13.12.10

Tristeza Permitida

crying girl - Marina Abramović


Martha Medeiros

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e t arde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?


Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.


A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.


“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Viníc ius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.


Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos!



Muito obrigada pelo envio, amiga Sonia Maria:)




Tô no Rio, voltando pra SP. Acabei de chegar no Santos Dumont. Vim de Uber. Chegando no aeroporto, o motorista, com a cara e tamanho do Alexandre Frota, mas normal, lúcido, virou pra mim:
– Iiiii meu irmão, olha lá. Tem manifestação dos taxistas contra o Uber. Vou ter que deixar você bem antes.
Eu estava atrasado. Pulei para o banco da frente.
– Toca em frente. Confia em mim.
Ele foi. Paramos o carro na porta do aeroporto. Lotado de taxista bufando. Descemos. Eu gritei, fazendo cara de choro.
– Jorginho, me abraça! Vou morrer de saudade.
O cara me abraçou.
Eu grudei minha cabeça no peito dele. Dei mais um suspiro e disse:
– Tiamo, gato.
Ninguém desconfiou.
Só o amor salva.
***********************************************************************
– Alô, Tom?
– Quem é?
– O Marcos.
– Que Marcos?
– O motorista do Uber. O que você chamou de Jorginho ontem.
– Ahhh sim, tudo bem?
– Tudo bem. Irmão, você foi muito criativo. Nenhum taxista percebeu. Incrível.
– É, a gente se livrou de ser linchado. Não havia outra saída.
– Meu brother, preciso te dizer uma coisa.
– Diga.
– Passei a noite pensando em você.
– Como assim?
– Fiquei com vontade de pegar você no colo. Você gosta de cafuné?
– Marcos, aquilo foi uma performance. Eu não sou gay, cara.
– Eu também não, meu irmão. Sou casado. Mas quando você encostou a cabeça no meu peito, senti algo que nunca havia sentido. Gostei de tudo em você. Do seu cheiro, tudo.
– Do meu cheiro?
– Sim. Você tem cheiro de homem. Você é, sim, especial. Sabe disso.
– Num sei, não. Você não está confundindo os sentimentos?
– Não, quando você grudou a cabeça no peito, eu me arrepiei todo. Da cabeça aos pés.
– Não foi de medo não?
– Não. Foi desejo mesmo.
– Que bom, nunca é tarde para sair do armário.
– Posso ligar para ouvir sua voz de vez em quando?
– Cara, se você se descobriu, logo vai achar alguém pra chamar de seu.
– Mas aconteceu algo especial com a gente. Sabe como se chama isso, Tom?
– O que?
– Q-u-í-m-i-c-a.
– Vou ter que desligar, Marcos.
– Beijo. Tiamo, gato.
Fudeu.

Tom Cardoso



Você tem fome de quê?

"Os contadores de histórias das florestas falam de dois tipos de fome. Dizem que há a fome física e também a Grande Fome. Esta é a fome por sentido. Existe apenas uma coisa insuportável: uma vida sem sentido. Não há nada errado com a busca pela felicidade. Mas existe algo grande ... sentido ... que é capaz de transformar tudo.
Quando você tem sentido, você é feliz, você pertence." 

Sir Laurens van der Post, no documentário Hasten Slowly



O tempo presente

artwork_images - Marina Abramovic



Um apelo à simplicidade



Refúgio. Fotografia de série realizada este ano na Itália: depois de retrospectiva nos EUA, artista diz que sentiu necessidade de se desapegar de suas coisas



Segundo ela, alguma coisa mudou em sua vida depois que realizou a performance O Artista Está Presente (The Artist Is Present), o destaque de sua retrospectiva, de mesmo nome, este ano, no MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York. Além de fotografias, vídeos, documentações de seus trabalhos, a própria Marina ficava sentada em uma cadeira no museu encarando, em silêncio, quem se sentasse a sua frente.

Para a artista, que nós últimos tempos tem seu interesse voltado apenas a performances de longa duração, foi um desgaste sua ação, mas ainda assim a revelação de que "não precisamos mais ter tantas coisas". "Era muito estranho voltar para meu apartamento - que é lindo - e pensar: Não quero tudo isso, é muito grande, muito sofisticado, quero uma coisa monástica, uma coisa que possa refletir meu estado interior...", ela conta também na entrevista ao curador Jacopo Crivelli Visconti em entrevista reproduzida no catálogo de sua atual mostra em São Paulo.

No caso das obras recentes de Back to Simplicity, foi uma paisagem na Itália que se tornou o refúgio de Marina Abramovic. Em fotografias de grande formato, vemos retratos da artista em comunhão com ovelhas e carneiros. Na primeira delas, ela leva nas costas uma "ovelha negra" entre um rebanho de ovelhas brancas. Depois, numa sequência de imagens, entre elas, a que ilustra esta página, Marina, vestida de branco, levanta um carneiro em meio a montanhas.


Trecho de "Um apelo à simplicidade" - jornal O Estado de São Paulo - 13.12.2010

12.12.10

Inverno europeu. Brrrrrrrrr!

