30.11.16

nós dois,

desgosto para nossos pais,
desgosto para nós mesmos.
demos errado na vida,
e choramos sozinhos,
lambendo o asfalto dos rejeitados.
família não convida nem pra funeral.
telefone não toca nem por engano.
amor não vingou.
tudo ilusão de menino e menina,
beirada de livro,
coisa bonita,
que a gente anotou.
mas ontem à noite,
olhando o mar
pela última vez,
catamos nossos cacos
e nossas mãos se tocaram.
eu pulei a cerca apaixonada.
você me deu o pé decidido.
e nunca mais se ouviu
falar de nós dois.

Jô Diniz

ChingYang Tung

Timbuktu, il calcio è proibito

TIMBUKTU' - Clip La Musica

Colher


Se o sol nela
batesse
em cheio
por exemplo
numa mesa posta
no jardim
imediatamente se formaria
um pequeno lago
de luz

 Ana Martins Marques

Michael Dudash

HAICAI

 Lânguida adormece
A tarde. No lago, o par de
Cisnes anoitece.
Raul Drewnick





Huun Huur Tu - Orphan's Lament

Horizonte imediato


Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
- António Ramos Rosa, em "Estou vivo e escrevo sol". 1966.
(Via Templo Cultural Delfos)


Suad al-Attar (1942- ),Iraqi painter - Garden of Eden (1993)
"A história de não comer a maçã da árvore proibida constitui um antigo tema folclórico denominado 'a coisa proibida'. Não abra esta porta, não olhe ali, não coma este alimento. Se você quiser entender por que Deus teria feito uma coisa como essa, tudo que você precisa fazer é dizer a alguém: "Não faça isto". (...) O Jardim do Éden é uma metáfora para o seguinte: nossas mentes e nosso pensar em termos opostos - homem e mulher, bem e mal. (...) Qual o caminho de volta, para a unidade? A ideia parece ser de que Deus está nos mantendo fora do Jardim, proibindo o nosso reingresso. Na tradição budista, entretanto, o Buda diz: "Não tenha medo, faça a travessia"."

Joseph Campbell - Isto és Tu





shamek farrah- first impressions

“Nós vivemos para os livros. Doce missão neste mundo dominado pela desordem e pela decadência. [...]."
.
- Umberto Eco, em "O nome da Rosa". [tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade]. 2ª ed., Rio de Janeiro: Editora Record, 2010.



 Carl Larsson Karin - Lisbeth reading (1904)

O tempo passa, Virgínia





O tempo passa, Virgínia,
os dias e as noites
passam tão rapidamente
que só sentimos o voo.
Quando os anos marcam
nosso corpo,
com as dobras, as veias,
as rugas, o saber sobre as coisas enobrece.
Caminhos percorridos
às vezes adiados
nem sempre contados.
Memória do viver.


NOVA, Vera Casa. "Versos". In:_____. Restos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.


Victor Habchy

INSONE


Há 381 anos não durmo.
O tempo é um método sutil de opressão.
Observo que não tenho imitadores.
Ninguém sequer arremeda minhas dúvidas.
Médiuns e telepatas trocam envelopes lacrados com senhas para seus números mais ousados.
O negócio das senhas falsas gera lucros fabulosos.
Os fatos já não mais surpreendem quando coincidem com a realidade.
Reconheci o gordo fantasma inalando rapé após haver afinado seu violino.
Quando me viu começaram a saltar cifras de sua algibeira.
A música é um espectro voraz que se alimenta do que resta de nossa sensibilidade.
A verdade é que ando farto de aforismos e outros fogos-fátuos.
Há 381 anos vagueio pelas ruas escuras de um mesmo e monstruoso crime.
Ninguém me socorre do mal que fiz a mim mesmo.
A generosidade tem sido um silogismo ineficaz, um monumento enfermo, um calendário imóvel.
Venho consumindo mais da metade de minha vida desperto.
Meus olhos se tornaram uma semelhança do absurdo.
Qual terapêutica nos livra do carteado moral?
Converto em bronze qualquer centelha de entendimento que eu tenha de meus fracassos.
Conservo tingida a máscara com que o homem reconstitui seu afastamento da própria sombra.
Há 381 anos resido no mesmo sulco de existência.
Jamais indaguei por que o sono me abandonou.
Quem faz protestos contra o acaso?
Há algum tempo me sento no parapeito da janela da casa do violinista.
A minha insônia se alimenta do rapé da memória.
[*****]
Poema de Floriano Martins, escrito a partir de escultura homônima de Valdir Rocha. Originalmente publicado em A vida inesperada, de Floriano Martins (Fortaleza: ARC Edições, 2015).


