22.3.15

Pat Martino_A Blues For Mickey O

FRIEDRICH NIETZSCHE


"...Em última instância, será como é e sempre foi: as grandes coisas ficam para os grandes, os abismos para os profundos, as branduras e os tremores para os sutis e, em resumo, as coisas raras para os raros.




MULHER, HOMEM, CACHORRO.




Dita morreu pelos fins de agosto. Era um sábado muito quente. As cigarras faziam um barulhão. Havia um cemitério perto. Menos de meia légua. O marido tentou carregar seu corpo, ela se soltou raivosa. Iria por conta própria. Foram andando devagar. O cãozinho foi junto. Seu nome era Muxiba, e tinha doze anos. Estava perto de morrer também, mas de velhice. Vez ou outra a morta descansava um pouco sob uma árvore. Seu marido aguardava apoiado em seu enxadão. O nome dele era Guaraci. Guará. Magro, forte, menos de trinta. Havia feito a barba e vestido sua melhor roupa. Dita merecia. Amavam-se desde pequenos. Nunca tinham brigado. Só uma ou outra implicância boba; logo estavam bem de novo. Chegaram ao cemitério após três paradas. Não vinham ali desde quando? Desde muito tempo. Anos. Estava tudo coberto de mato. Havia poucas cruzes à vista. Um lagartão correu para longe. Muxiba foi atrás dele. A morta se sentou numa sombra. Guará achou um pedaço onde cavar. Tirou a camisa. Foram duas horas de serviço. Bebia água de uma cabacinha. Muxiba corria de um lado para outro. Latia. Cheirava. Guará sentou perto da morta. Bebeu um restinho de água e enrolou e acendeu um cigarro.  Mal se falavam. A morta estava agora bem mais fraca. De vez em quando se lembrava de algo. Tal galinha havia sumido. Seria bom procurar por ela. Ah, havia uma cobra na cisterna. Guará pegou na mão dela. Estava muito fria. Ficaram algum tempo de dedos entrelaçados. Nunca mais se veriam. Acabava tudo ali mesmo. O suor secou, ele vestiu a camisa. Abraçou a morta bem apertado e não queria largar. Depois foi buscar Muxiba. Ele também precisava se despedir. Isso feito, ela entrou no buraco. Guará jogou terra em cima. Muxiba latindo em volta. Não entendendo aquilo. Guará cortou dois galhos, fez uma cruz e espetou bem fundo. Partiram sem mais demora. As cigarras tinham se calado.

(Carlos Antônio Jordão - 20 - 03 - 2015)



19.3.15

Here's That Rainy Day - Benny Goodman

Beth Hart LIVE_ Baddest Blues

Lembrança

"Do portão Shmuel desceu seis degraus de pedra baixos e rachados, desiguais em tamanho, para um pequeno pátio que o encantou logo ao primeiro olhar, e lhe despertou, num aperto, saudade de um lugar do qual não conseguiu de forma alguma se lembrar. A sombra difusa de uma lembrança pairou elusiva em seu espírito, um reflexo incógnito de outros pátios internos, de tempos passados, pátios que ele não sabia onde ficavam nem quando os tinha visto mas sabia vagamente que não eram pátios hibernais como este, ao contrário, pátios cheios de verão e de luz. Essa lembrança lhe trouxe um arroubo entre a tristeza e o prazer: como o som solitário de um violoncelo à noite, em meio à escuridão. "
Amós Oz, "Judas"



Goran Bregovic Guca 2007 Ringe ringe raja

Aldeia Xavante

Aldeia Xavante
por Jean Manzon
Revista O Cruzeiro, 1944

A “Expedição Roncador-Xingu” pretendia conhecer e explorar o “Brasil Interior” nos anos 40, sob ordens do Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1944, a revista “O Cruzeiro” enviou uma equipe de jornalistas para cobrir a empreitada; dentre eles o fotógrafo francês Jean Manzon, que viera para o Brasil fugido da guerra poucos anos antes. O resultado foi uma reportagem de capa, em várias páginas ilustradas por fotografias em preto e branco. Contudo, dentre elas se destacou aquela da tribo isolada, que nunca vira um avião, que sobrevivia ao contato com a civilização. O susto foi tamanho que os índios apontavam suas flechas para o bimotor, sonoro e rasante, que sobrevoou a aldeia xavante trazendo o desconhecido. A fotografia congela o momento do contraditório e inevitável contato: uma imensa sombra que avança sobre a tribo. A sombra da civilização.





Budapest Klezmer Band - Hora

Dois haicais


Paixão passageira -
Mas a tempestade que ela causa
é no copo d'água
**
Triste imagem -
A injeção letal
no gato doente
**
Jiddu Saldanha, "poesia do Brasil ", vol. 19



Tanka

lá longe
palavras
se curvam para o monge
sempre tem algum sentido
zumbido - voz do vento

Sev-Gyn, "poesia do Brasil" - vol.19



O amor bate na aorta - Drica Moraes (Carlos Drummond de Andrade)







O Amor Bate na Aorta
Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.
O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

The Breeders | Cannonball (Official Video)

Neve

"Um escritor devia ser capaz de falar sobre tudo o que é importante. Se eu fosse um escritor, iria querer falar sobre todas as coisas sobre as quais as pessoas não falam. Você não pode me dizer tudo, só desta vez?"
Orhan Pamuk, "Neve"



by Miltos Pantelias



Kontakthof - Pina Bausch

Clarice

"Minha bondade tem limites: não posso proteger quem me ofende".
Clarice Lispector






Rosa Passos - Aliás







Aliás
Djavan
Existem coisas que o amor diz
Com aquela coisa a mais
De quem é feliz
Jóias caras produzidas no coração
Tiaras sem fim
Guardo essa luzes pra te servir
É tanta coisa que o amor faz
Vem como um rio
Em sua calma voraz
Timidez, mas sabe voar
Pra fugir da sombra do não-querer
Ademais, quem é que quer sofrer?
Você, o sonho, meus pés, o chão
Mesmo que bravo
O mar vira na canção
Mística rosa, ave rubra
Meu Deus do céu, da boca rubi
Beijo esperado, me leve a ti
É um sacrifício dizer um não
Em seu ofício de obedecer à paixão
Seja como for
Sempre se faz por prazer
Tudo o que o amor diz
Aliás, quem não quer ser feliz?

Evoé





o sexo do poeta e o não.
privilégio da cidade. fado.
vida num turbilhão. quatro horas
de eternidade. fazer amor com o poeta
é morar no êxtase. permitir a tempestade.


depois do vinho
a varanda será diferente.


saciadas as dores
até o tutano. pontes entre os olhos,
os vidros marrons. a convergência
da boca e do suor. fazer amor com o poeta
é reinventar o êxtase.


depois do vinho
os livros serão outros. papéis de carne
sob minhas mãos.


fazer amor com o poeta. sexo
palavra e ápice.




   Chioda, Leonardo. Tempestardes. São Paulo: Editora Patuá, 2013, p 42.



by Tomoko Shioyasu 



Raphael Rabello - Luiza

conceder às cortinas o dom de sombrear


Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.


Maria Gabriela Llansol, O Começo de um Livro é Precioso


by Laura Stoica