30.11.15

Minha arvorezinha

"Minha arvorezinha, meu burrinho, minha mãe, meu irmão, meu país, meu Deus pequeno, meu estrangeirinho, meu pequeno lótus, minha conchinha, meu querido, minha plantinha, vai embora, deixa que eu me vista e eu me encontrarei com você na Rue de Baume às oito. Por favor, não chegue depois das oito e quinze pois estou com muita fome."
Marcel Proust, O fim do ciúme.



OS POETAS AGUENTAM FIRME

OS POETAS AGUENTAM FIRME
Margaret Atwood (Trad. Adriana Lisboa)

Os poetas aguentam firme.
É difícil livrar-se deles,
embora Deus saiba que já se tentou.
Passamos por eles na estrada
de pé com as suas tigelas mendicantes,
um hábito antigo.
Nada dentro delas agora
além de moscas secas e moedas falsas.
Eles olham reto em frente.
Estão mortos ou o quê?
Têm, contudo, a expressão irritante
dos que sabem mais do que nós.
Mais do quê?
O que é isso que alegam saber?
Desembuchem, falamos entre os dentes.
Digam de maneira direta!
Se você tenta obter uma resposta simples,
nesse momento eles se fingem de loucos,
ou então bêbados, ou então pobres.
Vestiram essas fantasias
faz algum tempo,
esses suéteres pretos, esses andrajos;
agora não conseguem mais tirar.
E estão tendo problemas com os dentes.
Esse é um de seus fardos.
Uma ida ao dentista não lhes faria mal.
Estão tendo problemas com as asas também.
Não temos visto muita coisa de sua parte
no setor de voo esses dias.
Não os vemos mais pairando nos ares, radiantes,
acabaram-se as travessuras aéreas.
Para o que diabos são pagos?
(Suponha que sejam pagos.)
Não conseguem sair do chão,
eles e suas penas enlameadas.
Se voam, é para baixo,
para dentro da terra úmida e cinzenta.
Vão embora, dizemos —
e levem sua aborrecida tristeza.
Não os queremos aqui.
Esqueceram-se de como nos dizer
que somos sublimes.
Que o amor é a resposta:
dessa nós sempre gostamos.
Esqueceram-se de como bajular.
Já não são sábios.
Perderam seu esplendor.
Mas os poetas aguentam firmes.
São tenazes acima de tudo.
Não sabem cantar, não sabem voar.
Só dão pulos e grasnidos
e se debatem contra o ar
como se enjaulados
e contam ocasionais piadas cansadas.
Quando lhes fazem perguntas a respeito, dizem
que falam o que devem.
Cristo, como são pretensiosos.
Há algo que sabem, porém.
Há algo que sabem, sim.
Algo que estão sussurrando,
algo que não podemos ouvir muito bem.
É sobre sexo?
É sobre poeira?
É sobre medo?




Travis - Moving

Seu coração

"Seu coração é um alaúde suspenso;
Tão logo o tocamos ele ressoa."
( De Béranger )







R.E.M. - Full Concert - 10/18/98 - Shoreline Amphitheatre (OFFICIAL)

A cólera divina

A cólera divina

Quando fui ferida,
por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma,
- ainda não sei - 
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos, 
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido 
demora um pouco a latir, 
a festejar seu dono
- ele, um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar 
Por que razão me bates? 
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas 
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.

- Adélia Prado, do livro "O pelicano", em 'Poesia Reunida', Rio de Janeiro: Editora Siciliano, 1991, p. 338.





Eu não sou muito assim

Eu não sou muito assim de querer conhecer poetas, mesmo aqueles que admiro muito. Em geral tendo a achar que o melhor deles está mesmo ali, nos livros. Em geral tenho medo de amar menos os poemas que eu amo muito. Em geral acho que poetas não são lá as melhores pessoas, a julgar por mim. Em geral acho que pessoas não são as melhores pessoas. E eu acho conversar muito misterioso e difícil, eu fico besta vendo as pessoas que sabem conversar.
Ana Martins Marques






Os lugares que conhecemos

"Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante."
"No Caminho de Swann" -  Marcel Proust









