29.1.13

Jacques Loussier - Mozart piano concerto K488 n°23 - Adagio (2nd mvt)

Tua ausência


Chiara Fanti




Tua ausência cala o mundo,
o mar, os ventos.
Tua ausência desaba
silenciosamente
sobre os meus dias, soterrando
meu outono…
ela magoa demais o meu sossego.
(Tua ausência é essa substância densa)
Tua ausência é tão presente que é pessoa…
E me abraça.

Marla de Queiroz




A LÂMINA

Jiří Vlček. Akt – Krajina





A LÂMINA
Tonta com o vinho
das tuas palavras
tantra sob a lâmina
das tuas ciladas
morta de dar risadas
brilho como falsa jóia
— e tão cálida —
zonza entre tuas mãos e tuas facas
santa com perfume de dálias
sem sutiã, sem rumo, sem sandálias
criança pequena brincando com navalhas


Déborah de Paula Souza



Gato num apartamento vazio


Andy Paciorek




Gato num apartamento vazio

Wislawa Szymborska

Morrer - isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.

Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.

Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sobre o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.

Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender 
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho, 
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.



Fonte: SZYMBORSKA, Wislawa. Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. São paulo: Companhia das Letras, 2011.






Bem precioso


 Wanderlust - Comunidade do FB  


A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado.

Mia Couto In: "Antes de Nascer o Mundo"





Giovanni Sollima - Nyagrodha

かごで昼寝するしろ SHIRO to sleep in a basket

O bom humor

Oleksandr Hnatenko




"O bom humor está um degrau acima da inteligência".
Charles Chaplin





O Pequeno Demiurgo

Dawn Stacey - UK 




O Pequeno Demiurgo

Al Berto (1948 - 1997)


escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno vôo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia



23.1.13

AUGUSTO

Terence Stamp,  via www.dignow.org






AUGUSTO

Com ele inventei Portugal
compreendi azeites de oliva
jogo de cartas, conhaque e anarquia

Devo a ele esta facilidade
de me encantar com os homens
mas também o medo esquisito
de um dia vê-los morrer
meio loucos meio meninos
confundindo o nome dos filhos
na aflição de quem se pergunta
onde termina a vida
onde começa Deus


Déborah de Paula Souza



São Carlos - A Fazenda Pinhal







No século 19, a condessa do Pinhal mandou construir na fazenda rodeada de cafezais uma escadaria de pedra, em forma de canaleta, de mais de 50 metros morro acima. A água gelada de uma nascente corria degraus abaixo, por onde a condessa subia, de pés descalços, todo santo dia. A engenhoca, parte de um tratamento medicinal à base de água, foi uma réplica feita após viagem do casal à estância hidromineral de Baden-Baden, na Alemanha - um luxo para poucos, até hoje.
Ricardo Brandt / Campinas- "O Estado de S.Paulo"


Two Kites


Duas Pipas

(Two Kites - Antonio Carlos Jobim)


E no caminho você esqueceu de dizer
Onde você mora, qual é seu nome, o que você faz
No caso de estar livre
Podemos ir, eu e você, no zoologico
E talvez eu te pergunte o que você faz com seus dias
Com suas noites, com seu tempo, com sua vida
Suponha que eu me atreva a perguntar o que você fará a noite
Se você está livre eu posso te emprestar essas asas pra um vôo

Já nos conhecemos?
Não me lembro mas podia jurar que já te vi antes
Mas se você está com medo do meu barco
Posso te levar pra terra firme
Ou você prefere pegar o vento
Que sopra constante e puxa para o mar aberto
Você é a força desse irresistível poder
Que cria em mim o poder de voar
Somos como pipas no céu
Podemos voar, podemos voar
Podemos voar, podemos voar

Eu vejo um flash da sua coxa como uma espiã no céu
EU vejo suas coxas celestiais nos céus, nos céus
Lá onde o mar encontra o céu
Você e eu, você e eu

