7.2.16

Silêncio



Se a gente para a fim de escutar
A fim de escutar o silêncio
A gente ouve um zumbido
Um zumbido de silêncio.

De uma estrela da noite cai um vago clarão
Para clarear o silêncio, o silêncio dos Silêncios.
Um coelho se detém, se detém indeciso
Perturbado pela voz majestosa do silêncio
Ele procura sua toca, sua toca na mata
E na sombra da noite não a encontra.
Um pinheiro adormece sob os braços de sua mãe
Sobre os braços de sua mãe ele adormece
E numa voz suave o silêncio canta
Os louvores do silêncio.

Marie-Laure David, in "Poesia traduzida', de Carlos Drummond de Andrade



Lhasa - Por eso me quedo

Oração do Galo



Convém lembrar, Senhor,
que eu faço nascer o Sol.
Sou seu servidor,
mas a importância de minha função
me compele a uns tantos brilharetes e mundanices.
Noblesse oblige....
Apesar de tudo,
sou seu servidor.
Mas convém não se esquecer, Senhor,
de que eu faço nascer o Sol.
Amém.

Carmen Bernos de Gasztold. in: Poesia Traduzida. Carlos Drummond de Andrade, Cosac Naify, p. 160 -161. 




Interlúdio


As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales.
Não expliques o presente,
pois tudo é demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
Cecília Meireles



Concha Buika - Ne Me Quitte Pas

Nina Simone - Just Say I love Him (Nina's Choice)

Minas Gerais



"Há noites em que os lobos se calam e somente a lua uiva..."



2 poemas

Baobá
Vontade de fazer
uma coisa grande
de futuro imenso:
plantar um pé
de jacarandá
um baobá
e deixá-lo aí
para beijar 
a cumeeira
dos séculos,
zombar de tudo
que é breve
e que, como nós,
se consome 
no atrito das
horas, na
vertigem
incontrolável
das coisas miúdas.
- Carlos Machado, em "Tesoura cega". São Paulo: Dobra Editorial, 2015, p. 79.


Caminhada
Consente o caminhar
com passo
de não chegar
a lugar algum:
anda porque andas,
pelo simples
prazer de ter o 
vento na pele
e o olha na flor
vadia da beira
do caminho.
- Carlos Machado, em "Tesoura cega". São Paulo: Dobra Editorial, 2015, p. 81.





Astor Piazzolla & Gerry Mulligan - Years of Solitude - Italy 74

Dançar

"Dançar. Dançar a derrota do meu adversário. Dançar na festa do meu aniversário. Dançar sobre a coragem do inimigo. Dançar no funeral do ente querido. Dançar à volta da fogueira na véspera do grande combate. Dançar é orar. Eu também quero dançar: A vida é uma grande dança."
- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.16.




Marguerite Yourcenar

Simply Falling - Iyeoka (Official Music Video)

EXCERTOS E CITAÇÕES DA OBRA DE PAULINA CHIZIANE

"Digo-vos, porém, que cada mundo tem a sua beleza. Há os que consideram belas as mulheres de pele clara. Outros acham belas as feições harmoniosas e o caminhar elegante. Ainda há quem considere belas aquelas que transportam enormes abóboras no traseiro. É como vos digo, cada mundo tem a sua beleza. No campo é mais belo o rosto queimado de sol. São belas as pernas fortes e musculosas, os calcanhares rachados que galgam quilômetros para que em sua casa nunca falte água, nem milho, nem lume. São belas as mãos calosas, os corpos que lutam ao lado do sol, do vento e da chuva para fazer da natureza o milagre de parir a felicidade e a fortuna."

- Paulina Chiziane, em "Balada de amor ao vento". Lisboa: Editorial Caminho, 2003. 


"Amor. Tão pequena, esta palavra. Palavra bela, preciosa.Sentimento forte e inacessível. Quatro letras apenas, gerando todos os sentimentos do mundo. As mulheres falam de amor. Os homens falam de amor. Amor que vai, amor que vem, que foge, que se esconde, que se procura, que se encontra, que se preza, que se despreza, que causa ódios e acende guerras sem fim. No amor, as mulheres são um exército derrotado, é preciso chorar. Depor as armas e aceitar a solidão. Escrever poemas e cantar ao vento para espantar as mágoas. O amor é fugaz como a gota de água na palma da mão."
- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.13.


"Olho para todas elas. Mulheres cansadas, usadas. Mulheres belas, mulheres feias. Mulheres novas, mulheres velhas. Mulheres vencidas na batalha do amor. Vivas por fora e mortas por dentro, eternas habitantes das trevas. Mas por que se foram embora os nossos maridos, por que nos abandonam depois de muitos anos de convivência? Por que nos largam como trouxas, como fardos, para perseguir novas primaveras e novas paixões? Por que é que, já na velhice, criam novos apetites? Quem disse aos homens velhos que as mulheres maduras não precisam de carinho?" 

- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002, p. 14.


"Tento beijar-lhe o rosto. Não a alcanço. Beijo-lhe então a boca, e o beijo sabe a beijo e vidro. Ah, meu espelho confidente. Ah, meu espelho estranho. Espelho revelador. Vivemos juntos desde que me casei. Porque só hoje me revelas o teu poder?"

- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002, p. 19.

(via Templo Cultural Delfos)




Foto: Paulina chiziane - foto: Douglas Freitas




Hindi Zahra - The Man I Love

As coisas


As coisas não têm culpa.
São apenas testemunhas
de nossas comédias.

As coisas não abraçam causas.
É inútil acusá-las
de qualquer inclinação,
lealdade ou felonia.
Substantivos neutros,
são apenas coisas:
este botão descosturado de tua blusa
este chinelo ao pé da cama
um folha de papel em branco
- e nenhum drama.
As coisas não guardam segredos
nem remorsos.
Assistem caladas
e resistem
vestidas de cal e silêncio.
As coisas não têm quereres
nem poderes.
Mas, desassombradas,
exibem sempre
o semblante estoico da pedra.
 
Nisso as coisas são todas iguais
— todas indiferentes.

- Carlos Machado, em "Tesoura cega". São Paulo: Dobra Editorial, 2015, p. 13.




Oração do Gato


Senhor,
eu sou o Gato.
Não, precisamente,
que tenha alguma coisa a lhe pedir.
Não peço nada a ninguém.
Mas se por acaso o Senhor  tivesse 
aí nos celeiros do Paraíso
um ratinho branco
ou um pires de leite...
Sei de alguém que aprecia essas coisas.
O senhor vai amaldiçoar, um dia, a raça canina?
Ah, nesse caso, eu diria:

Amém.

Carmen Bernos de Gasztold. in: Poesia Traduzida. Carlos Drummond de Andrade, Cosac Naify, p. 160 -161. 





Ella Fitzgerald - Moonlight Serenade (High Quality - Remastered)

Viaduto do Chá


Dizia a minha pobre mãe que o tempo muda
de direção.
A infância que perdi.
A juventude que também perdi;
o velho cão asmático.
Havia um riacho cheio de peixes translúcidos;
e a grama coberta pela geada.
O automóvel azul.
Eu guardei segredos,
guardei moedas que já não tem valor.
O medo, o espanto.
O primeiro amor que nunca veio.
Curau de milho.
Chumbo derretido sobre a placa de zinco.
As casas inacabadas;
pequenos prêmios em palitos de sorvete.
Surpresas e goiabas.
As palmeiras imperiais que indiferentes me fitam
quando cruzo o Viaduto do Chá,
no tempo em que o tempo muda de direção.
(José de Arimatéia)




Fisionomia


não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói
(Ana Cristina Cesar)


eliane elias - my foolish heart HQ

89


Sou tão velha que meus amantes já são nomes de ruas
Sou tão velha que minhas vontades já estão nuas
Sou tão velha que minhas verdades já são as suas.
Eu sou do tempo em que se fumava no cinema.
Sou tão velha que minha voz agora é boa para ler um poema.
Sou livre:
Posso fazer o que quiser que ninguém liga.
Parte de mim
Mora numa foto antiga.
(Greta Benitez, Canção Antique, Editora Patuá).




Gilad Hekselman Trio - Eyes To See

A meu favor


Alexandre O'Neill


A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

(O'NEILL, Alexandre. No Reino da Dinamarca. Lisboa: Guimarães, 1958)

Philippe Charles Jacquet .Le dernier verre

Você só diz

O que eu não quero ouvir.
Não fala de uma ilha
onde nasce um rio
que deságua céus.

Não lembra caminhos
indo, indo se esconderem
em matos e pedras.

Não ergue o facâo do sol
e faz zunir centelhas
nas alamedas do estio.

Nem traz assombros
de ramagens na noite
pisando o carmim das flores.

Você só diz – Eu te amo.

Assim não dá, é pouco
muito pouco para se levar a vida.
- Deborah Brennand, em "Folhagens". Recife: Travessa dos Editores, 2002.




6.2.16

JIM CARREY - I AM THE WARLUS

Cadillac In The Swamp

Adeus


Eugénio de Andrade
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Técnica mista: Poissons d'avril, por ©elf2mani



HORA DO MARINHEIRO PARTIR


- Você compreende, não é, mamãe, que eu não posso gostar de você a vida inteira.
Clarice Lispector, em "Para não esquecer"




Jordi Savall. Invocation

Passei, agora, pela sala

Passei, agora, pela sala,e ainda é cedo, e eis que um Saci, dos Pererês, estava sentado de pernas cruzadas fazendo cócegas em meu gato Zeca, assim que me viu, piscou um olho e virou fumaça de cachimbo, mais um
início de noite peculiar. Desde as caçadas de Pedrinho ele não nos visitava.
~Maria Lucia J. Borges







Pet Shop Boys - Being Boring

ALDEIA ITALIANA


Os homens têm lábios vermelhos e se reproduzem. As mulheres se deformam amamentando. Quanto aos velhos, os velhos não são excitados. O trabalho é duro. A noite, silenciosa. Não há cinemas. Na porta de casa a beleza das moças é a de ficar de pé no escuro. A vida é triste e ampla como deve ser uma vida na montanha.
- Clarice Lispector, em " Para não esquecer"



Pet Shop Boys - It's A Sin

Rakushisha

Rakushisha é um livro silencioso, de escrita discreta e desencadeada com uma delicadeza ímpar. Pena ser tão curto porque a vontade que fica quando se chega ao final é de conhecer ainda mais as vidas de Celina e Haruki.

Ele, um ilustrador que recebe a missão de desenhar a tradução do diário de Bashõ e resolve ir pro Japão em função desse trabalho. Ela, uma mulher que carrega uma dor em segredo e decide embarcar com Haruki para o outro lado do mundo depois de conhecê-lo no metrô do Rio de Janeiro.

Desconhecidos, os dois partem juntos para essa viagem, mas empreendem, cada um a seu modo, viagens interiores. Os deslocamentos seguem duas ordens, uma externa e ourtra interna.

"Eu me pergunto se a vida por acaso se faz de reencontros. Talvez se faça muito mais de tangentes, de movimentos periféricos, de olhares fugidios que no instante seguinte já se dissiparam. Por que fincar os pés, então? Por que não somente viajar?"

O livro se interpôs em meu caminho quando, ao abri-lo no dia 17 de junho percebi que a narrativa começava exatamente nessa mesma data. Estava mergulhado em outras leituras, mas diante dessa coincidência, o livro parecia pedir para ser lido.

Dona de uma escrita leve (nem por isso, banal), Adriana Lisboa parece sussurrar a história pelas páginas e nas idas e vindas empreendidas pelos dois protagonistas nos vemos envolvidos com a trama desejando mergulhar cada vez mais fundo nas motivações de cada um deles para fazer a viagem descrita no livro.


"A viagem sempre é pela viagem em si. É para ter a estrada outra vez debaixo dos pés. Há sempre um 'e se' em algum lugar"

O segredo de Celina, embora previsível já nos primeiros capítulos do livros, acaba por nos conduzir a um amontoado de dores e memórias carregadas por mágoas passadas que por sua vez são entrelaçadas a amores perfeitos e desfeitos. Parece piegas no tema, mas na forma a autora consegue fugir das armadilhas criadas por esse tipo de abordagem temática.