"Para as rosas - escreveu alguém - o jardineiro é eterno."
Machado de Assis
1839/1908

BOUQUET OF ROSES AFTER PIERRE AUGUST RENOIR
A imperfeição é beleza, loucura é genialidade, e é melhor ser absolutamente ridículo que absolutamente chato.
Marilyn Monroe


Traveling through history of Photography...Marilyn’s last photoshoot by Bert Stern, 1962.

Oyfn Pripetchik- yiddish song- Esther Ofarim


Quand tu partiras
N'oublie surtout pas
Ton coeur de nuit
Ton ciel de lit
Ton désert vert 
Ta peau couleuvre
Tes mots dévêtus
Ton mât flamme
Ta main écume
Tes yeux enclumes
Ton désir ébène 
Tes silences bleus
N'oublie surtout pas.




Quando fores
Não esqueças,
O coração da noite
O teu céu de cama
O teu deserto verde
A tua pele cobra
As tuas palavras estão vestidas
O teu mastro chama
A tua mão espuma
Os teus olhos bigornas
O teu desejo de ébano
Os teus silêncios azuis
Não se esqueça.

Foto e texto: Lisette Tardif


El Flaco Spinetta - Todas las hojas son del viento



FELIZ DÍA DEL NIÑO!!!
"Cuida bien al niño, cuida bien su mente,
dale sol de enero, dale un vientre blanco,
dale tibia leche de tu cuerpo.
Todas las hojas son del viento,
ya que el las mueve hasta en la muerte;
todas las hojas son del viento,
menos la luz del sol.
Hoy, que un hijo hiciste, cambia ya tu mente,
cuidalo de dogas, nunca lo reprimas,
dale el aura misma de tu sexo.
Todas las hojas son del viento,
ya que el las mueve hasta en la muerte;
todas las hojas son del viento,
menos la luz del sol...
menos la luz del sol."
Todas las hojas son del viento - Luis Alberto Spinetta






Feliz dia da criança!

" cuida bem a criança, ela cuida de sua mente,
Dá-lhe sol de Janeiro, dá um ventre branco,
Dá-lhe  leite quente do teu corpo.
Todas as folhas são do vento,
Já que as move até na morte;
Todas as folhas são do vento,
Menos a luz do sol.
Hoje, que um filho fez, muda já a tua mente,
Trate-o de drogas, nunca o suprima,
Dá-lhe  o aura de seu sexo.
Todas as folhas são do vento,
Já que o as move até na morte;
Todas as folhas são do vento,
Menos a luz do sol...
Menos a luz do sol."
Todas as folhas são do vento - Luis Alberto Spinetta

A última florada


Não feche os olhos pra organizar
o seu mundo,
pra instituir a paz,
pra suturar os pássaros
que gotejam sangue na aurora
em algum outro trabalho.
O canto gregoriano
começou suave
no ceticismo do seu dia.
Não convence,
mas emociona.
Não feche os olhos
pro rumor da chuva
sobre os telhados.
A condição do céu
é ser cinza
sobre São Paulo.
Olhe a rua.
Os olhos pensam a imagem.
O futuro aí está,
sobre as árvores
que ainda não
aconteceram.
Atrasadas,
elas esperam
indiferentes
setembro.
Em setembro,
os ipês
impõem suas últimas
flores.
Fiori Esaú Ferrari

Parque do Ibirapuera by @anaschad

Canção noturna para Little London


Sérgio Villa Matta

Sobre o balcão de fórmica vermelha,
o velho e comprido balcão
de FÓRMICA VERMELHA!
Clara Crocodilo bebe mais uma beer
no Bar do Jaime pendurado no espaço
como aquele velho e eterno quarto que
Manuel Bandeira fala num de seus poemas
Nós conversamos e conversamos
e damos risadas e ficamos calados em sagrados silêncios dodecafônicos
e as garrafas de cerveja e mais e mais garrafas de cerveja
PERSISTEM! RESISTEM AMARELO!
no ato de se esvaziarem de seu precioso líquido
Concha Acústica comemos pastéis e espetinhos e bolinhos de Bacalhau
e trafegamos pela city noturna
pela noturna cidade cinema Roma com Amor y Violeta Parra
que canta alma e alma em prantos que llora y vive
Vivemos sobre o balcão de diversões eletrônicas humanas y noturnas
beer vivemos dentro da noite veloz
da vida velocidade que se gasta
como um fósforo riscado num segundo,
como o tempo escoado na voz do poema
feito areia e cerveja e vida
que passa y passa como el musguito em la piedra
Volvemos a los deciesite después de vivir un siglo,
depois de viver una noche dentro da noite: a vida.


