16.10.17

Charlotte Gainsbourg


by Jean-Baptiste Mondino

Nydia Bonetti

Não, a poesia não me salvou. Porque 
nada há que me salve. 
Sempre à beira 
de algum mar abismático — não azul
sou meu próprio precipício

Nydia Bonetti



林在野 

A experiência total de ter gêmeos.






Lella Banty
Mit Maurizio Bussani.

Driss El Maloumi - Safar


- Que procuras?
- tudo.
- que desejas?
- nada. 

viajo sozinha com o meu coração.
não ando perdida, mas desencontrada.
Cecilia Meireles 


Marina Hirschhorn
Tudo é outra coisa; isto é só a primeira experiência da realidade. 
Agustina Bessa-Luís



Zenina Ksenia V.

CAVALEIRO DE COPAS

 
ARCANO DA SEMANA ☾ 16/10 a 22/10
CAVALEIRO DE COPAS

Quem deseja conquistar alguém ou alguma coisa, que se dedique. É nesta semana que o Tarot se mostra absurdamente claro às suas ideias que tanto falham: falta uma performance de prontidão de sua parte. Atenção absoluta às pessoas que interessam. Ao afeto que se mostra e, principalmente, ao que você nem faz menção. Dias de fazer valer qualquer to
que de sedução para garantir o alvo. Usar o que se tem. Brindar o galanteio. A delícia dos venenos.

O Cavaleiro de Copas é um ordenado da Sagrada Ordem da Encantaria. Ele está em cada um de nós quando falamos em bondade, gozamos em malícia, e erramos na dedicação aos grandes sonhos. Quando perdemos a mão e quando retomamos as promessas. Essas de tornar mais doce a nossa relação com o mundo; aquelas de querer mais dócil a nossa relação com os outros. Dar o melhor de si — sem que percebam todas as nossas intenções — é coisa feita de quem se move na direção da felicidade. O sucesso se faz durante o caminho, já reparou? Pois veja bem. E nesta semana de tantas mensagens, o teste à sua paciência é o mesmo às suas atitudes. Faça por onde que te encantarei, diz o deus da Magia. Então, no calor das emoções, acenda uma vela. Você pode tanto e tanto perde. Então vamos. A galope.

Semana de enfeitiçar e se deixar morrer de amor. Embriagados todos pelas brenhas do prazer e do medo. Tomados todos pela do beleza do caminho. São dias santos para a romaria do projetos seguidos à risca — mesmo diante dos riscos. De cavalgar na direção do êxito. De copas pro ar.



Texto: © Leo Chioda ✦ www.cafetarot.com.br
Imagem: © Tarot of Prague


Ivan Rebroff - Wenn Schwäne über die Taiga ziehen

"Lá onde és amado constrói a tua casa."
(Filosofia cabinda)



15.10.17

Tayeb Mechour - Argélia






Arboles de Agua




Compositor: Javier Limón


Árboles de agua sobre el río lloran
Lágrimas de lluvia imploran
La tierra no bebe desde que te fuiste
Ni un beso mi diste

El camino blanco que lleva a tu casa
Sigue tan vacío, nadie pasa
Tan solo algún niño perdido jugando
Como te extraño

Son tus caricias las que cambiaron mi vida
Pero es tu ausencia la que domina mi pensamiento
Y cada noche baila mi mente con tu recuerdo
De madrugada
Soñando que volverás mañana

Me ha dicho la luna que una vez te vieron
Ibas de la mano de otro caballero
Condenada luna seguro mentía
Tú solo eres mía

Y si el tiempo pasa y el agua no llega
Y el árbol se muere y el río se seca
Seguiré esperando solo en el desierto
Como te quiero

Son tus caricias…
Como assim? Pó? Tudo? Até aquela parte de nós, aqui na nuca, que ainda se arrepia ao ouvir os Beatles?
Raul Drewnick


ChingYang Tung

JAN VAN DER KOOI











Comece por partir os espelhos de casa, deixe cair os braços, olhe vagamente para a parede, esqueça-se.

Cante uma nota só e escute. Se ouvir (o que só acontecerá muito depois) algo como uma paisagem sumida no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas e de cócoras, creio que está no bom caminho, assim como se ouvir um rio onde vogam barcos pintados de amarelo e negro, se ouvir um sabor a pão, um mexer de dedos, uma sombra de cavalo.

Em seguida compre solfejos e um fraque e por favor, não cante pelo nariz, deixe Schumann em paz.



Julio Cortázar
Histórias de cronópios e de famas - Manual de instruções


Muhterem Sarıyer‎

Arthur Beatrice - Carter (Uncut)

Lettres portugaises


I


(...)
Conjuro-te a que me digas por que é que te empenhaste em me encantar como fizeste, se já sabias que me havias de abandonar? Por que é que puseste tanto empenho em me tornar infeliz? Por que não me deixaste em paz no meu convento? Tinha-te feito algum mal?

Soror Mariana Alcoforado



Bill Cooper‎









Alejandro Cerrudo's Memory Glow excerpt (World Premiere)

Salomé após o crime

Quantas vezes te vi

e me surpreendi porque te olhava?
Sentindo a tentação de te espiar
e o desejo de amar
o que não tinha

Como saber
pelos sonhos mais nus
que me assaltavam
que eu não era paisagem
para ti?