Entremeado por trechos do diário e belos haikais do poeta Matsuo Bashõ, Rakushisha tem a serenidade e o ritmo que se estabelece numa outra ordem diferente das acelerações típicas do ocidente e permeado por uma filosofia que se aproxima daquela pregada pelo oriente.

"Lua na alvorada:
Será que o mensageiro regular
vem vindo pela estrada?"


Belo como todo haikai deve ser, recomendo para aquelas pessoas que gostam de viagens interiores empreendidas sob olhares deslocados, estrangeiros... renovados!

E para quem, como eu ficou curioso para saber o significado do título, lá vai: Rakushisha significa "Cabana dos Caquis Caídos".

Lindo né? E você ainda não viu nada!

_______________________
Livro: Rakushisha [4/5]
Autora: Adriana Lisboa
Editora: Alfaguara

Foto: Wolney Fernandes








Pet Shop Boys - Always On My Mind

tarde naquela noite

..tarde naquela noite,
segurei um atlas entre os joelhos,
percorri o mundo todo com os dedos
e sussurrei
onde dói?
o mundo respondeu:
em todo lugar.
em todo lugar
em todo lugar.
(Warsan Shire - escritora e poeta somali - tradução de Ricardo Domeneck)




Pet Shop Boys - Always On My Mind

O estudo do filho


O estudo é uma atividade deveras aprazível.
(Foto da tuca - da apostila do Eri, 26.11.2015)





Creep - Vintage Postmodern Jukebox Radiohead Cover ft. Haley Reinhart

Somos dias

Pintura: "Narciso" de Caravaggio
Texto: Andra Valladares

Caravaggio (1571 - 1610), pintor barroco, foi considerado um mestre na técnica de luz e sombra. A característica marcante de suas obras era a luz dramática incidindo sobre o fundo escuro. Sua obra retrata essencialmente temas religiosos, passando também por temas mitológicos.





Keith Jarrett - The Wind

A arte de ser feliz



Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles.



"Don Quixote"


A todos aqueles que falam ao vento.
Aos loucos por amor, aos visionários
Para aqueles que dariam a vida para realizar um sonho.
Aos excluídos, aos rejeitados, aos excluídos.
Aos loucos verdadeiros ou alegados.
Aos homens de coração
Para aqueles que teimam em acreditar no sentimento puro.
A todos aqueles que ainda se comovem.
Uma homenagem aos grandes impulsos, às ideias e aos sonhos.
A quem nunca desiste, a quem é desprezado e julgado.
Aos poetas do diário.
Aos "Vincibili", portanto, e também
Aos derrotados que estão prontos para se levantar e lutar de novo.
Aos heróis esquecidos e aos vagabundos.
A quem não tem medo de dizer o que pensa.
A todos os cavaleiros mortos-vivos.
A quem fez a volta do mundo e a quem um dia irá fazê-lo.
(Miguel de Cervantes - de "Don Quixote")




Imagem de Rodney Smith




SOLARES


Nydia Bonetti.
outra vez
me ronda a poesia
agora é assim
quase uma sombra
colada em mim
não
ela é o sol
eu,
a sombra




5.2.16

るぱん ~ SAM SACK - 大野雄二 トリオ

Memórias das cinzas


anjos caídos sob os viadutos
segredam sonhos
em meio ao alumbramento
de um terça-feira gorda
a legião se mistura
para renascer das cinzas
em qualquer dia de sol
ou quando a chuva vier
 

- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". Blocos online, 2013.




