31.10.16

Mad World - Gary Jules

ENCONTRO


Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor ... Então, enterre-me no céu!

Marina Tsvietáieva - poeta russa


(18 de junho de 1923)
"Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria que valesse a pena, Cass dava aquela risada - da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. "
Charles Bukowiski, "A mulher mais bonita da cidade" 


© João Canziani


Jacchini - Cello Sonata in A Minor

" cada homem ama duas mulheres:
Uma parceira da sua vida...,
Outra, criada pela imaginação..." 
Autor ?


O intelecto..., é uma das armas de sedução
Mais fascinante da humanidade...
Coskun Cokbulan




Willi Bolle - "Guimarães Rosa – Retrato da alma do Brasil"

Riobaldo diz que o sertão é dentro da gente. É uma paisagem mental. É o pensamento sobre o Brasil. O sertão é aquela região selvagem onde se formam as nossas idéias. Onde nasce a linguagem. A experiência mais radical que Rosa fez nesse sentido está no conto Meu Tio O Iauaretê, onde se assiste ao nascimento da linguagem a partir do seu estado selvagem. Selvagem, no sentido de que ali acontece a criação. O pensamento que se está se buscando. É isso que Guimarães Rosa mostra. Essas regiões arcaicas do pensamento e da linguagem podem ser pesquisadas por meio das mais avançadas tecnologias. Com a informática, a inteligência artificial e os espaços virtuais.
Willi Bolle - "Guimarães Rosa – Retrato da alma do Brasil" 
(excerto)

Buddha Bar IV - Ishtar "Comme Toi"

Teu olhar faz a volta do meu coração,
Uma roda de dança e de doçura,
Auréola do tempo, berço noturno e seguro,
E se não sei mais o que tenho vivido
É porque teus olhos nem sempre me enxergaram.
Folhas do dia e musgo do rocio,
Caniços do vento, sorrisos perfumados,
Asas que cobrem o mundo de luz,
Barcos carregados de céu e mar,
Caçadores de ruídos e fontes de cores.
Aromas nascidos de uma ninhada de auroras
Que sempre jaz sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos puros
E o meu sangue todo flui nos olhares deles.

Paul Éluard 



Tuareg, Uli Kuehn

Ternura



Eu te peço perdão por te amar de repente 
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos 
Das horas que passei à sombra dos teus gestos 
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos 
Das noites que vivi acalentado 
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo 
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente. 
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo 
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas 
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... 
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias 
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta 
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

- Vinicius de Moraes

25.10.16

Eddie Vedder - Dream a Little Dream

Algumas palavras sobre a alma


(Wislawa Szymborska)

Às vezes, temos uma alma.
Ninguém tem isso o tempo todo
para sempre.
Dia e dias
anos e anos
podem se passar sem ela.
Às vezes, ela se instala por um tempo
apenas nos medos e nos arrebatamentos
de infância.
Às vezes, apenas no espanto
de se saber velho.
Ela raramente ajuda
em situações penosas
como arrastar móveis
carregar malas
ou caminhar quilômetros com sapatos apertados.
Ela costuma nos abandonar
quando a carne precisa ser cortada
ou os formulários, preenchidos.
A cada mil conversas
ela participa de uma,
quando muito,
já que prefere o silêncio.
Bem quando nosso corpo vai
da dor ao sofrimento
ela foge do batente
ela é seletiva
e não gosta de nos ver na multidão.
Nossa agitação por vantagens
duvidosas
e maquinações enferrujadas a enojam.
Alegria e tristeza
não são duas emoções distintas
para ela,
que se ocupa de nós
só quando ambas se juntam.
Podemos contar com ela
quando não estamos certos de nada
e estamos curiosos acerca de tudo.
Entre os objetos materiais
ela prefere relógios com pêndulos
e espelhos que continuam a trabalhar
mesmo que ninguém os esteja olhando.
Ela não diz de onde vem
nem quando partirá novamente
embora seja claro que espere tais perguntas.
Precisamos dela
mas aparentemente
ela precisa de nós
por alguma razão também.
(Traduzido do inglês por Marcílio Godoi e Mônica Kalil)



