17.10.14

Billie Holiday - "i´ll be seeing you"

UB40 - Red Red Wine

“O Historiador”

“A águia é um símbolo cristão muito antigo, o símbolo de São João. Mateus – Saint Matthieu - é o anjo, e Lucas é o boi, e São Marcos é o leão alado. Encontramos este leão alado por todo o Adriático porque ele é o santo padroeiro de Veneza. Ele segura um livro entre as patas: se o livro está aberto, a estátua ou relevo foi esculpido em um momento em que Veneza estava em paz. Fechado, significa que Veneza estava em guerra”.

Trecho de “O Historiador”, de Elizabeth Kostova – Editora Suma de Letras





14.10.14

As névoas anunciam o Inverno.

As névoas anunciam o Inverno. 

Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. 

Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. 

O sino tange. 

Não se vê palmo diante do nariz. 

Lá fora os barcos, como cegos, só se guiam pelo som. 

0 mar é um misterioso fantasma que os envolve. 

Cerração cada vez mais mole e espessa... 

Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo. 

Às vezes adelgaça-se um pouco na costa, e grandes rolos de fumaceira crescem do mar sobre a terra. 

É o Inverno que vem aí. 

A voz imensa tem já plangências de dor – desabar infinito de lágrimas. 

De sul para o norte as nuvens correm sempre, coortes sobre coortes que saem das profundas e avançam, deslizam sobre as águas sem ruído, enchendo o céu de farrapos enormes, de fantasmas criados naquele mar salgado e que se seguem em tropel num galope monstruoso para uma grande batalha desconhecida. 

E de quando em quando o sino chama, chama sempre pelos homens perdidos na névoa espessa que leva dias a passar.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.


(http://ruadaspretas.blogspot.com.br/)





Eu escrevo para mim

Eu escrevo para mim mesmo,
mas se alguém me ler deve saber
que não há beleza no que fica escrito.
Bonito bonito é ver saltar a chispa
e esperar que o fogo alastre, belo belo
é soprar as cinzas.


José Antonio Fernández Sánchez

(Trad. A.M.)




Янин Александр



OH, YES

Charles Bukowski



Há coisas piores
do que estar sozinho,
mas às vezes levamos décadas
para o perceber.
E muitas vezes
ao percebê-lo
é já tarde de mais.
E não há nada pior
do que
tarde de mais.

(Trad. A.M.)



Amo aquilo que arde

POEMA



Amo aquilo que arde
o que voa e se abre
o que enlouquece e cresce
o que salta e se move
aquilo que bebe os ventos
e é música e contacto
o que é vasto e é casto
o que é milagre e perigo
e se espreguiça e respira
e viaja por capricho.
Amo viajar descalço.


Carlos Edmundo de Ory

(Trad. Herberto Helder)




Sebastian Chillemi



Os passos distantes


César Vallejo 




Meu pai dorme. Seu rosto augusto
sugere um coração afável;
tão doce...
se nele há algo de amargo, sou eu.

Em casa há solidão, reza-se,
e não há notícias dos filhos hoje.
Meu pai desperta, ausculta 
a fuga para o Egipto, o adeus cortante.
Tão perto...
se nele há algo de longe, sou eu.

E minha mãe passeia além pelos quintais,
a saborear um sabor já sem sabor.
Tão suave,
tão asa, tão saída, tão amor.

Há solidão na casa sem bulha,
sem notícias, sem verde, sem crianças.
E se algo há quebrado nesta tarde,
que desce e que range,
são dois velhos caminhos brancos, curvos.
Por eles segue meu coração, caminhando.

(Trad. A.M.)


René Magritte



Paul Auster

“Você acha que nunca vai acontecer com você, que não pode acontecer com você, que você é a única pessoa do mundo com quem nenhuma dessas coisas jamais há de acontecer, e então, uma por uma, todas elas começam a acontecer com você, do mesmo modo como acontecem com todas as outras pessoas.”
- Diário de Inverno – Paul Auster




Silêncio

tentativa de salvar o silêncio das palavras...
arte: Nicholas Wilson







Rose Mendes

teu olhar
de jogar redes
debaixo do sol

o mar sou eu
essa água feminina


Rose Mendes



Cuidado

Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo


silêncio

para que possam ouvi-lo
desfazer-se.


- Casimiro de Brito, em "Poemas de amor". Antologia de poesia portuguesa. (organização Inês Pedrosa). Lisboa: Dom Quixote, 2005




Joe Goff




Quem sabe, pedra?

Quem sabe, pedra?
Cansaço dos eus
Dos mins
E dos vossos ais


tucakors




Jurga Martin





Jurga Martin



Fada


Fairy tales from the Arabian nights, 1915 - John D. Batten




Livrotrix I



(Livrotrix)

Andando na sombra

Perto do coração selvagem
Rimas da vida e da morte

Bocas do Tempo

tucakors




Alguns poemas de Murilo Mendes

Poema lírico

Amiga, amiga! De braço dado atravessamos o arco-íris.
Quem nos dá esta força que nos impele acima do mar e das montanhas?
Deixamos lá embaixo os bens materiais, a violência da vida.
Amiga, amiga! Teu rosto é semelhante à lua moça,
Há nas tuas roupas um cheiro bom de mato virgem.
Tua fala saiu da caixinha de música dos meus sete anos,
E te empinas no azul com a graça dos papagaios que eu soltava.
Ó amiga! Deixamos o reino dos homens bárbaros
Que fuzilam crianças com bonecas ao colo,
E ei-nos livres, soprados pelos ventos,
Até onde não alcançam os aparelhos mecânicos.
Unidos num minuto ou num século, que importa.

