24.11.12

Day



Isto era tudo o que a gente via pela frente. Mais ou menos trinta quilômetros durante o dia e a madrugada. Depois que chegamos na Lagoa da Albufeira, resolvemos voltar. Nos perdemos. Vou contar o que não aparece no vídeo:
A noite não tinha lua. Algumas poucas estrelas (tímidas talvez). A gente pisava na areia e as pegadas brilhavam... como se a gente tivesse pisando em purpurina. As ondas também brilham a noite. Eu nunca soube... Um azul indescritível, que brilha antes de quebrar na areia.
Descobri que ar puro tem cheiro de mar.
Nos deitamos. Fez muito frio. Choveu. Nos molhamos. O Rafa fez piada disto também. Eram duas da manhã. Eu tive uma crise de riso... incontida. Quase fiz xixi na roupa de tanto rir. As cinco da manhã vimos a lua. As sete voltamos para a cidade. Fomos seguidos e quase atacados por duas gangues de cachorros valentes. As nossas pernas não obedeciam. Nem dava pra correr. Vimos o sol nascer enquanto caminhávamos pelo trilho. Alguns pássaros fizeram sinfonia. Chegamos na cidade e tomamos o melhor café dos últimos anos. Eu ainda não dormi. Eu não quero. Tenho medo que tenha sido apenas mais um sonho.
Eu não quero esquecer.
Day Manzoni




Telha de Vidro



Anna Berezovskaya - Rússia 




Telha de Vidro
Quando a moça da cidade chegou,
veio morar na fazenda
na casa velha...
tão velha...
quem fez aquela casa foi seu bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha..a.
A moça não disse nada;
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro,
queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora
o quarto onde ela mora
e o quarto mais alegre da fazenda.
Tão clara que, ao meio-dia, aparece uma renda
de arabescos de sol nos ladrilhos vermelhos
que, apesar de tão velhos,
só agora conhecem a luz do dia...

A lua branca e fria
também se mete às vezes pelo claro
da telha milagrosa...
ou alguma estrelinha audaciosa
carateia no espelho onde a moça se penteia...
Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida?
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

- Rachel de Queiroz, in "Mandacaru".





Poetry of horror, by Erik Sven






Picasso by Gjon





Te olho nos olhos

Te olho nos olhos 
Ana Carolina


Te olho nos olhos e você reclama 

Que te olho muito profundamente 

Desculpa, 
Tudo que vivi foi profundamente 
Eu te ensinei quem sou 
E você foi me tirando 
Os espaços entre os abraços, 
Guarda-me apenas uma fresta 

Eu que sempre fui livre, 
Não importava o que os outros dissessem. 

Até onde posso ir para te resgatar? 

Reclama de mim, como se houvesse a possibilidade 
De me inventar de novo 

Desculpa se te olho profundamente, rente à pele 
A ponto de ver seus ancestrais 
Nos seus traços 

A ponto de ver a estrada muito antes dos seus passos 

Eu não vou separar as minhas vitórias 
Dos meus fracassos 

Eu não vou renunciar a mim 

Nenhuma parte, nenhum pedaço do meu ser 
Vibrante, errante, sujo, livre, quente 

Eu quero estar viva e permanecer 
Te olhando profundamente.







A harmonia

By Jean-Baptiste Mondino



"Eu não gosto de falar de felicidade, mas sim de harmonia: viver em harmonia com a nossa própria consciência, com o nosso meio envolvente, com a pessoa de quem se gosta, com os amigos. A harmonia é compatível com a indignação e a luta; a felicidade não, a felicidade é egoísta."

- José Saramago, in 'La Jornada' (1998).





Não digam que isso passa


Ana Lorencin 





Não digam que isso passa

Não digam que isso passa,
não digam que a vida continua,
e que o tempo ajuda,
que afinal tenho filhos e amigos
e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo
Mas morreu bem ( que não quereria uma morte como essa?)

Não me digam que tenho livros a escrever
e viagens a realizar.
Não digam nada.

Vejo bem que o sol continua nascendo
nesta cidade de Porto Alegre
onde vim lamber minha ferida escancarada.

Mas não me consolem:
da minha dor, sei eu.

Lya Luft




22.11.12

Calla lilies - Robert Mapplethorpe


"Calla lilies" - by Robert Mapplethorpe




Constantin Brancusi


Constantin Brancusi




Bluebird Charles Bukowski (LEGENDADO)

O vestido

Alexandra Eldridge - USA



O vestido 

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
 
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo , volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado
 
(1935)







Itamar Assumpção - Dor elegante.

Dor Elegante

Dor Elegante
(Itamar Assumpção e Paulo Leminski)


Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Andasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra




Fats Waller - Oh! Baby sweet baby




Silent corner in Bab el Shams - Csaba Lanyi

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.
- José Saramago in “Ensaio sobre a Cegueira”




A adiada enchente




Shadow Art by the Japanese artist Kumi Yamashita






A adiada enchente 

Velho, não. 
Entartecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo 
porque  a vida,
tantas vezes, se demorou
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Mia Couto 
(1955)







21.11.12

..."vamos fingir que não estamos olhando".

 
 Photho by Tomek Wysopal
 
 
Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: "a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando".

Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguém se levante.

Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça.
 
Berthold Brecht
 
 
 

 nature__magic - IMAGE MOHANDAS



"A delicadeza e a dignidade é o próprio coração que ensina e não um mestre de dança."

- Fiódor Dostoiévski in: "O Idiota"



Rosemary Milner










Paintings and drawing by Alan Ainslie

Faz tempo

 
 
 
“Faz tempo, queria contar para sua ternura,
essas coisas miúdas que nós entendemos.
Ah! Meu amigo e confrade...
As rolinhas... as últimas, fogo-pagou, cantaram a cantiga
da despedida no telhado negro da Velha Casa.
Cantaram em nostalgia toda uma certa manhã passada.
Olhei. Eram cinco, as derradeiras.
Levantaram vôo e se foram para sempre.”

- Cora Coralina, 1983.
 
 
 

“O homem feliz é o que não tem passado".




 “O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembranças que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças.”

- Rachel de Queiroz, in "Memorial de Maria Moura".