28.12.14

TSUYO KASEFUKI

"...A morte é mais leve que uma pluma. A responsabilidade de viver é mais pesada que uma montanha..."
TSUYO KASEFUKI in "Provérbios Desorientais"



Concha Buika - Ne Me Quitte Pas

B u i k a: E§pelho (HD).

Tennessee Williams

"Quando você passa por um período de infelicidade, um caso de amor terminado, a morte de alguém que ama, ou outra desordem na sua vida, então não existe refúgio a não ser escrever."
(As entrevistas da Paris Review Volume 2. Tennessee Williams. Ed. Companhia das Letras, p. 158)



Raul Drewnick

Se quem sou queres saber,
Te digo: sou este traste
A quem tu deste e tiraste
A vontade de viver.
Pensaste em tudo: nos teus
Amigos, nos teus parentes,
Nos planos teus, tão coerentes.
Pensaste acaso nos meus?
Tantas baleias salvaste,
Das focas não descuraste,
De tudo cuidaste, enfim.
Fizeste tantas cruzadas,
Tão nobres, tão abençoadas.
Fizeste algo por mim?

Raul Drewnick



Raul Drewnick

Tantas vezes ele te falou da corda, tantas vezes a tirou da gaveta para mostrá-la, e não lhe deste atenção. Já não a acharás na gaveta. Hoje a encontraram em volta do pescoço dele, derradeira gravata.
Raul Drewnick





Historinha

Qual é seu signo?" - perguntou uma mulher a Ariano Suassuna.
"Gêmeos" - ele respondeu.
E ela, que não gostava do magistral escritor nordestino:
"Você sabia que as pessoas de gêmeos têm duas caras?"
Ariano retrucou, para gargalhada geral de quem ouvia esse papo ríspido:
"Ôxente, e v. acha que seu eu tivesse duas caras estaria usando essa?"






Sereia

Max Ernst - foto de ?



Lauren Bacall and Humphrey Bogart

"Eu quero um amor feinho"

Lauren Bacall and Humphrey Bogart in To Have and Have Not directed by Howard Hawks, 1944. Photo by Bert Longworth




Tempo Rei

Tempo Rei
Gilberto Gil

Não me iludo
Tudo permanecerá
Do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando
Todos os sentidos...

Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva
E pelo eterno vento...

Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Que não restará
Nem pensamento...

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!...

Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos...

Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas
De repente ficam sujas...

Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo
Pode estar por um segundo...

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!...(2x)

Mãe Senhora do perpétuo
Socorrei



https://youtu.be/GoCB50ok-kY





Imagem: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Mia Couto

(excerto)
Eis o que aprendi 
nesses vales
onde se afundam os poentes :
afinal , tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves incandescências.

MIA COUTO, in UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA (Ed. Caminho, 2013)



Lázara Papandrea

Eu chegarei como chegam todos
Ao poço e ao céu
Lodo e mel
Esses dois abismos que encantam
Já que os extremos sempre foram lugares
De adoração
Eu chegarei e haverá uma explosão de luas
Nos meus olhos
Lázara Papandrea



Pina - Excerpt from Kontakthof

curso livre de desenho

curso livre de desenho
em cada ruga
rabiscos de histórias -
linhas do Tempo
tucakors

(foto de © Jodi Champagne)

黒藤院 『見ることは見られること』 市原ソロ 2007-0824

Lua boa



Quando a lua sair nós iremos ao campo
esmagar o capim, passo a passo, bem juntos
como dois namorados que não gostam de falar
quando a lua é mais clara e o coração mais limpo.
Nós mergulharemos na simplicidade,
mão na mão, sonhando as palavras que ficam,
enquanto os maricás noivarem,
calma grave e nupcial, tristeza boa
para a gente saber que vai morrendo,
para provar no lábio um gosto que abençoa.
Quanta doçura virgem de ervas!
Mesmo à noite os trevais têm cheiro azul de manhã,
e o capim o capim esmagado
perfuma os pés que o pisaram, santamente.

