31.3.11

Gaia

Bruna Lombardi

Você sabe como eu sou despreocupada
que me encerro neste quarto e me permito
todas as divagações, as fantasias
obsessões, perseguições, todos os dias
você sabe que eu me viro de inventos
que eu me reparto e dou crias
que eu mal me resolvo e me aguento
carrego pedras no bolso
e enfrento ventanias.

Você sabe como eu sou desorientada
raciocínio pelo instinto e cometo
fugas de túnel de ladra de galeria
uso malhas e madras manhas e lenhas
e percorro superfícies
em que você escorregaria

Mas você sabe como eu sou de subsolos
de subterfúgios, de subversos subliminares
como eu sou de submundos
subterrãneos, de sub-reptícias folias
meio de circo, meio de farsa
ervas, panfletos, fluídos, presságios
quebrantos, jeitos, gírias, reviras
de sensações e cismas, filosofias

de como eu sou de estradas, andanças, pressentimentos
atmosférica e vadia
gato da noite, de crises, guitarras
ouros e danças e circunstâncias
de vinho azedo e companhia.

Que eu sou de todas as misturas
todas as formas e sintonias
e enfrento esse aperto, essas normas
forças, pressões, imposições, o poderio
os intervalos, o silêncio da maioria.

Você sabe de toda minha luta
mesmo quando a intenção silencia
que eu não cedo, não desisto
a todo custo,, a toda faca, a todo risco
eu sobrevivo de paixão e de anarquia.

Você sabe bem de minha fraude
Você conhece as minhas alquimias.





Alta Tensão

Bruna Lombardi


eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.

Mestre

Álvaro de Campos



Mestre, meu mestre querido!

Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.




22.3.11

A relatividade da força e do poder

Desconheço a autoria da foto




Aprendizado do olhar


[Educar para la Paz Interior: El Amor en la educación por Rubem Alves]



Sobre como da morte brota a vida

Crônica de Rubem Alves



Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar



"E O CADÁVER que você plantou no seu jardim, já começou a brotar? Pode ser que cada sepultura seja um jardim!"
Sou antropófago. Devoro livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de antropófago determinam a maneira como escolho livros.
Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue.
É o caso do conto "O afogado mais bonito do mundo", de Gabriel Garcia Marques. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.
É sobre uma vila de pescadores perdida em um nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava...
Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o desapontamento de todos: era um homem morto.
Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E naquela vila o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e liquens, mortalhas verdes do mar.
Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: "Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".
Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.
De novo o silêncio profundo, até que outra voz foi ouvida. Outra mulher... "Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?"
E elas sorriram e olharam umas para as outras.
De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher... "Essas mãos... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?"
Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.
Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam desejado.
A estória termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma...
Depois dos terremotos e tsunamis nosso mundo nunca mais será o mesmo...


in Jornal Folha de São Paulo - Caderno "cotidiano" - 22.03.2011

14.3.11

Boa tarde!

Foto: Fabíola Mari





German Lorca

German_Lorca-Menino,_1950




O mercado de Pinheiros

mercado municipal do bairro de pinheiros - Sampa - credito: jefferson pancieri spturis




Crônica de Fabrício Corsaletti

Não sou grande frequentador de museus. É uma pena, pois gosto de museus e galerias e já tive boas experiências nesses lugares. Os fatos, porém, não me deixam iludir: vivo em São Paulo há 14 anos e fui apenas duas vezes ao Masp, nunca visitei o Museu da Língua Portuguesa e nem sei direito onde fica o do Ipiranga, ainda que "Independência ou morte!", o verso rock'n'roll de d. Pedro 1º, me faça pensar no nosso imperador como um ex-integrante dos Mutantes -o que não é pouca coisa. Mas não quero escrever sobre museus. Quero escrever sobre o mercado de Pinheiros, onde almocei na semana passada e que é, como todo mercado, o antimuseu, com seus produtos perecíveis e nenhum turista xarope tirando foto.

Sei lá, todas aquelas frutas e legumes frescos, coloridos... Dá vontade de tomar um ácido e ficar ali até entender o que o pimentão está cochichando à berinjela, qual é o problema do caju, o segredo das laranjas, por que as batatas são tão orgulhosas. Dá vontade de correr pra Cidade do México e saltar pra dentro de um mural de Diego Rivera. Dá vontade de ver um filme, dos mais extravagantes, de Almodóvar. Dá vontade de reler a "Ode à Alcachofra", de Neruda. Acho que todo mercado me dá vontade de falar espanhol.


Mudo, mas matutando em português, rodei os dois andares do mercado, parando em alguns boxes a fim de olhar com calma os queijos & os doces, as farinhas & os embutidos. Comprei um punhado de banana- passa. Depois fui conferir os peixes, os inacreditáveis nomes dos peixes: merluza, robalo, cavalinha. Peguei uma receita de ensopado com o peixeiro.


Quando senti fome, pedi uma truta com arroz e purê num restaurante do andar superior e fui feliz. Enquanto comia -sobre a minha cabeça, o teto abaulado-, tive a impressão de que o mercado de Pinheiros era um pequeno ginásio de esportes desativado -sem gritos de torcida organizada e sem apito de juiz. Um lugar silencioso (um túmulo, comparado ao Mercadão), onde o silêncio faz como que um contraponto a alguma coisa nervosa. (O caos do largo da Batata? Não sei.)


De volta ao trabalho, contei pro pessoal minha odisseia pelo mercado de Pinheiros: é um oásis, uma explosão de cores numa paisagem morta, uma bolha -ventilada- de tranquilidade, um monumento em homenagem a Dorival Caymmi, à vida simples, ao prazer. Mas tomaram minha exaltação por piada e me aconselharam a descer pra praia no final de semana e relaxar. Se ficasse em São Paulo, que procurasse um museu de verdade, e não um barracão abastecido pela Ceagesp. Você já viu o autorretrato do Modigliani que tem no MAC?


Não fiz nada disso. Visitei minha família em Santo Anastácio. E à minha sobrinha de três anos narrei minhas aventuras no mercado. Ela ria, mas me levando a sério, e quando a história acabou pediu que eu repetisse a parte do tomate maravilha, dos torcedores invisíveis e da comida com sabor de onda do mar pegando fogo.


In Revista "sãopaulo" - 13.03.2011 - Jornal Folha de São Paulo