quem sou?

Quem é?

Onde é que estou?



Mas quando amanhece quem é que acorda o sol?

Quando a gente acorda já começa a imaginar

Pra onde é que eu vou?

Qual é?

No que é que isso vai dar?



Quando a estrela acende ninguém mais pode apagar

Quando a gente cresce tem um mundo pra ganhar

Brincar, dançar, saltar, correr

Meu deus do céu onde é que eu vim parar?



Brincar, dançar, saltar, correr

Meu deus do céu onde é que eu vim parar?


Balão de lua

Montanha em Sestriere, na Itália, da espetáculo visual (26/05/2010) REUTERS/Alessandro Bianchi




Lua cheia

Lua cheia nasce no céu atrás de uma estátua, que fica no topo do Museu Nacional de Arqueologia da Grécia, em Atenas (28/05/2010) AP Photo/ Petros Giannakouris



Nua

Cristina Bastos



A máscara está deposta


desconhece-me

eu sei tudo sobre seu espanto



certamente


não será a última,



já tendo me despido


esqueço-a,



máscaras morrem

quando postas sobre a mesa.



Num quadro de Edward Hopper





André Dick





a vida destrói
um sol
quase esquecido
numa tela
de hopper:

o posto de gasolina
abandonado,

onde um senhor,
talvez o dono,

em seu ócio,
rega a grama

com sua bomba
de petróleo.


13.6.10

Copa do Mundo 2010 - Brasil!

Foto: TucaKors





Serra de Itaqueri

Serra de Itaqueri, Itirapina, SP -
foto - TucaKors




Tento reter na memória
os belos horizontes. Saudade!

Tuca





Mulher caminha com lobos


Mulher caminha próxima a esculturas de ferro reprensentanto lobos, obra da artista Liu Ruowan chamada "Wolf Coming" (lobos vindo, em tradução livre), Pequim, na China (25/05/2010) Ng Han Guan / AP/UOL

Prece de um dia quase igual a todos

Ledusha B. A. Spinardi


Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana. Minha máquina de ser beira a pane enquanto o veludo da voz de Billie lambe as paredes do lusco-fusco. Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável. As tardes despenteadas em Grumari, as lágrimas do homem que me amou e nunca disse, o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema, as crianças que tão cedo me deixaram farta de lágrimas e leite, o eco esquivo de Frederico, sinais de musgo. Abençoe as escarpas da minha vida enquanto desenterro estas palavras — o carmim destas palavras — com as lascas afiadas da dor. Sonho piscinas, atraída pelas labaredas. Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes, pai.

Rezo

Para Adélia Prado

Que dor, que pétala, que flor!

(Salmodrummondiando)

Cida Almeida


Coloco a mão no peito
Bem onde dói e choro
Essa dor ressentida dos dias
O que doerá sempre e nunca brandamente
No balanço das horas findas
A minha dor
A minha pétala
A minha flor
Esse sopro no abismo
Que flutua dentro de mim
E rezo
Como se beijasse
A indelicadeza das horas.

Pássaros de Joanesburgo


Pássaros descansam em telhado de um colégio em Joanesburgo Omar Torres/AFP PHOTO/UOL






work by Katerina Dramitinou




É da essência dos homens querer espantar os seus fantasmas incendiando os porões imundos dos navios. Eu, que tantas vezes fui queimado, acho isso lastimável e degradante.
(André Bolívar)

O corpo é uma festa

O corpo não é uma máquina
como nos diz a ciência.
Nem uma culpa como nos faz
crer a religião. O corpo é uma festa.

Eduardo Galeano

Não importa

Cristina Bastos



Não importa
se não comando
meu forte é ver navios


em sossego
sei sorver,


se sopra
brisas
se venta,
tempesteio.


Não importa
se sou mestre
em arrasar passados,


só no meu mapa
Mexo
é minha
a história que calo,


na loucura
sei sorver,


o mel, o veneno
do meu prato.

11.6.10

Horizonte

Autor desconhecido


À procura


Andei pelos caminhos da Vida
Caminhei pelas ruas do Destino -
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei na casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a porta da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez me beber de seu vinho.
Acertei meu caminho.

