24.7.10

O maior museu virtual

Cypress Trees and Houses, Midday Landscape - Amadeo Modigliani



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Um beijinho de obrigada pelo envio, Zaninha:)



A procura

Adrian Cintar





Cora Coralina

Andei pelos caminhos da vida. Caminhei pelas ruas do destino- procurando meu signo. Bati na porta da Fortuna, mandou dizer que não estava. Bati na porta da Fama, falou que não podia atender. Procurei a casa da Felicidade, a vizinha da frente me informou que ela tinha se mudado sem deixar novo endereço. Procurei a morada da Fortaleza Ela me fez entrar: deu-me veste nova, perfumou meus cabelos... fez-me beber de vinho. Acertei o meu caminho.

TRISTEZA PERMITIDA

Aleksa Stojkovic


Marta Medeiros
Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos!

Um beijinho de obrigada pelo envio, Zi:)



22.7.10

Grupo Corpo

Ana Botafogo





Presentes da ZI:)
Obrigada, querida!
Lac de Wallenstadt



8.
quem nos tirar pra dançar na chuva
há de tirar-nos também a máscara
é preciso
devolvê-la ao espelho.
Nydia Bonetti



FELICIDADE

Jazz nas cavernas - 1984 -Rodrigo Andrade




RAYMOND CARVER
tradução CIDE PIQUET

Tão cedo que ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e tudo aquilo que sempre a essa hora
nos passa pela mente.

Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.

Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles traz uma mochila nas costas.
Estão tão felizes
que nem sequer conversam, os garotos.

Acho que, se pudessem, estariam até
de braços dados.
É de manhã bem cedo
e os dois caminham lado a lado.

Lentamente, eles vêm vindo.
O céu começa a clarear,
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor,
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.



Campo minado

Albert Oehlen - Fibreglass Scroll




o desamparo desencanta
pede mão estendida, amparo -
caco de vidro no coração

Tuca

Vida de Mosteiro

el_mariachi1_blue_Shawn McNulty




clarissas em silêncio
carmelitas descalças
eu, neste apartamento

Tuca



Inútil camuflagem

Gerhard Richter




decifro seu rosto
toco no seu pensamento -
silêncios tão barulhentos!

Tuca







20.7.10

O lamento dos excluídos




Cães excluídos da adoção ganham tratamento vip em SP. Em vez de chihuahuas fofinhos, a advogada Audrei Feitosa, 39, preferiu acolher Kiko, um vira-lata "grande, velho e com dente todo podre". Ela se autodenomina protetora dos cães fracos e indefesos. Para preservar o título, monitora de seu apartamento, em Higienópolis, no centro de São Paulo, o resgate de animais abandonados. Quanto mais idade e problemas de saúde, mais o bicho vira "inadotável", diz. Para os rejeitados, ela e uma amiga mantêm, no sítio de um conhecido em Jundiaí (58 km de SP), cinco canis "de luxo", com ração premium, cobertores e cuidado veterinário. Juntas, pagam a um "caseiro canino"" R$ 200 por animal. Atualmente, são 30. A dona de casa Cleide Jacomini, 51, foi além. Aluga, na Freguesia do Ó, uma casa especialmente para dez cachorros recolhidos na rua. ( Cotidiano, 5 de julho de 2010)

