30.9.16

Coldplay - Hymn For The Weekend (Official video)

" Quando São Paulo diz: " Eu não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero ", dá expressão à mesma experiência, observa, ou seja, que por vezes se faz viva em nós uma vontade que opera o contrário daquilo que nós queremos Ou Aprovamos. O que é realizado por aquela outra vontade não é necessariamente o mal. Na verdade..." (Emma Jung)



Aqueles que sonham de olhos abertos conhecem muitas coisas que escapam àqueles que sonham apenas a dormir.
Edgar Allan Poe



Me agarrou ao universo dos contos de fadas... Nevenka

Siouxsie & the Banshees - Kiss Them for Me [480p)

Vida / Morte

❝ Vida, vida recoberta em um véu de melancolia. Morte: farol que me guia em rumo certo. Sinto-me magnífico e solitário entre a vida e a morte. 
.
— Clarice Lispector, no livro “Um sopro de vida”. Rio de Janeiro: Rocco, 2010


© Dave Anderson



BALADA DE ALZIRA



II

“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.”
Carlos Drummond de Andrade

O que ficou de mim
além de eu mesma
não o sei.
Nem o digas às crianças
porque no que ficou
a palavra de amor
está partida

imperceptível sombra
de flor no ramo frágil.
Nem o diga aos homens
Era o rio
e antes do rio havia areia.
Era praia
e depois da praia havia o mar.
Era amigo
ah! e se tivesse existido
quem sabe ficava eterno.

Nada ficou de mim
além de eu mesma.
Tênue vontade de poesia
e mesmo isso

imperceptível sombra
de flor no ramo frágil.




Chico Buarque - Futuros Amantes






Chico Buarque - Futuros Amantes
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

O amor pode aceitar até o último as fraquezas e os subterfúgios.


Mas existe um ponto no qual o amor desaparece irreversivelmente: " existe um ponto em que pára, um ponto que não se situa mais do que no ser; quando o ser amado vai longe demais na traição de si mesmo e perseverar no engano de si , o amor não o segue mais."
Jacques Lacan


(Ph nannimensch)

Big Bill Broonzy-Key to the Highway

[Foto de Kaya Zilmen]



Vem navegar na minha vida

Vem navegar na minha vida
Faça de conta que meu corpo é um rio,
Faça de conta que os meus olhos são a correnteza,
Faça de conta que meus braços são peixes
Faça de conta que você é um barco
E que a natureza do barco é navegar.
E então navegue, sem pensar,
Sem temer as cachoeiras da minha mente,
Sem temer as correntezas, as profundidades.
Me farei água clara e leve.
Para que você me corte lenta, segura,
Até mergulharmos juntos no mar
Que é nosso porto.

Caio Fernando Abreu

Poema azul de sophia de mello bryner, voz de Maria Bethania

23 Formas de colocar a cabeça no lugar


  • De vez em quando as palavras adequadas não vêm à cabeça, os pensamentos viajam na velocidade da luz, e parece que o seu pobre cérebro pode explodir a qualquer momento. Numa situação como essa, os conselhos da terapeuta Victoria Nazarevich podem ser muito úteis. A única coisa que você deve fazer é pegar uma folha de papel e um lápis e começar a desenhar. Não importa como. Pouco tempo depois você vai sentir paz e tranquilidade.
    Portanto, se você estiver em uma situação estranha, comece a desenhar.


  • Se você está cansado, desenhe flores.
  • Se está bravo, desenhe linhas.
  • Se alguma coisa está doendo, comece a esculpir.
  • Se você está entedeado, comece a colorir uma folha de papel.
  • Se está triste, pinte um arco-íris.
  • Se você tem medo, aprenda a fazer o ponto macramê.
  • Se está angustiado, faça uma boneca de pano.
  • Se está indignado, rasgue uma folha de papel em pedacinhos.
  • Se está preocupado, comece a fazer origami.
  • Se está tenso, desenhe padrões diferentes.
  • Se você precisa lembrar alguma coisa, desenhe labirintos.
  • Se está decepcionado, faça uma réplica de uma pintura.
  • Se está desesperado, desenhe caminhos.
  • Se você precisa entender alguma coisa, desenhe mandalas.
  • Se você precisa renovar as energias, desenhe paisagens.
  • Se quer entender os seus sentimentos, faça um auto-retrato.
  • Se é importante reconhecer o seu estado de espírito, desenhe manchas coloridas.
  • Se você precisa organizar os seus pensamentos, desenhe células ou quadrados.
  • Se quer entender os seus desejos, faça uma colagem.
  • Se você quer se concentrar nos seus pensamentos, desenhe com pontos.
  • Para encontrar a melhor solução para uma situação, desenhe ondas e círculos.
  • Se está bloqueado e precisa seguir em frente, desenhe espirais.
  • Se você quer se concentrar em uma meta, coloque no papel.
Tradução e Adaptação: Incrivel.club






