26.6.12

Mordillo







Jorge, o Solitário

 

 

Morte de tartaruga-gigante centenária põe fim a espécie


A morte de uma tartaruga-gigante e centenária, que se acredita ser a última de sua espécie, põe um fim a um símbolo da luta pela conservação dos animais ameaçados de extinção. Chamado de Jorge Solitário (Lonesome George, em inglês), o macho da espécie Geochelone abigdoni foi descoberto há cerca de 30 anos na Ilha Pinta do Arquipélago de Galápagos, o animal morreu anteontem, aparentemente de uma parada cardíaca. A causa da morte será anunciada após a necropsia, afirmou Washington Tapia, um biólogo do Parque Nacional Galápagos.
"Ele estava em bom estado de saúde. Na sexta-feira, comeu normalmente", lamentou o biólogo, que conheceu a tartaruga quando era criança e cuidou dela por 20 anos.
"Foi um animal especial, de comportamento complexo. Quando Fausto Llerena (o cuidador) chegava, ele se aproximava, como se viesse cumprimentá-lo. Nunca aceitou outro macho em seu local", lembrou Tapia.
Estima-se que Jorge, que vivia em um centro de criação de tartarugas na Ilha Santa Cruz, tinha mais de 100 anos - os biólogos creem que uma tartaruga-gigante pode viver até 180 anos. "Só poderemos saber quanto elas vivem quando morrerem as primeiras tartarugas que nasceram em cativeiro, em 1970", disse Tapia.
Com a morte de Jorge, extingue-se de vez a espécie Geochelone abigdoni, que já estava biologicamente extinta porque não haviam mais fêmeas para reproduzir. "É a extinção total de uma espécie a mais no planeta e uma mensagem aos seres humanos de que não ser responsáveis pelas nossas ações podem levar a consequências fatais." / AF

(
26/06/2012 03:03, estadao.com.br)


Daniel Buren



http://rivegaucheparis.blogspot.com.br/2012/05/monumenta-2012-daniel-buren-no-grand.html






"Swan"



Bailarinos dançam com aves em "Swan"

Por AMY SERAFIN


ARCHIGNY, França - O velho celeiro tinha cortinas pretas nas paredes e um balde de ração em um canto. No chão, uma bailarina estava sentada entre dois cisnes. Quando ela levantou as mãos, eles estenderam os pescoços em uma imagem espelhada. De repente, uma das aves a bicou. "Ai! Pollux! Minha orelha não!", disse a bailarina.
"Swan" [Cisne], que foi apresentado este mês no Teatro Nacional de Chaillot, em Paris, pelo coreógrafo francês Luc Petton e sua companhia, Le Guetteur, não é apenas mais uma versão de "O Lago dos Cisnes". É sobretudo um balé original que reúne seres humanos e cisnes.
Petton, 55, atribui seu fascínio pelas aves à sua infância no litoral da Bretanha. "Eles transmitiam a poesia da vida, a despreocupação", disse. "Para mim, a bailarina é prima da ave."
Oito anos atrás, ele usou um processo desenvolvido nos anos 1950 pelo etologista austríaco Konrad Lorenz para estabelecer o relacionamento entre pessoas e aves. "Quando incubamos artificialmente ovos, os filhotes ficam ligados à primeira pessoa com quem tiverem contato", explicou Michel Saint Jalme, diretor do zoológico do Jardin des Plantes em Paris.
Em 2005, Petton apresentou "A Confiança dos Pássaros", em que gralhas e estorninhos interagiam com os bailarinos. As aves tinham liberdade para ir aonde quisessem no palco e constantemente voltavam para seus parceiros humanos.
Depois, ele aplicou seu método em cisnes, um dos símbolos mais duradouros da dança. Ele obteve ovos em zoológicos e depois transportou os filhotes para uma fazenda.
Em 2010, seis bailarinas profissionais se revezaram durante semanas com as aves. Elas conversavam com os cisnes, os alimentavam e passeavam com eles, enquanto os pássaros beliscavam suas orelhas e narizes e montavam em suas costas, deixando-as com arranhões.
Uma bailarina, Katia Petrowick, disse: "Nós queríamos que eles se acostumassem com nossos corpos desde o início, para que pudessem dançar conosco e não se assustassem quando levantássemos uma perna."
Petton construiu seu espetáculo a partir das imagens que viu. O trabalho final combina coreografia e improvisação.
Marie-Agnès Gillot, uma das primeiras bailarinas do Balé da Ópera de Paris que dançou Odile-Odette em "O Lago dos Cisnes", visitava frequentemente a fazenda e dançava com os animais. "É como uma parceria com grandes artistas", diz, "onde com uma simples respiração você sabe o que o outro vai fazer." Ela percebeu na sua experiência que o gesto clássico de braços no balé para o bater de asas é para trás. Hoje, quando ela se apresenta, move os braços de trás para a frente.
No "Swan" de Petton, ao contrário do de Tchaikovsky, cisnes negros aparecem na primeira metade do espetáculo em um rio cênico que deve representar o Styx. Entre eles, uma bailarina passa flutuando como um cadáver. Cisnes brancos aparecem na segunda metade caminhando desajeitados com seus pés em forma de espátula. A partitura original é improvisada para combinar com a ação.
Dominique Hervieu, que convidou a companhia de Petton para se apresentar no Teatro de Chaillot, ficou surpresa com a originalidade do que viu. "Essas imagens nos levam ao reino do surrealismo, da hibridização, a algo quase medieval", disse.
Além dos típicos desafios de uma nova produção, dois pássaros morreram de causas naturais. Dois machos tornaram-se agressivos e tiveram de ser aposentados. Nos bastidores, os cisnes negros e os brancos devem ser mantidos separados para não brigarem.
Petton já planeja seu próximo trabalho, com morcegos. 