Damien Rice - The Blower's Daughter - Official Video

De Nydia Bonetti


canta-se o amor utópico, enquanto
o amor de verdade
se abisma em silêncios

+


"E o homem se curva - parece ser sina
Trocar o fardo milenar das culpas
Pelo pós-moderno fardo do vazio
Há que se ter um peso a ser carregado
A leveza parece não ser humana
Não se sustenta. Enquanto barro: pesa"


+


quero morrer, mas não me deixam, diz a mulher
às maçãs sobre a mesa / a faca 
na mão
mas as maçãs estão todas mudas e as lâminas 
cegas
a mulher se ressente do silêncio vermelho
e se comove
da inocência da lâmina/espelho onde não se vê


+


Nesga de náusea e desalento
neste final de tarde
igual a tantos.

Tece-se em nós,
no atar dos nós
e dos fios,
o nós
– o tecido.
é seda, no gesto que acolhe;
é teia, à espera da presa.

(Casirah, 2016)
Cláudio Casirah
Que a satisfação dos desejos guardados no seu coração não se torne um castigo eterno. ( adaptação do Salmo 20:4 )





25.11.16

Disturbed - The Sound Of Silence [Official Music Video]

mesmo
na idade
de virar
eu mesmo

ainda
confundo
felicidade
com este
nervosismo


Paulo Leminski

Andrew Wyeth - Helga detail
"É necessário cuidar da ética para não anestesiarmos a nossa consciência e começarmos a achar que tudo é normal".
(Mário Sérgio Cortella)



El viaje. Erik Satie y Michael Nyman.

Sobre meu amor


meu amor tem poemas no umbigo
parque de diversões nos cabelos
peixes tênues no ventre
e rosas multicoloridas nos jardins suspensos da babilônia
Sérgio Villa Matta

Emanuela Cau

Nina Simone - Don't let me be misunderstood - live



"Mas eu sou apenas uma alma cujas intenções são boas;
Oh Senhor, por favor, não me deixe ser mal interpretado.

Não me deixe ser mal interpretado.
Eu tento muito,
Então não me deixe ser mal interpretado."
"Eu adoraria estar apaixonada sempre. A minha mãe dizia uma frase que eu nunca esqueci: 'Tens um inimigo, deseja-lhe uma paixão'. Eu não entendia o que ela queria dizer, mas agora eu entendo. A paixão é uma doença mesmo, uma doença total. E eu gostaria de, velha, ter uma paixão, de me apaixonar."

Hilda Hilst 

© François Fontaine

Tricô

Hoje, brigando com as agulhas que tenho, sim, eu tento fazer tricô, pensei nesse poema. Pensei no que ele me diz de mais. Pensei, estranhamente, em Brasília. Não no poder político. Pensei no poder do antes quando o cerrado não conhecia a grande arquitetura. E dela nunca precisou. O poder do esquecido. Brasília deve ter sido um centro de teias, anterior ao homem. Tenho alguns amigos lá.
Tricô
o novelo de lã
meus dedos anelos
de cobras
tecendo a terra
de nova manta
as agulhas entre as casas
coloniais da minha angústia
os azulejos brindando
histórias que não são do povo
estou a ponto de chorar o ponto
próximo da carreira
o vento fazendo vó
o vento fazendo o amor perdido
e entre os dedos eu construindo
a borda do caminho
do xale
que socorreu minha mãe
quando ela estava triste
Fiori Esaú Ferrari


Carminho e Chico Buarque | Carolina ( Video oficial )