Me dê um momento pra terminar esta bebida pra desfazer o vodu
Que mantem você longe
Por tanto tempo
Por tanto tempo
Por tanto tempo
La la la la...
Suponha que eu te dê essa rosa e você me dá um beijo
Suponha que tiramos nossas roupas
E nós mergulhamos no mar
E só despedir com um beijo 'la petite bourgeoisie'

Já nos conhecemos?
Não me lembro mas podia jurar que já te vi antes
Mas se você está com medo do meu barco
Posso te levar pra terra firme
Ou você prefere pegar o vento
Que sopra constante e puxa para o mar aberto
Você é a força desse irresistível poder
Que cria em mim o poder de voar
Somos como pipas no céu
Podemos voar, podemos voar
Podemos voar, podemos voar

Eu vejo suas coxas celestiais
Nos céus, nos céus
Lá onde o mar encotra o céu
Você e eu, você e eu
La la la la ...
Por tanto tempo
Por tanto tempo



Condição humana

   
Xelo My





CONDIÇÃO HUMANA
visto preto e meu marido
é vivo

sou seu lençol
mãe de seu filho ausente

lavo seus colarinhos
não dormimos juntos

juntos
só colocamos

sal nas feridas 


Helena Ortiz



Explicação da Eternidade



Sammy Boykin 




Explicação da Eternidade

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo
.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
.
por si só, o tempo não é nada
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos
.
foste eterna até ao fim.
.
José Luís Peixoto, "A Casa, A Escuridão"



Mínimos que são o máximo!


Marc Delforge


I
A solução,
segundo o psiquiatra
é ajustar a dose.

II
Eu acho as pessoas:
indigestas.




1.1.13

O maior erro é a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade.
[Provérbio Árabe]
__________arte de Ada Breedveld




(Via "Meninas para sempre")


Arrumando o Quarto


Arrumando o Quarto

hoje mexi em tuas coisas
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe

Helena Ortiz


Zlatka Bascandzieva



João Só e Abandonados - Sorte Grande (com Lúcia Moniz)


“Olha lá,
Já se passaram alguns anos
Nem sequer vinhas nos meus planos
Saiste-me a sorte grande
E eu cá vou
Gozando os louros deste achado
Contigo de braço dado para todo o lado
Eu vou até morrer ser teu se me quiseres
Agarrado a ti vou sem hesitar
E se o chão desabar que nos leve aos dois
Vou agarrado a ti (…)”




Os dias de verão

Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo

Sophia de Mello Breyner Andresen


Franco Sondrio



Kiosk

E você, por que desvia o olhar?


E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida."

Rita Apoena

(Alexander Rodchenko - Portrait au flacon, ca. 1930)






Milágrimas


(Alice Ruiz e Itamar Assumpção)



em caso de dor ponha gelo
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo 

se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre 

caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre 

mas se apesar de banal
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre







Pequeno exercício



(para Thomas Edwards Wanning)



Pense na tempestade vagando no céu, inquieta,
como um cão procurando um lugar para dormir,
ouça o rugido dela.

Pense como devem estar agora as ilhotas no mangue,
lá longe, indiferentes aos relâmpagos,
formando famílias escuras, de fibras grosseiras,

onde uma garça vez por outra despenteia-se,
arrufa as penas, faz um vago comentário
quando reluz a água a seu redor.

Pense na avenida e nas palmeirinhas todas
enfileiradas, reveladas de repente
como punhados de esqueletos de peixes.

Lá está chovendo. A avenida
e as calçadas quebradas, com capim nas rachaduras,
estão aliviadas por molhar-se, e o mar por dessalgar-se.

Agora a tempestade vai embora numa série
de cenas curtas de batalha, mal iluminadas,
cada uma delas "numa outra parte do campo".

Pense em alguém dormindo no fundo de um barco a remo
atado a uma raiz de mangue ou uma ponte,
alguém ileso, quase imperturbado.



Elizabeth Bishop

Tradução de Paulo Henriques Britto







Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.
-Manoel de Barros
______________arte de Liu Maoshan



(Via "Meninas para sempre")

Porque é Ano Novo





Chico Buarque

A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar

E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo