29.1.16

POEMA DAS MÃES


As mães são bonecas quebradas que nós esquecemos no sótão
Um dia foram românticas e amaram desesperadas
Respeitem o seu segredo que explode em súbitas lágrimas
Embora pareçam escravas todas possuem uma alma
Na verdade são mulheres que sonharam apaixonadas
E um dia sem ter remorso despediram-se de casa
Na vida e no romance são estranhas personagens
Perdidas de seus volumes na poeira das estantes
Eu sou a que ensaiou o vôo mas permaneceu na praia
Aquela que cruzou o porto mas voltou na hora marcada
Salvou-me a maresia do convés dos transatlânticos
E o hábito de reger os pássaros ao chegar a madrugada
Os partos cobriram minhas asas de raízes e folhas de árvores
E três rostos diferentes complementam minha face
O jejum me devolveu a primeira virgindade
E eu me tornei mártir de uma estória extraordinária
As mães são apenas mulheres aspirando à divindade
O espírito de aventura sublimado na paisagem
Criticadas por suas filhas sobrevivem como fadas
São as primeiras muralhas que desejamos quebradas
Assim como essas bonecas que nós esquecemos no sótão
(Lucila Nogueira, "Casta Maladiva")



Esbjörn Svensson Trio - Goldwrap

A CORTESIA DOS CEGOS



O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê-pois já não pode parar –
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
Ele gostaria de omitir – embora seja impossível –
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.

Wislawa Szymborska

Adolph Menzel (German, 1815-1905)





Sobre os anos 10


Anna Akhmatova

E nenhuma infância cor-de-rosa
Nem pequeninas sardas, nem ursinhos, nem anéis de cabelo,
Nem tias bondosas, nem tios aterradores, nem mesmo
Amigos entre pequenas pedras de rio.
A mim própria desde o próprio início
O sonho de alguém parecia ou o delírio
Ou o reflexo em expelho alheio,
Sem nome, sem carne, sem razão.
Já sabia a lista dos crimes
Que devia cometer.
E eis que, andando qual sonâmbula,
Entrei na vida e assustei a vida:
Diante de mim estendia-se como um prado,
Onde outrora passeava Proserpina,
Diante de mim, sem raízes, sem jeito,
Abriram-se portas inesperadas,
E saíam gentes e gritavam:
"Ela chegou, ela por si própria chegou!"
Mas eu olhava com espanto
E pensava: "Perderam o juízo!"
E quanto mais me elogiavam,
Quanto mais me admiravam,
Mais medo me dava neste mundo viver
E mais me apetecia despertar,
E sabia que pagaria muito caro
Na prisão, no túmulo, no manicômio,
Em qualquer lugar onde devem acordar
Os como eu - mas continuava a tortura da felicidade!"
*
(4/7/1955 - Moscovo).



JAN VAN DER KOOI


Augustus - 2008 - olieverf op paneel - 80 x 100 cm




http://www.janvanderkooi.nl/

Manual de estilo de Raymond Chandler

Reunimos aqui alguns achados linguísticos de R. Traduzidos por Braulio Tavares, aparecem nos quatro principais romances de Chandler publicados pela Alfaguara: O sono eterno,Adeus, minha querida, A dama do lago e O longo adeus.
Homens
  • Perigoso como um esquilo.
  • Mole como um prato de mingau frio.
  • Matreiro como Richelieu por trás da tapeçaria.
  • Nervoso como um muro de tijolos.
  • Charmoso como uma cueca de metalúrgico.
  • Expressivo como um sarrafo de madeira.
  • Mais frio do que os pés de Finnegan no dia em que foi enterrado.
  • Nervoso como uma viúva que não consegue encontrar o toalete.
  • Tão honesto quanto é possível a um homem num mundo onde ser honesto está fora de moda.

* * *

  • Careca como um tijolo.
  • Barrigudo como todos os homens musculosos ficam na meia-idade.
  • Magro como um arame.
  • Esguio como um chicote.
  • Pesado como um bloco de cimento.
  • Calmo como um muro de adobe à luz do luar.
  • Tão difícil de avistar quanto o Dalai Lama.
  • Grosso como uma porta de cofre.
  • Duro como uma tábua.
  • Magro como um ancinho e duro como o gerente de uma casa de agiotagem.

* * *

  • Verde como o verso de um dólar novo.
  • Esgotado como um pedaço de barbante mastigado.
  • Cansado como um jantar mal digerido de um pé-sujo qualquer.
  • Animado como um papa-defunto num enterro pobre.
  • Vazio e oco como os espaços entre as estrelas.
  • Silencioso como um arrombador atrás da cortina.
  • Fungando como um cachorro que não consegue terminar seu almoço.