Cora Coralina
in: Melhores poemas de Cora Coralina





"Hoje pensar me dói como ferida."
Lila Ripoll




10.6.10

benção



tua benção, poesia
em nome do pai
do filho
e do espírito
canto

Celso Borges



Somos hai-kais iguais

Diz-me de quem sais,
Grito-te meus ais -
Somos hai-kais iguais.

Millôr Fernandes




Sonhos



cavalos pastam nos sonhos do poeta
(o amor uma ilusão de ótica)
azul de nenhum sentido. remoto as horas bocejam à espera.
apenas a pura e plena espera pulsa
no sonho

Sérgio Villa Matta

Marc Chagall

Irresistível atração!

Coberto de lama, turista desfruta do sol no Mar Morto, em Israel (08/06/2010) Maya Hitij/AP Photo


01.mai.2009 -Participantes da corrida passam por caçamba cheia de lama, em Holambra /Leandro Ferreira


21.fev.2009 - Foliões participam do tradicional Bloco da Lama, em Paraty, durante o carnaval/ Reinaldo Canato


Lutador de luta livre espalha lama no rosto durante treinamento em Calcutá, na Índia Sucheta Das/AP



9.6.10

Viver bem não depende de um outro



por Claudia Araujo



" O olhar que hoje me cativa, que de um instante para o outro se tornou a razão dos dias meus, era ontem o de um desconhecido, mas cujo encanto hoje me surpreendeu.

O olhar que hoje me cativa e que é gerado pelos olhos teus, faz com que minha vida se encha de vida e transborde pelos caminhos que se abrem, depois desse encontro que aconteceu.

O olhar que hoje me cativa e que me evoca épocas remotas, e me enche de anseios e de paz, conflituados sentimentos que hoje convivem aconchegados por esse amor seu, é onde me encontro e me perco, onde me busco e não me acho, pois o rosto que em mim encontro é invariavelmente o seu.

O olhar que hoje me cativa, a prisão em que me converteu, é a cilada que a vida por minha inconsciência um dia me prometeu."
claudia araujo



No mês dos namorados, falaremos de amor, mas não apenas amor por um outro, mas fundamentalmente, por nós mesmos, pela vida, pelo todo. Costumamos confundir viver bem com um amante que nos satisfaça, alguém que preencha nossos vazios, e o resultado é que muitas vezes nos aprisionamos pelas fantasias de vida que construímos. Viver bem parece ser um termo muito mais adequado à noção de ter um sentido para a minha vida, seja ele qual for. Sentido esse que sinta preenche o mais fundo de meu coração, e de minha alma.
Constantemente vou buscar em um outro aquilo que deveria buscar primeiramente em mim mesmo porque acredito que só um outro será capaz de me fazer sentir completo, pleno, realizado. Mas mesmo no amor, preciso aprender a amar a mim mesmo para ser capaz de amar a um outro, para que possa efetivamente ter um encontro, de almas, corações, espíritos, individualidades. Não posso ofertar a um outro aquilo que ainda não possuo. Preciso antes de tudo aprender a me amar e a ser um indivíduo. Descobrir o sentido de minha vida, do meu caminho, para que possa ter a certeza de que esse outro é o ponto, com o qual posso compartilhar e prosseguir, agora junto.
Pago pela água que bebo, pela comida que como, pelas cobertas com que me aconchego, pela casa onde me protejo, e também pelo riso cristalino de um outro, por seu olhar no meu, por seus braços, seus abraços, sua presença em minha vida, suas mãos em minhas mãos, sua suave invasão, sua companhia equilibrada, sua parceria, por me acompanhar, sem me invadir. Isso é o resultado de um preço pago ao me construir, me sedimentar, me reconhecer.
Quando não pago esse preço acabo por acarretar o pagamento de um preço bem mais amargo, que é meu próprio aprisionamento, e a sensação de vazio e perda da alma que a ausência de um outro é capaz de me proporcionar.
O preço mais doloroso que posso ter que pagar é a perda de mim mesmo que só uma paixão irrefletida baseada em necessidade é capaz de gerar, me iludindo e me deixando perceber nesse outro, um outro, partes minhas não vividas, páginas que não escrevi, por me desconsiderar. E acabo pagando caro por ver nesse outro rosto, meu próprio riso; em seus olhos, minha alma, e acabo necessitando tanto da energia que creio vem dele, que passo a abrir mão de coisas que construí, espaços que conquistei, vida que vivi, obras que criei, confundindo por um período de tempo tudo isso com me realizar.
Mais tarde acabo por perceber que viver bem é a rotina bem assimilada, a monotonia do dia a dia bem introjetada, é lavar os pratos sorrindo por entender que faz parte de meu cotidiano harmônico, é embalar tranqüila meu bebê que chora, mesmo que meu sono esteja atrasado em 2 ou 3 dias, ou tenha cumprido uma dura jornada de trabalho, por isso ser a resultante do clamor autêntico de minha alma. É sentir que cada minuto de meu dia contribui para a trama de minha vida que se constitui num roteiro único, meu filme particular, singular.
Porque viver bem é remendar ponto a ponto, dia a dia, cada pedaço dessa enorme colcha de retalhos que sou, e aparar as arestas de minhas idiossincrasias, visando meu aprimoramento. É saber que solidão não é sinônimo de ser ou estar só, pois faço parte de uma estrutura mais abrangente da qual fazem parte meu irmão, irmã, vizinho, vizinha, o sol, a lua e as estrelas. É perceber que por menor que seja, sou importante nessa engrenagem maior, pois faço parte do todo, e também, que cada conquista em qualidade que efetivo, estou contribuindo para esse todo, ampliando as possibilidades dessa estrutura maior da qual faço parte. É entender que nenhum fato é um fato isolado, e que mesmo eu, posso estar contribuindo para o despertar da consciência desse lindo planeta azul.
Viver bem é ser capaz de possuir um corpo são numa mente também sã, protegidos por uma alma luminosa.

