31.12.16

Há em mim um lugar a que chamo casa,
onde sempre o Verão regressará,
com as estrelas de Agosto e o mar
emprestando-nos força e grandeza.
Eu serei verdadeiro, mas há uma verdade maior
da qual eu sou a máscara: alguém
que continuará vivo depois que eu não estiver.
A noite chega às portas do Inverno
e o silêncio cai sobre as casas,
purificando a ruidosa cidade, onde
algum lume, algures, arde escondido
e, embora o mundo enlouqueça à minha volta,
eu tomo consciência de como sou feliz.
Gonçalo B. de Sousa
20-12-2016
Afaste-se de qualquer coisa, ou qualquer um que se afaste da tua alegria.


Schubert: Arpeggione Sonata (Rostropovich / Britten) (1/3)

Mudo, mundo


Como será que os pássaros que vivem no alto mar 
dormem? e como será 
que o sono demora 
no corpo das mulheres 
e pode se ajeitar 
entre o ventre e a virilha 
e como será que a música 
que é gravada 
permanece no silêncio anos? 
e como será que os seios 
ignoram o resto do corpo 
e vivem a mesma vida 
do resto do corpo, enfeite, 
punhal, precisa beleza 
na morte da madrugada 
onde o corpo não dorme 
e como será que o cavalo negro 
acolhe a presença da lua 
na límpida noite 
e, ao chegar da manhã, 
acolhe a presença da moça 
nua que será reflectida 
nos seus olhos 
maior que a manhã 
e como será que a manhã 
acolhe em seu puro ventre 
os seus irmãos rios? 
e como será que a terra 
sabe guardar silêncio sobre a morte 
e como será que as cobras 
se encontram nas florestas 
e como será que o homem vive 
sem abraçar o dia 
e o viandante — irmão do dia? 
Mudo, mundo. 
Cego, homem.

 
José Godoy Garcia, no livro "Araguaia mansidão". Goiânia: Oriente, 1972.

 René Magritte - Completion Date- 1954

30.12.16

Bon Iver - I Can't Make You Love Me • HQ Lyrics

O homem que vinha ao entardecer


(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)

Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.
Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava

que doía.
Jose Eduardo Agualusa, em "O coração dos bosques". 1991



Endre BÁLINT


*
*


Teta Lando - Sonho de um Camponês (Angola, 1992)
https://youtu.be/np3nvM2tlgE


“Eu práttein”, agir bem.


Esta é uma saudação grega antiga considerada, na filosofia, uma fórmula tipicamente platônica, já que era assim que Platão iniciava suas cartas. Em um contexto simplificado, a expressão “eu práttein” (o “bem agir”) designa uma conduta ética capaz de assegurar a felicidade ( “eudaimonia”) a quem a adota. Trata-se de um longo caminho que se dá pela educação e pelo hábito, de um “agir plenamente bom” que levaria a uma vida próspera e realmente feliz, ou seja, ao verdadeiro “bem viver”.
Com este objetivo filosófico, saudamos 2017; "eu práttein”, “agir bem e plenamente” para um Feliz Ano Novo!

(Via Experiências filosófica)s

DUAS BAGATELAS


II
Então viver é ísso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vicio,
só isso.
Paulo Henriques Britto
De Liturgia da matéria (1982)

© Minor White

Pina Bausch "Seasons"

— Às vezes, sentir falta da pessoa que está na cama com você dói mais do que a saudade de quem está em outro continente.
Jostein Gaarder, in O Castelo nos Pirineus


28.12.16

Quinteto Violado - Quinteto Violado - 1972 (Full Album Completo)


desconfie de tudo que lhe parece bonito
as tempestades mudam a paisagem
/ Margarida DI.