* * *

Mulheres
  • Linda como uma calcinha rendada.
  • Loura daquelas de fazer um bispo quebrar um vitral com um pontapé.
  • Calma como uma tigela de creme.
  • Delicada como uma calçada.
  • Nua e cintilante como uma pérola.
  • Tão platinada que seu cabelo brilhava como uma fruteira feita de prata.
  • Mais fácil de levar pra cama do que uma almofada.
  • Chateada como um vereador com caxumba.
  • Remota e límpida como água da montanha.

* * *

Odores
  • Tão forte que dava para construir uma garagem em cima dele.

* * *

Olhos
  • Cintilantes como luzes em águas paradas.
  • Duros como uma ostra numa concha aberta.
  • Tão saltados das órbitas que pareciam estar montados em pernas de pau.
  • Como os de um entomologista olhando para um besouro.
  • Fechando-se como uma cortina vagarosa num teatro.
  • Confusos como um cavalo que errou de estábulo.
  • Estreitos como um brilho verde e distante, como uma lagoa perdida entre as árvores da floresta.

* * *

Estrada
  • Monótona como uma cantiga de marinheiro.

* * *

Lago
  • Imóvel como um gato adormecido.

* * *

Ondas
  • Encapeladas e espumosas, quase sem som, como um pensamento tentando se formar lá nas bordas da consciência.

* * *

Brilho do sol
  • Tão forte que parecia dançar.
  • Tão vazio quanto um sorriso de maître d’hotel.
  • Tão claro e seco quanto uma dose de velho xerez pela manhã.

* * *

Voz
  • Dura como uma bisnaga.
  • Falsa como os cílios de uma atendente e escorregadia como uma semente de melancia.
  • Dura como a lâmina de uma pá.
  • Arrastada como um homem doente se levantando da cama.
  • Soando como um editorial que esqueceu a própria tese que pretendia demonstrar.

* * *

Comida
  • Com o gosto de uma sacola de carteiro jogada fora.
  • Saboroso como um pedaço de camisa velha.

* * *

Sorriso
  • Como uma galinha com soluços.
  • Mais velho do que o Egito.
  • Duro como um peixe congelado.
  • Ardiloso como uma ratoeira quebrada.

* * *

Tempo
  • Se arrastando como uma barata doente.

* * *

Desfecho
  • Tão mortal que chega a ser engraçado.

* * * * *



http://www.blogdacompanhia.com.br/2016/01/manual-de-estilo-de-raymond-chandler/



Ron Carter Trio - Jazzwoche Burghausen 2006

UMA FOTOGRAFIA DE CRIANÇA


Existe uma foto infantil de Kafka. Poucas vezes a ‘pobre e
breve infância’ concretizou-se em imagem tão evocativa. A foto foi
tirada num desses ateliês do século XIX, que com seus cortinados e
palmeiras, tapeçarias e cavaletes parecia um híbrido ambíguo de
câmara de torturas e sala do trono. O menino de seis anos é
representado numa espécie de paisagem de jardim de inverno,
vestido com uma roupa de criança, muito apertada, quase
humilhante, sobrecarregada com rendas. No fundo, erguem-se
palmeiras imóveis. E, como para tornar esse acolchoado ambiente
tropical ainda mais abafado e sufocante, o modelo segura na mão
esquerda um chapéu extraordinariamente grande, com largas abas,
do tipo usado pelos espanhóis. Seus olhos incomensuravelmente
tristes dominam essa paisagem feita sob medida para eles, e a
concha de uma grande orelha escuta tudo o que se diz.
Walter Benjamin, "Franz Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte"





COMO YO LA QUERÍA


Morir como muere un animal pequeño
en los cuentos para niños.
Eso tan terrible.
Lleno de hermosura.
Alejandra Pizarnik



Jonny Lang - Lie To Me

JUSTIFICAÇÃO DE DEUS


Leonardo Fróes
o que eu chamo de deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de deus. Um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimento dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam para construir contra a água.
Também chamei de deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
E é ainda a palavra deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa.
(De Sibilitz, 1981)

Quando os começos dos livros já contêm toda beleza do mundo



Um Homem Só
[Chistopher Isherwood]
"Despertar começa com o dizer-se sou agora. Aquilo que acordou fica, então, deitado por algum tempo, contemplando, lá em cima, o teto e, cá embaixo, a si mesmo, até reconhecer o eu e, portanto , deduzir eu soueu agora sou."

Noites de Alface
[Vanessa Barbara]
"Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuavam úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dento do balde. Os potes recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoito aberto, em cima do sofá - Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias."

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
[Clarice Lispector]
","

O Filho de Mil Homens 
[Valter Hugo Mãe]
"Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas. Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía."

Lavoura Arcaica
[Raduan Nassar]
"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo."

A Bolsa Amarela
[Lygia Bojunga]
"Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades."

Bonsai
[Alejandro Zambra]
"No final ela morre e ele fica sozinho"

A Morte do Pai
[Karl Ove Knausgard]
"Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para."