Nelson Freire Plays Bach Myra Hess Joy of Man's Desiring

Na terra sem chuva pássaros encurvam as asas.



Na terra sem chuva pássaros encurvam as asas.
A tarde é dura como um sorriso de sal.
Diabinhos vermelhos destroem soldados verdes.
Meninos de outro tempo tomam sorvete no pátio da escola.
A cabeça do dia ao meio-dia esfola-me como uma bola azul de fogo.
Embebo uma imagem de Nossa Senhora em água benta.
A gola do céu não desafrouxa e há um enforcamento iminente
no ar.
Estou longe do mar e da arrebentação.
Que falta faz a soltura da brisa!
Tenho pardais.
Não posso fugir para o estrangeiro
E nem usar como escapatória a rota das andorinhas.
Sou refém da vontade do Deus acuado pelo diabo.
Oro
Mas não caibo na oração.

Lázara Papandrea



A.D.


TEMPO-MORTE



Hilda Hilst

IV

Desde que nasci, comigo:
Tempo-Morte.
Procurar-te
É estar montado sobre um leopardo
E tentar caçá-lo.

Minha tua garra.
Teu matiz de dentro.
Tua lanhada.
Nossa companhia.
Passo de luz e negro.
Dentes. Arcada.

Dois nítidos
À caça de um Nada. 



Heart of Glass - Nouvelle Vague

Noite

3.
Ana Akhmátova
Não, não sou eu, é alguém mais que sofre.
Eu não teria podido. Panos negros de lã cubram
O que se passou,
E levem embora os lampiões…
                               Noite


(tradução de Aurora F. Bernardini e Hadasa Cytrynowicz)




A moça tecelã - Marina Colasanti

"Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. "
.
Leia o conto completo no site: https://goo.gl/jkstuQ





29.9.16

Nada - Belki de

Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.
- Khalil Gibran -






Ludovico Einaudi - "Divenire" - Live @ Royal Albert Hall London

Silêncio

"É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve." 
.
— Clarice Lispector, em “Onde estivestes de noite”, 1998.


Clarice Lispector (déc.1960) - foto- Maureen Bisilliat -Acervo da autora IMS




Ray charles A song for you Subtitulada

Quando o homem


Anne Sexton - (1928 - 1974)
Quando o homem
entra na mulher,
como a onda mordendo a praia,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os dentes lhe cintilam
como o alfabeto,
aparece Logos
ordenhando uma estrela,
e o homem dá um nó
dentro da mulher
para que nunca mais
se separem
e a mulher sobe para uma flor
e come-lhe o pé
e então aparece Logos
e desprende-lhes os rios.
Esse homem,
essa mulher,
com a sua fome dobrada,
tentaram atravessar
a cortina de Deus,
e conseguiram-no por um instante,
apesar de Deus, perverso,
lhes desfazer o nó.



Photo Marta Syrko

Herta Müller

"Botei minha mão no seu pescoço, acariciei a barba por fazer, que gosto tanto de tocar de manhã, os pelos que cresceram durante o sono. Ele puxou minha mão até perto de seus olhos , ela escorregou pela sua face até o queixo."
Herta Müller - "O compromisso"
Tradução: Lya Luft









Francesco De Gregori - La Donna Cannone

QUE NENHUMA ESTRELA QUEIME O TEU PERFIL



Que nenhuma estrela queime o teu perfil 
Que nenhum deus se lembre do teu nome 
Que nem o vento passe onde tu passas. 

Para ti criarei um dia puro 
Livre como o vento e repetido 
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen



Photo: Les James


Esperança

carne tenra e pele de louça
que só lhe diga sim
e cheire a jasmim
adeus
vou à luta
mas saiba
tenho abraço guardado
e doçura no regaço
sei que somos o mesmo
e sou livre para dizer que amo
e é tanta a semelhança
entre a tua e a minha vontade
que nos dou um nome: Esperança.

