5.10.10

É Bonito, é bonito, é bonito...


Bonito (MS) - foto de André Seale



Metonímico

fero ondrejka - TrekLens





Carlos Vogt



Enquanto repouso:

janelas

e quando já

nelas: cotovelos

de

lembranças



Solidão acompanhada

Pássaros sobrevoam a Ocean Beach, praia de San Francisco, EUA - AP Photo/Jeff Chiu



Medo

Eme Skve

RAYMOND CARVER
tradução CIDE PIQUET

MEDO

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso.

Breves momentos de felicidade

Adrian Cintar - TrekLens


NINA HORTA

Breves momentos de felicidade



DÁ ASSIM, de repente, numa dessas manhãs de primavera. Imagino que haja uma possibilidade de ser assunto de terceira idade, tipo "quem sabe é a última vez", mas me lembro que as crianças quase sempre têm esse dom de usufruir um momento de perfeita felicidade. Todos têm.
Mergulhar no mar. Fazer xixi quando se está muito apertado. Escrever o nome do namorado na areia úmida com um pauzinho. Tomar sol cálido numa tarde fresca ao lado de um amigo calado. Ter uma reunião de negócios cancelada. Deitar numa cama de lençóis trocados e limpos, muitos travesseiros e saber que não há necessidade de acordar cedo no dia seguinte. Fazer uma receita passo a passo e tudo dar certo, bonito e gostoso. A sensação do dever cumprido.
Desci para tomar café. A casa vazia, as portas abertas, entrava um cheiro de guaco e não sei de que flor, um jasmim comportado. Se tinha brisa? Claro. E uma roseira trepadeira cheia de flor, se enroscando no pé de louro alto e seco. O pão fora deixado na mesa, fresco, recém-chegado da padaria, dentro de um guardanapo de linho e de uma cesta de palha. A manteiga era salgada, mas não muito, inteira, numa manteigueira de vidro americano da Grande Depressão. Não desta, da outra. Encomendei na Ebay, paguei com "paypal". Li que o "paypal" está se estabelecendo aqui. Você se vincula a ele e pode fazer suas compras por internet em perfeita segurança. Desembrulhar um livro também pode ser um momento desses.
Tinha mais coisa para comer, geleia de laranja amarga, coalhada, queijo, um chocolate em pó semi-amargo para desmanchar no leite, mas, para mim, de manhã a benção é café puro e um pãozinho francês e três jornais. No domingo começo com a Folha e nem penso, vou direto para a Ombudsman, que conseguiu fazer de sua página uma leitura muito interessante, o que é raro na seção de ombudsman. Outros me fazem anotar livros para comprar, gosto desse crítico voraz e semanal.
Já saí do assunto dos breves momentos de felicidade. São assim. Tem a hora que você está varada de fome e cansada. E alguém, quando se menos espera, faz uma massinha mole, com um molho de tomate daqueles antigos, meio adocicado, com uma suspeita de canela e uma pimenta boa para avivar os sabores. Pimba!
São breves por não sabermos nos concentrar neles. Geralmente na hora do café, que é a única hora em que a empregada pode conversar com você, ela vem, fica em pé numa ponta da mesa e começa. "Dizque..." Para quem não sabe, o "dizque" é a introdução para o raconto de sonhos. Não se fala: "dizque estamos precisando de açúcar." Não.
"Dizque eu estava no sítio e a senhora apareceu muito magra, fiquei pensando, será que ela adoeceu?" A essas alturas, completamente hipocondríaca, já virei um feto apavorado na cadeira, o café esfriando, a manteiga derretendo no pão. Deve ser um sonho premonitório. Vou morrer. "Não; dizque a senhora estava com saudade do cachorro". Eu, com saudade do cachorro? Mas nem tenho cachorro!
Sentiram o drama? É só não deixar que os assuntos que não trazem a felicidade instantânea se misturem e cortem o barato da manhã com cheiro de guaco.

16.09.10 Folha de São Paulo
caderno Ilustrada





- Posso te beijar então? Sobre este papel miserável? Posso abrir a janela e beijar o ar da noite. - Franz Kafka