Tonbruket - Trackpounder

John Lee Hooker - Seven days

Charles Lloyd Quartet - Caroline No

Pequenas bençãos


Ir ao cinema às três da tarde num dia de semana.
Ganhar um piscar de olhos demorado de um felino.
Aprender.
Passar uma tarde inteira tomando café com amigas
Falar sobre o cosmos, limpeza e literatura, sem mediação entre os temas.
E se despedir só à noite .
Saber, num abraço, que o diamante da amizade foi cultivado à sua revelia .
Olhar as três Marias.
Pegar um ônibus com itinerário pela praia.
Olhar o mar.
Amanhecer num dia nublado e fresco no Rio de Janeiro
Saber que uma pessoa que sofreu muito
Agora está aconchegada e feliz.
Brindar à vida
Correr na praia e mergulhar no mar.
Conversar com um bebê
Ter o dedo indicador envolvido por sua mão pequenina.
Achar um livro imaginado impossível num sebo
Descobrir uma dedicatória amorosa num volume perdido
Saber que haverá uma reunião
com o propósito de comer chocolates.
Perder a reunião, podendo marcar para outro dia.
Os cinco minutos, quando se termina de ler um romance.
Chegar da rua
Fechar a porta
Se jogar na cama
E ler um poema
De Wislawa Szymborska.

Cassiana Lima Cardoso.



Oração do boi


Me dê tempo, meu Deus.
Os homens são tão afobados.
Faça com que eles compreendam: eu não posso
andar depressa.
Me dê tempo de comer.
Me dê tempo de caminhar.
Me dê tempo de dormir.
Me dê tempo de pensar.
Amém.



Carmen Bernos de Gasztold. in: Poesia Traduzida. Carlos Drummond de Andrade, Cosac Naify, p. 160 -161.


Artist Jian Chang-Ta, Summer Feelings


BISCOITO FINO



pegar uma palavra como lata
bater para que ganhe ritmo
cortar para que vire roda
por ao sol para que se ilumine
por na chuva para que cante
dar tempo para que enferruje
lixar para que se renove
narrar para que seja livro
quebrar para mudar a forma
mastigar para que machuque
fazer dela um carro
uma arma mortal
uma panela de cozinhar miolos
um utensílio de culturas primitivas
um verbo inquieto a cada dia

*
isso é apenas palavra
tambor de deuses malucos
xamanismo poético
passagem para mundos e fundos
de latas de biscoito fino
Celia Musilli



Tom Dante

Cisne


Orides Fontela

"Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
– a presença do cisne?
Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e – humana –
é esplendor memória
e sangue.
E
resta
não o cisne: a
palavra
– a palavra mesmo
cisne."


©Wiley Ware

Árias Pequenas. Para Bandolim


Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.
(Hilda Hilst)

Brett Whiteley (Aus. 1939-1992)  Woman in a Bath (1964)



Amor como tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpagos e sóis
inaugurando auroras
ou ateando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.
(Astrid Cabral. De Déu em Déu, Editora Sette Letras, 1998 - RJ, Brasil)





Um poema de Kim Kwang-söp (poeta coreano) Individualidade


Individualidade

"Embora vindo de um vale pobre da montanha
Nascido como um seixo
Para jamais ser uma grande rocha
Ou
Fluindo como um córrego
Para jamais ser amplo como o mar
Você terá momentos de voares infinitos."
Kim Kwang-söp (1905~1977)





"não te ponhas, de manhã, na janela
a vigiar o tempo
olha pra dentro
no rejunte dos azulejos
nas trincas dos vidros e dos espelhos
na poeira sobre os livros da estante
na remela dos olhos do cão
nos farelo do pão amanhecido
na xícara de chá de ontem
esquecida sobre a mesa da sala
é lá, onde o bicho se esconde
roedor faminto — impiedoso — vigia!"


Nydia Bonetti



Sem preconceito



Senta no primeiro degrau

o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.

Ambas têm veios negros.


E sê atenta aos sinais

a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem

o que ela diz calada.


Escuta e sê atenta

lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.

Sem preconceito, são inocentes?

- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


querida angélica



querida angélica não pude ir fiquei presa
no elevador entre o décimo e o nono andar e até
que o zelador se desse conta já eram dez e meia
querida angélica não pude ir tive um pequeno
acidente doméstico meu cabelo se enganchou dentro
da lavadora na verdade está preso até agora estou
ditando este e-mail para minha vizinha
querida angélica não pude ir meu cachorro
morreu e depois ressuscitou e subiu aos céus
passei a tarde envolvida com os bombeiros
e as escadas magírus
querida angélica não pude ir perdi meu cartão
do banco num caixa automático fui reclamar
para o guarda que na verdade era assaltante
me roubou a bolsa e com o choque tive amnésia
querida angélica não pude ir meu chefe me ligou
na última hora disse que ia para o havaí
de motocicleta e eu tive que ir para o trabalho
de biquíni portanto me resfriei
querida angélica não pude ir estou num
cybercafé às margens do orinoco fui sequestrada
por um grupo terrorista por favor deposite
dez mil dólares na conta 11308-0 do citibank
agência valparaíso obrigada pago quando voltar

[Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho, Cosac Naify, 2012]



O punhal tingido


Não estremeças a mão
Desmancha ferozmente, igual ao vento,
Estas pétalas de sangue, ainda vivas,
Armadas na desordem de uma flor.

