25.11.11

'Paisagem lunar'



Foto de Peter Essick

A lua se põe, próxima ao desfiladeiro Donohue, na reserva Anselm Adams, Califórnia.









23.11.11


marigriffin - Buddha love






O guardador de rebanhos
 
VIII 
 
Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte,  tornado outra vez menino,
a correr e rolar-se pela erva e arrancar flores para as deitar fora,
e a rir de modo a ouvir-se de longe.
 
Tinha fugido do céu.
Era nosso de mais para fingir-se de segunda pessoa da Trindade.
No céu, era tudo falso, tudo em desacordo com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério e de vez em quando se tornar outra vez homem e subir para a cruz, e estar sempre a morrer  com uma coroa toda roda de espinhos e os pés, espetados por um  prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura como os pretos nas ilustrações.
Nem se quer o deixavam ter pai e mãe como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas - um velho chamado José, que era carpinteiro e que não era pai dele,
E o outro pai, era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo, porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de ter. Não era mulher; era uma mala em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele que só que só nascera da mãe, e nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
 
Um dia em que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar, ele foi a caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro, fez que ninguém soubesse que ele  tinha fugido.
Com o segundo, criou-se eternamente humano e menino.
Com  o terceiro, criou um Cristo eternamente na cruz e o deixou pregado na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois, fugiu para o sol e desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje, vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita, de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba frutas dos pomares,
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam,
E que toda gente acha graça,
Corre atrás das raparigas que vão em ranchos pelas estradas,
com as bilhas às cabeças e levanta-lhes as saias.
 
A mim, ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
aponta-me todas as coisas há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem nas mãos
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem-Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito-Santo, coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada.
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam á sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso, se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O menino Jesus adormece nos meus braços,
E eu o levo ao colo para casa.
 
...................................................................................
 
Ele mora comigo na minha casa, ao meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano, que é natural, 
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso, que eu sei com toda certeza, 
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
 
E a criança tão humana, que é divina, 
É esta minha cotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo, que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
 
A Criança Nova que habita onde vivo,
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver, 
Saltando e cantando, e rindo, e gozando nosso segredo comum que é o de saber por toda parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
 
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar, é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando nas orelhas.
 
Damo-nos tão bem um com o outro,
Na companhia de tudo,
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois,
Como um acordo intimo,
Como a mão direita e a esquerda.
 
Ao anoitecer, brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
 
Depois, eu conto-lhe histórias de coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam no fundo do mar dos altos mares.
Porque ele sabe que a tudo isso, falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
W que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer os olhos e os muros caiados.
 
Depois ele adormece, e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
 
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas pro ar,
Põe uns em cima dos outros, 
E bate as palmas sozinho,
Sorrindo para o meu sono.
 
...................................................................................
 
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa,
Despe-me meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.
 
...................................................................................
 
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela  mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam? 

Bethania - Poema do Menino Jesus - Fernando Pessoa

 2_young_lovers - Atri Hematian




A aventura é olhar os perigos com alegria e não com temor. No fim, é tudo uma aventura!




.

22.11.11

Ingrid Bergman

Richard Avedon,  1961



Turquia

à sombra dos embondeiros do recife VII


AD



dançar é celebrar o corpo

 é render graças

dialogar com as coisas

é vê-las com os sentidos todos

nada no meio do caminho.

o vento é o maior conhecedor do silêncio

o vento é dança.

alguém sonha comigo. sou água. sou vento.


Lourdes Teodoro



De  Canções do mais belo pecado e poemas antigos






Paul Caponigro

"Formal Leaf Study, 2004"








POEMA

by Megson



E então, pergunto, por que esta vida

de pão e horas moídas?



Por que não somente um pássaro

na insciência da tarde clara,



uma árvore verde embutida

no musgo da manhã... Por que esta vida?



Por que não uma pedra severa

que não procura, não erra, não espera,



ou então outra vida, outra vida

que não esta, de sal e laminas finas,



que não esta, de sal sobre as feridas?


Renata Pallottini




(De Os Arcos da Memória, 1971)

Dariusz Klimczak

Daddy, By: Dariusz Klimczak 

  http://photo.net/photos/Dariusz%20Klimczak



21.11.11

CÉU

Hossein Zare




Era preciso começar daí: céu.

Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais, porém muito bem aberta.
Não preciso aguardar a noite amena:
nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos
e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.
Nem as montanhas mais altas
Estão mais próximas do céu
que os vales mais profundos.
Não há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas do céu,
brisas de céu e montes.
O céu é onipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas na armadilha,
com o habitante instalado,
com o abraço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
não foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
no endereço mais exato,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.

