24.12.11

22.12.11

Bem-vindo, verão!

Um bolo para amolecer desejos

 A cozinheira Lourdes Hernández 



Quinta, 21 de Dezembro de 2011, 16h47
Lourdes Hernández/Especial para o 'Estado', suplemento 'paladar'

Sempre fui louca pelo Natal. Desde que tenho memória. O cheiro dos pinheiros, luzes, piñatas e enfeites. As cores cheias de promessas dos presentes se acumulando ao redor da árvore, assim como os numerosos cartões de Natal. Lareira, música e milhões de visitas. Nossa casa era uma festa.

Mas cresci e virei este animal sentimental, este bicho único que se esbarra duas vezes no mesmo Natal, na melancolia do encontro, insistindo em recuperar o tempo perdido, a infância ida. E me vi de repente, entre fantasmas e a doce família política, brigando pela fatia de peru e o monopólio do anedotário.

Agora, afastada dos meus, as festas viraram uma espécie de filme em preto e branco. Saturado, isso sim, de alegrias tristonhas, de despedidas no telefone, onde a gente continua falando e já não tem mais ninguém do outro lado da linha, e as mesmas velhas canções de amor perdido que sempre me deixam com a alma quase limpa.

Dezembro é bom para trazer histórias à toa. Porque as festas natalinas são esse filme improvável, impossível e inverossímil. Dá pra ser de novo aquela criança adorando a chegada das tias de Juárez. Ao lado da vó Esther, sempre cozinhando: “Quer café, filhota?”, ou “Fazemos pão?”

Mas o que eu ainda gosto mesmo, por que negar?, é do discurso na hora do brinde. A taça linda na altura dos olhos e a palavra como origem para decretar cores e estabelecer formas. Rápido, efêmero, doce, breve, o perfume e o anseio dum minuto (Shakespeare).

Embora a gente não espere demais de um brinde. São só desejos jogados no vento que viraram, sim, viagens frustradas, naufrágios calamitosos, festins que nunca chegaremos a celebrar; mas, no sentido amplo da palavra, são belos lugares-comuns.

E vejo sempre meu pai, sentado ao lado da lareira, cuba libre na mão, me explicando que só existe um bolo de frutas secas no mundo. Como? Pergunto meio irritada. Sim, ninguém gosta. Filha, ninguém. E todo mundo repassa para o vizinho, os cuidadosos até trocam o embrulho, mas é o mesmo bolo que vai pelo mundo inteiro rodando e ninguém come.

Ele me visita nessas datas: “Como você tá, Bebesa?” E somem as rugas que endurecem minha boca. E lembro que, já casada, comecei a fazer um bolo de frutas tropicais bem úmido, para amolecer nossa carga de desejos e sonhos. E meu pai experimenta o bolo e diz: “Se ainda fosse meu tempo de me apaixonar, meu coração teria quebrado em dois”.


Lourdes Hernández é cozinheira e abre sua casa para almoços

Receita - Bolo Tropical

Ingredientes
500g das seguintes frutas picadas e misturadas: goiabas cortadas ao meio sem sementes; papaia calada; figo calado; uva-passa; e ameixa seca
100g de castanha-do-pará
Raspas de 1 limão e de 1 laranja
Suco de 1 laranja
470g de manteiga
400g de açúcar
10 ovos
500g de farinha de trigo
2 colheres (sopa) de fermento
125g de rapadura derretida em água
225 ml de Porto
4 colheres (sopa) de mel ou mel de agave escuro

Preparo do bolo
Deixe as frutas de molho no suco de laranja por 8 horas. Bata a manteiga com o açúcar até virar um creme. Adicione as gemas, uma a uma, misturando. Em seguida, junte as claras batidas em neve bem firmes. Misture. Ponha as frutas com cuidado, a rapadura derretida, as castanhas, as raspas de laranja e limão, a farinha de trigo e o fermento. Bata com suavidade. Coloque a massa numa fôrma untada com manteiga e polvilhada com farinha. Asse em forno preaquecido a 200°C, por aproximadamente 2h30. Espere esfriar e desenforme. Regue com o Porto misturado com mel.

Preparo das frutas
Papaia calada: Limpe a fruta e corte em pedaços finos. Ponha numa panela de pressão com 500g de açúcar, 1 xícara de suco de maracujá e 2 colheres (sopa) de vinagre branco. Assim que pegar pressão, cozinhe por 10 minutos, tire do fogo e deixe esfriar.