via "Folha de São Paulo" - The New York Times - São Paulo, segunda-feira, 25 de junho de 2012



Léon Ferrari


MoMA: 'tangled alphabets' león ferrari and mira schendel

 

 

 

 

 

 

 

Os cinco cegos e o elefante


Todos conhecem a história dos cinco cegos e do elefante. Cada cego apalpa uma parte do elefante e identifica um animal diferente. E se os cinco cegos fossem Homero, Jorge Luis Borges, Ray Charles, Mr. Magoo e James Joyce, que não era totalmente cego mas enxergava pouco? Cada um apalpando uma parte do elefante.
Homero: “Não sei que bicho é, mas cabem muitos gregos nesta barriga...”
Joyce: “É um animalegórico buce-fálico simbioselizando a androginergia da raçumanancial primEva, e estas bolas são decididamente irlandesas.”
Borges: “Este deve ser um dos oitenta e sete troncos que sustentam o Palácio dos Pavões em Samarkand, onde está a biblioteca circular do príncipe Rham’apu, onde há um único códice, que contém a única imagem conhecida do Palácio dos Pavões em Samarkand, onde está a biblioteca circular do príncipe Rham’apu, onde há um único códice que contém a única imagem conhecida do Palácio dos Pavões em Samarkand, onde está a biblioteca circular do príncipe Rham’apu, onde há um único códice que contém... estranho, a imagem de um elefante!”
Mr. Magoo (que entrou na boca do elefante pensando que era o banheiro): “Help!”
Ray Charles (acariciando a cauda peluda do elefante): “Georgia!”
MEU BUNKER
Uma vez um repórter foi me entrevistar em casa e depois escreveu que eu trabalhava num bunker sem janelas. Como o lugar em que eu trabalho tem duas boas janelas dando para um pátio e seus sabiás, concluí que ou a) ele já estava com a ideia do bunker pronta e as janelas não foram convincentes o bastante para mudá-la, b) ele não viu as janelas, c) não se pode confiar em jornalistas.
Ou então a impressão de que se trata mesmo de uma toca forrada de livros é tão forte que ele tinha razão: mesmo com janelas, é um bunker sem janelas. Pilhas de livros cobrem mesas e chão, e o dia prometido em que serão colocados nas estantes junto com os outros nunca chega. A Lúcia já desconfia de que seja um dia mítico, que talvez coincida com o fim dos tempos.
Mas os livros que estão nas estantes têm uma certa organização. A flâmula do Internacional que pende de uma das prateleiras está presa, não me pergunte por quê, pelos livros da Clarice Lispector, que pelo menos estão todos juntos.
No bunker também tenho meu som, meus discos de vinil, que passam o tempo todo murmurando “Nunca mais”, e os compactos. É lá também que tenho o meu escarrapachão, ou a cadeirona onde, como o nome está dizendo, me escarrapacho, para ler e ouvir música. E nunca para dormir escondido no meio do dia, apesar de calúnias em contrário.
Luís Fernando Veríssimo


http://mestrelfverissimo.blogspot.com.br/




 

você pode
com palavras prender
um everest de nãos
e saber que a vida
é uma cordilheira de vãos


Marilia Kubota


Eric Courcier Accompagnateur en montagne-Photographe 

Samico

SAMICO. "O barco do destino e as 3 garcas do rio", xilogravura, 40 x 50. Datada 1965. 