Quem fui? Que sou?


Agora, um senhora antiga

Que na tarde silenciosa de abril,
Borda sonhos na forma
De perfeita e sangrenta rosa.

E tu quem és agora?

- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.

Emil Nolde - Magnolia Blossom, 1930



POEMA DE NOVEMBRO


Ruy Espinheira Filho

O difícil é aguentar até que a morte chegue.
Suportar, por exemplo, a memória do teu corpo
e aquela noite (era maio) sob
o branco incêndio da lua.
E tanto mais, tanto mais.
Uma vida não dá
para contar
uma vida.
E toda uma
às vezes
se consome
numa carícia entre lençóis.
O difícil é aguentar até que a morte
chegue.
A morte
que mata todas as mortes,
sepulta
para sempre
todos os mortos. Como
este cadáver de amor
que me perfuma.
( Do Livro " A Canção de Beatriz" 1990.)

© Jake Stangel



Enfim chega a chuva
essa linda que lava a noite
e lava a vida da noite
nos meus olhos.

(Lázara Papandrea)

Tanka

ando pela ilha
e uma outra ilha
anda dentro de mim

um barco avariado
balança perto do cais

(Rose Mendes)



Sherazade

(Sherazade finalmente se assusta:
Shariar come a lua das noites)
Sherazade acredita em seus superpoderes
E mesmo sabendo que Shariar
Não lhe conta nada do seu passado
Ela pensa que isso é saber tudo
Shariar não mata assim que elas chegam
Primeiro ele conta histórias
Primeiro ele diz que ama
Depois ele bate
Depois ele espanca
Depois ele diz que ama
Mesmo desconfiando que o amor dói mais do que
Deveria
Elas ficam até seu abatedouro
Acreditando em seus superpoderes
De mudar Shariar
Foi Shariar quem inventou essa história
De que Sherazade continuava viva.
Adriane Garcia

© Abdelali Essaouis


Em cada página, o teu olhar

Em cada página, o teu olhar, em cada montanha,
a tua voz, deixa-me falar contigo. Lembro-me
tão bem de tudo o que me disseste.
as palavras existem. Eu quero encontrar-te
sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis
desarrumados onde desarrumo a nossa vida.
em cada página, os campos. Em cada montanha,
tu a chamares-me. As páginas são, outra vez,
o dia em que nasci. Lembro-me tão bem de tudo.
passam anos sobre as palavras. Os dias existem.
Seguro os livros como se segurasse a tua voz
e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.
josé luis peixoto



17.1.16

Dia de Reis

Estava tomando meu café sozinha e me lembrei que HOJE É DIA DE REIS!!!
Comparação... Se no lugar de 3 reis magos tivesse sido 3 RAINHAS MAGRAS. O mundo seria outro. Elas não seguiriam estrelas, pediriam informação. Assim, teriam chegado a tempo de ajudar Maria no parto, dariam uma ajeitada no estábulo, fariam uma canja e ainda levariam presentes úteis... uns paninhos, galinha gorda, qualquer coisa que pudesse dar conforto. Mas não. Aqueles 3 reis magos seguiram estrela, chegaram tão atrasados que o umbigo de Jesus já tinha caído. Quase que não salva o menino das garras de Herodes. Sem contar a inutilidade de ouro, incenso e mirra naquele momento. E assim engatinha a humanidade com sua história escrita por homens.
( de Cida Mendes,Concessa )




QUEM CANTA?


Nydia Bonetti.
III
a noite é um bicho que tenta
arrombar as janelas
* invasão - a noite entra e se instala nos olhos



Auto-retrato no tempo


Anatol E. Baconsky - (1925 - 1977)
Fui semelhante ao bosque, ao moinho de vento,
aos calados, negros e desconhecidos cruzeiros,
às sombras dos cavalos
sobre as altas colinas da Moldávia,
fui até semelhante à silhueta dos estranhos
deuses enterrados na areia do mar.
Quanto tempo passou desde então?
Devem ter passado muitas chuvas, muitas tempestades,
devem ter caído muitas muralhas, e muitas hostes,
devem ter sido quebradas muitas correntes,
queimados e esparzidos muitos impérios
até se assemelharem a mim mesmo.