© Codrin Lupei
Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado.
- Gabriel Garcia Marques -


Gabriel:


A praça era da
Marco zero da
cidade
Pombas telhados
Uma estação do Metrô

Dentro da Catedral
um ser
humano implora:

- salva-me. Do tempo

Eunice Arruda


Sergio Ceribino



A receita da felicidade


Deixa de lado todos os números não essenciais para sua sobrevivência. Isto inclui a idade, o peso, tamanho. Que isso preocupe somente o médico, ele é pago para isso.
Frequente de preferência os amigos felizes. Os pessimistas não te convêm.
Continua a te educar. Aprendendo sobre computadores, artesanato, jardinagem, etc... Não deixe seu cérebro desocupado, um mental não utilizado é a farmácia do diabo. E o nome do diabo é Alzheimer!
Ria o máximo possível.... e, sobretudo, de si mesmo!
Quando vêm as lágrimas, aceita, sofre e... continua a avançar.
Acolhe a cada dia que se levanta como uma oportunidade, e para isso, ousa empreender.
Deixa cair a rotina. Prefiro as novas rotas aos caminhos mil vezes emprestados!
Apaga o cinza da tua vida e acende as cores que possuis dentro.
Exprime os teus sentimentos para nunca perder nada das belezas que te cercam.
Que a tua alegria habite o teu entorno e miudezas, as fronteiras pessoais que o passado te impôs.
E lembra-te: a única pessoa que te acompanha a vida toda é você mesmo.
Estar vivo em tudo o que fazes!
Rodeia-te de tudo o que você gosta: Família, animais, lembranças, música, plantas, um hobby... tudo o que tu queres!
Seu lar é seu refúgio. Mas, não te tornes prisioneiro.
O teu melhor capital, é a tua saúde. Aproveita, se ela é boa não destrua, se ela não é, não a machuque mais.
Sai na rua, visita uma cidade ou um país estrangeiro, mas não fique aí sobre as más lembranças.
Há seres que fazem de um sol uma simples mancha amarela, mas há também que fazem de uma simples mancha amarela, um verdadeiro sol.
Marc Lagoutte


Cesária Évora & Pedro Guerra - Tiempo y Silencio

Soha Cafe bleu

O lobo




Eu procurei em mim
este lobo guardado
há tempo.
Procurei seu canto
impronunciável
das madrugadas frias,
seu lamento cortando
meu ócio e pânico.
Eu procurei na memória
São Francisco pedindo
pra ele,
não assuste o povoado,
não assuste o povoado,
e ele
se aconchega aos seus pés.
Eu procurei esse lobo
desregrado de geografia
e tropical.
Sinto seu pelo
e reparo no doce arfar
do seu peito.
Despido de fé,
São Francisco,
meu Francisco,
é o mais santo
dos homens.
Meu lobo
olha pra mim
um jeito amoroso
de cachorro
e uiva seu carinho
sobre a lápide
triste da noite.
Sento-me ao seu lado.
A prestidigitação das estrelas
nos acolhe na possível realidade,
a vazão das constelações
ocupa o campo que fitamos
e danço na madrugada.
Ele dorme e manso
eu descanso minha alegria,
minha alegria.
Fiori Esaú Ferrari

Caetano Veloso, Maria Gadú - Odara



Odara significa paz e tranquilidade, e é um termo de origem da cultura hindu. Odara também possui uma grande importância na religião do candomblé e umbanda, e é um tipo de exu.

Odara, um exu muito antigo que rege os quatro elementos da terra, Odara passeia pelo mundo levando boas energias, paz e claro, amor a vida de todos
Precisa de limites mentais. Não precisas esperar. Precisas não esperar nada dos outros. Precisas  não viajar com a tua dor. Precisas orgulho e solidão. Precisa de ordem. Precisa de poesia.
Alejandra Pizarnik



-- Necesitas límites mentales. Necesitas no esperar. Necesitas no esperar nada de los demás. Necesitas no traficar con tu dolor. Necesitas orgullo y soledad. Necesitas orden. Necesitas poesía.
Alejandra Pizarnik

Forsaken Photography 
"é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço"
- Ana Cristina Cesar, poema "Recuperação da adolescência".



José e Pilar - A Pilar

de Jô Diniz
.
Há muitos anos, vendo uma entrevista com Saramago, 
me peguei emocionada com um comentário feito, por ele, 
a respeito da mulher com quem ele vivia: Pilar.
Não conhecia nada a respeito da história dele com ela,
mas o jeito como ele dobrou a cabeça, os olhos e as mãos
ao falar dela emocionado, contando como um gesto cotidiano,
feito por ela, como jogar uma echarpe nos ombros, o encantava,
denunciava um homem apaixonado.
Eu pensei com meus botões, que só deveríamos ficar ao lado de quem nos olhasse com esses olhos, e que jamais deveríamos nos acostumar com menos do que isso.
A Pilar sabia disso, ah, sabia.






coração palpita
o dia se enche de cor
que faço, fraca que sou?

vem, meu amor!
tucakors
07.12.2016



Marisa Monte - E.C.T.

