10.6.15

Romeu e Julieta

Romeu e Julieta(minificções)
Sérgio Sant'Anna

1

Ele a esperou na porta do colégio. Com quinze anos, era a primeira vez que se aproximava de uma garota. O rosto queimado, ele conseguiu perguntar se podia acompanhá-la. Ela disse que sim.

Sentindo-se ridículo e nervoso, ele perguntou se ela estava com pressa. Ela falou que não. Então ele perguntou se ela queria ir ao cinema. Ela disse que sim.

Não conseguindo concentrar-se no filme, ele olhava disfarçadamente para ela. Seus olhos se encontraram e ela sorria, dando-lhe a mão.

E ele perguntou, de repente, se podia beijá-la. Ela disse que sim. Então seu coração bateu mais forte, porque ele tinha certeza de que, finalmente, as coisas começariam a acontecer.

2

Eles se aproximavam dos sessenta anos e não mais se procuravam na cama. Mas faziam companhia um ao outro e se gostavam, do modo como as pessoas conseguem se gostar nesta idade.

Mas uma noite ele foi até o armário e pegou uma camisa colorida e escolheu sua melhor calça. E depois ela o surpreendeu passando perfume no corpo e penteando com cuidado que restava o que restava do cabelo. Ele saiu dizendo que ia visitar um amigo, mas ela entendeu logo que era caso de mulher.

Deitada, ela se preparou para uma longa espera. Uma hora mais tarde, porém, ele chegou em casa. Jogando-se na cama, acendeu um cigarro e depois outro, olhando fixamente para o teto. Ela o conhecia em todos os gestos e detalhes e soube, desde o primeiro instante, que ele havia falhado. Ela lhe estendeu uma das mãos, que ele apertou com força.
3

Entre arbustos e gangorras, a primeira vez foi num parque municipal. Ela simulou um orgasmo, para que ele não se decepcionasse. Mas nunca sentiu tanto medo, por causa das pessoas que passavam por perto e principalmente por causa dos guardas noturnos.

Depois ela foi para casa e verificou que havia folhas agarradas a sua pele e pequenas dores no corpo. E até hoje, apesar do medo, ela se lembra daquela noite como a melhor de sua vida.

4

Juntamente com outros mendigos, ela dorme sob um dos viadutos da cidade. Suas roupas estão sujas e rasgadas e seu corpo cheira mal. Quando o homem veio para perto e começou a acariciá-la, ela não chegou a consentir, mas também não o recusou. Então ele foi até o fim, afastando-se, depois, em silêncio. Ela nada obteve que se assemelhasse a um prazer, pois a única coisa que estava apta a sentir, além da fome, era um tremendo cansaço.

5

Quando o noivo chegou, ela percebeu mais uma vez que ele era muito gordo e estava sempre transpirando.

Quando ele a beijou na boca, ela o sentiu repulsivo e teve certeza de que iria traí-lo depois do casamento.

Quando ele falou num sistema de prestações, para comprar os móveis, ela pensou que ele era muito chato.

Quando a irmã veio cumprimentá-los, ela se aconchegou a ele de um modo diferente. Porque nunca admitiria que se percebesse o triste fracasso que eles eram.

E quando, finalmente, ele foi embora, ela meteu-se debaixo do chuveiro, ensaboando-se com cuidado, para tirar o cheiro dele. E pensou que gostaria de ser uma outra pessoa. Bem mais jovem e com todas as possibilidades e que tivesse a força de abandoná-lo. Mas ela não era outra pessoa e foi dormir, sabendo que ele voltaria no dia seguinte.

6

Ele deu um beijo nela, na boca. E depois no pescoço e no ouvido. Ela mostrou para ele a pele toda arrepiada. De cima para baixo, ele foi tirando a roupa dela, enquanto a beijava em todas as partes do corpo. Quando chegou lá embaixo, ela enterrou as unhas nos ombros dele e disse que nunca fizera aquilo antes e que aquilo era muito bom.

7

No vigésimo aniversário de casamento, eles foram jantar num dos melhores restaurantes da cidade. Comeram lagosta e tomaram vinho, voltando para casa levemente embriagados. De brincadeira, ele a carregou nos braços, para a cama. Com um vestido na moda, ela se encontrava bastante desejável para uma mulher de mais de quarenta anos. E ele foi tirando a roupa dela, peça por peça. Explorando-a inteiramente nua, como se fosse pela primeira vez, ele verificou que o corpo dela mostrava uma porção de estrias e veias azuis. Ele bem que tentou o máximo, aquela noite, mas simplesmente não conseguiu afastar seu pensamento daquelas veias azuis.

