26.12.12

Miguel Endara

Pontilhismo em preto e branco, por Miguel Endara





Castello Di Reschio, Umbria


24.12.12

O Bosque existe: é um dos meus lugares mágicos, onde minha imaginação anda de mãos dadas com a realidade. 
-Lya Luft

arte de Mihai Olteanu - Romenia


(Via "Meninas para sempre")

Feliz Natal!


(Nativity scene with the Northern Lights in the sky along with the Natal Star)




21.12.12

Anna Silivonchik





Tec


Grafite do muralista argentino Tec , que imita uma lagartixa, fica na rua Bartira, no bairro Perdizes (zona oeste de São Paulo)



Duane Michals


  Magritte with Hat, 1965, by Duane Michals




AMOR COMO EM CASA



Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
MANUEL ANTÓNIO PINA, in AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO. CALMA, É APENAS UM POUCO TARDE (A Regra do Jogo Ed., 1974)

Ho-ho-ho e um pote de rum



  • 19 de dezembro de 2012
  • Por Heloisa Lupinacci
Por Ana Freitas
Especial para o Estado, de Berlim
Rumtopf, em alemão, quer dizer pote de rum. E é o nome de uma receita tradicional de Natal na Alemanha e na Dinamarca. Ela começa a ser preparada ainda no verão – em junho, as primeiras frutas são picadas e misturadas a rum e açúcar mascavo, para estarem no ponto na época do Natal.
Quando vai chegando perto das festas de fim de ano, os alemães comem as frutas conservadas no rum com pudins, sorvetes e bolos. Ou bebem a mistura como se fosse um ponche.
Clique na imagem para ampliá-la. 
Existem várias versões sobre a origem da receita. A que tem cara de lenda diz que, era uma vez, um punhado de frutas caiu em um barril de rum e elas só foram descobertas ali, conservadas e deliciosas, meses depois. Outra, mais prática, conta que o rumtopf surgiu de propósito, da necessidade de preservar as frutas para os meses de inverno.
Fazer um rumtopf é simples: em um pote, basta ir colocando camadas de frutas picadas e cobrindo cada camada com rum e açúcar – a medida de açúcar deve ser a metade do peso de frutas você colocou. As frutas mais usadas são morangos, cerejas, pêssegos, peras, uvas, abacaxis e ameixas. Até dezembro, o pote deve ficar guardado em lugar escuro e fresco.
Eu comecei o meu rumtopf atrasada, em setembro. Felizmente, três meses é o tempo mínimo para que a fruta absorva o álcool e o líquido ganhe a cor e o sabor das frutas. Para o meu rumtopf, escolhi as frutas de acordo com aquilo que encontrava nas feiras de rua ou no supermercado e me parecia mais maduro.
NO COPO
Na taça. Cor remete à casquinha da maçã do amor. FOTOS: Ana Freitas/Estadão
Já nevava há uma semana quando, antes de ir a um weihnachtmarkt – tradicional feira natalina alemã, que lembra uma festa junina, com maçã do amor e glühwein, vinho quente com canela e pedaços de maçã –, resolvi provar o rumtopf para ver se estava bom e se dava ânimo de sair no frio de -8°C. É bom. E esquenta.
Na taça, o cheiro era de caramelo. A cor vermelha, do morango e da framboesa, remete à casquinha da maçã do amor. Diante dessa lembrança de infância, você pode achar que vai dar um gole em uma bebida inofensiva, mas o olfato engana.
A mágica é que, na boca, ele passa de bebida a sobremesa assim que você morde a primeira fruta. O abacaxi é o que mais equilibra a textura e a acidez da fruta com o rum e o açúcar. Foi o melhor. A maçã foi a pior escolha: ficou esponjosa e amarga. Framboesa e morango ficam pálidos e reconhecíveis só pela textura: uma mordida, e eles explodem em rum.


Chiara Fanti





CORTINAS


"Tem gente que diz que uma casa sem cortinas é uma casa nua. Eu penso o mesmo de uma casa sem livros." (Martha Medeiros, em "Topless")

Wassily Kandinsky

Wassily Kandinsky - Murnau with a Church -1910






Evelyn Dunphy

Gardenscape, Peonies, 2011, Evelyn Dunphy








Salmos 91





1 Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso

2 pode dizer ao Senhor: Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio.