Olho pela janela e não vejo o mar.
As gaivotas andam por aí e a relva vai secando no varal.
Manhã cedo,o mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume
e o jornal.
A saliva com que te hei-de dizer bom dia.
As palavras são as primeiras a chegar.
O que fica delas amacia o papel.
Pão quente com o sono de ontem e os sonhos de hoje.
Prepara-se o dia, os passos de ir e vir.
Estou cada vez mais perto. Olhas-me como se soubesses o que hei-de saber mais logo.
Nesta cidade nunca é meio-dia.
Há sempre uma doçura de outras horas.
E recordações avulsas.
Deixa-as sair de dentro do vestido, deixa soltar as ondas do mar.
A janela está vazia.
O meu filho caminha na praia e tu soletras as gaivotas.
Caminha à minha frente sem deixar pegadas.
Perco-me como todas as mães, todos os amantes.
Invento passos e palavras para adormecer.
A esta hora a minha avó enrolava o rosário nas mãos.
Eu estava dentro das contas, dentro do sono que rondava a prece. Durante muito tempo estive fora.
Agora caminhamos juntos.
Sem memória.
( rosa alice branco )

Flamingos ...... by Warren Keelan #Australia
"O lúdico não é um luxo, algo agregado ao ser humano, que pode ser útil para se divertir: o lúdico é uma das armas centrais pelas quais o ser humano se conduz ou pode se conduzir pela vida a fora. O lúdico, não entendido como jogo de cartas ou partida de futebol: entendido como uma visão na qual as coisas deixam de ter suas funções estabelecidas para assumir muitas vezes funções bem diferentes, inventadas. O homem que habita um mundo lúdico é um homem colocado dentro de um mundo combinatório, de invenção combinatória, que está continuamente criando formas novas."

- Julio Cortázar em "PREGO, Omar. 'O fascínio das palavras – entrevistas com Julio Cortázar'". [tradução de Eric Nepomuceno]. Rio de Janeiro: José Olympo, 1991, p 126.

Massive Attack - Girl I Love You

Escada Para o Céu

Escada para o Céu - Trailer principal - Netflix

"Há noites em que o lobo se cala e somente a lua uiva."

RUFINO TAMAYO, 1899-1991, Mexican Modern Art.

Carta de novembro

Mariana Ianelli
Não leve a mal o silêncio, meu amigo. São horas de equilíbrio instável até chegar a uma trilha arborizada, depois mais algumas horas até poder pensar uma palavra. E assim vão as semanas. Passando um tempo imenso sem registro. Um tempo imenso livre de ser registrado. Nenhuma peripécia aparente. Nada de prazeres transatlânticos. É só um café depois do almoço. Uma hora a mais de sono de vez em quando. Um banho morno. Um chá à noite. Prazeres inversamente proporcionais a seu nível de extravagância, mas como fossem graças, pequenas graças. Uma cópula aérea de borboletas. Seis hibiscos abertos mais três brotos. Um reflexo de fogo no vidro do apartamento em frente. Coisa pouca, para cuidar que os ecos do mundo não quebrem uma alma através dessas janelas para os muitos cantos da Terra com seus meninos cobertos de cinzas, como tatus enfiados em abrigos, retirados de escombros, meninos salvos de bombardeios, meninos em botes apinhados de gente em pânico, bichos enlouquecendo em cativeiros, essas imagens do dia que entram por nossos olhos e depositam seus ovos aqui dentro. Então o silêncio. Então um tempo imenso sem registro, mas de íntimas batalhas. Para colher do mundo um mundo que mereça uma criança. Como aquela mulher que caminhava debaixo de chuva, com bolhas nos pés, em tempos de guerra, procurando um ramo de rosas para trazer para casa. Como o passarinho que vai preparando seu ninho contra o vento com centenas de minúsculos gravetos: ainda cuidar de fazer dentro de um dia uma cama de pequenas graças. Não são as palavras que custam a ganhar forma, custa é colocar alento nelas. Não leve a mal, meu amigo. Uma palavra demora um milagre a nascer.



Waylon Jennings and Jessi Colter-Suspicious Minds


Escute o silêncio.

Ele tem muito a dizer.

~ Jalâl ad-Dîn Rûmî ~


(Imagem: Richard Garro)

Le Parquet (Arasta Bazar) - Mazurka Klandestina 2014

Protege o paraíso em ti, 
erguendo à volta um muro de serenidade.
Nesse discreto jardim reside o segredo das coisas
e o seu velado futuro, que tu constróis aqui e agora.
Há um deus em ti que dispensa o grémio dos sacerdotes
e uma luz emana do justo, clareando em redor. 
Cada dia da Criação semelha o seu primeiro dia e,
à medida que percebes vida e morte,
tornas-te senhor de ti mesmo.