João Bosco

Tô indo no médico do coração. Sim, agora eu sou uma mulher com cardiologista! E com ortopedista também. Convenhamos: é outro nível! Diz o doutor: – Em que posso ajudá-la? - Olha, doutor. Não tenho uma queixa específica. É que ando sentindo umas batedeiras, uns tremeliques estranhos no peito, sabe? Assim, do nada, sem esforço, quando me deito, antes de dormir. Além disso, né, doutor? Coração velho, maltratado, gente que entra e sai, gente que entra e não sai… O senhor entende. Ele sorriu e em seu olhar percebi que “das duas, uma”: ou ele é dos nossos ou está acostumado a ouvir essa queixa dos pacientes.
Diz o doutor que pela ausculta está tudo bem, mas me pediu uns exames. Fui logo avisando: – Esteira eu não posso fazer porque estou com problema no joelho – alguém aí falou “melhor idade”? Melhor idade é o cacete! – Tudo bem, disse ele. Vamos começar com um Eco e o Holter.
Tô chegando da clínica cheia de eletrodos, tenho que ficar com esse troço pendurado na alça do sutiã até amanhã e anotar numa folha tudo o que faço e sinto em seus respectivos horários. Tipo um relatório:
O que você está fazendo?
Horário de começo e fim da atividade?
O que você está sentindo?
Horário em que isso aconteceu?
O problema é que eu chego em casa, abro o Facebook e dou de cara com um post da Regina Carvalho falando sobre o João Bosco, paixão que compartilhamos, ela com mais autoridade porque está finalizando um livro sobre ele. Pois alguém, em resposta, me resolve publicar um vídeo do homem cantando Corsário, umas das minhas mais favoritas músicas entre todas as minhas mais músicas favoritas do João.
Meu coração traiçoeiro tão maltratado, coitado! – meio roto, meio rasgado -, desandou a bater mais que os bongôs, a tremer mais que as maracas e segue gemendo em descompassados “ai,ai,ai,ai,ais” e “láláêôs” desde então. Tudo bem que eu já estou acostumada. O problema é como é que eu registro isso no relatório que tenho que entregar pro médico?
O que você está fazendo?
R: Ouvindo João Bosco.
Horário de começo e fim da atividade?
R: Comecei às 10h e só Deus sabe quando isso vai acabar.
O que você está sentindo?
R: Ah, doutor! Isso eu não conseguiria lhe explicar nem “chamando os universitários”.
Norma Bruno



https://youtu.be/In9ObckBGEI


Chopin - Nocturnes op.9 (Jacques Loussier)

Erik Satie-Trois Gnossiennes-Jacques Loussier Trio.

A tarefa

O segredo para viver aqui sozinho, longe da agitação dos imbróglios, das tentações, das expectativas e, sobretudo, à margem da sua própria intensidade, é organizar o silêncio; considerar a plenitude do topo da montanha como um capital , e o silêncio como uma riqueza que conhece uma progressão exponencial. 
- Philip Roth
Cada dia é preciso dançar, ainda que apenas por pensamento. ~
Nachman de Braslaw




Kurt Maloo - The Captain Of Her Heart (Official Video)

MISTÉRIO


É ser tocado pela poesia
e como que fecundado
esperar
e esperar
e esperar
só então germinar
e crescer e entender
todo
o
seu
significado


R. S. Ostrowski, em "Opaca transparência"


©Holger Haspel

Cartinha


Domingos Sávio Barroso

Tem chovido no meu rincão, meu bem.
Uma alegria só. A horta cheirosa,
A rocinha de feijão vistosa,
O milho crescido de
Cabelos ao vento.

Vem cá passar uns dias.
A criançada morreria
De felicidade.

O Bastião, nosso cão,
Parece mais teu
Que nosso.

Não pode passar
Bicicletas, motos,
Carros, que ele
Corre atrás

Imaginando
Que é cê.

Sabe, né, como sou emotivo.
Choro tanto sobre a sua última carta.
Cheiro o papel como se cheirasse seus cabelos.

Aquela biquinha detrás das bananeira tá uma belezura.
Água límpida e forte, acredito que seria muito bom
Pra suas varizes e estresse de gente da cidade.

Vem, minha flor, passar uns dias cá.
O meu coração aguarda a sua resposta.
Olha, já choro. Sou mesmo uma peste de emoção.


Le blog à luc

Francesca Woodman

(...) porque o poeta é coisa leve, e alada, e sagrado.
- Sócrates, em "Íon"




caminho tateando o tempo com as mãos
tenho as unhas roídas
não sei onde pôr os meus olhos
quando anoitece

Nydia Bonetti


Alicja Brodowicz

24.10.16

Ruy Belo - "Tu estás aqui"

Tu estás aqui


Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Ruy Belo


23.10.16

Dead Can Dance - Don't Fade Away





" e dançaremos através do nosso isolamento
Procurando consolo na sabedoria que nos é concedida,
Por distorcer os pensamentos daqui à eternidade
Consumindo os medos com as nossas auréolas inflamadas "
"Refresca teu coração. Sofre, sofre, depressa, que é para as alegrias novas poderem vir…"
.
- João Guimarães Rosa, no livro “Ave, Palavra”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.