ELE ERA morador de rua e orgulhava-se disso. De família rica, poderia ter sua própria casa e nela viver confortavelmente; mas, como declarava a quem quisesse ouvir, tratava-se de uma opção que era, ao mesmo tempo, existencial e política.
Viver na rua, como excluído voluntário, significava rejeitar a hipócrita conjuntura de que seus pais se beneficiavam; significa protestar contra um status quo caracterizado pela injustiça e pela desigualdade. Era o que repetia nos discursos que constantemente fazia nas praças, nas ruas, nas avenidas. E que não tinham muito sucesso. Ninguém queria ouvi-lo.Os outros moradores de rua evitavam-no; não entendiam o que ele falava, ficavam irritados quando ele lhes dizia que não deveriam beber nem usar drogas. "Esse cara é maluco", murmuravam e tratavam de afastar-se. Ele vivia, pois, sozinho. Ou melhor, viveu sozinho até encontrar o Amigo -o nome que deu a um cachorro vira-latas, magro e sarnento, que, por alguma razão, passou a acompanhá-lo e que parecia ouvir, muito atento, suas arengas. Nasceu daí uma profunda amizade, a amizade que nunca tivera com ser humano algum. Partilhavam o alimento que ele encontrava no lixo, dormiam juntos sob os viadutos, ele abraçado ao cachorro. "Nunca me separarei de você, nunca", costumava dizer ao Amigo que parecia retribuir, com o olhar, esta manifestação de carinho. Mas um dia o Amigo sumiu. De manhã o homem acordou e o cachorro não estava ali. Desesperado, saiu a procurá-lo. Inutilmente: provavelmente alguém, um daqueles moradores de rua que o odiavam, sequestrara o bicho. Meses se passaram sem que o sofrimento diminuísse. E um dia ele encontrou o Amigo. Estava no jardim de uma casa que, ele descobriu, funcionava como abrigo para cães abandonados. Contentíssimo, gritou, através das grades que cercavam o local: "Aqui, Amigo! Eu vim buscar você, Amigo!" O cachorro simplesmente ignorou-o. Pior que isso, entrou na casa e desapareceu. Por uma boa meia hora ele ficou ali, desarvorado, sem saber o que fazer. E depois saiu a andar, como sempre, sem rumo. Se naquele momento encontrasse uma casa destinada a abrigar os desiludidos deste mundo, com toda a certeza pediria que o aceitassem.
MOACYR SCLIAR escreve nesta coluna da Folha de São Paulo, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.

19.07.10

Medo

Sem título - 1999 - Rodrigo Andrade



por que perco meu tempo — palavra
a te buscar 
em vãos 
onde não habitas
se só te encontro nos porões de mim

Nydia Bonetti



16.7.10

Memória

time...Branimir Krtenic - TrekLens




Dalila (Isabel Agrela) Teles Veres



Em meu dedo

o teu dedal


(tento, mãe

costurar tua memória
prender-te ao que me resta)


Incertos pontos

que a vista embaçada
não deixa urdir


SAN MARTINO DEL CARSO

shape_of_my_heart - Yuriy Verbovskyy - TrekLens




Giuseppe Ungaretti
Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916

Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro

De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto

No coração porém
nenhuma cruz me falta

É o meu coração
a região mais destroçada




marinha viii

feather_paon - Tomescu Cezar Valentin - TrekLens





o
azul
anzol do
teu olhar
me puxa
como
um
p e i x e

Gabriel Bicalho

Simeon Nijenhuis




Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira

8.7.10

Aniversário do Arma Zen

IULIAN ALEX



Um grande abraço aos amigos do Arma Zen!
Tuca





O beijo

shadow_of_love_res - Ioana Cristina Geltsch - TrekLens




Denise Emmer


Levou-me sem feitas frases

Somente passo e camisa
Roubou-me um beijo de brisa
Na quadratura da tarde


Jogou-me contra a parede

Rasgou-me a blusa de linho
Roubou-me um beijo de vinho
Diante das aves vesgas


Puxou-me para seu fundo

Rompeu a rosa pirâmide
Roubou-me um beijo de sangue
E bateu asas no mundo.



Pensamentos luxuriosos

Dalila (Isabel Agrela) Teles Veres



Ver-te.Tocar-te.Que fulgor de máscaras.

Hilda Hilst






Pensava nele

quando a seda do vestido
tocou-lhe as coxas
eriçando-lhe os pêlos
(asas a roçar o espírito
tocha a incendiar a carne)


Pensava nele



quando a voz de Maria Callas

alcançou a nota mais aguda
- L’atra notte in fondo al mare –
invocando Mefistofele
(setas fálicas a zumbir junto aos ouvidos
aromas de sândalo a embebedar os sentidos)


De tanto nele pensar

Devorou a si própria
l u x u r i o s a m e n t e
(espírito só carne)



Estética


Carlos Vogt



Estéril
diante da folha em branco
amasso o bloco
de pedra
que devia talhar




7.7.10

Mattina ( Manhã)

Fotografia tirada junto ao marco geodésico do Monte da Nossa Senhora da Ajuda, na Graciosa, em 25 de Julho de 2009, cerca das 6h30, antes do sol nascer. Fernando Jorge Alves Pinto


.

Santa Maria la Longa il 26 gennaio 1917

M’illumino
D’immenso.

“Deslumbro-me
De imenso”


6.7.10

Ternura

Ileana Campean - TrekLens





Voo

Alon Jupiter



e o filho partiu...
de tanto olhar para o céu
meus olhos azulejaram

Tuca

Pátina

Amir Towfighi




O tempo acrescenta
linhas, manchas, relevos.
Meu corpo é mapa.