Tulipa Ruiz - Virou



MOBILIDADE

MOBILIDADE

pedalando
na ciclovia
à margem do rio
aprecio
a natureza
em todo o seu
esplendor

mentalmente
tiro o chapéu:
saúdo
cada ser
no caminho

bom dia,
capivara

bom dia,
vocês aí
tristes
parados como eu ontem
na estação de trem

olá,
aves aquáticas
olá, garça
olá, quero-quero
olá, pássaro-colchão
olá, pássaro-garrafa
olá, gaiola-sem-pássaro
olá, paturi-tampa-de-privada
olá, pássaro-geladeira

abro os pulmões
e inspiro
o deus amoníaco
o deus ureia
o deus enxofre

e expiro expiro
um a um
meus sonhos de baunilha
recém-saídos
de sob o lençol

tenho fé
na vida

ave, máquinas
ave, operários
salve, construção civil —

mais pontes
mais passarelas
entre este
e o outro lado
da vida

evoé, chuva fina
evoé, bailarina
evoé, íngreme escadaria
(agora
carrego eu
a bicicleta)

evoé, escritório
evoé, relatórios
evoé, fim de linha

evoé, aspirina


Ruy Proença



Pet Shop Boys - Being Boring

A Vida na Hora

A Vida na Hora
Wislawa Szymborska
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.



[foto: Igor Fedorov]




Nuvens

Trecho do poema Nuvens, de Wislawa Szymborska


Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.




[foto: Yosemite National Park]



Bill Callahan "Riding For The Feeling"

Egon Schiele

"Seria de enlouquecer imediatamente qualquer um fraco de alma, e logo eu ficaria também caso tivesse de me embotar por dias inteiros; então - arrancado com as raízes do solo do meu fazer, como agora -, para não ficar louco, comecei a pintar, com o dedo trêmulo mergulhado na saliva amarga e usando as manchas do cimento, paisagens e cabeças nas paredes da cela, e fiquei olhando-as secar aos poucos, empalidecer e sumir nas profundezas da alvenaria, como se apagadas por uma mão invisível, fantasticamente forte.

Agora, felizmente, tenho de novo material para desenhar e escrever. Consigo trabalhar e assim suportarei o que senão seria insuportável. Para isso me ajoelhei, me humilhei, supliquei, orei, mendiguei, e teria ganido, caso não houvesse outra saída. Oh, arte! - O que não faço por você!"


[Em abril de 1912, o artista austríaco Egon Schiele fez desenhos e escreveu um diário durante os vinte e quatro dias em que esteve na prisão. Os dois parágrafos acima fazem parte da primeira página desse registro.]


[Imagem: Old Houses in Krumau - Egon Schiele





MAS JÁ QUE SE HÁ DE ESCREVER...



Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
-Clarice Lispector, "Para não esquecer"
Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
-Clarice Lispector, em "Para não esquecer"



Smoke Gets in Your Eyes: Always & Platters, Holly Hunter, Richard Dreyfuss

23.11.15

Nick Drake - Things behind the sun

Esta manhã o mar...

"Esta manhã o mar acumula ao teu pé rosas de areia,
Balançando as conchas de teus quadris.
Ele te chama para as longas navegações:
Tua boca, tuas pernas teu sexo teus olhos escutaram.
Só teus ouvidos é que não escutaram, ondina."
Murilo Mendes, "Estudo para uma ondina"



A poesia e a matança dos mosquitos

A poesia e a matança dos mosquitos
Leonardo Fróes
Cada poema original que escrevo à máquina contém pelo menos 2 ou 3
cadáveres de mosquitos esfregados no rolo.
Isso porque escrevo muito de madrugada com a luz acesa.
Antes de amanhecer eu apago para espiar a mutação de cores.
Meu editor um dia vai receber a coleção completa.
Parece que Pablo Neruda colecionava por sua vez caramujos.
Uma senhora que me visitou outro dia achou que tenho alma de artista.
Como as pessoas são boas observadoras agora.
Os meus cachorros latem muito de noite quando estou escrevendo.
Eu acho isso muito chato porque fico tenso.
Às vezes eu penso que vai sair do mato um macacão enorme.


