26.3.12

Trem da cores - Caetano Veloso



Trem das cores
Caetano Veloso

A franja da encosta
Cor de laranja
Capim rosa-chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar
O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa
Os átomos todos dançam
Madruga
Reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão
O oliva da nuvem chumbo ficando
Pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã
As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar
Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí
E aqui trem das cores
Sábios projetos
Tocar na Central
E o céu de um azul celeste
Celestial 



o ilustrador chileno Fabian Ciraolo

Dalai Lama






Blog da Nina Horta


 photo de Maria João Pavão Serra

 

 

BARULHOS E BARULHINHOS

PARA MIM é fácil reconstruir o mundo pelos cheiros; já pelos sons, tenho mais dificuldade. Estou com saudade de Paraty e me dei ao luxo de ficar lembrando do acordar sossegado, sem despertador, uma vassoura raspando a terra dura e a pedra do terraço. Como fundo, a cachoeira que não para nunca, o grito agudo de uns pássaros matutinos e uma cortina impenetrável de zumbido de insetos.
Mais longe, a lenha crepitando. Mais perto, o acendedor de gás, umas tampas de panela desmontando, o leite fervendo na panela.
A casa é de madeira, e os sons atravessam as frestas como as andorinhas das cornijas. Um cachorro se coça na porta da cozinha e sai guinchando com um grito abafado de alguém. As galinhas e os galos se lixam para os que dormem e põem a boca no mundo, anunciando o dia e o ovo.
A geladeira tem um zumbido peculiar, a torneira pinga e, de repente, o telefone toca, o coração dispara, deve ser o namorado da menina. É esse barulho de telefone que começa a nos preparar para os aviões que passam baixo e os helicópteros das férias.
O espremedor de laranja só pára de zoar quando acabam as laranjas e as mexericas. E então se escuta o capim sendo ceifado, uma ou outra conversa de cavalos e de burros, abelhas, grilos, cigarras.
A mesa de café está sendo posta, os passos descalços vão daqui para lá com as xícaras e os pires. Na televisão, em São Paulo, de vez em quando aparecem as vinhetas para surdos. Qualquer barulho difícil -e quase todos os barulhos são difíceis de traduzir- eles escrevem “borborinho” (sic). Complicado, para os surdos, carros que passam, pessoas que conversam, fuga do lugar do crime, seis mulheres conversando, é tudo “borborinho”.
Fico pensando se o sítio também não tem sons muito destacáveis, difíceis de serem separados uns dos outros, é só um burburinho que não atrapalha ninguém. Dá para entender a água fervendo que explica o café, a máquina de moer os grãos ajudando na interpretação. Somos a audiência, os atores, os compositores nesta sinfonia doméstica doce e ritmada que não tem fim.
Os sons da natureza são harmoniosos, a chuva, quando cai num escândalo, dá medo, mas não é feia de se escutar, tem lá sua dignidade. Mas uma música a toda altura dentro de um barco no mar muito calmo e azul dá tontura. Quem sabe deveria haver uma faculdade que nos ensinasse a arquitetar os sons de uma cidade?
E ainda vai ter mão de pilão socando alho, faca afiando na pedra, feijão sendo catado, o processador virando as torradas em farinha de rosca, o bife chiando na frigideira, a casca do ovo se quebrando na tigela, o ovo sendo batido, a torneira pingando, a taioba batida com o facão e a tábua da salsa e cebolinha soando desequilibrada sobre a pia.
A banana vai fritar na manteiga para a torta, a porta do forno quebrada vai bater com força, se Deus quiser vai ter nhoct, ploct de jabuticaba, coco verde cortado para beber a água, o estalar da mordida da maçã, a melancia pesada rolando pelo chão, o som certeiro do facão eliminando a coroa do abacaxi, o tchiiii do frango grudando na panela, a massa do pão sovado, a prateada escamação do peixe, o estalo da ostra, um sugar humano de perninha de siri, outro de chupar caroço de manga, a salsicha boa que estala ao ser mordida, o tloc-tsssss da lata de Coca.
A banana não faz barulho, descasca baixinho, mas o doce se arrebenta em bolhas. É bom, assim. Tem algumas religiões que procuram o silêncio e será que conseguem?
Podíamos falar menos, evitar aquela gritaria histérica de propaganda tipo Casas Bahia, sorteio de barra de ouro, os oops de Big Brothers desassuntados, mas, não sei não, le silence éternel de ces espaces infinis m’éffraie.

