24.11.13

A FOME



O ovo de santa clara
a gema das coisas todas
o sol os amarelos 
as gérberas na sala

Os dilúvios são deus
os naufrágios muitos
(morrer é simples no fim)

Está passando depressa
o tempo secará em mim
o sonho a dor a promessa
o sexo e suas miragens

Mas antes de ficar velha
eu vou comer a paisagem


                                      Déborah de Paula Souza


                                                      Made by Ulli 




20.11.13

vou buscar-te ao fim da tarde

 

valter hugo mãe

 
vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim
 
 Izis Bidermanas

Maria Tanase -- Ciuleandra (Dub Remix)

diga 33 respira fundo... o que dói é o mundo
Rose Mendes 

(via Cidade do Haikai)



IGUAL A TODOS



Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana. Minha máquina de ser beira a pane enquanto o veludo da voz de Billie lambe as paredes do lusco-fusco. Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável. As tardes despenteadas em Grumari, as lágrimas do homem que me amou e nunca disse, o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema, as crianças que tão cedo me deixaram farta de lágrimas e leite, o eco esquivo de Frederico, sinais de musgo. Abençoe as escarpas da minha vida enquanto desenterro estas palavras — o carmim destas palavras — com as lascas afiadas da dor. Sonho piscinas, atraída pelas labaredas. Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes, pai. 


Ledusha B. A. Spinardi
 
 
 
 Stephen RENNIE

Disse Alguém (All of me) - João Gilberto

O trabalho pensa, a preguiça sonha. 
Jules Renard



Bóiam leves, desatentos




Fernando Pessoa

Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não se existe ou se dói.


budapest klezmer band - beltz

O Vazio


 
 
Tal como o silêncio após o ruído, ou a água pura e fresca num dia quente e abafado, o Vazio limpa a mente desarrumada e recarrega as baterias da energia espiritual.

No entanto, muitas pessoas têm medo do Vazio, porque lhes recorda a solidão. Parece que tem que ser tudo preenchido - as agendas, as encostas, os baldios -, mas é quando todos os espaços estão preenchidos que realmente começa a Solidão.
 
Benjamin Hoff In: "O Tao do Pooh"
 
 
Tarde

E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído, o mar sereno
Azul e cinza azul anoitecendo
A tarde triste das amendoeiras.

E respiramos livres das ardências
Do sol que nos levara à sombra cauta,
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.

– Se mágoa me ficou, na despedida,
Não fez mal que ficasse, nem doesse;
Era bem doce, perto das antigas.
   
Rubem Braga
 North Norfolk seascape - A.D.


Vocação para o silêncio

"Uns nasceram para cantar, outros para dançar; outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez."

Mia Couto



Capitu e seus encantos - Elephant Gun

INVENTEI

"Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender. "


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

In Coral, 1950
 
 Joanna Ellen Marquardt
 
 

Ciúmes



"Ciúmes... No varal,
o teu vestido dançando
nos braços do vento!"


AFONSO ESTEBANEZ





Visita

Eu aceitei o caos, e na noite seguinte, minha alma me visitou.

Carl Jung, "Livro Vermelho"



 Erika Nagy



18.11.13

Saudade


Suhas Ghule






A saudade engana tão bem que parece até amor.

Fabrício Carpinejar


Only The Echoes Of My Mind

Felicidade também é isso!

[via Facebook]


Liberdade

"The spirit of autumn" MAGDA WSICZEK 


Sou livre para o silêncio das formas e das cores.

Manoel de Barros



Mother - Opening Sequence

DA ROTINA



Varrer o dia de ontem
que ainda resta pela sala,
o dia que persiste,
quase invisível
pelo chão,
nos objetos
sobre os móveis da sala.
Varrer amanhã
o pó de hoje.
Varrer,
varrer hoje.
(E domingo quebrar nos dentes
o copo
e sua água de vidro.
Segunda, não esquecer:
varrer todos os vestígios.)

Micheliny Verunschk






Anouar Brahem, Le voyage de Sahar

A disciplina do amor



"...A minha tiazinha falava muito na falta que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o ombro nem as partes, o que a fez chorar sentidamente na hora da morte, Mas o que você quer, queridinha?! a gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou desesperadamente a primeira mão ao alcance: “É que estou morrendo e não me diverti nada!””
- Lygia Fagundes Telles, in "A disciplina do amor".

