14.8.10

Meus filhos foram embora. Quartos vazios doem. Doem camisas e sapatos largados para trás. Um dia, nenhum deles voltará. Vivo uma angústia de médio porte, tenho livros, mesas, cadeiras, algumas roupas. Signo não tenho. Danem-se as estrelas e planetas, risco sozinho um destino irreparável. Sei pregar botões na água. Sei chamar chuva de todos os feitios. Se eu tivesse um carro, lavaria ele todos os dias, como se fosse uma xícara.
(Carlos Antônio Jordão – 26 – 02 – 2017)

Paciente companhia

Paciente segura um "robô pessoal", uma foca bebê que reage ao toque e ajuda pessoas com demência em um asilo militar em Washington. O surgimento dessas máquinas em asilos, escolas e salas de estar vem dando combustível às fantasias de ficção científica sobre máquinas com as quais as pessoas podem se relacionar Mais Stephen Crowley/The New York Times
Ele, sempre ele


suaviza meus dias
adoça minhas noites
"primo e vero amore"

Tuca






Compaixão

O desamparo encanta -
caco de vidro
em coração machucado

Tuca



(du)elo de sangue

Meu amor não foi aceito.
Sou o rato.
Ela, a ratoeira armada.

Tuca




Noite Maga

Ravi Ghattamaneni - TrekLens



Negrito


Denise Emmer


Andei contigo nas dunas


Nas páginas das areias

Pensei avistar sereias

Mas eram sóbrias escunas



E ao perguntar quem eras


O mar moveu seus navios

Olharam-se as éguas no cio

Voaram fêmeas sem sela



Enquanto me assombravas


Os sais trocavam segredos

Abraçava-me com medo

Torpor, o que me falavas



Então comecei morrer


Por rua mão de veludo

Que me levava entre surdos

No tênue amanhecer



Desmanches de beijo e vício


Aroma de folha e chuva

Teu sorriso atrás da curva

Na ponta do precipício



Longe vai a noite maga


Em seu palácio estranho

Não te decifro és sonho

A povoar minhas águas.





De

O INVENTOR DE ENIGMAS
Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1989

TU




Se fosses onda, eras a minha brincadeira preferida.
Se me amasses sempre, eras a plenitude.
Se fosses um modo de falar, eras o diálogo.
Se inquieta chorasses, buscava-te e não te encontrava.
Se fosses um pôr do sol, eras o mais belo de todos.
Se fosses uma árvore, eras um cedro.
Se tivesses cores, eras branca e vermelha.
Se fosses a neve, passavas mais além.
Se fosses uma substância, eras o bálsamo.
Se fosses trocada, eras a madeira da coluna.
Se eu fosse barco, levava-te à frente mesmo da proa.
Se não fosses rapariga, eras uma rosa silvestre.
Se invisível estrela fosses, eras o mútuo amor.
Se me abraçasses e te delisses, eras o orvalho da noite que as árvores molha.
Se desmaiasses, eras um escudo partido.
Se fosses uma flor, jamais te apagarias.
Se relampejasses, eras como pedra da cor do fundo do mar.
Se eu te visse onde fosse, a ti te apontava.
Se fosses indiferente, eras o crepúsculo.
Se me olhasses distraída, eras a minha esperança.
Tua presença para mim é a forma mais prazenteira da harmonia mesma.
Se tu invadisses a música, um acorde soaria grave e queixoso.
Se fosses um trevo, eras a chave da aurora.
Se fosses a suavidade, eras o peso da água.
Se a tristeza fosses, eras o tempo e os dias.
Se fosses um desejo, eras paixão derrocada.
Se fosses a lua, eras uma asa.
Se fosses relógio, eras um círculo profundo.
Se fosses o espaço, eras sua metade e seu centro.
Se não fosses uma estrela favorável, eras uma rocha a defender um território.
Se te escondesses de mim para sempre, eras a noite em redor.
Se um caminho fosses, eras a beira do mar.
Se fosses um jardim, eras um astro de flores.
Se fosses a paisagem. eras o bosque respirando.
Se fosses um anel, eras sempre inquebrável.
Se fosses a sombra densa, eras um caminho entre os astros diáfanos.
Se fosses uma tarde, eras um dia.
Se um ano fosses, eras um século.
Se fosses um ruído, eras de uns passos ressoando em segredo.
Se fosses um pedestal, eras uma ilha azulada.
Se o mundo se partisse em bocados, tu eras o seu silêncio.
Se inclinasses mais a fronte, o coração bateria sereno.
Se suspiras, o tempo que passa torna-se doce.
Se te elevas no céu, na meditação te encontro.
Se uma bolinha fosses, serias uma simples gota de água.
Vives no sentido da chama, não é no da cinza.
Se fosses um número, serias uma quantidade interminável.
Se mudasses de forma, montanha serias escura e aprazível.
Se fosses o vento terral, dormirias num rabo de cores.
Se a chuva te conhecesse, cairia onde dissesses.
Se tentasses salvar alguém, enchê-lo-ias de espigas.
Se fosses uma parede, as árvores te guardariam.
Se a luz tombasse, serias a taça de cada dia.
Cobririas a juventude, se fosses a madrugada.
Se o Outono passasse, tu serias a Primavera iminente.
Se uma cor fosses, serias a alegria do sol sobre a erva.
Se fosses uma voz, terias a cor dum perfume.
Se fosses um perfume, terias a voz da cor que te usasse.
Se um vidro fosses, apagarias os suspiros.
Se fosses um deserto, ondearias sem limites.
Se fosses uma palavra, seria amar-se.
Se fosses um ídolo, eu oficiaria a adoração nos santuários.
Se fosses suave claridade, de rebanhos te rodearias.
Se fosses uma gota de sangue, darias luz.
Se o mundo dos vivos fosse só caos e solidão,
teu destino seria manifestares-te.
Se o mundo fosse brumosa caverna,
tu abrangerias os infinitos.
Tu és o mais belo reflexo da Imagem primordial
que se multiplica para além dos tempos
sem poder expressar-se.

Joan Brossa - (1919 - 1998)

Jesús Martínez Flores

Marinhas

tet bautista - TrekLens




marinha IV

ra mar ia
re mar ia
ri mar ia
ro mar ia
ru mar ia



marinha xxxii

sem reta
nem rota
paira
sobre a
praia
meu sonho
gaivota

Gabriel Bicalho




Mammy!!!

Pássaros são fotografados sob o telhado de uma casa em Solda, na Itália Giuseppe Cacace/AFP