Niva

Uma vez eu a vi tirando a blusa.
O sutiã dela tinha a cor dos barracos do campo de
[trânsito dos imigrantes.
Em nome do exagero eu descrevo os bicos dos seus
[seios como a crista de um galo
degolado,
pode se pensar que ela perdeu a virgindade na cama
[da Agência Judaica.
Chamavam-na Niva. Ela era como uma caixa de doces
[por onde a morte ia e vinha.
Até hoje lembro restos de chocolate no canto de sua boca,
a mão que tocava os corvos rumo à janela quebrada
e o dedo sinalizando que voassem de lá.
 Ronny Someck 




5.6.15

Entrevista com Lobo Antunes









O escritor português António Lobo Antunes, vencedor do prêmio Camões em 2007, fala sobre o processo de escrever e seu mais recente livro, "O meu nome é Legião".

a lua


a lua se esconde
no silêncio 
de um monge



Luiz Gustavo Pires







Charlotte Gainsbourg - Heaven Can Wait (Live on KEXP)

POEMA VIGÉSIMO OITAVO



O poema levanta o focinho para o sol
como o fez a raposa. Agrada-lhe essa luz
que pode curar as sílabas doentes.
O poema persegue animais
de olhos formidáveis. Nas suas coxas ágeis
espreguiçam-se os músculos do dia.
Só o poeta conhece o labirinto. Sabe
como chegar aos limites da surpresa.
E que a dor caminhará em círculos.
Quantas páginas possui essa alegria
que se instalou no flanco dos vocábulos,
e preenche de amor todo o vazio?
Quando o poema escolhe para si uma voz,
fá-lo consciente da sua liberdade. Ninguém
poderá dizer: fui eu que escrevi isto.
O texto é um país difícil. Território
onde a linguagem caminha descalça
sob a luz dos olhos do leitor. Sinto
respirar os livros. Oiço-os segredar
um nome para dar a essa pátria branca
onde se move a palavra inquietação.

Joaquim Pessoa, in “Guardar o Fogo”, página 59, Edições Esgotadas, 2013.




O primeiro brilho do céu

Descerro as grossas cortinas e busco o primeiro brilho do céu, que mostra que a vida está a irromper. Rosto colado na vidraça, gosto de imaginar que me comprimo o quanto posso contra a muralha espessa do tempo, que sempre se alteia e estira para permitir que outros espaços de vida venham de encontro a nós. Que a mim pois seja dado saborear o momento, antes que ele se propague pelo restante do mundo! Que eu saboreie o que existe de mais viçoso e mais novo!

- Virginia Woolf, " O diário de mistress Joan Martyn", "Contos completos"

foto de Holly Warrington



4.6.15

Vastos campos


Vou fazer-te uma confidência, talvez tenha já começado a envelhecer e o desejo, esse cão, ladra-me agora menos à porta. Nunca precisei de frequentar curandeiros da alma para saber como são vastos os campos do delírio. Agora vou sentar-me no jardim, estou cansado, Setembro foi mês de venenosas claridades, mas esta noite, para minha alegria, a terra vai arder comigo. Até ao fim. 

- Eugénio de Andrade, em "Memória doutro Rio". 1978.



[Queen of Sweden. Photo Susan Rushton[

A vida dos obscuros

Marcelo Benini

Os obscuros entram em casa pela fresta da porta
Instalam-se perto dos livros
E só saem às três da manhã
Os obscuros estão sempre atrás das portas entreabertas
Ao moverem-se pela casa
Sabemos que o fazem, pois ouvimos o ruído dos tacos
E muitas vezes sentimo-lhes a respiração
Sobre nossas costas
O tempo todo parecem observar-nos do escuro
Diverte-os que pensemos em coisas como
Vidas passadas
Os obscuros têm a respiração lenta e profunda
Adquirida em incontáveis noites nas bibliotecas públicas
Os obscuros podem ser vistos apenas durante o dia
Sentam-se normalmente na parte de trás dos ônibus.








Os dedos pousados sobre o dorso da loucura.

F. S. Hill



Os dedos pousados sobre o dorso da loucura.

Memória do elefantário plantada à janela.
Mil vezes matei a criança que me urticava.
Cresci velho.
Segui o lado de dentro do caminho.
Desenhei cavernas em redor
e esfreguei o sexo para manter o fogo.
Ficcionei-me.
Deus abandonou-me.
Eu agradecido, fiz-me maior.




