20.1.11

ARGOLA


"... uma sólida argola de ferro é passada no meu feixe de ideias." (Raduan Nassar, em "Um copo de cólera"
)

Philip Glass

Animais não são propriedade do ser humano.

Ayrton Vignola-AE



"Usar casaco de pele animal em pleno século 21, com o tanto de tecnologia que temos disponível para a criação de tecidos sintéticos, é uma atitude imoral", diz o sr. Fábio Paiva, da ONG Holocausto Animal, braço verde-amarelo da IAFC. "Essa conversa de que os animais criados em cativeiro para esse fim não sofrem é balela. Animais não são propriedade do ser humano. Apropriar-se indevidamente deles e matá-los já é sinônimo de sofrimento. Não importa se é indolor ou não, morte é morte. E matar bicho para preencher sei lá que tipo de vazio existencial de alguém não é coisa que se faça."
Trecho de "Luxo abaixo de zero", matéria publicada no jornal "O Estado de São Paulo", suplemento "aliás", de 16.01.2011

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,luxo-abaixo-de-zero,666639,0.htm

Geoffrey

Foto: autoria desconhecida)




Luis Fernando Verissimo


Bárbara levava para a praia: um guarda-sol, uma cadeira portátil (na verdade, meia cadeira, apenas um encosto para poder sentar confortavelmente na areia), óculos escuros, chapéu e uma bolsa de pano com protetor solar, batom umidificante, telefone celular, lenços de papel e um livro policial. Sempre um policial. Gostava de ficar lendo embaixo do guarda-sol.

Naquele dia, estava mais ou menos na metade do livro quando notou que um homem sentara na areia perto dela. Perto demais. Bárbara não gostou da sua proximidade. Viu que era um homem mais moço do que ela, bonito, e que ao contrário dela viera para a praia apenas com uma sunga e nada mais.

Nem chapéu, nem óculos, nem protetor, nem celular. Nada. E ele a examinava com divertida curiosidade. Como um nativo nu examinando as vestes pesadas e os paramentos de um explorador recém chegado ao Novo Mundo.

Fora devolver às crianças uma eventual bola que invadisse seu território, Bárbara não tinha nenhum contato com os outros frequentadores da praia. Preferia assim. Não queria falar com ninguém. Queria ficar sozinha. Com seus livros policiais.


– Geoffrey – disse o homem. – O quê? – perguntou Bárbara. – O assassino. No livro que você está lendo. O assassino é o Geoffrey.

– Mas, mas...Bárbara não se continha de indignação.

– Você estragou a minha leitura! Você é um, um...

Bárbara não encontrava a palavra certa. Onde já se vira aquilo? Alguém entrar na vida de outra pessoa assim e, deliberadamente, estragar a sua leitura.

O homem estava sorrindo. Disse:

– Desculpe. Eu só quis poupar você de ter que ler o resto do livro. Assim você já sabe como termina e pode parar de ler para conversar comigo. Podemos começar um relacionamento. E quem sabe dizer como termina um relacionamento? Sua vida pode ser muito mais excitante do que um livro policial. Jogue fora o livro e fale comigo. Pare de ler e descubra a vida.

Mas Bárbara estava inconsolável.

– Só porque você já leu o livro não tem o direito de...– Eu nunca li esse livro. – Mas então, como...

O homem estendeu a mão para Bárbara apertar e disse:

– Eu sou o Geoffrey. Uma bola rolou para baixo do guarda-sol e bateu na perna de Bárbara, que acordou. Por uns instantes ficou atordoada. Onde estava? Na praia, claro. O livro caíra das suas mãos e pousava, aberto, sobre seu peito.

Ela chutou a bola de volta para as crianças e pegou o livro. Que sonho estranho, pensou. E ficou indecisa. Deveria olhar o fim do livro, para saber se Geoffrey era mesmo o assassino, ou continuar a leitura sem espiar o final, agora com o suspense redobrado?

A história do livro se passava em Londres. Geoffrey era um personagem fascinante, um cavalheiro. Bárbara jamais imaginaria que o assassino fosse ele. Mas também nunca o imaginaria de sunga numa praia. Decidiu continuar a leitura sem olhar a última página. A leitura teria outro sabor, agora que conhecia o Geoffrey, por assim dizer, pessoalmente. A vida podia esperar.