- Augusto Meyer, em “Giraluz”, Porto Alegre: Globo, 1928



Você que viu fiordes e corais,
você que chegou às palavras
subterrâneas e do que está a dizer,

que aprendeu o silêncio
em várias línguas e jogou um dia
a moeda para enganar a morte,

Quantos verbos você quer mais
para explorar esta narrativa inútil?
Renata Correia Botelho




Tú, que viste fiordos y corales,
que llegaste de las palabras
subterráneas y de lo que queda por decir,

que aprendiste el silencio
en varios idiomas y tiraste un día
la moneda al aire para engañar la muerte,

¿cuántos verbos quieres más
para recorrer esta narrativa inútil?

Un circo en la niebla



Motörhead - Enter Sandman

Alexi Murdoch - Song For You

Ana C

"sou uma mulher do século XIX
disfarçada em século XX" - Ana C
vivendo no século XXI (tuca)



Ironia sentimental - Augusto Meyer

Ironia sentimental

Coaxar dos sapos, quando a noite é calma,
sem jardins simbolistas, nem repuxos cantantes,
nem rosas místicas na sombra, nem dor em verso...
Coaxar dos sapos, longamente,
quando o céu palpita na moldura da janela,
num mistério doce, num mistério infinito,
e em cada estrela há um lábio, um lábio puro que treme,
e um segredo na luz que palpita, palpita...
- Augusto Meyer, em “Coração verde”, Porto Alegre: Globo, 1926.



vigília II - Ana C

vigília II
As paisagens cansei-me das paisagens
cegá-las com palavras rasurá-las
As paisagens são frutos descabidos
agudos olhos farpas sons à noite.
espaço livre para o erro regiões recompostas
por desejo
Paisagens bruscas
decercardas as subidas não poupam
meu silêncio:renominá-las aqui
neste abandono ou aprendê-las diversas e desertas
Ana C - poética



George Elio

"O maior benefício que devemos ao artista, seja pintor, poeta ou romancista, é o desenvolvimento de nossa empatia [...] A arte é a coisa mais próxima da vida; é um modo de aumentar a experiência e ampliar nosso contato com os semelhantes para além do nosso destino pessoal."
(George Eliot in: The natural history of german life)


Sev Gyn

Três haicais de Sev Gyn.


o caminho
que há dentro da estrada
e eu nem notei

luzes de Natal
e o brilho da estrela
ao largo do caminho

em que mina
brilhará mais o ouro
do que a palavra?

22.12.14

Envelheci

Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.

Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

- T. S. Eliot, em "Poesia". [tradução Ivan Junqueira]. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981



Até amanhã


(Eugénio de Andrade)
Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"



Made by Ulli ( Fotos und Sprüche )






May Swenson







A verdade impõe-se


(May Swenson)
Incapaz de ser honesta como pessoa
quero ser honesta na poesia.
Ao falar contigo, olhos nos olhos, minto
porque não suporto a ideia
de expor a verdade.
Dizer - tudo - seria
como tirar a roupa.
Perderia os meus bens mais preciosos:
distância, segredo, intimidade.
Ficaria exposta. E tu acabarias
por possuir-me. Seria uma rendição
total (a ti, olhos nos olhos).
Irias observar-me demasiadamente de perto.
Dar-me-ias a tua mão.
Todos os teus olhos andariam à minha volta.
Depois disso andaria vestida
com as tuas abelhas cheias, irritantes, insaciáveis.
Que sejas um ou dois ou muitos
é igual. Na verdade, sinto-me como
se um par de olhos fosse um enxame inteiro.
Por isso minto (olhos nos olhos)
deixando sem voz o coração das coisas
ou oferecendo um espantalho
no meu lugar.
Temos de ser honestos em algum sítio. Eu quero
ser honesta na poesia.
Com a palavra escrita.
Onde possa dizer e riscar
e dizer de novo e dizer em torno de
e dizer por cima de e dizer entrelinhas
e dizer com símbolos, em enigmas,
com duplo sentido, debaixo das máscaras
de qualquer rosto, na pele
de todas as criaturas.
E na minha própria pele, nua.
Sinto-me feliz e desejo ficar de facto nua
ternamente na poesia,
impor a verdade
no poema
que, quando é escrito, se for real
e não um espantalho, diz-me
e depois diz-te (tudo ou nada, olhos nos olhos)
o meu ser inteiro,
a verdade.

A construção do corpo

A construção do corpo

Sempre a tentativa nunca vã...
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia,
Entre a calma e a luz o movimento é livre.

Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.
No interior centro cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.
- António Ramos Rosa, em “A construção do corpo”, 1969.