Agarrados à cauda de um cometa percorremos a criação.
Teu rosto desvendou os olhos comunicantes.
Não há mistério: só nós dois sabemos nosso nome,
As fronteiras entre amor e morte.
Eu sou o amante e tu és a amada.

Para que organizar o tempo e o espaço?
- Murilo Mendes, em "Antologia Poética",  Rio de Janeiro: Editora Agir, 1964.

Poema visto por fora

O espírito da poesia me arrebata
Para a região sem forma onde passo longo tempo imóvel
Num silêncio de antes da criação das coisas.
Súbito estendo o braço direito e tudo se encarna:
O esterco novo da volúpia aquece a terra,
Os peixes sobem dos porões do oceano,
As massas precipitam-se na praça pública.
Bordéis e igrejas, maternidades e cemitérios
Levantam-se no ar para o bem e para o mal.

Os diversos personagens que encerrei
Deslocam-se uns dos outros, fundam uma comunidade
Que eu presido ora triste ora alegre.

Não sou Deus porque parto para Ele,
Sou um deus porque partem para mim.
Somos todos deuses porque partimos para um fim único.
- Murilo Mendes, em "Poesia Completa e Prosa. (Organização Luciana Stegagno Picchio), Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.


Prelúdio

Iremos descobrindo paisagens modelares,
a luz cai direto sobre as casas amarelas,
o amor tomou banho.
Margearemos a lagoa de águas tranquilas,
saneada por um distinto engenheiro alemão.
Jardins comportados, gramas bem aparadas, morros polidos,
nenhum pássaro rompe a calma do ar com um grito agudo,
caminharemos devagar como pessoas do outro mundo...
Abafando a explosão de nossas almas despedaçadas.
- Murilo Mendes, em "Poemas e Bumba-Meu-Poeta". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

Saudação a Ismael Nery

Acima dos cubos verdes e das esferas azuis
um Ente magnético sopra o espírito da vida.
Depois de fixar os contornos dos corpos
transpõe a região que nasceu sob o signo do amor
e reúne num abraço as partes desconhecidas do mundo.
Apelo dos ritmos movendo as figuras humanas,
solicitação das matérias do sonho, espírito que nunca
                                                                                   [descansa.
Ele pensa desligado do tempo,
as formas futuras dormem nos seus olhos.
Recebe diretamente do Espírito
a visão instantânea das coisas, ó vertigem!
penetra o sentido das idéias, das cores, a tonalidade
                                                                               [da Criação,
olho do mundo,
zona livre de corrupção, música que não pára nunca,
forma e transparência.
- Murilo Mendes, em "Poesias, 1925/1955". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.


Solicitude

É preciso orientar as notas musicais
E cuidar do asilo das flores.
A criatura menos órfã do universo é a estrela
E a mais indiscreta, o homem.

O poeta guia a música.
A morte atrai o tempo,
O demônio atrai a guerra.

Tenho pena dos que vão nascer.
- Murilo Mendes, "O Menino Experimental", em "Antologia Poética",  Rio de Janeiro: Editora Agir, 1964.

Solidariedade

Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
Ao mártir, ao assassino, ao anarquista,
Sou ligado
Aos casais na terra e no ar,
Ao vendeiro da esquina,
Ao padre, ao mendigo,
à mulher da vida,
Ao mecânico, ao poeta, ao soldado,
Ao santo e ao demônio,
Construídos à minha imagem e semelhança.
- Murilo Mendes, em "Poesia Completa e Prosa. (Organização Luciana Stegagno Picchio), Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.


Somos todos poetas

Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
- Murilo Mendes, em "A poesia em pânico". Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.


Tu

Espero-te desde o começo,
Desde o tempo das pianolas,
Desde a luz de querosene.

És meu amor triste e lúcido,
Por ti me vinguei da vida,
Matei a figura estéril
E fiz a pedra florir.

Céu e terra se tocaram
Com grande aplauso do fogo,
Ondas bravas se abraçavam
No início do nosso idílio.

Áspera e doce criatura,
És o arquétipo encarnado
Das mulheres oceânicas
E ao mesmo tempo tranqüila.

Nosso amor será uma luta:
Ao som de clarins vermelhos
Subiremos pelo arco-íris
Semimortos de paixão,
Até encontrarmos o Hóspede.
- Murilo Mendes, em "Poesia Completa e Prosa. (Organização Luciana Stegagno Picchio), Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

Vocação do poeta

Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano do eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas.
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal do bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos.
Não vim para construir minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.

Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim.
Vim para distribuir inspiração às musas.
Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,
E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.
- Murilo Mendes, em "Poesia liberdade". Rio de Janeiro: Agir, 1947.



Murilo Mendes, por Guignard