25.3.13

Os Trinta e Três Nomes de Deus

entrada estrellas - elena nuez




Os Trinta e Três Nomes de Deus
De Marguerite Yourcenar



1.Mar da manhã.
2.Barulho da fonte nos rochedos sobre as paredes de pedra.
3.Vento do mar de noite, numa ilha...
4.Abelha.
5.Vôo triangular dos cisnes.
6. Cordeirinho recém-nascido....
7.Mugido doce da vaca,
mugido selvagem do touro.
8.Mugido paciente do boi.
9. Fogo vermelho no fogão.
10.Capim.
11.Perfume do capim.
12.Passarinho no céu.
13.Terra boa...
14.Garça que esperou toda a noite, meio gelada, e que vai matar sua fome no nascer do sol.
15. Peixinho que agoniza no papo da garça.
16. Mão que entra em contato com as coisas.
17.A pele, toda a superfície do corpo
18. O olhar e tudo o que ele olha.
19.As nove portas da percepção.
20.O torso humano.
21.O som de uma viola e de uma flauta indígena.
22.Um gole de uma bebida fria ou quente.
23.Pão.
24.As flores que saem da terra na primavera.
25.Sono na cama.
26. Um cego que canta e uma criança enferma.
27. Cavalo correndo livre.
28.A cadela e os cãezinhos
29.Sol nascente sobre um lago gelado. 30.O relâmpago silencioso.
31. O trovão que estronda.
32.O silêncio entre dois amigos.
33.A voz que vem do leste, entra pela orelha direita e ensina uma canção...”




via http://biancache.blogspot.com.br/




Os pedaços de Deus


Agradeço ao Carlos Brandão por haver me apresentado os trinta e três nomes de Deus da Margueritte. Não é preciso que sejam os seus. Faça a sua própria lista. Eu incluiria:

Ouvir a sonata Apassionata de Beethoven.
Sapos coaxando no charco.
O canto do sabiá.
Banho de cachoeira.
A tela “Mulher lendo uma carta”, de Vermeer.
O sorriso de uma criança.
O sorriso de um velho.
Balançar num balanço tocando com o pé as folhas da árvore...
Morder uma jabuticaba...

Todas essas coisas são os pedaços de Deus que conheço...
Sim, acredito muito em Deus.

Rubem Alves
 







E eu que pensei que havia perdido o anjo para sempre!
(mã - 25.03.2013)







Canção Grata

Sebastian Luczywo Photospace




Canção Grata 

Flobela Espanca

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insônia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão
Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui





14.3.13

Beleza





Se a beleza tivesse voz
cinco músicos emocionados
sete poemas passarinheiros
se reunisse três continentes
a beleza teria a voz que têm as coisas livres
e faria o som que fazem as coisas livres
quando podem voar, e pousam, assim…

Mia Couto



Kristi Stassinopoulou "The Secrets Of The Rocks"

Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.




Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.
Nem todas as mentiras podem ser suportadas.
Certas coisas se sentem com o coração.
Deixa falar o teu coração, interroga os rostos,
não escutes somente as línguas.



Umberto Eco




7.3.13

"O Senhor Ibrahim e as flores do Corão"

"El Premio"

A beleza é triste




Jan Mankes



A beleza é triste pois ela está no lugar de algo que se foi. O tempo perdido não pode ser recuperado. 
Sua beleza só pode ser vivida como ausência: a beleza dói… 
Magia é isto: invocar o que se foi, mas que continua a nos habitar. Ou será poesia?

Rubem Alves







Rabiscos




Vidraças limpas. 
Chuva de verão -
lição de impermanência.



Foto de Mitch Dobrowner 




Na ilha por vezes habitada





Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago
Fonte: http://pensador.uol.com.br/autor/jose_saramago/Foto de Ester Chan




Velhinha




Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! ...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente ...
Já murmuro orações ... falo sozinha ...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"
Foto by: 
Nur Han Photography