AUTOBIOGRAPHIA LITERARIA

Quando eu era criança
eu brincava sozinho
canto do pátio da escola
totalmente solitário.

Eu detestava bonecos e eu
detestava jogos, os animais não eram
amigáveis e os pássaros
saíam voando.

Se alguém ficasse olhando
para mim eu me escondia atrás
de uma árvore e berrava “eu sou
um órfão.”

E aqui estou eu, o
centro de toda a beleza!
escrevendo estes poemas!
Imaginem!

Frank O'Hara

© Nicolas Baghir



A realidade não existe. Existe o passeio de Jeshua sobre as águas, ou teu longo passeio de dentro sobre muros altos, teu vale colorido de verduras, as grandes cúpulas de turquesa e ouro jorrando luz sobre o teu pobre corpo. Teu pobre corpo não existe.
Hilda Hilst


22.12.16

Geometrie dell'anima - Paolo Fresu

ENGANO



afinal
construímos prédios
casas jardins rosas
desabrocharam
trêmulas, afinal fomos
submissos às ocupações do dia
....... ....... .....às estações do ano
....... .. ..........à rotação da terra

Pensávamos ser esta a nossa pátria

EUNICE ARRUDA


Mont Saint German - Vladimir Bazan

Derek Lee Ragin - Aria 'Alto giove' (from 'Polifemo'), N.Porpora

Tem dor que é exibida, dói com tanto estardalhaço que parece arrastar tudo o que encontra pelo caminho para doer com ela. Tem dor discreta, afeita à pouca luz, que fere com calma, cresce sem fazer ruído, e nos surpreende quando resolve nos contar que está lá. Tem dor que se camufla e se mistura tão perfeitamente às folhagens de algumas emoções, que ao sermos golpeados não conseguimos discernir a origem do ataque. Tem dor antiga que, ao longo da vida, muda de tom, em degradê, mas sempre arruma uma maneira de doer. Tem dor recém-chegada, as malas ainda no chão, que a gente não sabe sequer o nome que tem. Tem dor de tudo o que é jeito na alma.
Ana Jácomo

© Isabelle Eshraghi

A oração Native American Ute



Terra, ensina-me calmo - você ainda é a gordura com uma nova luz.
Terra, ensina-me sofrendo - como pedras velhas sofrem com a memória.
Terra, ensina-me a humildade - como flores são humildes com Beginning.
Terra, ensina-me cuidar - como mães alimentar seus filhotes.
Terra, ensina-me a coragem, - que, assim como a árvore está sozinho.
Terra, ensina-me limitação - como a formiga que se arrasta no chão.
Terra, ensina-me a liberdade - como a águia sobe no céu That.
Terra, ensina-me a aceitação - como as folhas morrem de que cada queda.
Terra, ensina-me a renovação - como a semente que nasce na primavera.
Terra, ensina-me a mim mesmo esquecer - como a neve derretida esquece a vida itos.
Terra, ensina-me a lembrar da bondade - como campos secos chorar com chuva.

© Vladimir Domashko


Carminho, Hamilton de Holanda - Nasci Para Sonhar E Cantar

Cada vez que você faz uma opção está transformando sua essência em alguma coisa um pouco diferente do que era antes.
- C.S. Lewis -

visto do alto





Wislawa Szymborska


um besouro morto num caminho campestre.
três pares de perninhas dobradas sobre o ventre.
ao invés da desordem da morte - ordem e limpeza.
o horror da cena é moderado,
o âmbito estritamente  local, da tiririca à mente.
a tristeza não se transmite.
o céu está azul.

para nosso sossego, os animais não falecem,
morrem de uma morte por assim dizer mais rasa,
perdendo - queremos crer - menos sentimento e mundo,
partindo - assim nos parece - de uma cena menos trágica.
suas alminhas dóceis não nos assombram à noite,
mantêm distância,
conhecem as boas maneiras.

e assim esse besouro morto no caminho,
não pranteado, brilha ao sol.
basta pensar nele a duração de um olhar:
parece que nada de importante lhe aconteceu.
o importante supostamente tem a ver conosco.
com a nossa vida somente, só com a nossa morte,
uma morte que goza de forçada precedência.