5.6.12

john stump - death waltz

Le chat noir




Fotos de Temis Nicolaidis




Ecossistemas prosperam no teto da Amazônia


04/06/2012

Fonte: FSP, The New York Times, p. 5



Ecossistemas prosperam no teto da Amazônia

Por CARL ZIMMER


No extremo norte da Amazônia, erguem-se algumas das mais notáveis montanhas da Terra. Conhecidas como tepuis, um tipo de meseta, elas geralmente estão rodeadas por paredões de pedra que se erguem a milhares de metros acima das planícies florestais dos arredores. Em vez de picos, os tepuis têm enormes áreas planas nos seus topos. Eles são como ilhas no céu, cobertos por florestas baixas e arbustos que abrigam uma diversidade de animais como sapos e lagartos.

Em artigo a ser publicado na revista "Evolution", uma equipe de cientistas relata o primeiro estudo de DNA que trata de uma antiquíssima pergunta acerca dos tepuis: como os animais e plantas que lá vivem foram parar em um local tão inacessível? Os pesquisadores se concentraram em minúsculas pererecas que vivem exclusivamente no alto dos tepuis. Eles chegaram a uma conclusão surpreendente: nos últimos milhões de anos, os sapos escalaram os colossais penhascos dos tepuis.
"Viamos esses paredões como impossíveis de serem escalados", disse a bióloga evolutiva Patricia Salerno, da Universidade do Texas, autora principal do estudo. "Mas para esses sapos é possível chegar lá em cima."
Os tepuis devem muito de sua fama ao romance "O Mundo Perdido" (1912), em que Arthur Conan Doyle se baseou nos relatos de exploradores para imaginar um ecossistema isolado no topo de um tepui, onde dinossauros e pterossauros ainda viviam.
Os tepuis são diferentes dos Andes, não muito distantes, que se formaram como tantas cordilheiras, pela colisão de duas placas continentais há 25 milhões de anos, empurrando camadas de rochas para cima. Os tepuis são muito mais velhos. As camadas mais altas se formaram pelo depósito de areia no fundo de oceanos há mais de 2 bilhões de anos. O arenito mais tarde subiu e virou terra seca. Começou a sofrer erosão e a se fragmentar há cerca de 300 milhões de anos, e há uns 70 milhões os tepuis se ergueram acima da planície.
Ainda mais intrigante do que o longo isolamento dos tepuis é o fato de que muitas espécies que habitam seu topo não são encontradas em nenhum outro lugar. Para muitos biólogos, a única explicação para isso é que os ancestrais desses animais e vegetais viviam há mais de 70 milhões de anos sobre os tepuis.
Salerno escolheu estudar as pererecas porque elas se deslocam muito pouco ao longo da vida, e 90% das espécies de sapos que vivem sobre os tepuis não existem em nenhum outro lugar. Os pesquisadores compararam o DNA de quatro espécies muito próximas de pererecas, cada uma encontrada em um tepui diferente. Eles também analisaram o DNA dos seus parentes mais próximos nas planícies. Se a espécie estivesse no seu tepui desde a formação deste seu ancestral comum deveria ter pelo menos 70 milhões de anos.
Mas a pesquisa revelou que o ancestral comum das quatro pererecas dos tepuis viveu há cerca de 5,3 milhões de anos. Algumas espécies divergiram há apenas algumas centenas de milênios.
Roy McDiarmid, herpetólogo do Instituto Smithsonian, em Washington, acha que só há poucos milhões de anos as pererecas tenham escalado os tepuis.
No entanto, os estudos de McDiarmid com sapos sugerem que eles vivem sobre os tepuis há 70 milhões de anos. "É preciso mais análises do DNA", disse.