Wislawa Szymborska


[In "Antologia de 63 poetas eslavos", trad. e org. Aleksandar Jovanovic, editora Hucitec, São Paulo, 1996]

"Days with My Father"





Após a morte do pai, o fotógrafo Phillip Toledano fez o ensaio Days with My Father.
O site com a série é lindo:http://www.dayswithmyfather.com/



Maria, 1909, by Helene Schjerfbeck




Slobodan Simic 

"Meditação é a observação participativa. O que você está olhando responde ao processo de olhar. O que você está olhando é você, e o que você vê depende de como você olha". Bhante Henepola Gunaratana

(via http://citacoesbuddhistas.blogspot.com/

20.11.11

Megson

245





Tive uma jóia nos meus dedos —
E adormeci —
Quente era o dia, tédio os ventos —
"É minha", eu disse —

Acordo — e os meus honestos dedos
(Foi-se a Gema) censuro —
Uma saudade de Ametista
É o que eu possuo —

Emily Dickinson

Tradução: Augusto de Campos

Lauren Evans

Lauren_Evans_Photo_83943



Céu

Light. Desconheço a autoria da foto.





Enfeitei meu corpo do céu

E o sol se pôs em meu umbigo



Pintas viraram estrelas

Cabelo, fios de horizonte

Saliva, chuva

Peitos, lua



Enfeitei meu corpo de céu

Para fugir dos meus perigos

E o diabo

Atento aos detalhes

Tomou meu corpo como seu abrigo


Mônica Montone

Insular

Mil milhas de treva
cercada de mágua
por todos os fados"

Paulo Leminski




Estátuas

estátua do Carlos Drummond de Andrade - Desconheço a autoria da foto




Luis Fernando Verissimo

O ESTADÃO - 20/11/11

Há uma estátua do Carlos Drummond de Andrade sentada num banco da praia de Copacabana, uma estátua do Fernando Pessoa sentada em frente ao café A Brasileira, em Lisboa, uma estátua do Mario Quintana sentada num banco da Praça da Alfândega de Porto Alegre. Salvo um cataclismo inimaginável, as três estatuas jamais se encontrarão. Mas, e se se encontrassem?

– Uma estátua é um equivoco em bronze – diria o Mario Quintana, para começar a conversa.

– Do que nos adianta sermos eternos, mas imóveis? – diria Drummond.

Pessoa faria “sim” com a cabeça, se pudesse mexê-la. E acrescentaria:

– Pior é ser este corpo duro sentado num lugar duro. Eu trocaria a eternidade por uma almofada.

– Pior são as câimbras – diria Drummond.

– Pior são os passarinhos – diria Quintana.

– Fizeram estátuas justamente do que menos interessa em nós: nossos corpos mortais.

– Justamente do nosso exterior. Do que escondia a poesia.

– Do que muitas vezes atrapalhava a poesia.

– Espera lá, espera lá (Drummond) Minha poesia também vinha do corpo. Minha cara de padre era um disfarce para a sensualidade. Minha poesia dependia do corpo e dos seus sentidos. E o sentido que mais me faz falta, aqui em bronze, é o do tato. Eu daria a eternidade para ter de volta a sensação na ponta dos meus dedos.

Pessoa:

– O corpo nunca ajudou minha poesia. Eu e meus heterônimos habitávamos o mesmo corpo, com a sua cara de professor de geografia, mas não nos envolvíamos com ele. Nossa poesia era à revelia dele. E fizeram a estátua do professor de geografia.

Quintana:

– Pra mim, o corpo não era nem inspiração nem receptáculo. Acho que já era a minha estátua, esperando para se livrar de mim.

– Pessoa – diria Drummond –, estamos há meia hora com você nesta mesa do Chiado, e você não nos ofereceu nem um cafezinho.

– Não posso – responderia Pessoa. – Não consigo chamar o garçom. Não consigo me mexer. Muito menos estalar os dedos.

– Nós também não...

– Não posso reagir quando sentam à minha volta para serem fotografados, ou retribuir quando me abraçam, ou espantar as crianças que me chutam, ou protestar quando um turista diz “Olha o Eça de Queiroz”...

– Em Copacabana é pior – diria Drummond. – Fico de costas para a praia, só ouvindo o ruído do mar e o tintilar das mulheres, sem poder me virar...

– Pior, pior mesmo – diria Quintana – é estar cheio de poemas ainda não escritos e não poder escrevê-los, nem em cima da perna.

Os três concordam: o pior é serem poetas eternos, monumentos de bronze à prova das agressões do tempo, fora poluição e vandalismo – e não poderem escrever nem sobre isto.

As estátuas de poetas são a sucata da poesia.