3 Ele o livrará do laço do caçador e do veneno mortal.

4 Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor.

5 Você não temerá o pavor da noite, nem a flecha que voa de dia,

6 nem a peste que se move sorrateira nas trevas, nem a praga que devasta ao meio-dia.

7 Mil poderão cair ao seu lado, dez mil à sua direita, mas nada o atingirá.

8 Você simplesmente olhará, e verá o castigo dos ímpios.

9 Se você fizer do Altíssimo o seu refúgio,

10 nenhum mal o atingirá, desgraça alguma chegará à sua tenda.

11 Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos;

12 com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra.

13 Você pisará o leão e a cobra; pisoteará o leão forte e a serpente.

14 "Porque ele me ama, eu o resgatarei; eu o protegerei, pois conhece o meu nome.

15 Ele clamará a mim, e eu lhe darei resposta, e na adversidade estarei com ele; vou livrá-lo e cobri-lo de honra.

16 Vida longa eu lhe darei, e lhe mostrarei a minha salvação.





7.12.12

Steve McCurry

Silence - Índia-1999 - by Steve McCurry




Héctor García

Frida Kahlo - by Héctor García




Sue Fitzgerald - UK





William Durham

statue_windowshopping- Wiedenbruck - William Durham




Ed Peters Photography




Estou cansada desse bate e volta
Dessa lenga, lenga
Dessa margem torta
Dessa aragem que não venta
Dessa porta que não se escancara
Estou cansada dessa vara de dar em porcos
que não mata nem agonia!
Lázara Papandrea

Quem Me Leva Os Meus


Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
Eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.

Quem leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

Pedro Abrunhosa




Emotions





Afinador de silêncios


Luca Barlocci


“Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”
- Mia Couto, no livro "Antes de Nascer o Mundo"




2.12.12

A capacidade de indignar-nos



Perdemos a capacidade de indignar-nos. De contrário o mundo não estaria como está.

El Imparcial, Madrid, 26 de Outubro de 2006
In José Saramago nas Suas Palavras



Aninha e suas pedras


Jean Pol Vandevelde


 Aninha e suas pedras 

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede. 

 
- Cora Coralina, outubro 1981.




A Meio Pau




A Meio Pau

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
 
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
- coisas que não dou a qualquer pessoa -
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que há durão, mal de chagas te comeu ?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

Adélia Prado





Uma Palavra - Chico Buarque

uma palavra


 Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
Palavra dócil
Palavra d'agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra
Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra



Gabriel García Marquez





Dalai Lama





Um pensamento feliz

Photo by EricKors




Canção em outras palavras

Maggy Noirfalise 



Canção em outras palavras

O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagem, bela por ser livre.
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.

O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revôos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem de mais.

Lya Luft





O eterno retorno

Bird's Eye Agate


"Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser. Tudo se desfaz, tudo é refeito; eternamente constrói-se a mesma casa do ser. Tudo se separa, tudo volta a se encontrar; eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser. Em cada instante começa o ser; em torno de todo o "aqui” rola a bola "acolá”. O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade."

- Friedrich Wilhelm Nietzsche, in 'Assim falou Zaratustra'.





Horário do Fim


Nameirakpam Bobo Meitei



Horário do Fim


morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

- Mia Couto, no livro "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




1.12.12

A vida

Lenka Gondova




A vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento... 
Lançar um grande amor aos pés d'alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento! 


Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo donde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia...
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!...

- Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"












Perguntas essenciais




Em algumas tribos xamânicas, se você chegar ao curandeiro se queixando de desânimo, de depressão, ele irá te fazer 6 perguntas:

- Quando você parou de dançar?
- Quando você parou de cantar?
- Quando você parou de acreditar?

- Quando você parou de se encantar pelas estórias?
- Quando você parou para silenciar?
- Quando você parou de amar?












O espelho


Marc Delhomme


O espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

- Mia Couto, no livro "Idades, cidades e divindades", Editora Caminho, 2007.





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Desistir? Eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério.
É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mas estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.

- Cora Coralina