18.5.12

Não ouço - Não vejo - Não falo

three-wise-monkeys - Found at widelec



 

Há flores de Zait no Jardim.




Há flores de Zait no Jardim.
Corto e junto flores para ti,
Faço-te uma grinalda,
E quando ficares ébrio
E te deitares com esse sono,
Sou eu quem te lava os pés para lhes tirar o pó.


in "Poemas de Amor do Antigo Egipto", tradução de Paulo da Costa Domingos





El tiempo pasa

http://www.youtube.com/watch?v=s88t6ggr8IY

Años - Pablo Milanés

El tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversacion, cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de razon.
Pasan los años y como cambia lo que yo siento
lo que ayer era amor, se va volviendo otro sentimiento.
Porque años atras tomar tu mano, robarte un beso
sin forzar un momento formaban parte de una verdad.

el tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversacion, cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de temor.
Vamos viviendo
viendo las horas
que van viviendo
las viejas discusiones
se van perdiendo
entre las razones
A todo dices que si
a nada digo que no
para poder construir esta tremenda armonia
que pone viejos los corazones

porque el tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversacion, cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de razon.


Ao som das águas




(rio Guaporé)


AO SOM DAS ÁGUAS



(
a Almir Sater, mesmo que ele não leia, eu o ouvi)



Qual é a língua que tu falas canoa

É a língua das águas

Ou simplesmente vais à-toa

De acordo com a maré.



Não és a língua das serpentes

És a língua das sementes

Do rio Guaporé.



E eu sou teu leme canoa

E eu fico à-toa

Remando contra a maré.



Canoa desce

Canoa vai.


Anand Rao


Escolhas - sabedoria zen

http://www.brunoaccioly.com.br/photolog/


- Mestre, como faço para me tornar um sábio?
- Boas escolhas.
- Mas como fazer boas escolhas?
- Experiência – diz o mestre.
- E como adquirir experiência, mestre?
- Más escolhas.










Flor dos trigais




"Flor dos trigais, só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Nos presépios da Espanha não se separa dos ramos de trigo. É um pequeno coração batendo".
Clarice Lispector
"Água viva"







Ditirambo




Oswald de Andrade

Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade



Neil Gaiman



Figuras




Stock vector of 'black cat sleep on night and moon with stars

 
Beatriz Amaral

princípio do sono:
lassidão de formas
me embriaga

fontes, monte, montanha
labaredas da semana

projeto de lua
sobre a retina
(imagens sem rima)

rios, amoras, ananás
camelos e serpentes

a fome de Netuno
pra um rito d´água

pérola exposta no vácuo







"Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende".

Leonardo da Vinci 





" A espécie de felicidade de que eu preciso não é tanto a de fazer o quero,
mas de não fazer o que não quero".
Jean-Jacques Rousseau

Marc Chagall

Como haveria eu de fazer por obrigação os gestos do coração?

 
 
Eu nada faço por obrigação:
o que outros fazem por obrigação
eu faço por um impulso de vida.
(Como haveria eu de fazer por obrigação
os gestos do coração?)
 
 
Que outros formulem questões,
eu não formulo nenhuma - eu formulo
questões irrespondíveis:
quem serão estes a quem vejo e toco?
Que há com eles?
Que há com esses semelhantes meus
que tão de perto me atraem
por suaves direções e faltas de direção?
 
 
Eu tenho de acompanhar
essas contínuas lições da terra, da água e do ar:
sinto que não tenho tempo a perder.
 
 
Walt Whitman - Folhas das Folhas da Relva (trecho)
Tradução: Geir Campos
 
 
 

um copo de água da fonte

“Se alguém encarar a si mesmo como uma cidade adormecida, por exemplo... O que acha? Poderia ficar quieto, escutando o avançar dos processos, cuidando de sua vida; volição, vontade, cognição, paixão, conação. Refiro-me aos milhões de patas de uma lacraia, carregando um corpo que não possui condição alguma de reclamar. É exaustivo tentar circunavegar esses imensos campos de experiência. Nós, escritores, nunca somos livres. Eu poderia explicar isso de forma mais clara se o dia estivesse amanhecendo. Quero ser musical em corpo e mente. Quero estilo, harmonia. Não esguichos mentais insignificantes, que mais parecem saídos de uma caixa registradora mental. É a doença desta era, não é? Explica as imensas ondas de ocultismo que nos cercam. Esses cabalistas, Balthazar. Ele nunca entenderá que é com Deus que devemos tomar mais cuidado; pois Ele apela com tanta força para o que há de mais baixo na natureza humana – nossa sensação de impotência, nosso medo do desconhecido, nossos fracassos pessoais; acima de tudo, ao nosso egoísmo monstruoso, que vê na coroa de espinhos do mártir um prêmio dificílimo de obter. A natureza genuína e sutil de Deus deveria prescindir de distinções: ser um copo de água da fonte, insípida, inodora, refrescante e nada mais. Quem sabe assim apelaria somente aos poucos, aos muito poucos, aos verdadeiros contemplativos?”
 
Quarteto de Alexandria. Justine. Lawrence Durrell.
 
(in  http://vozpoetica.blogspot.com.br/)

CHET BAKER - Almost Blue

Peço-te dálias


 Dhalia by Mark Goff


XVII

Se possível se fizer o merecê-las
Peço-te dálias, senhor, altas e austeras
Como convém a mim vivendo em estupor.
Dirás que me concedes a cássia ferrugínea
Araucária excelsa, mais sombra e mais altura
Como convém a mim, vivendo nas planuras,
Mas peço-te dálias. De frêmito contínuo
Calcinadas de vento, como convém a mim
Aturdida de amor e pensamento.
Verás. É dádiva melhor. E se possível
Uma de rubro cerne. De parca simetria.
Vendo-a, verei a mim mesma cada dia.