Figo calado: Lave e raspe 1 kg de figos para tirar o amargor. Faça um corte em cruz na bundinha, sem tirar o cabinho, do outro lado. Cubra com água e suco de 1 limão. Numa panela, ferva água suficiente, mergulhe os figos e cozinhe até que fiquem macios, tire do fogo e escorra. Derreta uma rapadura e incorpore os figos até que fiquem bem ensopados. Cozinhe em fogo baixinho por 2 a 3 horas. Se necessário, acrescente água e rapadura.

Abacaxi calado: Cozinhe em fogo médio duas xícaras de abacaxi picado com 1 xícara de açúcar ou mel de agave. Retire do fogo quando estiver brilhante ou atingir o ponto desejado.

Casquinhas de goiaba: Limpe 3 dúzias de goiaba e corte as frutas ao meio. Com uma colher, tire a polpa do interior. Cubra as casquinhas com água e cozinhe até que fiquem macias e brilhantes.

Dica da Lourdes: Vale a pena preparar as frutas em grande quantidade e embalar a vácuo, para usar em outras sobremesas ou comer com queijo.



21.12.11

Migração - Boug Aitken


2008 migration 303 Walkthrough from Doug Aitken Workshop on Vimeo.
Doug Aitken





Enriqueta e Fellini, De Liniers

Escrita com água

parque em Pequim, na China, Andy Wong/AP



"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal."

Allan Grant, 1946



Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
Friedrich Nietzsche



La vida es sueño

¿Qué es la vida? Un frenesí.

¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.

Pedro Calderón de la Barca


©Eve Eden




20.12.11

 Tania Mouraud



Serão palavras

Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração

Diremos terra mar
ou madressilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.


Eugênio de Andrade, in "Mar de Setembro"


Fortaleza



O ano trouxe amor e o resto passa
coração embrulhado para presente
o poema como cavaleiro andante
a musa trança o verbo da janela

Sim, é fantasia e a vida vive disso
realidade para as mãos feridas
para o corpo exausto e a voz tardia
é sonho que encarna a epifania

O tempo enfim nos deu uma trégua
faça o balanço da água que te banha
desde o orvalho até a oculta rosa

Venha sentar-se à hora do mistério
e compartilhe essa visão grandiosa
sou fortaleza e tu o lago do castelo

Nei Duclós

     http://outubro.blogspot.com/

Olhar de artista

Photo by Robert Doisneau




Poemas de Katia Sebastiani




Vado a dormire
senz’altra pretesa
che zittire
quest’odore di canfora
notturno dell’anima.



Vou dormir
sem outra intenção
além de calar
este cheiro de cânfora
noturno da alma



Mani di mia nonna,
animali preistorici
stanchi.



Mãos da minha avó,
animais pré-históricos
cansados.



Ho attraversato
in linea retta il prato.
Eppure non esisto.



Atravessei
em linha reta o campo.
E no entanto não existo.

 Tradução: Júlio César Monteiro Martins


http://palavrarte.sites.uol.com.br/Poesia_Mundo_Trad/poepelomun_italia_ksebastiani1.htm 





Gulf Crossing




Glória Matutina






Acordar

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palác ios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também.

 Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)



Terra azul


O céu me chega
em forma de silêncio pelos ouvidos

azul pelos olhos

Em pesado calor
sobre meus ombros

A terra é multicor
embrulhada de azul

Ivens Scaff, poeta cuiabano




19.12.11

Ofício



Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.

Maria Esther Maciel


.

Lílian e Júlia Lemmertz - anos 80



Desconheço a autoria das fotos




O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos
que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no campo
declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não
sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.

Ana Cristina César

("A teus pés", 1982)
Jean Mohr,Genève,1981




Quando a gente gosta, a gente começa emprestando um livro, depois um casaco, um guarda-chuva, até que somos mais emprestados do que devolvidos.… Gostar é não devolver, é se endividar de lembranças.

Fabrício Carpinejar



Vai...


Deixe o tempo na varanda,
Faz seu dever de casa,
Não espere, a vida cansa.
Não se alcança nada.
Acredite na moça da esquina,
Que leu sua mão.
Enxuga os olhos na rotina azul
Esgarçada, improvisa um sorriso,
Desce as escadas,
Não repare nos detalhes,
Eles não dizem nada,
Lembra o cheiro das quaresmeiras,
E se conforta.
O destino tem surpresas...
Estão todas depois da porta.

