25.9.10

Castelo em Praga


Um olhar diferente do castelo de Praga (27/07/2010) AFP PHOTO / MICHAL CIZEK




Dias líricos

Dragan Belic - TrekLens




Cida Almeida

O chão vermelho
Socado pela batida dos passos
Pela avidez da vida e do coração
Comendo a poeira fina
Daqueles dias líricos

Os dias líricos
Com o gosto de poeira fina
Na minha alma suada
E a beleza da luz espetando a casa
Nas frestas da madeira
Os contornos da alma

A mulher na janela
Uma criança no braço
Um homem na roça
Os bois pastando
A espera

Exalavam cheiros
Os dias líricos
Lembrança que chegou antes
Da primeira palavra
Dos primeiros passos
Dentro de um saco de linho
Para cortar o medo da vida
Flores do campo e ervas do mato
O ruminar incansável dos bois
O fascínio do pássaro sem cauda
Uma estradinha sinuosa
Que dava sempre nos mesmos lugares
Atrás da casa

O frescor das novidades do quintal
O mesmo mundo
O mesmo poço da alma
Sem saber ainda que fosse alma
E que me habitaria
No sempre depois
Dos dias líricos
Dos dias todos
Um lírio
Na mão do tempo mágico

A memória fantástica
Possuindo a alma antes
Dos olhos aprenderem a ser
E a ver de dentro, como vejo agora

Os dias líricos roubaram
As algemas do mágico do tempo
E se prenderam pra mim
Para a liberdade de um dia assim
De plenitude e reverência de rei
Que espreguiça no parapeito
De uma janela antiga
Aberta para todas as esperas

Do bicho que passa
Da flor que se abre e murcha
Da chuva que cai e escorre
Da alegria que beija
Da dor que vem na aba da vida
Do chapéu do meu avô, que flutuava no meio da boiada

Do homem que vem da roça
E caminha para o nunca mais
– E eu amo o cheiro do seu suor, o primeiro amor do meu nariz, e amo também a sua voz, que embalou os meus sonhos com histórias de um tempo de reis, princesas e rosas.

Da mulher que sempre esteve na janela
E pulou para dentro de uma no infinito
Dos filhos que desceram do braço
Da vontade danada de chorar que me pega nesses dias de lirismo antigo
Aí, escancaro mais a janela
E rumino como os bois que pastavam na minha paisagem.

(2/6/2006)



CONDIÇÕES ATMOSFÉRICAS

the_way_it_is - Ahmed Salah




Fernando Paixão



A noite permanece triste

no subúrbio.

Os animais humanizam os cartazes

de propaganda.

É de barro a passagem dos meses.

Pouco sabemos

do tempo vindouro.

As névoas

movimentam-se entre rochedos.



Tão indelicada


a chuva

fora de hora...



"GASPAR GASPARIAN: UM FOTÓGRAFO"



"GASPAR GASPARIAN: UM FOTÓGRAFO" (São Paulo): Exposição com cerca de 150 fotografias em preto e branco, realizadas entre os anos 1940 e 1950 pelo artista, integram a exposição na Pinacoteca do Estado a partir deste sábado (18.09.2.010). A exposição também apresenta experimentos fotográficos com reflexos e vidros, todos realizados na década de 40, período em que Gasparian freqüentou o Foto Cine Clube Bandeirante. Assim como "Estúdio de Arte Irmãos Vargas", a exposição fica em cartaz até 7 de novembro, de terça a domingo, das 10h às 18h. Onde: pça da Luz, 2. Quanto: R$ 6. Inf.: 0/xx/11 3324-1000 Gaspar Gasparian / Cortesia Pinacoteca de São Paulo




Haicai de um poeta amigo

site de Samurai Dave




Entrada do templo
Os galhos de sakura
na cabeça do buda



Antonio Mitori
Salesópolis/SP



"Tu não deves sorrir dessa forma!


"Tu não deves sorrir dessa forma! Realmente, não convém sorrir assim a ninguém!" Atirou-se sobre um banco. Fora de si, aspirou o perfume noturno das plantas. E reclinando-se, com os braços caídos, arrebatado e transito de calafrios, sussurrava a eterna fórmula do anelo - impossível nesse caso, absurda, perversa, ridícula, e todavia sagrada, venerável até mesmo nessa situação: "Eu te amo!".


​, in "Morte em Veneza"
Tradução Herbert Caro / Mário Luiz Frungillo




6.9.10

Poemas escolhidos

2_young_lovers - Atri Hematian - TreKlens



Fernando Paixão





49-a




Corpo: rio
de tantas margens
de onde
secretamente
se entra e se sai.




86


Alegria despertar em campos de trigo
quando os homens erguem os feixes
e levantam contra o céu o vapor das almas.
São meus irmãos
esses que põem os pés no barro
enfiam as mãos nos pântanos
e das raízes arrancam
a parte do fogo.




95


Tira
do rosto
a máscara:
fica
a máscara
do rosto.




109


Tira
da máscara
o rosto:
fica
o rosto
da máscara.




115


Fosse o rio
abraçaria o mar.
Fosse mar
abraçaria o ar.
Fosse ar
abraçaria o fogo.
Seria então
todo.


De
Fogo dos Rios (1989)


In http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet068.htm



O amor e seus cuidados

Fazendeiro alimenta filhotes de pato em um mercado de Dhaka, Bangladesh Pavel Rahman/AP




A pedra

A.D.



Cida Almeida

Ribanceira, a pedra
Ribanceira, o dia
Ribanceira, a peneira
Ribanceira!
Um homem garimpa
Na garupa do dia
Pedras miudinhas no vazio da peneira
Ribanceira!
Eu espreito e temo o rolar da pedra
No rolar das pedras do dia
A pedra grande
A impensável pedra
Na fundura da espera
Eu espreito e temo
Eu convivo
Na garupa dos dias
Esses galopes
A vida na peneira
Dos dias, a pedra
No vazio da peneira
Os dias, a pedra
Esse ofício de mãos
Na ilusão da peneira
Na dureza da pedra
O tear trançadinho das fibras
Às vezes inútil a peneira
Cato o precioso irreal da pedra
E tamborilo os vazios
No galope dos dias
Espreito o rolar da pedra
Na ribanceira do meu medo
A pedra inominável
A inarredável pedra.

(1/6/2007)



DA MORTE

Escultor Eugenio Prati





DENISE EMMER



Os mortos não sobem aos céus

nem elevam-se abstratos

tornam-se apenas retratos

lado a lado nas paredes.



Retrato do avô imóvel

austero e silencioso

do tio tuberculoso

que esquivo me espia.



A avó já está fria

mas me olha com ternura

tece uma colcha escura

para as bodas da família,



Mortos não sobem trilhas

de inconsistentes arranjos

não viram anjos nem brisas

nem cristos nem assombrados.



Sequer passam dos telhados

sequer vão a outros mundos

quando morrem se enraízam

e se alastram é pelos fundos.



Não lhes peço algum milagre

também não lhes rogo bênçãos

de dentro de seus quadrados

não podem mover o Tempo.



Quadros em salas quietas

emoldurados cinzentos

memória em fragmentos

— as vezes nem lhes percebo.