29.5.13

Se é sempre Outono

Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… Deixa-os tombar.

Florbela Espanca, Ruínas In: Livro de Mágoas





A um ti que eu inventei

António Gedeão

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.







Cinamomos

Haibun

Cinamomos

A lua cheia sobe devagar entre as árvores. Esplandece o luar
sobre o casario. Milhares de pequenas luas, os frutos dourados se
multiplicam nos cinamomos.
A moça de avental na porta da padaria fechando. A janela da
casa da velha viúva ainda está aberta. O homem de boné vermelho
passa com seu cão. O cobrador da estação lê um grosso livro.
Será que desliguei a chaleira ao sair?

latidos ao longe –
com as folhas amarelas
a árvore sem nome
.
josé marins






O Vazio

Tal como o silêncio após o ruído, ou a água pura e fresca num dia quente e abafado, o Vazio limpa a mente desarrumada e recarrega as baterias da energia espiritual.

No entanto, muitas pessoas têm medo do Vazio, porque lhes recorda a solidão. Parece que tem que ser tudo preenchido - as agendas, as encostas, os baldios -, mas é quando todos os espaços estão preenchidos que realmente começa a Solidão.

Benjamin Hoff In: "O Tao do Pooh"







Coração é terra que ninguém vê

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.

Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão

Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração. Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...

Cora Coralina


Valery Veselovsky - Rússia