20.4.15



"A crueldade tem um rosto humano,
E o ciúme a humana face,
O terror a forma humana do divino,
e o segredo a humana plumagem..."
(William Blake)

Citado por Doris Lessing, em "Debaixo da minha pele"








Stephane Grappelli and Joe Venuti - My one and only love (from Venupelli...

" A vida "

   "  A vida  "


                                   ouvindo Jane Birkin



tudo não passa
de uma planta que se fecha
em si mesma

no bico
do canário

dentro
da gaiola

numa varanda
chuvosa
bem longe de Tóquio.


      Chioda, Leonardo. Tempestardes. São Paulo: Editora Patuá, 2013, p 101.




Anseio



Anseio 

Quero que desça sobre mim a grande sombra que alivia, 
Aquela que arranca do meu coração a revolta que me impede de ser mansa. 
Quero descansar... 
Quero encontrar aquele que é mais belo que o sol, 
Que aumenta o meu sofrimento e que ajuda na minha redenção, 
Que reparte suas angústias comigo para que lhe sirva de auxílio. 
Quero ouvir a sua voz que é como a música dos mares, 
Quero acolher-me na sua sombra e abraçar-me aos seus joelhos... 
Quero descansar sem demora... 
Quero chegar o tempo da minha última lágrima 
ser recolhida dos meus olhos pisados e saudosos 
Por aquele que é o molde dos poetas, o que se veste com as estrelas que meus olhos 
ainda não vêem.

- Adalgisa Nery

8.4.15

Caminho

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in LIVRO SEXTO (1962); (Porto Editora, 2014), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.

Azar Nafisi

Em persa existe a expressão "pedra paciente", utilizada com frequência em situações de ansiedade e turbulência. Em tese, uma pessoa transfere todas as suas inquietações e infortúnios para a pedra. Ela irá ouvir e absorver todas as suas dores e segredos e, assim, a pessoa estará curada. Em alguns casos a pedra não resiste ao peso do seu fardo e explode
.
Azar Nafisi, "Lendo Lolita em Teerã" - Memórias de uma resistência literária

Placebo - Where Is My Mind Live (HD)

No sítio de São João da Cruz


Adelaide Lessa

Foi um sapo, dos gigantes, que me disse:
— Durma de manhã.
À tarde, esteja quieta.
E, à noite, salte
para ver e ouvir as trevas.
A coruja me disse:
— Banhe-se ao sol da madrugada.
Feche os olhos ao meio-dia.
E na morte do luar
saia para o vôo,
caçadora de estrelas e relâmpagos.
A cascavel me disse:
— Dormite enrolada
à sombra do sol
até que o dia
todos os sentidos
enegreçam de vez.
Então, prepare o bote
a fim de erguer-se
para além das constelações,
onde é senhora de todas as coreografias
a Serpente da Luz.
E o bezerro desmamado,
em seu clamor pelo direito
à mãe vendida,
insistiu comigo:
— Chore, e chore tanto,
na plenitude do negrume,
que a Mãe do Luar se transfigure
em Mãe do Sol Leitoso
e devolva
o êxtase de nutrir-se
no ubre quente da vida.



ENDEREÇO

ENDEREÇO
Sohab Sepehri

“Onde fica a casa do amigo?” Era alvorada quando o cavaleiro perguntou.
O céu fez uma pausa.
O passante tirou o ramo de luz que trazia nos lábios, ofereceu para a escuridão das areias,
com o dedo apontou um álamo e disse:
“Antes da árvore
tem uma alameda que é mais verde que o sono de Deus
e lá o amor é um azul igual ao das penas da sinceridade.
Siga até o fim dessa rua, que vai dar atrás da adolescência
e então dobre em direção da flor da solidão.
A dois passos da flor
fique ao pé da fonte dos mitos eternos da Terra
e um medo transparente vai lhe dominar.
Na intimidade que flui no espaço, ouvirá um ruído:
verá uma criança
que subiu num pinheiro alto para apanhar um filhote no ninho da luz.
E então pergunte a ela
onde fica a casa do amigo.”

Tradução de Nasrin Haddad Battaglia

Foto: Emma Emma




LEITURA



Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.


Adélia Prado em "Bagagem"