(Lygia Fagundes Telles, foto: Eduardo Knapp/Folhapress)


" Se queres voar, renuncia a tudo que te pesa."


Buda

Caetano Veloso - Trem Das Cores (+playlist)

Eu gosto de dias com chuva

Eu gosto de dias com chuva
Eu não gosto de retas
Eu gosto de andar por calçadas mal feitas
Eu não gosto de poemas decorados
Eu gosto de um “Eu te amo” inesperado ao pé do ouvido

Eu gosto do manchado, do quebrado
Eu não gosto de rosto sério
Eu gosto da gargalhada na hora imprópria
Eu não gosto de estradas sem flores
Eu gosto do cãozinho sarnento solto na rua

Eu gosto do desenho rabiscado da criança
Eu não gosto de agendas
Eu gosto do alfabeto dos bebês
Eu não gosto de restaurante francês
Eu gosto do que está por vir
E eu gosto de um modo especial de quem me faz sorrir...

Alam Tombini



Terra cotta horse China


Pablo Picasso




Canção do Amor Imprevisto




Mario Quintana 



Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos…

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita…

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!










Ontem passou por aqui

Ontem passou por aqui um meu ancestral, 
que solfejava Bach:
“Fique conosco, Senhor, que a noite chega.”
Ele cantava assim nas estradas mais sujas.
E aquelas borboletas sobre uns ramos de
tomilho cantavam com ele.

Manoel de Barros









AR DE NOTURNO



Garcia Lorca

Tenho muito medo 
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho ?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

( tradução: William Agel de Melo )



Zanesi Davide




A cidade engatilhada


Armando Freitas Filho


NUMERAL


16
               Para Mário Rosa
Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva.
14 VIII 2001


23
Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.



10 XII 2001


17.11.13

Of Monsters and Men - Little Talks

explicar com palavras deste mundo



explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me


como um poema ciente
do silêncio das coisas
falas para não me ver


ficas longe dos nomes
que tecem o silêncio das coisas


para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência


Alejandra Pizarnik



[by Aleksandra Jelušič]



Te amo


Te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo. 

 Adélia Prado



[Adriana Lestido]




Janela

Cada canção é uma janela. Que se abre para o lado de dentro do Sol.
Mia Couto


[by Klaus Zala]



Irene Grandi - Estate

Outonal

[A.D.]





Outonal


Caem as folhas mortas sobre o lago; 
Na penumbra outonal, não sei quem tece 
As rendas do silêncio... Olha, anoitece! 
— Brumas longínquas do País do Vago... 

Veludos a ondear... Mistério mago... 
Encantamento... A hora que não esquece, 
A luz que a pouco e pouco desfalece, 
Que lança em mim a bênção dum afago... 

Outono dos crepúsculos doirados, 
De púrpuras, damascos e brocados! 
— Vestes a terra inteira de esplendor! 

Outono das tardinhas silenciosas, 
Das magníficas noites voluptuosas 
Em que eu soluço a delirar de amor... 

 Florbela Espanca, in "Charneca em flor", 1931.



por quê?


por quê?

tu girassol
eu giralua
um sem o outro
e a vida dura
tão pouco

*líria porto



[art by Todd Young]






Darko Rundek "Ruke"

Sem Que Soubesses

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.


Fernando Assis Pacheco, in "A Musa Irregular"





Bahram Hajou



Bobby McFerrin - Don't Worry Be Happy

Viagem

A verdadeira viagem se faz na memória.
Marcel Proust



[A.D.]



mente e coração



(...) eu agora finalmente entendo, 
o escuro e o 
claro, e tudo 
que há no meio.

Paz de espírito e coração
chega
quando aceitamos o que
é:
tendo
nascido nesta
vida estranha
precisamos aceitar
a aposta vã de nossos
dias,
e sentir alguma satisfação no
prazer
de deixar tudo
para trás.


[Charles Bukowski]




[A.D.]





AUSÊNCIA

AUSÊNCIA 

Sophia de Melo Breyner Andresen

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.



[Foto: Eduardo Klein Fichtner]