Sunny - Yuji Ohno Trio

Caminhávamos tranqüilos

Lalla Romano
Caminhávamos tranqüilos
uma noite de verão
no frescor de um jardim?
aflorei tua mão
ou foi uma folha?
beijei tua boca
ou uma fruta úmida e doce?
não sei se bebi o silêncio
da folhagem noturna
ou teu amoroso silêncio
Tua mão me acenou por entre as folhas
mas era a foice da lua
que longe se escondia



Cubre la memoria

"VI
Cubre la memoria de tu cara con la máscara de la que serás y asusta a la niña que fuiste."
Alejandra Pizarnik, "Caminos del espejo"



Noir Désir - Le Vent Nous Portera

Post-Card


(os velhos, os pombos, os gatos)
Inês Lourenço
Alguns habitantes queixam-se dos pombos. Do mal
que fazem às fachadas, às estátuas, à pintura
dos automóveis. Os pombos não voam a gasolina
e têm humaníssimos hábitos como a gula, as
rivalidades do cio, a sede e a urgência
de defecar. Detestam coleiras, gaiolas, amparos
de casota, ausência de jardins
e adornos de penas alheias. E por este divino
despojamento recebem, às vezes,
algum milho displicente dádiva
de crianças para a fotografia, ou de benignos
velhos reformados. Algumas mulheres continuam
a socorrer os antiquíssimos (e terrestres) gatos
vadios. Gatos da minha infância. Dos muros,
das traseiras, dos quintais - o Sindbad, a Pardoca - com
restos de arroz em papéis engordurados. Carinhosas
velhas, atentas à famélica e materna condição
das ninhadas, enquanto os pombos e os velhos
debicam espaços de pedra onde levavam asas
e entre todos assoma, por instantes,
a decaída aliança entre o Céu e a Terra.




Emmy The Great- Where is My Mind

MEU CINEMA


o plano está bastante
inclinado
e nós estamos lá
simples e
molhados
(há ovelhas à volta
e as árvores são
esculturas feitas de
ventania)
o chão
olha debaixo
da minha saia
e você vê ali
o céu descoberto
eu finjo distração
e morro por segundos
nos seus braços
(Dora Ribeiro)



Iggy Pop "In The Death Car" (Arizona Dream soundtrack)

Tsuyoshi Yamamoto Speak Low 1999

Maria Diamba


Para não apanhar mais
Falou que sabia fazer bolos
Virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
não falou mais.
Viram que sabia fazer tudo,
Até mulecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
Só diante da ventania
Que ainda vem do Sudão;
Falou que queria fugir
Dos senhores e das judiarias deste mundo
Para o sumidouro.

- Jorge de Lima, em "Poemas Negros", Revista Acadêmica, 1947.


Art: Rashid Diab (1957)

Ninguém saberá da secura de nossos olhos


(20 de dezembro de 1975)

Ninguém saberá da secura de nossos olhos
da dureza de nossa boca ninguém saberá
do fio das unhas da dor no dente
do sangue guardado no fundo da gaveta
ninguém adivinhará os jardins atrás do muro fechado
ninguém quebrará o ferro do portão
ninguém violentará o secreto
ninguém te tocará profundamente
ninguém te saberá
ninguém.
Por isso olhamos as nuvens
sentados ao vento que não sopra
enquanto os balanços rangem
os rádios cantam
e a rua intocável como um quadro
pintado por outro.
Por isso olhamos em volta
e o que se passa além de nossa (uma palavra ileg.))
não nos soluciona
(ninguém sabe
ninguém saberá).
O caule quebrado do girassol
o livro de Toynbee sobre os degraus
a caneta riscando o papel
as nuvens
a tarde
a rua
o medo.
- Caio Fernando Abreu, em "Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu". [Organização Letícia da Costa Chaplin, Márcia Ivana de Lima e Silva]. Rio de Janeiro: Editora Record, 2012.



Não sou um negro escritor

"Não sou um negro escritor e muito menos um escritor negro. Na verdade, sou um contador de es/histórias tal como meu avô ou meu tio-avô, quando nos reuníamos no quintal, no verão, ou na cozinha, nas noites frias, sentados em banquinhos de madeira. Sou um repórter do dia-a-dia, da nossa realidade. Sou um olho-vivo nas vilas, favelas, cortiços, nos sambas, na cidade-vida nossa. O que me difere do meu avô contador de histórias é que eu escrevo ao invés de falar, pois as nossas realidades mudaram muito pouco, e que, contar, para ele, era um ato lúdico, enquanto que para mim é algo compulsório, do qual não posso fugir."

- Paulo Colina, no conto "Fogo Cruzado". em: 'Cadernos Negros 2'. São Paulo: Edição dos Autores, 1979, p. 103.