[Grace & Charles Darwin. Photo Susan Rushton]





Manhãs em migalhas

Márcia Barbieri

Só por hoje
Rasgarei meu peito
E arrancarei flores de vidro,
pássaros de origami e velhas mágoas

Picaretas dançam entre minhas vértebras

E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI
Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo
Pedaços de sorrisos caem desconexos da minha boca
E eu que imaginei morrer um dia de cada vez – Morte Súbita.Sair

Caminho sobre os muros e observo pipas

Losangos e ilusões em perfeita sintonia
O sol explode amarelo em minha mente
E eu penso: deixa-me tocar os lírios – Só por hoje…



[Anne Boleyn. Photo Susan Rushton]




Lhasa - Rising [Official Music Video]

Confissão




Antes que eu siga para a noite que brilha eterna sem luz,
quero falar uma vez mais, e dizer isto:
Que eu nada mais busquei além
de Ti, de Ti, de Ti só.


Gerard Reve 



[Jubilee Celebration. Photo Susan Rushton]





Erik Satie - The Essential Collection

Ryuichi Sakamoto: Say You Love Me

Emily Dickinson






Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.

               Tradução: Aíla de Oliveira Gomes



Emily Dickinson




Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.
               Tradução: Aíla de Oliveira Gomes







Luz

The Light of Wind, 2005 by Jeffri Larsson




Norah Jones - Summertime

Georgia





Tsminda Sameba Church
Georgia



Vladimir Bazan



Foto de Vladimir Bazan



Funcionária pública

Marcelo Benini

Ninguém entendeu quando a moça da seção
Começou o concerto para piano número 3, de Prokofiev
No meio da tarde só ela ouvia clarinetes e violinos
Batia os dedos violentamente no teclado
Tremulando a melodia nos lábios
E jogando os cabelos no ar
As cortinas esvoaçavam na janela
Não houve pausa para o café
No dia seguinte os processos publicados no D.O.U.
Estavam todos em russo
E a moça digitava feliz uma carta de amor.




Keith Jarrett Trio - Standards In Norway

Fazenda de cacos (o tempo)


Marcelo Benini

Andemos perdidos por esses campos de flores
Onde a pele roça as pétalas no caminho estreito
O semeador de cacos fez um bom trabalho aqui
Nós, os desfigurados, corremos livres pelas plantações
Pisamos as pontas lavradas pela chuva
A mulher velha se abaixa para colher um souvenir
Em cada casa há um jarro com uma flor da fazenda
Belo mesmo é quando as gotas represam nas arestas
Onde o sol faz seu trabalho de secagem
E a plantação extensa ofusca os olhos
Miríades de pontas verdes, vermelhas, amarelas e azuis
Mar de coisas que já foram obra e adorno
Mas que na próspera fazenda agora semeadas
Aguardam a colheita diária dos cacos.






(...) Cuidado com reticências: só as empregue em caso raro. Como depois de um suspiro. Quanto ao ponto e vírgula, ele é um osso atravessado na garganta da frase. Uma minha amiga, com quem falei a respeito da pontuação, acrescentou que o ponto e vírgula é o soluço da frase. O travessão é muito bom para a gente se apoiar nele. Agora esqueça tudo que eu disse.
- Cuidado com o “que”, muitos ques numa mesma frase atropela a gente. Você pode tomar a liberdade que eu já tomei, isto é: começar um frase com “que”. Mas esse recurso já foi por demais imitado, eu já não uso mais, só às vezes.
Quando você fizer sucesso fique contentinha mas não contentona. É preciso ter sempre uma simples humildade tanto na vida quanto na literatura.
Afago os seus cabelos.

Correspondências / Clarice Lispector ; organização de Teresa Montero. Rio de Janeiro, RJ : Rocco, 2002.



Uma romã



Você sabe, desde a minha infância estive sentada assim a esperar, sempre fui dócil, porque esperava você.
Sei que todas as mulheres aguardam.
Aguardam a vida futura, todas essas imagens forjadas na solidão, todo esse bosque que caminha na direção delas;
toda essa imensa promessa que é o homem; uma romã que de repente se abre e mostra seus grãos vermelhos, brilhantes;
uma romã como uma boca generosa de mil gomos.
Mais tarde, essas horas vividas na imaginação, feito horas reais, terão que receber peso e tamanho e aspereza.
Estamos todos - oh meu amor - tão cheios de retratos interiores, tão cheio de paisagens não vividas.


In: Poniatowska, Elena. De noche vienes. Biblioteca Era. México, 1996.