Antônio Poteiro

Antônio Poteiro - 1925 - 2010



8.6.10

A cerâmica de Laura Zindel


A cerâmica requintada da americana Laura Zindel parece ser uma curiosa oposição ao terror generalizado de insectos, répteis e rastejantes diversos. O design fica ao cuidado de Laura e de seu marido, Thorsten Zindel Lauterbach, vivendo o casal numa antiquíssima casa de quinta, no estado de Vermont, agora quase transformada num ateliê.

Os trabalhos são inspirados na Natureza e nos “Cabinets of Curiosity” vitorianos, marcas da arte de coleccionar todo o tipo de relíquias, da etnografia e arqueologia, passando pela geologia e restante história natural, muitas vezes em dissecações dignas de museu.

À primeira vista não seria muito convidativo fazer refeições em pratos onde surgem tarântulas, abelhas, libélulas, cobras, plantas, pássaros e até ovos, mas a simplicidade, a beleza singular e a riqueza de detalhes das ilustrações sobre a porcelana branca é tal que esta ganha vida.

Os desenhos a preto e branco são feitos à mão com lápis e impressos na peça em esmalte, a qual é depois cozida para fixar as imagens, numa versão moderna de um processo denominado ‘transferware’, aplicado pela primeira vez no séc. XVIII. O que era antes um processo laborioso e dispendioso, foi facilitado por esta técnica que
produz linhas finas similares às gravuras de livros antigos.





As peças de Laura, que pedem emprestados designs naturais, formam uma gama de objectos de cozinha, pratos, taças, copos e afins, bem como elementos decorativos, tais como jarras e vasos. Todos os anteriores são feitos com materiais não tóxicos, seguros para os alimentos, e exigem alguns cuidados especiais de utilização e lavagem para uma maior durabilidade. Quanto aos preços, vão de algumas dezenas até várias centenas de dólares, sendo que a peça mais cara ronda os 500USD.
O amor da artista pela ilustração e pela Natureza associa-se ao gosto pela simetria, numa complexidade refinada que origina belíssimos padrões ornamentais.

O casal Zindel espera que o seu trabalho de precisão científica e imaginário vitoriano provoque um repensar dos materiais e da temática usada, desejando também que as suas peças cativantes passem de geração em geração, tornando-se elementos icónicos no seio familiar.


publicado em artes e letras por alexandre romero em 27 mai 2010 - blog Obvious