MISTÉRIO


É ser tocado pela poesia
e como que fecundado
esperar
e esperar
e esperar
só então germinar
e crescer e entender
todo
o
seu
significado
R. S. Ostrowski, em "Opaca transparência"





Paul McCartney 'Get Back' (with Brittany Howard from Lollapalooza 2015)

Cartinha


Domingos Sávio Barroso
Tem chovido no meu rincão, meu bem.
Uma alegria só. A horta cheirosa,
A rocinha de feijão vistosa,
O milho crescido de
Cabelos ao vento.
Vem cá passar uns dias.
A criançada morreria
De felicidade.
O Bastião, nosso cão,
Parece mais teu
Que nosso.
Não pode passar
Bicicletas, motos,
Carros, que ele
Corre atrás
Imaginando
Que é cê.
Sabe, né, como sou emotivo.
Choro tanto sobre a sua última carta.
Cheiro o papel como se cheirasse seus cabelos.
Aquela biquinha detrás das bananeira tá uma belezura.
Água límpida e forte, acredito que seria muito bom
Pra suas varizes e estresse de gente da cidade.
Vem, minha flor, passar uns dias cá.
O meu coração aguarda a sua resposta.
Olha, já choro. Sou mesmo uma peste de emoção.




O olho do sol

"O olho do sol batia sobre as roupas do varal e mamãe sorria feliz. Gotículas de água aspergindo a minha vida-menina balançavam ao vento. Pequenas lágrimas dos lençóis. Pedrinhas azuis, pedaços de anil, fiapos de nuvens solitárias caídas do céu eram encontradas ao redor das bacias e tinas das lavagens de roupa. Tudo me causava uma comoção maior. A poesia me visitava e eu nem sabia…"

- Conceição Evaristo, no 'epígrafe' de abertura do livro "Poemas da recordação e outros movimentos". Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Kenny Barron - Emily

Morte no esquecimento


Ángel González - (1925 - 2008)
Sei que existo
porque tu me imaginas.
Sou alto porque tu me vês
alto, e limpo porque tu me olhas
com olhos bons,
com o olhar limpo.
O teu pensamento faz-me
inteligente, e na tua simples
ternura eu sou também simples
e bondoso.
Mas se tu me esqueces
cairei morto sem que nada
o evite. Verão viva
a minha carne, mas será outro homem
- obscuro, torpe, mau - aquele que a habita.




Johann Sebastian Bach - Piano Partita No. 2 In C Minor, BWV 826 - Martha...

Refugiados




As folhas abertas.
Dizimada a Síria.
O grito do menino
no cálculo da última explosão.
Pegaram Deus prostrado
em meio aos escombros.

O Haiti se pergunta,
meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?
A folhas abertas.
Quartos aqui,
risos diante da mesa ali,
orgasmos na noite no andar de cima,
orações diante do deserto,
bolas de futebol nos meandros da rua.
Tudo se foi.
Tudo ao pó
e a tez marrom
que podia ser o crepúsculo.
Como faço pra acontecer as flores,
se o jardim soterrado recebe
o sereno da madrugada
que cai, cai, cai
lentamente
sobre o mundo novo?
Como faço pra acontecer as flores,
se Deus fugiu numa fissura do horizonte
e lá sangra seu lado?
As folhas abertas.
O funeral está pronto.
Inscrevo meu nome
na grande lista
dos expatriados,
dos rostos singulares
de desamparo,
dos que encaram o soldado
sobre as pedras
que vão ser arremessadas.
O que fazer se o mundo novo
é apenas a confirmação
das paredes caiadas do velho mundo?
Em Itapetininga, os sinos
devem estar lá,
adormecidos.
São Paulo é ão ão ão.
Um espírito se move
e entra na grande metrópole
enregelando nossos corações,
mas não pare,
a torre do capital tem um grande vitral
que apresenta um céu azul projetado,
imagens de aves se repetem
e a paz infinita lhe esconde o cobertor sujo
sobre a calçada.
Quando alguma possibilidade
de mudança dos pássaros
sucumbe,
é porque foi uma criança que morreu.
Fiori Esaú Ferrari