Pássaro pousa junto às margens congeladas do rio Miljacka em Sarajevo, Bósnia-Herzegóvina, neste sábado (11/12/2010) REUTERS/Danilo Krstanovic/UOL - Imagens da Semana




O meu sorriso está com o dente-de-leão



O meu sorriso está com o dente-de-leão

Thich Nhat Hanh

Se uma criança sorri, se um adulto sorri, é muito importante. Se em nossa rotina diária pudermos sorrir, se pudermos ser felizes e cheios de paz, não só nós, mas todos se beneficiarão. Se realmente sabemos viver, existe melhor meio de começar o dia do que com um sorriso? Nosso sorriso afirma nossa consciência e determinação no sentido de viver em paz e alegria. A fonte de um sorriso ver­dadeiro está na mente alerta.

Como você pode se lembrar de sorrir ao acor­dar? Talvez você possa pendurar um lembrete ­como um ramo, uma folha, uma pintura ou algu­mas palavras inspiradoras – na janela ou no teto acima da sua cama para que você o veja no ins­tante em que acordar. Depois que você tiver de­senvolvido a prática do sorriso, pode ser que não precise mais do lembrete. Você sorrirá ao ouvir um pássaro cantar ou ao ver o sol entrando pela jane­la. O sorriso ajuda a encarar o dia com delicadeza e compreensão.

Quando vejo alguém sorrir, sei logo que ele ou ela está imerso na percepção. Esse leve sorriso, quantos artistas não se esforçaram para trazer aos lábios de inúmeras estátuas e retratos? Tenho cer­teza de que o mesmo sorriso devia estar estampa­do nos rostos dos escultores e dos pintores enquan­to trabalhavam. Dá para imaginar um pintor en­raivecido criando um sorriso desses? O sorriso da Mona Lisa é leve, apenas uma sugestão de sorriso. No entanto, mesmo um sorriso desses basta para relaxar todos os músculos do rosto, para expulsar toda a preocupação e o cansaço. O mais leve es­boço de um sorriso reforça a percepção e nos acal­ma como que por milagre. Ele nos restaura a paz que considerávamos perdida.

Nosso sorriso pode trazer a paz para nós e pa­ra os que nos cercam. Mesmo se gastássemos mui­to dinheiro em presentes para todos os nossos fa­miliares, nada que pudéssemos comprar lhes da­ria tanta felicidade quanto a dádiva da nossa aten­ção, do nosso sorriso. E essa dádiva preciosa não custa nada. Ao final de um retiro na Califórnia, uma amiga escreveu o seguinte poema:

Perdi meu sorriso,

mas não se preocupem.

Ele está com o dente-de-leão.

Se você perdeu seu sorriso e mesmo assim é capaz de ver que o dente-de-leão está guardando-o para você, a situação não é tão má assim. Sua cons­ciência está suficientemente desperta para ver que o sorriso está ali. Basta que você respire com ple­na consciência uma ou duas vezes para que recu­pere seu sorriso. O dente-de-leão é um dos inte­grantes de sua comunidade de amigos. Ele está ali, inteiramente fiel, guardando seu sorriso para você.

Na realidade, tudo que o cerca está guardan­do seu sorriso para você. Você não precisa se sen­tir isolado. É só se abrir para o apoio que está a todo seu redor e dentro de você. Como a amiga que viu seu sorriso sob a guarda do dente-de-leão, você pode respirar em plena consciência e o seu sorriso voltará.

(Do livro “Paz a cada passo” – Thich Nhat Hanh)


Labirinto gelado

Vista aérea do labirinto do parque Erlebnispark Teichland, em Teichland, nordeste da Alemanha. Na região, a neve chegou a 15 centímetros de altura (09/12/2010) AFP PHOTO/Patrick Pleul/UOL - Imagens da Semana




Greenpeace em Cancún


Versões de papel-cartão de importantes pontos turísticos do mundo são vistos na praia de Gaviota Azul, em Cancún; ação faz parte de estratégia do Greenpeace durante o COP-16, a conferência de clima promovida pelas Nações Unidas REUTERS/Gerardo Garcia/UOL - Imagens da Semana



30 anos sem John

Homenagens a John Lennon no mosaico Imagine no Central Park, em Nova York, nos 30 anos da morte do cantor (08/12/2010) REUTERS/Mike Segar



Sempre Clarice




Nome:
Clarice Lispector

Nascimento:
10/12/1920

Natural:
Tchetchelnik - Ucrânia

Morte:
09/12/1977




As águas do mar
Clarice Lispector



O mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra. São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é um mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar. Seu corpo se consola com sua própria exigüidade em relação à vastidão do mar porque é a exigüidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exigüidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo, mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem. Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que oposição pode ser um pedido. O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada. Agora o frio se transforma em frígido. Avançando ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora, já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol, quase imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes, bons. E era isso que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto. Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, e ela mergulha de novo; está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois.Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação. Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas – ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas – mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera. E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos são de náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.





1.12.10

Nós intersomos

Adrian Cintar - TrekLens







Você é eu, e eu sou você.
Não é óbvio que nós "intersomos"?
Você cultiva a flor em você mesmo
para que eu seja belo.
Eu transformo o lixo que há em mim
para que você não tenha de sofrer.

Eu apoio você,
você em apoia.
Estou neste mundo para lhe oferecer paz;
você está neste mundo para me trazer alegria.


Thich Nhat Hanh


Grupo Corpo

Um músico-pintor da Lituânia


Mikalojus Konstantinas Čiurlionis (1875-1911)



Música: web site M.K. Ciurlionis Musical Works

Pintura: the National Gallery’s virtual exhibition



Escute fragmentos:

Dainu dainele


Taip toli zadeta