FSP, 04/06/2012, The New York Times, p. 5


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/46677-ecossistemas-prosperam-no-teto-da-amazonia.shtml



 

Delírio, Laura Restrepo



É possível manter-se são num lugar insano? Delírio é uma resposta atualizada a essa questão, que já ocupou e preocupou autores como Sófocles em Édipo Rei, Shakespeare em Hamlet, Kafka em O processo, Sartre em A náusea.
Um homem volta de uma curta viagem de negócios e encontra a mulher fora de casa e longe de seu juízo perfeito. Sem saber o que aconteceu durante sua ausência e na tentativa de tirá-la da crise, ele começa uma investigação que revelará a vida privilegiada, mas problemática, da mulher, imbricando várias histórias, como a de um antigo amante envolvido com o megatraficante Pablo Escobar, a de um avô alemão marcado pela tragédia e a de uma infância vivida entre a riqueza, o poder e a dor.
Vencedor do prêmio Alfaguara de melhor romance, Delírio é multifacetado. E uma de suas faces é a dura realidade atual da Colômbia, que vive uma das mais complexas situações do mundo contemporâneo.

"Um dos melhores romances na memória recente." -
José Saramago


Dia Mundial do Meio Ambiente/5 de junho

cartum de Bruno Ortiz








Meu inferno mais íntimo

  Dhalia by Mark Goff

 

 

Luiz Felipe Pondé


Enfrentar-se a si mesmo e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão




Um jovem rabino, angustiado com o destino da sua alma, conversava com seu mestre, mais velho e mais sábio, em algum lugar do Leste Europeu entre os séculos 18 e 19.


Pergunta o mais jovem: "O senhor não teme que quando morrer será indagado por Deus do porquê de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias? Eu sempre temo esse dia".


O mestre teria respondido algo assim: "Quando eu morrer e estiver na presença de Deus, não temo

que Ele me pergunte pela razão de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias, temo que Ele me pergunte pela razão de eu não ter conseguido ser eu mesmo".

Trata-se de um dos milhares de contos hassídicos, contos esses que compõem a sabedoria do hassidismo, cultura mística judaica que nasce, "oficialmente", com o Rabi Baal Shem Tov, que teria nascido por volta de 1700 na Polônia.


A palavra "hassidismo" é muito próxima do conceito de "Hesed", piedade ou misericórdia, que descreve um dos traços do Altíssimo, Adonai ("Senhor", termo usado para se referir a Deus no judaísmo), o Deus israelita (que, aliás, é o mesmo que "encarnou" em Jesus, para os cristãos).


Hassídicos eram conhecidos como "bêbados de Deus", enlouquecidos pela piedade divina (e pela vodca que bebiam em grandes quantidades para brindar a vida...) que escorre dos céus para aqueles que a veem.


São muitas as angústias de quem acredita haver um encontro com Deus após a morte. Mas ninguém precisa acreditar em Deus ou num encontro como esse para entender a força de uma narrativa como esta: o primeiro encontro, em nossa vida, que pode vir a ser terrível, é consigo mesmo. Claro que se Deus existe, isso assume dimensões abissais.


Para além do fato óbvio de que o conto fala do medo de não estarmos à altura da vontade de Deus, ele também fala do medo de não sermos seres morais e justos, como Moisés e Elias, exemplos de dois grandes "heróis" da Bíblia hebraica. Ser como Moisés e Elias significa termos um parâmetro moral exterior a nós mesmos que serviria como "régua".


A resposta do sábio ancião ao jovem muda o eixo da indagação: Deus não está preocupado se você consegue seguir parâmetros morais exteriores, Deus está preocupado se você consegue ser você mesmo.

Não se trata de pensar em bobagens do tipo "Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo" como pensaria o "modo brega autoestima de ser", essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser
você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso "eu" ou nossa "alma" é nosso maior desafio.

Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão. Ninguém pode fazer isso por você, é mais fácil copiar modelos heroicos, por isso o sábio diz que Deus não quer cópias de Moisés e Elias, mas pessoas que O enfrentem cara a cara sendo quem são.


Podemos imaginar Deus perguntando a você se teve coragem de ser você mesmo nos piores momentos em que ser você mesmo seria aterrorizante. Aí está o cerne da "moral da história" neste conto.


Noutro conto, um justo que morre, chegando ao céu, ouve ruídos horrorosos vindo de uma sala fechada. Perguntando a Deus de onde vem aquele som ensurdecedor, Deus diz a ele que vá em frente e abra a porta do lugar de onde vem a gritaria. Pergunta o justo a Deus que lugar seria aquele. Deus responde: "O inferno". Ao abrir a porta, o justo ouve o que aqueles infelizes gritavam: "Eu, eu, eu...".