Gonçalo B. de Sousa
04-11-2016

aprendizado...


/
quanto temos numa mesma pessoa, o ensinamento, o conhecimento e as estrelas, não falamos de ausência...
falamos da falta que ela nos faz, do espaço que ninguém ocupa e da dor que fica no peito.
*fica o registro
eu, Margarida Di



Massive Attack- Paradise Circus (Luther Edit- full version)

Objetivo: a Não-ação




Simplesmente parar
- parar de ler ver escrever rever curtir comentar corrigir apagar copiar publicar seguir convidar agradecer -
são infinitivas as razões e

tô com preguiça de ser

vou
mudar vou me aquietar
esquecer
viver além aquém
de ter
de precisar
conter reter saber
vou diminuir vou relaxar
vou me deixar voar

e deixar ir e vir

tk.

© Alicja Posłuszna

O meu irmão alemão

Asa de inseto, nota de dez mil-réis, cartão de visita, recorte de jornal, papelzinho com garranchos, recibo da farmácia, bula de sonífero, de sedativo, de analgésico, de antigripal, de composto de alcachofra, há de tudo ali dentro. E cinzas, sacudir um livro do meu pai é como soprar um cinzeiro. 
Início do livro " O meu irmão alemão", de Chico Buarque




As palavras


Alfonso Costafreda - (1926 - 1974)
Pedras preciosas do sentido,
diamantes do real.
Perdem o brilho, se vão em sonhos,
a luminosa verdade.
Palavras vivas, não lhes toque
quem as não saiba cuidar.

20.11.16

Huun Huur Tu - Chiraa-Khoor

Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos


Charlotte Delbo

Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pelo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.


(versão de Luís Filipe Parrado)


Photograph by Yuriko Takagi 

Ninguém nos diz como


tradução de Angélica Freitas

Ninguém nos diz como
voltar a cara contra a parede
e
morrer simplesmente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que caminhou
em direção à sua agonia
como quem vai
a uma impostergável cerimônia
batendo orelhas
ao compasso
do cadencioso
fôlego de sua tromba
só no reino animal
há exemplares de tal
comportamento
mudar o passo
aproximar-se
e cheirar o já vivido
e dar as costas
simplesmente
dar as costas

Blanca Varela


O ex-poeta


Malcolm Lowry
"Madeira flutua na água. As árvores
Se arqueiam, ali está verde, a sombra.
Uma criança passeia nos prados
Uma serraria, vê-se pela janela.
Conheci um poeta que chegou a isso:
O amor não se foi, apenas as palavras de amor,
Disse ele. As palavras se foram
E teriam pintado aquele navio
Cores vermelhas jamais tiradas
Em crepúsculos lívidos no Cabo.
Eu disse que também era bom.
Ele sorriu e disse: Algum dia
Deixarei este lugar como as palavras me deixaram."


Ron Bernard | Les Eaux De Mars (Águas De Março)

"Felizmente já faz tempo. Pensei que ia contar com raiva no reviver das coisas, mas errei. Doer se gasta. E raiva também, e até ódio. Aliás também se gasta a alegria, eu já não disse?
[...], nada volta mais, nem sequer as ondas do mar voltam; a água é outra em cada onda, a água da maré alta se embebe na areia onde se filtra, e a outra onda que vem é água nova, caída das nuvens da chuva. E as folhas do ano passado amarelaram, se esfarinharam, viraram terra, e estas folhas de hoje também são novas, feitas de uma seiva nova, chupada do chão molhado por chuvas novas. E os passarinhos são outros também, filhos e netos daqueles que faziam ninho e cantavam no ano passado, e assim também os peixes e os ratos da dispensa, e os pintos... tudo. Sem falar nas moscas, grilos e mosquitos. Tudo."
(Rachel de Queiróz)
"A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra"

(Matsuo Bashô)

Luigiolla
"O preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você troca por isso."
(Henry David Thoreau)

Tony Joe White Susie Q

Teu gato


Raul Drewnick
Gostaria de ser um gato que tivesses acabado de recolher da rua e a quem, carinhosamente, estivesses agora perguntando se tem sido muito triste minha vida. Eu iria inventando histórias e mais histórias, para ouvir tua voz quente me consolando e tuas mãos me afagando: meu gato, meu pobre gato, nunca mais vou deixar que te aconteça nada de ruim.




(Imagem: André Kertész.)