Tonho França

Quem vai falar de Cabo Verde?

"Shakespeare através da boca do Bobo, aconselhava Lear a ficar sábio antes de ficar velho. Tento no meu dia a dia o reencontro com essa sabedoria. (...) e que seja para sempre, enquanto a vida durar".

Sérgio Britto, 1923-2011
in "Fábrica de Ilusão"


Quem vai falar de Cabo Verde?


(Estadão.com.br)
Segunda, 19 de Dezembro de 2011, 03h06
JULIO MARIA

Serena, pés livres, vestido solto, olhar tranquilo e uma voz que saía como se estivesse sempre embalando um filho nos braços. A gente olhava para Cesária Évora de longe e tinha a sensação de que palco e plateia não existiam. Ela estava logo ali ao lado, como mãe tranquila, sem querer mostrar força sendo, naturalmente, um colosso da natureza.

A serenidade de Cesária Évora foi o que a conduziu por seus 70 anos. Morna foi o gênero que a consagrou em sua terra, Cabo Verde, e o que a ajudou a lutar sem armas seja pela liberdade de seu país, conseguida de fato em 1975, seja pela própria liberdade. Terna em tudo que fazia, não viveu sempre em águas calmas. O álcool, consumido até durante os shows, quase acabou com sua carreira. Entre meados dos anos 70 e 80, ficou por quase dez anos fora de cena para se dedicar à família. Foram anos duros, de arrochos financeiros e pessoais, que ela chamava em entrevistas de 'época negra'.

O que a fazia cantar com sentimento? "Ah, os cigarros, é com eles que eu afino a voz", disse em entrevista ao Estado, em 2001.

Se quisesse, poderia ter partido de Cabo Verde desde que a elite artística passou a reverenciá-la - tardiamente, é fato. Mas Cesária, que veio ao mundo com quase 50 anos, preferia as terras quentes de sua ilha. E sobre sua insistência em ficar fincada ali, perto de dois filhos e dois netos, dizia: "É muito difícil. Temos o desemprego alto, a fome e a falta de chuvas. Mas temos o sol, o mar e as pessoas simpáticas. São coisas que fazem valer a pena viver aqui."

Em 2009, já com dificuldades físicas que a levariam logo a se despedir dos fãs em uma carta emocionada, Cesária deixou Nha Sentimento, um álbum definitivo de seus talentos, com canções que mais pareciam testamentos. "Trabalha, luta e canta / Rega a tua vida com o suor da tua alegria / A fatalidade acabará / E o teu dia virá, sim o teu dia …", dizia em Fatalidade.

Embora em volume baixo e tonalidades que deixavam sua voz confortável em regiões médias, Cesária disse muito de uma África lusófona que vai sentir sua falta. Até porque não há chances de surgir outra dessas filhas tão cedo.





Uma música da autoria de Goran Bregovic. Interpretada por Cesaria Evora. O tema entitula-se "Ausência". Faz parte da banda sonora do filme Underground, realizado por Emir Kusturica.

Letra:

Ausencia ausencia ...
Si asa um tivesse
Pa voa na esse distancia
Si um gazela um fosse
Pa corrê sem nem um cansera

Anton ja na bo seio
Um tava ba manchê
E nunca mas ausencia
Ta ser nôs lema

Ma sô na pensamento
Um ta viajà sem medo
Nha liberdade um tê ' l
E sô na nha sonho

Na nha sonho mi é forte
Um tem bô proteçäo
Um tem sô bô carinho
E bô sorriso

Ai solidäo tô ' me
Sima sol sozim na céu
Sô ta brilhà ma ta cegà
Na sê claräo
Sem sabe pa onde lumia
Pa ondê bai

Ai ...Solidäo é um sina ...

Ai solidäo tô ' me
Sima sol sozim na céu
Sô ta brilhà ma ta cegà
Na sê claräo
Sem sabe pa onde lumia
Pa ondê bai

Ma sô na pensamento
Um ta viajà sem medo
Nha liberdade um tê ' l
E sô na nha sonho

Na nha sonho mi é forte
Um tem bô proteçäo
Um tem sô bô carinho
E bô sorriso

Ai solidäo tô ' me
Sima sol sozim na céu
Sô ta brilhà ma ta cegà
Na sê claräo
Sem sabe pa onde lumia
Pa ondê bai

Ai ...Solidäo é um sina ...