Os ninguéns

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano


nightwalk - Danijel Zezelj



Joan Osborne - One of us HD

"Kafka à beira mar"

Volto a sala de leitura, me acomodo no sofá e retorno ao mundo de "As mil e uma noites", editado por Burton. E a realidade que me envolve vai aos poucos desaparecendo como num recurso 'fade out' cinematográfico. Estou sozinho outra vez e me embrenho no mundo que as páginas me revelam. Gosto mais dessa sensação do que de qualquer outra coisa.
- Haruki_Murakami - "Kafka à beira mar"

Art by Monica Barengo.

La Mer - Manlio Sgalambro & Josh Ritchie Photographer


paixão é isso:
um encantar-se
sobre si mesmo


tucakors


Katerina Dramitinou


Small Hands - Keaton Henson [Lyric Video]




Mãos Pequenas

Já sinto tanto sua falta
Sinto falta do espaço entre suas pálpebras
Onde eu olho através de frases estranhas
E evito através do silêncio constrangedor
Sinto falta dos seus dentes quando eles rangem
Quando fumamos em meu jardim
Quando não conseguíamos dormir devido ao calor
A conversa mole começou a endurecer
Sinto falta das suas mãos pequenas na palma das minhas
O fato de que elas são boas em fazer
Sinto falta de você incessantemente ficar até tarde
E o fato de você estar sempre acordando na noite, noite
E eu
Eu espero que para a sua vida
Você esqueça da minha
Esqueça da minha
Sinto falta dos seus dentes cravados no meu ombro
À medida que rolávamos no início da manhã
Sinto falta do seu braço morrendo debaixo de mim
Enquanto eu estava ali simplesmente bocejando
Por favor, me esqueça, você estava certa, querida
Eu sou frio e egocêntrico
E embora eu vá sentir sua falta, amante recente
Eu sou fraco e, portanto, dobro
Me distraio com a minha música
Não penso em outra a não ser arte
Eu vou escrever a minha solidão em poemas
Se eu puder apenas pensar em como começar
Colocar os pingos dos I's com lápis de sobrancelha
Fechar meus olhos, esconder meus olhos
Serei negligente em meus ideais
Pensar em mais nada além de mim
Eu, e eu
E eu
Eu espero que para a sua vida
Você consiga esquecer da minha
Apenas esqueça da minha
Oh, a minha


sexta-feira por la noche en los bares de la city


Bebemorar y beber e comemorar y hablar y decir cosas sin sentidos e perceber os sentidos das coisas sem sentidos e ver algum filme y comentar sobre o filme visto y falar que era bom ou que era muito bom que achei legal ou nem tanto assim ou alguma coisa apenas pelo prazer de falar alguma coisa na extrema e breve liberdade de uma sexta-feira à noite por entre garrafas de cerveja que continuamente se esvaziam por entre papos y palavras que queimam mais que a brisa da cinza do cigarro da garota de cabelo vermelho da mesa ao lado linda ninfa de cabelo vermelho da mesa ao lado que me sorri.

Sérgio Villa Matta



António Botto (1897-1959) Portugal.

O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!

Tão pouca que nem existe!
De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.



Will Barnet

Luis Eduardo Aute - El Niño Que Miraba El Mar

Acima de todo arco-íris



_____*
As minhas mãos vazias
pousam sobre o retrato antigo
tateiam devagar teu lindo rosto
como quem está a ler rimas em braille
de olhos fechados adivinho tudo
...
E com respeito de pintor por sua musa
deito–me a teu lado
para descansar e elevar a mente
até onde possam ver esses meus olhos
arco-íris dos teus
rios mares
[por ti sempre]
...
navegados
_______*
Eliana Mora [El], 23/8/2011

Haicai

No solar ruído
há ainda verdes cortinas
e um senhor, o sapo.
Alexei Bueno



Algumas frases de Jacques Lacan

Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou.

*

O desejo enquanto real não é da ordem da palavra e sim do ato.

*

Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.

*

Eu aguardo. Mas não espero nada.

*

Se existe um objeto de teu desejo, ele não é outro senão tu mesmo.

*

Há alguma coisa que se repete na sua vida, que é sempre a mesma, essa é a sua verdade. E o que é essa coisa que se repete? É uma certa maneira de gozar.

*

Não cederás no que tange ao teu desejo.

*

O Gozo do Outro, do Outro com A maiúsculo, do corpo do Outro que o simboliza, não é o signo do amor.