Ao contrário do que dizia o velho Sartre, o inferno não são os outros, mas sim nós mesmos. Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem chamada autoestima, ocupada em fazer todo mundo se achar lindo e maravilhoso, a tendência do inferno é ficar superlotado, cheio de mentirosos praticantes do "marketing do eu".


Casas, escritórios, academias de ginásticas, igrejas, salas de aula, todos tomados pelo ruído ensurdecedor do inferno que habita cada um de nós. O escritor católico George Bernanos (século 20) dizia que o maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada.


ponde.folha@uol.com.br
Folha de S.Paulo 04/06/2012 



Eric Clapton - I Ain't Gonna Stand For It (Video)

Eric Clapton

cartum de Marcos Müller







Escrever não dói

 ilustração de Maurits Cornelis Escher



Matéria publicada na Folha de São Paulo, 29 de maio de 2012.


Escrever não dói

A escrita digital não substitui a manual; as duas formas são importantes para o exercício da cidadania

ROSELY SAYÃO


Uma professora de segundo ano que trabalha com alfabetização me contou que, na sala em que ela dá aulas, há alguns alunos que não querem, de maneira alguma, escrever.
Eles dizem que dá muito trabalho, que cansa as mãos etc. Eles dão todo tipo de justificativa para evitar o exercício da escrita. E não se trata de crianças que ainda não alcançaram o domínio da leitura. Apesar de não serem leitores fluentes, eles já conseguem ler e entender o sentido do que leem. E gostam de ler. Mas escrever....
A professora, corajosa e batalhadora, não desiste: cria todo o tipo de estratégia para fazer com que esse grupo de alunos enfrente o trabalho da escrita. Frente à insistência da professora, um aluno a desafiou.
Crianças dessa idade são sagazes, criativas, audazes e absolutamente antenadas com o contexto do mundo atual, principalmente o tecnológico, que usam com intimidade. O garoto, usando a linguagem própria de crianças, disse que aprender a escrever era um trabalho desnecessário, porque ao apertar a tecla do computador ou ao tocar a tela do tablet ele escrevia do mesmo jeito e isso não fazia a mão doer.
"Professora, se eu só vou escrever em computador e em tablet, por que tenho que aprender a fazer essas letras desenhadas?". E você pensa, caro leitor, que o menino parou aí? Não! Ele prosseguiu. "E no computador tem corretor de palavras, então eu nem preciso escrever tudo certinho porque ele corrige quando eu escrevo errado."
Foram essas perguntas do aluno que fizeram a professora me procurar. Ela está em busca de argumentos para convencer os alunos da importância da escrita. O problema é que ela não tem uma boa resposta.
Isso me lembrou uma informação que foi notícia no ano passado e que rendeu muitas análises e discussões, pelo menos no meio acadêmico. Nos Estados Unidos, alguns estados já aboliram a obrigatoriedade do ensino da letra cursiva no ensino fundamental. E tudo indica que o próximo passo será banir de vez a prática.
A escrita é um meio de comunicação. Por meio dela expressamos nossos pensamentos e nos comunicamos com eles. Esse é um tipo de linguagem que coloca as pessoas em contato umas com as outras: pode ser um recado, a manifestação de um sentimento, pode ser muita coisa.
Mas, se a escrita pode ser digital, por que é importante a escrita à mão? Em primeiro lugar, porque a substituição de uma pela outra empobrece o mundo e a variedade das linguagens. Se podemos ter os dois tipos, porque vamos escolher ficar apenas com um deles? A existência da arte digital, um tipo de linguagem, não nos faz pensar na substituição dos quadros, não é verdade? Ficamos com as duas formas de expressão.
Em segundo lugar, porque a escrita digital restringe sobremaneira as possibilidades de comunicação com as pessoas. Quantas delas há no mundo, em nosso país, em nossa cidade, em nosso grupo de convivência, que não têm acesso a essa tecnologia?
A linguagem escrita e seu aprendizado são partes integrantes e importantes do exercício da cidadania. Não se trata apenas, portanto, da aprendizagem de um código. É bem mais do que isso.
Nossos novos alunos terão menos dificuldades para se esforçar na aprendizagem da escrita se perceberem que nós temos convicção da importância desse tipo de comunicação.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)