Letra: Lyricsmode.com



15.12.11

Todd Webb

Children around Sprinkler - Harlem - 1946 by Todd Webb









Hoje não tem poesia




Mas tem café, bolachas
Pão com manteiga,
Uma receita de bolo
Que era de minha avó-
Hoje não tem poesia,
Sobre a mesa, geléia, torradas macias
Toalha de antigo bordado encontra
O passado sobre a cadeira vazia.

Tonho França



Woodflour




Manuseio



Tépidas
essas mãos
que divagam
devagar
por meus relevos
óbvios
e demoram
fundo
no obscuro
ponto
onde o corpo
se abisma
e silencia,
absurdo.

Maria Esther Maciel

Agora aprendo





Agora aprendo que não se deve regressar demasiado rápido
ao lugar onde se amou.
Olhe como estão as coisas
a toalha, o telefone, a porta
( a luz no entanto está acesa)
e sobre tudo esse vazio na almofada
esta forma de ti que não vai sumir
( assim parece ).


Se agora chovesse lá fora ( uma garoa ou uma
enxurrada, dá no mesmo e não vem ao caso )
então é melhor que me vire e adormeça
( se é possível ) ou que te chame mas isso pertence
ao livro de fábulas do mundo.

Victor Cásaus


tradução de Márcio Schiavo



Arco de névoa

Sam Dobson - Polo Norte



 Lissy Elle Calm Before the Storm



Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Clarice Lispector



14.12.11

Sabine Weiss

Pacto

Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.

Maria Esther Maciel

Poema secreto I

Que se distraiam teus pés
Em mil passeios.
E tuas mãos despenteiem águas
E tranças de heras.
Mas teus olhos,não.
Teus olhos estão
Sigilados em meus tesouros.

Flávia Savary

10.12.11

Lev Borodulin

Dangerous crossing, 1960, by  Lev Borodulin




(ah, meus 8 anos...)



Delicada textura

Design Milk









Kay Nielsen

Kay Nielsen, Illustrator (1886-1957)




eu estou tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão tão só que a intensidade diminui o carácter.
Roberta Silva Pinto





9.12.11

Ele

Cabelos escorridos
meio dourados
de uma gramatura muito fina
pendurados numa face
de marfim
a emoldurar aquele rosto
distante de minha mão que parou nas teclas
como que a sentir
aquele olhar

De fato
memória nunca me faltou

Eliana Mora


[17 de março de 2000] 





Alain Delon







The pilgrim

Foto da presidente Dilma Rousseff em interrogatório


Foto da presidente Dilma Rousseff em interrogatório na sede da Auditoria Militar do Rio de Janeiro, em 1970. Dilma tinha 22 anos e estava presa acusada de subversão contra o regime militar, uma ditadura. A foto integra o livro "A vida quer coragem", de Ricardo Amaral, que traz uma biografia da presidente. Mais - fonte:Uol





Andrej Glusgold

(Caroline Glusgold)









Agora


Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te –pai– da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
Os teus. Eu contigo em degredo.

Difícil tomar a face desse segredo cada vez mais longe
E partir e também ficar, embora encontrada a chave da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
– eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhando pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.

Dora Ferreira da Silva


Às vezes me pergunto


Às vezes me pergunto que espécie terna de animal
que aflição de pele envenenada alimenta
o pêndulo do dia, as horas calmas
habitualmente detidas;
que urgência como estrela se congela,
vai suavizando-se até que o sopro, levemente,
dilui-se em cinzas.
Penso em outras noites, que não são tristes lembrar,
em que tudo eras um tremor, um cântico de sangue,
um volteio apenas dos lençóis,
a crepitação, o calor, a densidade obscura e calma
de outro corpo;
penso sem nostalgia
e sinto que este cálido animal que sou nas raízes,
já sonhava novas formas precipitadas na febre;
simplesmente, eu, este breve esplendor da matéria
caía em sonhos, detinha-me, negava-me a fúria
e a lançar toda a aventura, extraordinária,
num labirinto de águas negras, de assombro,
de esquecimento, de penumbra talvez.
Mas – assim é – a triste fera,
sempre, do fundo,
ruge em meio ao deserto.

Roberto Branly


Tradução de Carlos Lima


Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, refletido.


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa



JASMINE ROY & PHILIPPE SAISSE : PARIS FAUBOURGS

Querida menina e moça Clarice Lispector



(desconheço a autoria das fotos)







10/12/1920, Tchechelnik, Ucrânia
9/12/1977, Rio de Janeiro (RJ)





canta Madeleine Peyroux