Maria Lucia Jeunehomme Borges





Caterina e il coraggio interpretata da Fiorella Mannoia

DA VOZ DAS COISAS


Fiama Hasse Pais Brandão - (1938 - 2007)



Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.



Fiorella Mannoia - Oh che Sarà

“Como surpreender, adivinhar, por detrás do silêncio, cada grão de som?”
.
- João Guimarães Rosa, da novela “Buriti”, em "Noites do Sertão", no livro 'Corpo de Baile'. 1965.
Achas que para ti isso nunca acontecerá, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo que essas coisas não acontecerão nunca e, em seguida, uma a uma, começam a acontecer todas, exatamente como acontece a todos os outros.

Uma porta se fechou. Uma outra se abriu.
Entraste no inverno da tua vida.

Paul Auster, em  "Diário de inverno"

Warhaus - The Good Lie (Official Video)

Não há necessidade de templos, não há necessidade de filosofias complicadas. Seu coração é seu templo; e sua filosofia, a bondade.
Dalai Lama



"A culpa minha, maior, era meu costume de curiosidades de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que me entorpecia."
.
- João Guimarães Rosa, no livro 'Grande Sertão: Veredas'. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Nouvelle Vague - In a Manner of Speaking


Faça-me um lugarzinho em ti, não te incomodarei.
Alezandra Pizarnik





Nelson Freire plays Nocturne in C minor, Op.48 No.1

Meu filho

William-Adolphe Bouguereau,Young Mother Gazing at Her Child  (detail) 1871.



Nizar Qabbani

Meu filho coloca à minha frente sua caixa de tintas, e pede que eu lhe desenhe um pássaro...
Embebo o pincel na cor cinza, e desenho-lhe um quadrado com um cadeado... E barras.
Meu filho me diz, e o espanto preenche seus olhos: 
“Mas isso é uma prisão... Meu pai, tu não sabes desenhar um pássaro?”
Digo-lhe: “Meu filho, não me leves a mal, de fato esqueci a forma dos pássaros”. 

Meu filho coloca à minha frente, sua caixa de lápis, e pede que eu lhe desenhe um mar...
Apanho um lápis e lhe desenho um círculo negro...
Meu filho me diz: 
“Mas isso é um círculo negro, meu pai... Não sabes desenhar um mar? Não sabes que o mar é azul?”
Digo-lhe: “Meu filho, em meu tempo era perito em desenhar mares, quanto à hoje, levaram meu anzol, e o barco pesqueiro, proibiram-me o diálogo com a cor azul, e de fisgar o peixe da liberdade”.

Meu filho coloca à minha frente um caderno, e pede que eu lhe desenhe uma plantação de trigo... 
Apanho a caneta e desenho-lhe um revólver...
Meu filho debocha de minha ignorância nas artes plásticas, e diz surpreso:
“Não conheces a diferença entre o trigo e o revólver?”
Digo-lhe: Meu filho, no passado, eu conhecia a forma do trigo, do pão e da rosa... 
Mas neste tempo metálico, em que as árvores da floresta se uniram aos homens das milícias, e em que a rosa passou a vestir roupas camufladas, no tempo das espigas armadas, dos pássaros armados, da cultura armada, e da religião armada... Não há pão que eu compre que não contenha um revólver. 
Não há flor que eu colha no campo, que não aponte um revólver para minha face. 
Não há livro que eu compre que não venha a explodir entre meus dedos...

Meu filho senta-se na borda da cama, e pede que eu lhe recite um poema... 
Uma lágrima minha cai no travesseiro... 
Ele a apanha perplexo, e diz: “Mas isso é uma lágrima meu pai, e não um poema”.
Digo-lhe: “Quando cresceres, meu filho, e leres uma antologia de poesia árabe, saberás que a palavra e a lágrima são irmãs, e que a poesia árabe, nada mais é, do que uma lágrima que emerge dentre os dedos”

Meu filho coloca à minha frente suas canetas e sua caixa de tintas, e pede que eu lhe desenhe uma pátria... O pincel estremece em minha mão... E caio chorando...