Saul Steinberg




As linhas e a fina ironia de Saul Steinberg voltam ao Brasil » Opinião e Notícia



Maria Eugênia




Maria Eugênia ilustrou mais de 50 livros para adultos e crianças.
Recebeu vários prêmios no Brasil e no exterior.
(Bologna Ragazzi Award em 2001. Em 2004 um de seus livros foi incluido no White Ravens Catalogue).
Participou de várias exposições  de Ilustração entre elas a da Society of
Illustrators NY annual em 2005 e 2006, Bologna´s Illustrators Exhibition
em 2004, e Bratislava Biennial of Illustrations em 1999, 2001 e 2005.
As ilustrações de Maria Eugênia podem ser vistas no Jornal Folha de São Paulo.



25.3.12

"Arquitetura conformista"




São Paulo ganha um novo perfil urbano

(O Estado de São Paulo - Adriana Ferraz e Rodrigo Brancatelli)

É um bocado difícil argumentar que São Paulo seja visualmente mais bela e mais ordenada do que Paris ou Viena, claro. Não que seja despeito com a maior metrópole do Hemisfério Sul, pelo contrário. A beleza de São Paulo sempre esteve no fato de ela ser uma cidade em constante construção, um organismo mutante, um local de absurdos 1.524 quilômetros quadrados onde o tecido urbano está sempre em transformação. São Paulo é viva, acima de tudo, e não pode ser comparada com lugares congelados como... Paris, por exemplo.
O problema é que mesmo esse argumento da beleza paulistana pode perder sua força. Com o boom imobiliário que lançou 13.501 prédios e 733 mil apartamentos nos últimos 15 anos, São Paulo está ficando com a mesma cara. A arquitetura dos edifícios hoje se padronizou, quase todos têm o mesmo visual - depois de ir da taipa de pilão ao concreto armado, passando pelas residências operárias, pelas casas modernistas e também pelos prédios com inspirações brutalistas, São Paulo não segue mais linha alguma de arquitetura.
Ou melhor, segue, sim: é o que os próprios profissionais chamam de "arquitetura conformista", uma ditadura dos prédios idênticos.
"O modelo dominante hoje é bastante conformista, ele reflete a preocupação constante das construtoras em agradar a maioria, assim como a rapidez com a qual as operações estão montadas por pressão financeira", diz o arquiteto Gui Sibaud, sócio do escritório Triptyque.
"Esse sistema exclui praticamente toda forma de experimentação. Resulta disso uma clonagem de modelos. Diria que o brasileiro pode até talvez se preocupar com arquitetura, quem não está são as construtoras. Creio que há muita demanda por prédios diferenciados por parte do público, mas poucas incorporadoras têm a coragem de produzi-los."
Um dos principais motivos é mesmo o financeiro. Hoje, as incorporadoras têm pequenos grupos de arquitetos em suas equipes, a maioria deles recém-formados que trabalham com modelos prontos de prédios. Os projetos são replicados em todas as regiões, sem uma preocupação com o restante da paisagem e com a demanda de cada bairro. Assim, as empresas conseguem economizar até 20% do orçamento da construção.
Além disso, para não errar em um lançamento imobiliário, as construtoras criaram um "gosto do paulistano", um prédio sem uma arquitetura clara, que serve mais como um símbolo de status para o comprador do que um exemplo de habitação perfeita que traga felicidade para os moradores.
O maior exemplo desse modelo é o apartamento com varanda gourmet - a sacada ampla, com churrasqueira e espaço para reunir a família e os amigos. Em São Paulo, seja qual for a região, pipocam prédios que priorizam a área externa e vendem o conceito gourmet como símbolo de conforto, qualidade de vida e status. É o novo padrão dos prédios paulistanos que atende ao modelo da classe média, mas ajuda a deixar os bairros com a mesma cara.


Hoje, na Lituânia, é o Dia da Cegonha





A cegonha-branca (gandras) é normalmente considerada a ave nacional da Lituânia. Lituanos acreditam que cegonhas trazem harmonia para as famílias em cuja propriedade se aninham; eles também mantiveram a tradição de dizer a seus filhos que cegonhas trazem os bebês.
 O dia da Cegonha é celebrado em 25 de Março com vários rituais antigos: presentes para crianças, atribuídos às cegonhas, tais como frutas, chocolates e lápis de cor. Ovos são tingidos e pendurados em galhos de árvores e cercas; cobras são capturadas, mortas e enterradas sob a porta; palhas são acesas.