Barbara Kroll

Csík Zenekar - Adagio

Ternura



Eu te amo com a ternura das mães
que embalam os filhos pequeninos.
E te amo sem desejos.

Perto de ti meus sentidos desaparecem.
Meu corpo tem castidades de santa e de menina.

Quando falas nenhuma sobra se interpõe entre nós dois
Fico presa à palavra de tua boca
e à palavra de teus olhos.
Nada existe fora de nós. Longe de nós...
Tu és o Princípio e o Fim. O Tempo e o Espaço
Cada palavra tua mais espiritualiza
o meu sentimento e a minha ternura.

Tenho vontade de que meus braços se transformem
num grande berço,
para embalar teu sono de homem triste.

Nenhuma estrela brilha mais clara que os teus olhos
na minha alma,
e que a tua palavra no meu coração.

Nenhum homem foi amado com tanta pureza sem pecado,
nem tanta adoração!

Nenhuma mulher vestiu de tanta castidade
seu corpo e sua alma,
para a tristeza de um amor que quer viver,
e quer morrer.

- Lila Ripoll, em "Céu vazio: poesia". 1941.

Emil Nolde - Couple on the Beach, 1903

Dai-me a casa vazia



Fotografia: Ephemera, 2014 de ©Jeffery Becton




SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN- inédito sem data

Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a 
fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exatamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.






Extreme - More Than Words

Djalal Ad-Din Muhammad Rumi

Duas palavrinhas sobre o autor. Djalal Ad-Din Muhammad Rumi viveu entre 1207 e 1273 e foi poeta, jurista e teólogo sufi persa. Uma de suas obras, Dísticos espirituais, tem seis volumes e é considerada a maior obra da poesia mística. Um outro poema é o As obras de Shams, com quarenta mil versos, considerada a sua obra prima. Nasceu na região que hoje é o Afeganistão e viveu a maior parte de sua vida na Anatólia. 
-Texto e Arte by Marco Pachi


A solidão faz caber em mim
tantas pessoas desiguais
que me transformo em intermináveis mosaicos,
a alma em caleidoscópio.
Devo ser forte para os outros e pra um outro sou frágil.
E quando finalmente estou só,cato os cacos,com os olhos
perdidos como se a vida não me pertencesse e eu fosse o
palco dos outros.
Esse vazio coabitado é o eco da vivência alheia.
Sigo assim,meio pano de chão,com tantas pegadas a
varar a madrugada.
.
- Cristina Gebran, no livro "Alma geme". Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 2004



Gabriel Pacheco

Philip Glass - Truman Sleeps (Extended Version)

O que importa quantos amores você tem se nenhum deles te dá o universo?
Jacques Lacan

Anas Albraehe - Syrian Artist



Por que Lacan disse que “a relação sexual não existe”?

(Excerto)
A singularidade do desejo
Dizer que a relação sexual não existe significa dizer que o nosso comportamento afetivo-sexual não está submetido a ciclos biológicos pré-definidos, como acontece com a imensa maioria dos outros animais. No caso dos seres humanos, a inexistência de um instinto sexual faz com que a nossa maneira de desejar, de amar e de gozar seja construída de forma absolutamente singular. Nesse sentido, o encontro sexual entre duas pessoas significa um encontro entre dois mundos distintos, que não foram forjados para se complementarem. Utilizando o exemplo do plugue e da tomada como analogia, é como se eles tivessem sido elaborados de modo completamente independente, de sorte que o encaixe entre se torna impossível.
Então a fórmula “a relação sexual não existe” significa que nós nunca seremos felizes no amor? Sim, se por felicidade entendermos um estado de harmonia e completude na relação com o outro. Não estando submetido a um ciclo biológico padronizado, nosso desejo obedece a coordenadas próprias, singulares, ou seja, necessariamente incapazes de se encaixarem com perfeição nas coordenadas do desejo do outro, que é tão singular quanto o nosso. Por outro lado, se por felicidade entendermos a capacidade de nos sentirmos reais, espontâneos e criativos, a inexistência da relação sexual pode ser, inclusive, uma condição para a felicidade. A impossibilidade do encaixe abre espaço para a invenção, para a surpresa, para a construção de fórmulas provisórias, contingentes, singulares de amar, destituídas de idealizações e permanentemente abertas ao acaso. Como disse o poeta carioca,
“O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu”

https://lucasnapoli.com/2015/06/04/por-que-lacan-disse-que-a-relacao-sexual-nao-existe/

22.10.16

Parov Stelar Shuffle

Pelo Telefone


Gilka Machado

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz.
a falsidade em que procuro crer.

Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!

Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...

Publicado no livro Sublimação (1938).


©Alain Vaissiere