Hilda Hilst

"Trajetória poética do ser"



Rosario Di Bella-Cantando- EMI Italiana

Portami Via - Rosario Di Bella

Presentes da terra


"Manzanos de Éragny", de Camille Pissarro



(...) porque a terra é a mesma, sim, mas os presentes dela vão variando, uns são presentes passados, outros, presentes por vir, é simples, qualquer pessoa perceberá.

José Saramago - "caim"



De delicadezas me construo.

   Bottle and Flower - Mark Goff




XV

De delicadezas me construo. Trabalho umas rendas
 Uma casa de seda para uns olhos duros.
 Pudesse livrar-me da maior espiral 
 Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
 Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre 
O grande desconforto de ver além dos outros. 
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
 Perpetuamente.
 Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
 Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
 Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
 Para meus olhos duros.

Trajetória poétia do ser (I)
Hilda Hilst




"caim"

 Green Leaf blurry wallpaper




verde de todos os verdes
 (José Saramago)






16.5.12

Crônica de Luís Fernando Veríssimo

VERISSIMO - Lá vai um...



O sono não vem. Você já leu tudo que queria ler, e o sono não vem. Você já repassou tudo o que fez durante o dia e planejou tudo que fará no dia seguinte, e o sono não vem. E o dia seguinte ainda está longe.

Contar carneirinhos pulando a cerca, será que adianta mesmo? Coisa de americano. Mas lá vai um, lá vai dois, lá vai três... Ih, lá vem o um de volta. Organização, gente. Lá vai quatro. O cinco não conseguiu. O seis pulou em cima do cinco... Assim não vai dar. Você vai ficar ainda mais tenso.


Pensar em nada. Isso. Fechar os olhos e pensar em nada. Esvaziar o cérebro. Concentrar o pensamento num ponto no exato centro do seu cérebro, depois transportar esse ponto para o exato centro do Universo. Você não é mais você, você é o que existe em torno desse ponto luminoso no exato centro do Universo.


Você é o Universo! Se você abrir os olhos, o Universo vazará pelos seus olhos e inundará seu quarto, inundará sua vizinhança...


Suas pálpebras são só o que retém o Universo dentro do seu cérebro e o impedem de invadir... o Universo. Suas pálpebras são as únicas tênues defesas do Universo contra o caos. Não abra os olhos, não abra os olhos, não abra os... Você abre os olhos, em pânico. Quem pode dormir com tanta responsabilidade?


Quem sabe ler mais um pouco? Tanta coisa para ler... Na verdade, só quem tem insônia tem tempo para ler. É por isso que todo intelectual tem aquela cara de zonzo. Não é cultura, é sono. Intelectual não dorme. Não dorme porque é intelectual ou é intelectual porque não dorme e tem tempo para ler? Você não sabe. A sua insônia não tem qualquer proveito cultural. A sua insônia, além de tudo, é burra.


Você lembra que quando era criança achava que tinha um monstro embaixo da cama. Quando precisava fazer xixi durante a noite, dava um pulo da cama, pro monstro não pegar o seu pé. E na volta dava outro pulo pra cima da cama. O engraçado era que você nunca imaginava que o monstro fosse sair debaixo da cama e correr atrás de você.


Era um monstro terrível, comedor de pé de criança, mas era preguiçooooso... Você pensa: até que seria bom se houvesse mesmo um monstro embaixo da sua cama. Pelo menos alguém para conversar. Trocar reminiscências da infância... Lembra os pulos que eu dava para cair na cama sem você me pegar? Vocês dariam boas risadas.


Nem precisava ser um monstro. O ideal seria ter um psicanalista embaixo da cama. Além de alguém para conversar, alguém para curar a sua insônia. Quem sabe contar psicanalistas pulando a cerca? Lá vai um, lá vai dois, lá vai três... Ei, você, o quarto: não é para analisar o simbolismo da cerca, é para pular! Deve ser um freudiano ortodoxo. Lá vai quatro, lá vai cinco...


Você começa a enumerar todas as mulheres que teve na sua cama de adolescente. Artistas de cinema, vizinhas, primas... Sua imaginação as colocava ao seu lado na cama e vocês se amavam loucamente. E o melhor: depois do amor, depois de saciado – você dormia! Como você dormia antigamente. Que fim levara aquele sono todo?


Cérebro vazio. Pensar em nada. Esperar o amanhecer. Esperar o bendito dia seguinte. E o dia seguinte parece ficar cada vez mais longe.


Estadão

06/05/2012



Extrair

EXTRAIR
 
ex
trair
do tempo improvável, do improvável,
de suas maquinações, ações,
do ato regular que se dissipa em método, todo
hábito que habito, repito,
da meta inalcançável que me fita, cripta
do incontável número dos dias vividos, idos,
da inumerável cota dos dias por vir, ir,
da engrenagem que não pára, dispara,
sacode o chão que piso, piso
de um ônibus em movimento, momento
em que me agarro ao cilindro de metal do alto
-
a vida
-
não a que resta ainda, indo,
mas a que transborda de cada ar expirado, inspirado,
até que arrebente, vente.


ARNALDO ANTUNES