The Clash - Guns Of Brixton Video

Canção do Pescador

Canção do Pescador
Amosse Mucavele


Tenho muito mar – o rumo
onde sílaba a sílaba, remo
os dias todos
como uma pedra na água
encosto o ouvido sobre o barco
oiço
uma oração natural do anzol
(pela boca morre o peixe)






Fima

"Vou lhe contar uma pequena história. Certa vez em Kharkov, antes da revolução leninista, um anarquista tolo rabiscou uma frase na parede de uma igreja no meio da noite: DEUS ESTÁ MORTO. ASSINADO: FRIEDRICH NIETZSCHE. É óbvio que se referia ao falecido filósofo maluco. Então, na noite seguinte vem alguém mais esperto e escreve: FRIEDRICH NIETZSCHE ESTÁ MORTO. ASSINADO: DEUS."
(Amós Oz, em "Fima")



Louie Louie - The Clash

As crianças são todas pagãs. 
Eu saí a caminhar pelo bairro e encontrei uma menina que não devia ter mais que 2 anos, vinha brincando na direção oposta, e ela cumprimentava a grama, as plantinhas: "Bom dia, graminha!"
Nessa idade somos todos pagãos, somos todos poetas mas depois o mundo se ocupa de apequenar nossas almas. "O mundo não é feito de átomos; o mundo é feito de histórias." As histórias permitem transformar o distante em próximo, possível e visível.
 
Eduardo Galeano





Darn That Dream - Bill Evans & Jim Hall

apresentação formal


eu me alimento de nuvens 
 vivo apaixonado pelo céu
danço ao sabor dos ventos
sou feliz, alegre e contente


sou o pinheiro da tuca



Motivo

Nydia Bonetti

teve as asas cortadas e não a língua
então deixou de cantar

— o que faz todo sentido



I'm Beginning to see the Light

Amor feliz não faz literatura. É preciso que seja triste, trágico, catastrófico...
Quando te vi, amei-te muito antes. Tornei a encontrar-te qdo te achei... Qdo eu vi, instantaneamente, (e há pessoas muito mais bonitas do que aquela que amamos)... me apaixonei... São instantes. Quando ela me falou seu nome eu disse: estou perdido... Eu me apaixono por uma imagem. É apenas uma experiência estética. Não tem nada a ver com sexo. Para Milan Kundera, amor e sexo nao tem nada a ver. Não é o sexo que faz o amor. O que faz é uma imagem. E eis que toda vez que eu (re)leio "A insustentável leveza do ser" consigo compreender os pedaços de minha alma... A pergunta central acho que é esta: Terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim de minha vida? A resposta pode trazer muitas surpresas... (ideias a partir da comunhão com autores de quem comi a carne e bebi o sangue ao me apoderar de seus escritos e deixar que fizessem parte de mim)...
Éderson Luis Silveira





Novos significados

Novos significados
Susan A. Katz

Lá fora um vento vago
flerta com as árvores, 
provoca as cortinas
e as faz dançar; em pensamento
mantendo o ritmo certo.

Lembrando as estações, eu toco
as coisas como se meus dedos
as fossem reaprender;
cansada de explicações, a esta altura
eu me sinto melhor com a verdade.

Lá fora, o freixo da montanha
curva-se ao peso das frutas
cor de laranja,
como seios maduros demais; sinto
um puxão, a carne cede
à  gravidade; mais próxima do solo
do que jamais estive próxima
do céu.


[Shuichi Machimoto]

22.11.15

Tom Waits - Walk Away

Eu era tão infantil

Raul Drewnick
Eu era tão infantil
você era tão pueril
Uma tarde
espatifamos o mundo
só por brincadeira
Ainda ouço, minha amada,
aquela barulheira
e nossas gargalhadas.