Leia Mais: http://www.gazetadebeirute.com/2013/08/o-grande-poeta-arabe.html#ixzz4LTCKKAEw
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28.9.16

Noite


No declive da altura
poço de lumes.
Entre folhas
perpassa um voo.
(Noite e alma
toque levíssimo
de palmas.)
Uma estrela cavalga a escuridão.
.
- Dora Ferreira da Silva, em "Jardins (esconderijos)". São Paulo: Edição da autora, 1979.



© Silena Lambertini

Eu vim para amar e, secretamente, para dançar.

A língua especial dos amantes


Qual é a frase para a lua? E a frase para o amor? Que nome daremos à morte? Não sei. Preciso da língua especial dos amantes, dos monossílabos que usam as crianças.... Precisamos de um grito, um grito.

Virgínia Woolf, "As ondas"





Poto: Últimos dias, por Nieves Mingueza









La pazza gioia -Senza Fine-





- « Non m'importa della luna

Non m'importa delle stelle
Tu per me sei luna e stelle
Tu per me sei sole e cielo
Tu per me sei tutto quanto
Tutto quanto io voglio avere »


[ Gino Paoli - Senza Fine]



- " não quero saber da lua
Não me importo das estrelas
Tu para mim és lua e estrelas
Tu para mim és sol e céu
Tu para mim és tudo
Tudo o que eu quero ter "

[Gino Paoli - sem fim]

Vashti Bunyan - 2005 Lookaftering

Sobre a raiva

"Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesmo nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é." 
.
- João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas.



Georges Bataille


é amargo ser imenso

Não há nada que eu não sonhe
Nada que eu não grite

Sombra de asas sobre um campo
O meu coração de criança perdida

Georges Bataille, por A. Arcangélico


Ph Pedro Luis Raota


Provocações - Monja Coen




Publicado em 13 de abr de 2016
Monja Coen vem ao Provocações falar sobre sua infância, casamentos, sua
estadia em Londres, sua antiga vida de sexo, drogas e rock' roll e o caminho
que a levou a ser a primeira mulher budista .

Com o coração na mão

" É sempre melhor que a gente fale cara a cara, com o coração na mão. Caso contrário acabam surgindo mal-entendidos. E os mal-entendidos, sabe?, são uma fonte de infelicidade..."
Haruki Murakami



("Siempre es mejor que la gente hable cara a cara, con el corazón en la mano. De lo contrario acaban surgiendo malentendidos. Y los malentendidos, ¿Sabe?, son una fuente de infelicidad...")



Leonard Cohen - In My Secret Life





Em Minha Vida Secreta

Eu vi você esta manhã

Você estava se movendo tão rápido
Parece que não pode soltar meu aperto
No passado
E sinto tanto sua falta
Não há ninguém em vista
E nós ainda estamos fazendo amor
Em minha vida secreta...

Sorrio quando estou com raiva

Engano e minto
Faço o que tenho que fazer
Para conseguir.
Mas sei o que é errado
E sei o que é certo
Eu morreria pela verdade
Em minha vida secreta...

Segure-se, segure-se, meu irmão

Minha irmã, segure firme
Finalmente acatei minhas ordens
Estarei marchando através da manhã
Marchando através da noite
Atravessando as bordas
De minha vida secreta...

Olhar através do papel

Fez você querer chorar
Ninguém se importa se pessoas
Morrem ou vivem
E o traficante quer você pensando
Que isto é preto ou branco
Obrigado Deus, isto não é tão simples
Em minha vida secreta...

Mordi meus lábios

Compro o que eu disse:
Desde o último acerto
Até a sabedoria da idade
Mas estou sempre sozinho
E meu coração é como gelo
É lotado e frio
Em minha vida secreta..

William Stafford

William Stafford (1914-1993), nascido no Kansas, foi um pacifista convicto, recusando-se a lutar na Segunda Guerra. Obrigado a prestar serviço interno, foi guarda florestal entre 1942 e 1946, atividade que o marcaria por toda a vida. Seus poemas, de grande apuro técnico, são intensamente líricos e com frequência inspirados na natureza, numa linhagem da qual, na poesia norte-americana, fizeram parte, por exemplo, Ralph Waldo Emerson, Robert Frost e Robinson Jeffers[1]. Stafford publicou dezenas de livros, ganhou o National Book Award for Poetry em 1963 e foi Poeta Laureado de 1970.



Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Deixando que você se vá
O dia traz o que deve mesmo ser. Árvores —
onde quer que estejam — começam a se impor,
Eu tenho uma travessia para fazer hoje
ir em frente por esta terra sombria.
Quão imóvel a Terra ficou a princípio, naquela noite
quando você não mais respirou. Eu não podia crer
quão delicadamente a luz da lua chegou. Foi como
em outro tempo junto ao túmulo de minha mãe.
Hoje eu vou em frente. Em tempos passados
quando você estava lá, eu tentei,
então, agarrar a lua e o sol.
Agora quando me perguntam quem era você —
Eu me lembro, mas me lembro da minha promessa.
E digo: “Ninguém”.
.
A menininha junto à cerca na escola
A grama em movimento encontrava todos os tons de marrom,
movia-os juntos, levando embora o outono
galopando rumo ao sul para onde fugiu o verão.
E aquela foi a manhã em que o coração de alguém parou
e ficou em repouso. Uma menina disse, “Para sempre?”
E a grama: “Sim. Para sempre”. Enquanto o céu —
O céu — o céu — o céu.


Por entre os juníperos
À tarde eu vago por entre os
juníperos. Eles se espalham por colinas
que se abrem e fecham à minha volta.
Se eu vou longe o bastante, toda visão ou som
de gente desaparece. Me sento e olho, milhas sem fim
para aquelas colinas onduladas.
E então mais tarde, entre frases, quando alguém
me faz perguntas que confundem a verdade,
minhas respostas vagueiam e olham para trás.
Há estes dias e há estas colinas
sobre os quais ninguém pensa, mesmo no verão.
E parte da minha vida nem mesmo tem um lar.


Você é o senhor William Stafford?
28 de agosto
“Você é o senhor William Stafford?”
“Sim, mas…”
Bem, foi ontem.
A luz do sol seguia a minha mão.
E foi então que um som estranho como uma sirene transbordou
no horizonte e avançou pelas ruas de nossa cidade.
Foi quando a luz do sol vinha por detrás
de uma rocha e começou a seguir a minha mão.
“É melhor assim”, disse minha mãe — “Nada de ruim
pode acontecer com quem é bom de verdade.”
E então mais tarde o sol se pôs e o som
se dissipou e se foi. Ao longo das ruas cada
casa esperou, branca, azul, cinza; árvores
ainda tentavam se arquear tanto quanto pudessem.
Você não pode prever quando coisas estranhas significando algo
ocorrerão. Eu [ainda] estou aqui escrevendo sobre isso
exatamente como tudo se deu. “Você não tem que
provar nada,” minha mãe disse. “Apenas esteja pronto
para o que Deus enviar.” Eu ouvi e pus minha mão
sob o sol de novo. Foi bastante fácil.
Bem, isso foi ontem. E o sol veio,
Por que
ele veio.


A queimada do Tillamook
Estas montanhas ouviram Deus;
arderam por semanas. Ele falou
numa língua de chamas que vieram do entulho das serrarias
e você pode ler Sua palavra até nas pedras.
Em rios leitosos as trutas-arco-íris
se batem correnteza acima para desovar
e encontram novamente um mundo com profundidade,
que nasce na quietude e na água entre rochas cinza.
Terra adentro ao longo dos cânions
por toda a noite o clima fumando
passando por cervos e por fazedores de viúvas—
árvores por demais mortas para cair até que de novo Ele fale,
Serrando as árvores em ziguezague e os picos que ouvem.


Nossa história
Me lembre novamente — juntos nós
traçamos nossa estranha jornada, encontramos
um ao outro, lá chegamos rindo.
Um dia nós cruzaremos o ponto onde a vida
termina. Nós dois olharemos para trás
tão longe quanto para sempre, aquele primeiro dia.
Eu tocarei você — um novo mundo então.
Estrelas se moverão de uma maneira diferente.
Nós dois no fim. Nós dois no começo.
Me lembre novamente.


Natimorto
Onde um rio toca uma ilha
sob salgueiros que se curvam
eu observo as ondas e penso em você,
que quase viveu.
Estrelas varrerão o céu novamente,
e o tempo seguirá, a escuridão, o frio.
Nuvens correrão quando o vento começar,
onde você quase viveu
Mas enquanto o trovão chacoalha o mundo
e a graciosa dança e a poderosa vitória,
ainda crente, ainda pensando, eu me curvo,
pequeno.