"êxodo XXVI"





contra um fundo vazio
vemos os pássaros voarem
em algum lugar escuro
ouvimos a canção das oliveiras
em meio a gemidos de insetos
a névoa se expande sobre nós
mandrágoras morrem – por que olhar para o céu?
*
ZIUL SERIP
(Luiz Gustavo Pires)
verde lavado de chuva
fecho os olhos
solidão 


tucakors
(04/12/2016)

foto tucakors
Tsian Ki 
China (722-780)

O caminho dos simples coberto de musgo vermelho
A janela na montanha abrindo para o azul
Invejo-te o vinho que bebes entre as flores
e todas essas borboletas que voam nos teus sonhos.

Trad.: Jorge de Sousa Braga


Garik Ghazaryan Photographer

        
 
Minha vida,
posso contá-la em duas palavras:
Um pátio
e um pedaço de céu por onde às vezes passa
uma nuvem perdida
e algum pássaro fugindo de suas asas.

Marcos Ana

Tradução de Antonio Miranda

Mieskuoro Huutajat - Kalinka

Epígrafe de "Adam e Evelyn", de Ingo Schulze



"Na mais profunda intimidade de nosso ser, estamos convencidos de que nos cabe viver eternamente. Sentimos nossa transitoriedade e nossa mortalidade como coisas que nos foram impostas à força. Só o paraíso é autêntico; o mundo não é - e sua existência é apenas temporária. É por isso que a história do pecado original apela a nossos sentimentos como se a sabedoria antiga a reevocasse em nossa memória adormecida."

in MEU ABC, Czesław Miłosz

Golden Lion Awarded to Pina Bausch for a Life's Work (2007)

A mulher de burca e eu, a pelada

Mariliz Pereira Jorge
15/12/2016  - Folha de São Paulo

Juro que tento fingir naturalidade, mas em algumas situações os olhos reviram, o cérebro performa duplos twits carpados e o estômago dá uma cambalhota. É assim com cicloativistas pelados e mulheres de burca.
Preciso de um "Globo Repórter" inteiro para conseguir entender como conseguem, onde vivem, o que comem, tomam banho ou só se limpam com toalhinhas umedecidas. Nunca sei como reagir. Fico entre a pena, a inveja, a curiosidade.
Você está lá, tomando um chope gelando, tentando esfriar a cabeça e lá vem uma tropa de pelados em suas bicicletas, passando em frente ao bar. Não adianta, meu cérebro sublima a razão da manifestação e me pego olhando para peitinhos diversos, pintinhos encolhidos, bundas murchas e avantajadas, e sempre penso: quanta gente corajosa.
Eu também protestaria pelo direito de que a gravidade não exerça sua tirania e leve para baixo o que sempre ostentei para cima. Bunda e peitos, para o alto e avante. Mas nunca é sobre isso.
Cicloativistas têm causas mais nobres, das quais nunca consigo me lembrar, imagino que clamem por mais ciclovias, mais segurança, que queiram se libertar de convenções, da ditadura do carro - e das roupas, querem sentir livres seus peitos e pintos que balangam no asfalto esburacado. Quero levar a sério, mas tudo que penso é que vinte agachamentos por dia fariam uma baita diferença no resultado da bicicletada.
Com mulheres de burca é a mesma coisa. Fiz piada o ano inteiro de que precisaria de um burkini para enfrentar a praia e eis que me vejo frente a frente com uma moça toda trabalhada na burca –que nem é burca, porque não cobre os olhos. Neste caso era um xador, roupa que esconde todo o corpo e deixa o rosto de fora. Mas burca virou o genérico para o vestuário feminino islâmico, então, vamos de burca para facilitar.
Na camionete que nos levava da praia, de onde desembarcamos de uma lancha, para o hotel, no sul da Tailândia, eu fazia que não era comigo, mas não conseguia parar de espiar a moça sentada quase à minha frente. Eu, de shortinho, camiseta e havaianas, suando mais do que romeiro no Círio de Nazaré, só pensava no calor que ela devia sentir. Será que essa roupa toda não dá um mega cecê? Será que já fabricam em tecido bactericida?
Ela parecia plena e, se suava, disfarçava bem. Só com muita fé para não derreter nesta estufa. Eu queria saber tudo sobre ela. Seria uma moradora dos Emirados Árabes ou da Arábia Saudita? Quanto tempo era casada, se trabalhava, se podia estudar, se tinha filhos, se podia ir ao shopping com as amigas, se usava roupas de grife embaixo da burca, se tinha Facebook, se fazia selfies, se postaria textão com #nãopassarão, se dedaria alguém na campanha #meuamigosecreto, se fazia chapinha no cabelo, se dava para descuidar da depilação, mas principalmente se não tinha vontade de arrancar aquela roupa toda, dar um mergulho, passar Rayito de Sol e pedir um mojito para o garçom.
Depois de algumas tentativas de interação, desisti. Ela sempre estava acompanhada do marido, não falava com ninguém, nem com os funcionários do hotel, e não me olhava nem de cantinho de olho. E assim foram os quatro dias em que nos cruzamos no gramado que rodeava os chalés, nas mesas do café da manhã, nas espreguiçadeiras da praia. Ela, coberta da cabeça aos pés, eu, seminua, como uma índia tupinambá, besuntada em Australian Gold FPS 8.
Até que no último dia, enquanto eu traçava meus ovos mexidos com bacon, percebi que ela me olhava. Quase engasguei com o pedacinho de pão, molhadinho na gema, mas mantive o olhar. Foram três segundos, antes que ela me abandonasse de novo com todas aquelas perguntas sem respostas. Foi uma fração de tempo em que ela me olhou, sem esboçar nenhuma reação, mas suspeito que aquela infração no comportamento foi solidariedade apenas para me dizer: moça, era melhor ter trazido o burkini.