Tuca



Poema de amor

Constantin Ch... TrekLens


Ana Martins Marques


Este é um poema de amor
por isso nele
não poderá faltar
a menção a alguma
flor
e por isso digo
rosa
ou lírio
ou simplesmente
rubro,
rubro
e espero as páginas
imantarem-se
de vermelho
por isso digo
febre
e noite
e fumo
para dizer
ansiedade e
desperdício de sêmen e de horas
e cigarros à janela
acesos como estrelas
com a noite numa ponta
e nós
consumindo-nos
na outra
este é
definitivamente
um poema de amor
por isso nele
devo dizer casa
e olhos
e neblina
e não devo dizer
que o amor é uma doença
uma doença do pensamento
uma desordem que põe tudo o mais
em desordem
uma perda que põe tudo
a perder
e porque é
um poema de amor
sob pena de ser devolvido
como uma carta sem destinatário
(e todos sabem que não se deve
brincar com os correios)
este poema deve dirigir-se
a alguém
porque a alguém o amor deve ferir
com sua pata negra
e então
à falta de outro
este poema
eu o dedico (mas não tema,
o tempo
também nisso
porá termo)
a você.

Plasma e sangue

sculptor Zvonko Car - Tsilla Nahari - TrekLens


Denize Cruz

Enquanto houver abraço
trevo, desvio, picada e medo
enquanto houver margem
desejo, rio, queda d’água e boca
enquanto houver traço
no olhar que descansa
enquanto houver laço
entre o sim e o então

todo corpo será horizonte.




1.7.10

Objeto de desejo


A loja de departamentos Harrods, em Londres, vai colocar à venda, na próxima semana, uma raridade entre seus inúmeros objetos de luxo disponíveis em seu interior.

Trata-se de uma banheira esculpida numa pedra maciça de quartzo amazônico. A pedra foi comprada pela empresa italiana Baldi, em 2006, que entregou ao designer Luca Bojola que criou a peça. O preço deverá ficar em torno de R$ 1,4 milhão.

Fonte: UOL




Senhora da escultura

Louise Bourgeois


Cida Almeida

Uma velha de cócoras
Encolho-me até o limite do feto
E fecho o círculo
A corrente
As algemas
A gema
E a dor de me parir
Sem mãe
Sem luz
Sem sombra
De cócoras dentro do invólucro
Rasgo as minhas entranhas
E liberto todos os espasmos
Os fluidos da incerteza
E tateio um corpo que é só meu
De uma existência sem peito
Sem a manipulação do choro
Sem a mão segura para tocar
As primeiras flores
As diluídas alegrias e todos os dissabores
Da engambelação do leite
De cócoras, ainda, ouço a voz
A única voz e é toda minha
Com essa melodia estranha
Presa como um choro na garganta
Mas sei que não é tempo de choramingo
E engulo a primeira tempestade
Dessa existência em minhas mãos
Ergo a cabeça e abro os olhos
E a luz não é mais uma incompreensão
Para aprendizados de uma vida inteira
E não me queima mais as retinas
A fúria das manhãs
A minha escultura, e de mais ninguém
Silenciosamente erige-se dessa posição
De feto envelhecido
De vida de cócoras
E a coluna vertebral range
Com todas as dores do meu parto
E não engatinho mais
Os primeiros passos
Pulam o lento balé de quatro
E vôo nua
Senhora da minha escultura
E dos meus movimentos
Contra o vento
E desfeita da necessidade
Do véu de qualquer certeza.




O homem e a sua paisagem

Bulanova Lyubov


Dante Milano



Toda paisagem tem um ar de sonho.
Vejo o tempo parado, inutilmente.
Tudo é menos real do que suponho.


Interrompi teu sonho, natureza.
Diante de um ser humano, de repente
Apareces tomada de surpresa.


No espaço que me cerca estou suspenso.
Em redor um olhar pasmado e mudo
E no ar a ameaça do silêncio denso.


Em todo sonho existe um extasiado
Olhar adormecido que vê tudo...
Senhor, eu sou o objeto contemplado



Aleijadinho

Profetas de Aleijadinho, Congonhas do Campo, MG. - by André Moises


Na pausa do cinzel e das ferramentas
declinas perguntas à pedra.
Teus profetas elegem o ar
conhecem o volteio dos dias
pisam
o pergaminho das parábolas.
Doze vezes a pedra humanizada
respira
o silêncio das colinas.
Tuas mãos em descanso emocionam
o tempo fixado.

De 25 Azulejos (1994)