(Jornal O Estado de São Paulo -Caderno 2 - 16.01.2011)






14.1.11

Dia Europeo de la Opera


25 Dec 2010 ... Dia Europeo de la Opera en Pamplona. CORO "PREMIER ENSEMBLE" de AGAO. ... Un momento para recordar, en el Café Iruña de Pamplona, España




12.1.11

Os avós de José Saramago


Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha, avós maternos de José Saramago, Azinhaga do Ribatejo, anos 60. Arquivo da Fundação José Saramago. Faz parte de um conjunto de postais comprado, em Julho de 2008, aquando da Exposição "José Saramago: A Consistência dos Sonhos", que esteve patente no Palácio da Ajuda.

(Fonte: http://caisdoolhar.blogspot.com/2010_06_01_archive.html)





Discurso de José Saramago na Academia Sueca ao receber o Prêmio Nobel
de Literatura


"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem
escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia
ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o
campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se
alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós
maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram
vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do
Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram
analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao
ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às
pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo
das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do
enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente
de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois
velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem
retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem,
para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de
pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei
lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de
ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a
transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das
searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de
ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que
depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em
noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje
vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas
figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais
antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a
figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos
depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz
noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e
depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu
noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo,
surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago,
como ainda lhe chamávamos na aldeia.

Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os
casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros,
episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra,
palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me
mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca
pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha
adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a
resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais
demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez
repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as
esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso
dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a
ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos
pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o
campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me,
dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos
14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte
cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao
lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente
uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha
dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias
do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há
firmeza".

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito
sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo
da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em
movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando
o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim
a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra
coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à
porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas
maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras:
"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse
medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e
contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento
quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida,
a consolação da beleza revelada.

Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido
alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com
porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de
ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô
Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte
o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por
uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a
ver."

(por José Saramago)








Meditação em Sampa

Monge budista do templo Busshinji realiza meditação no topo do Edifício Copan, no centro de São Paulo. Uma vez por mês os monges sobem os 37 andares do edifício para meditar em um dos pontos mais altos da cidade Nelson Antoine/Foto Arena/AE


Monólogo III



Era essa chuva sobre tudo,

as palavras que não voltam.

Tenso lançar o que calcina
dentro,
o organismo.


Não rezo resposta.

Estou peregrino na curva do mundo
e sigo um pássaro.


Ele não me percebe
porque vive, vive, vive.


Perceber é morrer.


Fiori Esaú Ferrari

em redefinição

mirror_Elena Terletska - TrekLens





Euza Noronha

para Ser
preciso aceitar
impotências e calmarias
tempestades e girassóis
promessas e muralhas

para Ser
preciso enxergar
ratos e miragens
entranhas e oitavas
camélias e adagas

para Ser
preciso antes
me perder
e em novos
espelhos
me reconhecer




Leveza

Vladimir Popovic - TrekLens


Quando arrumamos nossas gavetas e armários temos a agradável sensação de que colocamos as coisas em ordem. Guardamos o que é útil e jogamos no lixo o que é inútil. Da mesma forma, se queremos experimentar leveza, precisamos fazer esse trabalho em nossas mentes. Reservar um horário e local apropriados para alinhar os pensamentos. Abandonar aqueles que só ocupam espaço, render aqueles que estão causando peso, e resgatar aqueles que me dão força e confiança. (Brahma Kumaris)




Um beijinho de muito obrigada pelo envio, Rô amiga:)





Lovatory - Lovestory

Cartoon - candidato russo ao Oscar em 2009 como "Melhor animação

curta-metragem" (Melhor Curta de Animação). Autor: Konstantin Bronzit


Dentro de um banheiro público, uma mulher passa seus dias a imaginar
um amor. Apesar de alimentar sua mente com matérias românticas, no
fundo parece não acreditar na possibilidade de encontrar alguém. Até
que flores aparecem misteriosamente.


Com traços simples e quase todo em preto-e-branco, esta animação é tão
singela e bem feitinha que conquista qualquer um que a assista.

Mesmo com poucos traços, o ambiente criado por Konstantin Bronzit faz
com que tenhamos acesso aos sentimentos mais profundos da personagem e
que torçamos por ela.

Uma linda experiência!



Sertão

Ilustração: http://naoexistemprofetas.wordpress.com/






Everardo Norões



As nuvens são baixas,


mas alto é o céu.

O que parece passar,

permanece.



O verde, no cinza


se descobre.

A luz,

da escuridão se tece.



O verbo afia,


a faca desafia:

no oculto de mim,

tudo é Sertão.