E ficariam os três, desolados e em silêncio, até um turista apontá-los para a mulher e dizer.

– O do meio eu não sei, mas os outros dois são o Carlos Gardel e o José Saramago.



Almádena

Fortaleza de Almádena - Claudio Nascimento





Vive assim como quiseras ter vivido quando morras
Antonio Vieira



Almádena, ensina-me a voltar.

Já varri todos os mortos,

Não há restos no chão.

Um quarto branco, uma cadeira,

O meu tempo é o presente,

Não tenho do que me queixar.

Está feito, celebrado.

Janelas e portas abertas,

Na mesa a fruta matutina,

O lírio, o copo d'água

Uma casa agradável,

Fosse isto uma casa.

Eu me traí, Almádena.

Agora chove,

E uma tal plenitude,

Império absolvido de história.

Quanta memória vencendo,

Cobrindo, cavando o rosto,

Quantos dias, quanto cinzel,

Quantas horas.

Está chovendo ainda.

Eu tenho um rosto sem marcas.

A lua do amarelo ao sono

E essa estátua que me olha.

Uma obra merecida, consumada

Eu desapareci, Almádena.

Nada cumpre dizer

Tanto quanto dizem esses olhos.

Eu vivo como quem ama,

Eu consinto,

É só o que me cabe.

Dar e repartir, fazer que não sei,

No bronze ser o animal que dorme.

Há uma única lâmpada,

Há um violino

E a mão que o desata.

O vento de quando em quando,

O terço quadrante e a pedra rolada.

Há uma chave que nada guarda.

A terra esplandece,
Consorte de quem parte.

Agora amanhece.

Eu me perdi, Almádena.

Não há rumor nas coisas,

Elas são o que são,

Não desejam explicar-se.

A porcelana, a cambraia, a murta

E a falta de uma asa.

Aqui não existe o medo,

Eu planto e eu desbasto.

As paredes ardem,

A erva recende,

O sol vem do leste,

Tudo em perfeita ordem.

Está pronto, terminado.

Um rasgo, um passo em falso,

Uma sombra,

Agora é tarde.

As cartas não chegam

Nem são enviadas.

A mesa está limpa.

Eu me esqueci, Almádena.

As cores, como elas vibram,

As auroras.

O verde das baixas altitudes,

O vermelho, o azul,

Como entornam.

Eu desço e me arrebento,

Eu despenco, sou forte.

A natureza é forte.

Quatro pilares me suportam.

O céu sobre todas as torres,

Todas as luzes, exceto uma.

As nuvens se cruzam,

Juntam-se e se afastam.

Há uma brisa lá fora.

O corpo está servido,

O corpo está saciado.

Agora anoitece.

Protege-me, Almádena.


Mariana Ianelli



Uma paisagem de 360°

Daniel Marenco Folhapress




Após 14 anos do pedido feito pela diretoria do antigo Banco do Estado de São Paulo, o edifício Altino Arantes, ou "prédio do Banespa", foi tombado em junho de 2011 pelo patrimônio histórico estadual.

Com 35 andares, era o mais alto da cidade em 1947, quando foi inaugurado no antigo centro financeiro como nova sede do banco que financiava os barões do café.

Sua arquitetura e porte, inspirados no edifício Empire State, de Nova York, representavam o orgulho da cidade pelo seu crescimento e modernização.

Com projeto de Plínio Botelho do Amaral, o edifício tem um pouco mais de 160 metros de altura e uma torre no seu topo, da qual de aprecia uma paisagem de 360 graus da cidade.
Em dias sem neblina e sem poluição, a vista alcança até 40 quilômetros de distância dos arredores de São Paulo.


O antigo cofre do banco, que fica no subsolo, também foi preservado.

Segundo o estudo de tombamento, os funcionários do banco chegaram a fazer um museu e a trabalhar na preservação do edifício, temendo reformas. A mais radical delas veio em 2000, quando o banco foi transferido ao governo federal, privatizado e vendido ao Santander.

O prédio já havia sido tombado pelo município em um tombamento coletivo na região do Vale do Anhangabaú, no centro, mas com proteção apenas da fachada e das proporções do edifício.

Via " Folha de São Paulo"



18.11.11

Instigante olhar

A Beleza veste branco (1)

Lauren Evans - Christmas Season 012







(À Zi, querida amiga)




Poezem Imazen

Isabela Andreia Sorescu



(excertos)

Na eternidade
o tempo não tem limites
ele se faz
pois não depende
de corda, ou passo
de outro.
Não se adapta
à forma
mas traz em si
todos os momentos.

*

Se nutre do vazio
e se desfaz do excesso.
O cheio que transborda
o vazio que tudo contém
e do qual tudo provém.