Morrissey - Istanbul (Unofficial Video)

Post-Card

Post-Card
(os velhos, os pombos, os gatos)
Inês Lourenço
Alguns habitantes queixam-se dos pombos. Do mal
que fazem às fachadas, às estátuas, à pintura
dos automóveis. Os pombos não voam a gasolina
e têm humaníssimos hábitos como a gula, as
rivalidades do cio, a sede e a urgência
de defecar. Detestam coleiras, gaiolas, amparos
de casota, ausência de jardins
e adornos de penas alheias. E por este divino
despojamento recebem, às vezes,
algum milho displicente dádiva
de crianças para a fotografia, ou de benignos
velhos reformados. Algumas mulheres continuam
a socorrer os antiquíssimos (e terrestres) gatos
vadios. Gatos da minha infância. Dos muros,
das traseiras, dos quintais - o Sindbad, a Pardoca - com
restos de arroz em papéis engordurados. Carinhosas
velhas, atentas à famélica e materna condição
das ninhadas, enquanto os pombos e os velhos
debicam espaços de pedra onde levavam asas
e entre todos assoma, por instantes,
a decaída aliança entre o Céu e a Terra.

[White Bird Flying, Paris, France. 2007]



Happy Valley: Trailer - BBC One

As Cinco Coisas a Serem Lembradas Constantemente





1).Minha natureza é envelhecer. Eu não superei a velhice. Isso é para ser lembrado constantemente.
2).Minha natureza é adoecer. Eu não superei a doença. Isso é para ser lembrado constantemente.
3).Minha natureza é morrer. Eu não superei a morte. Isso é para ser lembrado constantemente.
4).Tudo aquilo que é meu querido e prazeroso mudará e desaparecerá. Isso é para ser lembrado constantemente.
5).Sou o senhor das minhas ações, herdeiro das minhas ações, unido pelas minhas ações, protegido pelas minhas ações. O que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso eu serei o herdeiro. Isso é para ser lembrado constantemente".
Sidharta Gautama, o Buda Shakyamuni.


[foto: Viive Selg]


Ingrid Bergman - Can't take my eyes off of you

Cary Grant - The man I love

A pálida luz da manhã de Inverno



foto de Luís Miguel Correia - blog Lisboa entre cabos.



A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
Fernando Pessoa



Impermanência

"Algumas pessoas, doces e atraentes, fortes e saudáveis, morrem jovens. Eles são mestres disfarçados nos ensinando sobre a impermanência."
Dalai Lama




Jacques Loussier - Chorale No. 1

Keith Jarrett - Jan Garbarek - ' My Song '

O Divino


"Eu olhei em templos,
igrejas e mesquitas.
Mas só achei o Divino
dentro do meu coração."
[Rumi]