Belchior - Comentários a Respeito de John

"Quanta força pode ter, na verdade, um coração que ficou perdido?"
- Haruki Murakami





MORRER DE AMOR


Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
(Maria Teresa Horta, in "Destino". Quetzal Ed.)


Zucchero - Va, Pensiero (Nabucco)

“Como surpreender, adivinhar, por detrás do silêncio, cada grão de som?”
.
- João Guimarães Rosa, da novela “Buriti”, em "Noites do Sertão", no livro 'Corpo de Baile'. 1965.

"O que se torna preciso é, no entanto, isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas - eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações."
- Rainer Maria Rilke, em "Cartas a um jovem poeta." [tradução Paulo Rónai].


Lille Bjørns Ven, via day-andmoonlightdreaming

19.12.16

Dead Can Dance - "Cantara"

Seus olhos sempre puros


Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte dos mares,
De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.
Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça
E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.
Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra
E na água, vi-os.
Suas asas são as minhas, nada mais existe
Senão o seu vôo a sacudir minha miséria.
Seu vôo de estrela e luz,
Seu vôo de terra, seu vôo de pedra
Sobre as vagas de suas asas.
Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.

- Paul Éluard, em "Poemas




A que há de vir



Aquela que dormirá comigo todas as luas 
É a desejada de minha alma. 
Ela me dará o amor do seu coração 
E me dará o amor da sua carne. 

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo 
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios 
Ela é a querida da minha alma 
Que me fará longos carinhos nos olhos 
Que me beijará longos beijos nos ouvidos 
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso. 
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas 
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego 
Ela abandonará filho e esposo 
Abandonará o mundo e o prazer do mundo 
Abandonará Deus e a Igreja de Deus 
E virá a mim me olhando de olhos claros 
Se oferecendo à minha posse 
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor 
Cheia de uma pureza luminosa. 
Ela é a amada sempre nova do meu coração 
Ela ficará me olhando calada 
Que ela só crerá em mim 
Far-me-á a razão suprema das coisas. 
Ela é a amada da minha alma triste 
É a que dará o peito casto 
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração 
Ela é a minha poesia e a minha mocidade 
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma 
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele. 

Ela é o amor vivendo de si mesmo. 
É a que dormirá comigo todas as luas 
E a quem eu protegerei contra os males do mundo. 

Ela é a anunciada da minha poesia 
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos 
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta
Vinicius de Moraes