*

Falo, dobro o talo da flor
Salgueiro balanço do vento
Olho arregaçado da tarde
Pólen germina o sexo da flor.

*

Canto um canto triste
nada de mais existe
entre as solas dos pés
e os cabelos das nuvens.


Maria Renata Antunes

Dalai Lama in Brasil

Dalai Lama in Brasil - 02

Egoísmo sábio


"Cada um de nós é responsável por toda a humanidade. Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com seu bem-estar. Mesmo que você não possa se sacrificar inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício de toda a humanidade. Se você tentar dominar seus sentimentos egoístas e desenvolver mais bondade e compaixão, em última análise, você é quem irá sair beneficiado. É o que chamo de egoísmo sábio. Pessoas egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas sábios pensam nos outros, ajudam da melhor forma e também colhem os benefícios. Essa é minha simples religião. Não há necessidade de templos ou de filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso coração são nossos templos. A filosofia é a bondade".

Tenzin Gyatso, Sua Santidade o 14º Dalai Lama

Elegia


Marina Notrima




Há um vestígio mineral
na sua ausência: algo
que sem estar ainda
fica: fatia de cristal

que não se vê e brilha:
solidez em transparência
elegância de pedra, luz
do que é perda e não.

Há um vestígio musical
na sua ausência: algo
que é sigilo e ressonância:

sintonia de cristais
sílabas de sim no
silêncio do som e do aqui.

Maria Esther Maciel




Duke Ellington - THE STAR-CROSSED LOVERS [Outtake]

Céu de 17 de novembro

AlexKors


"Imagem de Júpiter e de suas 4 grandes luas (galilelianas) que obtive na estréia de meu telescópio ontem à noite". (AKV)



A taça da vida



Bebemos vendados da taça
da vida enquanto
lavamos seu ouro sem jaça
com nosso pranto.
A venda desfaz-se, porém,
antes da morte,
e o que nos seduziu tem
a mesma sorte,
Vazia, a taça então revela
seu nada insosso;
bebíamos sonho, que nela,
nem era nosso!
(Mikhail Liérmontov, tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher)

Arpad Szenes (1898-1985)

Buriti cristalino




Para Lamarca e os outros

Ele andou por três dia na caatinga.
No quarto dia ajoelhou de fome.
No quinto adormeceu ao pé da baraúna.
No sexto foi encontrado e metralhado pelos guardas.
E no sétimo descansou.

Renata Pallottini
(De Cantar meu Povo, 1980)

15.11.11

"Resolvi nadar até estar cansada demais para voltar. Enquanto avançava, eu sentia o coração batendo como um motor surdo nos meus ouvidos.
Eu sou eu sou eu sou."
- Sylvia Plath, no livro "A redoma de vidro".. [tradução de Chico Mattoso]. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.


Magical Greece


14.11.11

TWO DOGS DINING

Nick Drake - Day is Done

Poema dedicado a Antonio Porchia

amir aslani - TreKlens

Havemos amado juntos tantas coisas
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.

Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
órbita de simulacros que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.

Havemos andado tanto sem nos movermos
que as viagens se desprendem
como abrigos inúteis.
Movimento e quietude se hão desunido
como graus de duas temperaturas.

Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se dá volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.

Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.

O havemos buscado tudo.
O havemos falado tudo.
O havemos deixado tudo.

Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.


Roberto Juarroz

Tradução de Maria Teresa Almeida Pina



Oração ao Tempo



Composição de Caetano Veloso
Canta Maria Gadú

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...




Bill Evans-My Foolish Heart

Tilda Swinton

AD


Poema 55, quinta poesia vertical

Passion - Elena Jurshina





Um amor mais além do amor
Por cima do rito do vínculo
Mais além do jogo sinistro
Da solidão e a companhia
Um amor que não necessite regresso
Porém tampouco partida
Um amor não submetido
As chamas de ir e de voltar
De estar despertos ou dormidos
De chamar ou calar
Um amor para estar juntos
Ou para não está-lo
Porém também para todas as posições intermediárias
Um amor como abrir os olhos
E talvez também como fechá-los.

Roberto Juarroz

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)



Poema 55, quinta poesía vertical
Roberto Juarroz

Un amor más allá del amor
por encima del rito del vínculo,
más allá del juego siniestro
de la soledad y la compañía.
Un amor que no necesite regreso,
pero tampoco partida.
Un amor no sometido
a los fogonazos de ir y de volver,
de estar despiertos o dormidos,
de llamar o callar.
Un amor para estar juntos
o para no estarlo,
pero también para todas las posiciones intermedias.
Un amor como abrir los ojos.
Y quizás también como cerrarlos.