Carta aos meus pais

Carta aos meus pais
Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão, eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas, quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou pegar nos talheres como deve ser. A ordem:
– Pega nos talheres como deve ser
ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra pergunta
– Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?
ou a resposta
– Um dia falamos sobre isso
quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura: sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:
– Porque é que as mulheres fazem por uma escova?
e os meus pais primeiro banzos também e depois a lutarem para ficar sérios. Não me explicaram nada e vários mistérios subsistiram durante muito tempo. Primeiro, porque é que as mulheres têm uma escova ali. Segundo, porque é que as escovas, que passei a olhar com desconfiança, fazem chichi. Terceiro, isto acontecerá ao conjunto das meninas, ao crescerem, ou só àquela? Quarto, o exame minucioso a que submeti todas as escovas que encontrei em casa não me deu nenhum resultado esclarecedor: não havia uma que não estivesse seca. As de escovar a roupa, as de escovar o cabelo, as de esfregar o chão. E os meus pais sem responderem. A minha mãe ainda abriu a boca mas não chegou a falar, embaraçadíssima. O meu pai não abriu a boca mas qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas, quando qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas a minha mãe a censurá-lo
– João
e ele logo sério, ausente, a interessar-se pelos meus estudos que, em geral, o desgostavam porque os meus resultados escolares costumavam roçar o trágico e constituíam uma preocupação constante para a família. O facto de eu ser escritor
(sempre fui escritor desde que me conheço e a minha mãe previa-me um futuro de miséria negra)
não desagradava inteiramente ao meu pai, que tinha um respeito sagrado pelos artistas, mas os meus resultados escolares preocupavam-no, queria que eu tivesse uma profissão sólida que me amparasse as veleidades criativas. Para ele, a única profissão sólida e digna era ser médico
– E depois, nos intervalos, escreves
como Júlio Dinis ou Duhamel. Acabei por lhe fazer a vontade, pai, tornei-me médico, mas o meu curso foi um tormento para ele: reprovações, notas baixíssimas, os seus colegas, professores também, lá me iam deixando passar por amizade. Lembro-me que no fim da prova de Medicina Operatória o catedrático me disse com bonomia, diante do anfiteatro cheio:
– Olha, filho, tens treze e diz lá ao pai que não pôde ser mais.
Isto para além de cartas que ele me mostrava com desgosto, género
O seu rapaz esteve aqui e não sabia nada ou, comparando-me com o meu irmão
– O Lobo Antunes tem dois filhos, um é bom, o outro é uma nódoa.
Ainda me espanta a razão pela qual o meu pai não me matou. Mas sei que lia às escondidas o que eu escrevia e tinha muitas esperanças literárias no filho, embora nunca me tivesse falado nisso, porque não era dado a confidências ou elogios. A mim não me disse nada mas dizia aos meus irmãos
– O António tem faísca, o António tem faísca
e que, quando comecei a publicar, se orgulhava dos meus produtos. Eu acho que os meus irmãos e eu tivemos muita sorte com os nossos pais, que eram pessoas de uma honestidade irrepreensível, inteligentes, cultas, complexas, rigorosas, com qualidades muito superiores aos defeitos que obviamente também possuíam. Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto. E morreu de puro desgosto, sem doença. Somos orfãos do Pedro também. Sobramos cinco e eu não quero que nenhum deles morra antes de mim. Gostamos uns dos outros sem palavras, com o imenso pudor que herdámos dos nossos pais. Não suporto a ideia da morte do João, do Miguel, do Nuno, do Manuel, como continuo a não suportar a ideia da morte do Pedro. Vou dizer uma coisa. Não devia dizer mas vou dizer. Quando fomos contar à nossa mãe que o Pedro se tinha ido embora ela pronunciou só uma frase:
– Tenham misericórdia de mim.
Sentada na sua cadeira, na sua sala:
– Tenham misericórdia de mim.
Agora está com o nosso pai, a contar, entre muitos outros episódios
– Lembras-te daquela história da escova?
e o meu pai a responder
– Ah
que, no seu caso, às vezes, era um discurso muito comprido. Esta crónica saiu toda descosida e mal feita. Não importa, de que outra forma podia fazê-la? É a minha maneira aselha de pedir que tenham misericórdia de mim, porque não sou o adulto que pensam. Peguem-me ao colo. Às vezes tenho tão poucos anos nos meus anos todos e fico tão leve nessas alturas.
(António Lobo Antunes, 1942, Benfica, Portugal)



Keiko Minami




Liniker - Zero

Cafe, Tsuguharu Foujita. 1949.



A espera de um amigo já é um prazer.
Quem espera é como uma árvore com seus dois pássaros, solidão e silêncio. Ele não comanda, à sua espera. 

A.D.

Wim Mertens:- Hufhuf

O apego

"O apego é exatamente o oposto do amor. O amor diz: quero que sejas feliz.O apego diz: quero que me faças feliz."
Jetsunma Tenzin Palmo

[Christine Ellger]


Caderno de notas de

"Repetir a mim mesma que tudo quanto narro aqui é desmentido pelo que não narro; estas notas procuram apenas preencher uma lacuna. Não se trata do que eu fazia durante todos estes anos difíceis, nem dos pensamentos, nem dos trabalhos, nem das angústias, nem das alegrias, nem da imensa repercussão dos acontecimentos exteriores, nem da constante prova de nós próprios na pedra de toque dos fatos. Deixo passar em silêncio as experiências da enfermidade, em silêncio ficam outras experiências mais secretas, levadas umas pelas outras, e a permanente presença ou procura do amor."

(Caderno de notas de " Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar)







Que luz chega do outro lado





Ancient emojis


Wim Mertens Many a one

Norah Jones - Painter Song (Art by Magritte)

As Grutas

Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetração na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento.

Sophia de Mello Breyner Andresen, excerto de "As Grutas"


[Viki Kollerová]




Diana Krall - Let's Fall In Love

A paciência e seus limites

[foto de autoria desconhecida]



A paciência e seus limites

Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você’.
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.

- Adelia Prado, em "Miserere". São Paulo: Editora Record, 2013.