Dizem luxúria só
onde houve amor
e um crime tão enorme de luxúria:
mas eu quis-te indefeso
como festa,
os teus lábios a festa para mim

Quantas vezes me vi
pensando no meu crime
e na história dos homens
a julgar-me!

Mas o que eu li
na bandeja do crime
foram os olhos com que tu
me olhavas
(finalmente eu paisagem)

e a luxúria
que há sempre
no amor

Ana Luísa Amaral


Vladimir Semenskya 

IMAGINANTES. El Efecto Mariposa



Stéphanie Devaux



initials, typography styles and calligraphic art - Stéphanie Devaux

No alto


Junto ao mar. Às costas do velho molhe, cheira
a peixe  alcatrão, a sós, na noite
sem candeeiros nem luzes, com uma camisola fina
e a aragem no rosto, enquanto se ouve ao longe
música de arraial e o bater  das ondas,
a minha lembrança procura-te e ergue-te e segura-te
para olhar para ti tal como então olhava,
por cima de tudo o que passa e sucumbe.
No alto  mais fundo, onde permaneces ainda.

Abelardo Linares


Gustave SINGIER Nuit menaçante, 1960. 


Saudação

“Já não escuto o que dizes, voltarei
para junto do lago: o meu anjo
virá por não sei onde, irá trazer-me
os felizes recados de Deus.

‘Que a alma seja corpo’, e que este corpo
lhe saiba responder ao mais brilhante
sorriso. À luz da lua,
poisada no meu ventre, a sua mão.”


Fernando Pinto do Amaral


Beatus

Μόρφω Τσαϊρέλη - Όσα περάσαν

O silêncio da noite e seus olhos nos meus olhos, nos meus olhos,nos meus olhos.
--meus dedos na sua pele escorrendo paixão.
Eu que não esperava a noite em pétalas, em pétalas dos seus cabelos.
Que te vi entre os meus lençóis como fruta que se colhe por desejo.
Celebro este relicário,esta madrugada. 
A noite que andei por você.
Que se abriu como flor no cerrado.
Ainda que, eu andasse nua pela
madrugada,nada teria seu sabor.
--nem o vento,nem o mar,nem a brisa.
Eu que vi nos seus olhos minha boca em chamas.
Que provei meu amor e proclamo.
Posso dizer em poema,em noturno poema.
Em nada assemelhas-te com amores passados.
Sua boca é como o sol quando abre o dia.
E ele não é nada quando a noite é com você.
(sonhei de novo com vc)*

Célia Maia


Marina Tsvetáieva

Um guizo na boca, de prata.

[...]
Teu nome – ah, não consigo!
Teu nome – um beijo no ouvido.


Marina Tsvetáieva




14.10.17

Fernanda Abreu - Fullgás

Fullgás


Compositor: Ântonio Cícero / Marina Lima

Meu mundo você é quem faz
Música, letra e dança
Tudo em você é fullgás
Tudo você é quem lança
Lança mais e mais

Só vou te contar um segredo
Não nada, nada de mal nos alcança
Pois tendo em você meu brinquedo
Nada machuca nem cansa

Então venha me dizer o que será
Da minha vida sem você
Noites de frio
Dia não há
E um mundo estranho pra me segurar

Então onde quer que você vá
É lá
Que eu vou estar
Amor esperto
Tão bom te amar

E tudo de lindo que eu faço
Vem com você, vem feliz
Você me abre seus braços
E a gente faz um país








Camille - Ta Douleur (Clip Officiel)

"Desarmado" era a única palavra que podia descrever o meu coração enquanto estava ao lado do seu.
Sylvia Plath



A importância das coisas, o agitar dos corpos, a mesma voz palpável na extinção das luzes. Quando a noite ocorre, a nossa dupla existência parece mais homogénea, o gato parece mais cinzento, os ângulos ficam moles.
As sombras aproximam-nos e ligam-nos quando o dia está a acabar.
A asfixia dos problemas, o pensamento escuro, a carícia dos olhos. Quando a noite nos leva, tornamo-nos apenas um. As nossas birras vão-se, a nossa consciência é diferente.
O apaziguamento das palavras, a flexibilização do tempo, a dimensão das peles, a ternura das vozes, a amplitude dos gestos, fora de qualquer constrangimento.
Quando a noite me atinge, eu não faço mais.
E eu ponho menos a forma
Eve Eden






Eve Eden




 L’importance des choses, le frôlement des corps, la même voix tangible à l’extinction des feux. Lorsque la nuit survient, notre double existence paraît plus homogène, le chat semble plus gris, les angles s’adoucissent. 
Les ombres nous rapprochent et nous lient quand le jour s'atténue. 
L’étouffement des heurts, la pensée tamisée, la caresse des yeux. Lorsque la nuit nous prend, nous ne devenons qu’un. Nos colères s’émoussent, notre conscience est autre. 
L’apaisement des mots, le relâchement du temps, la dimension des peaux, la tendresse des voix, l’amplitude des gestes, hors de toute contrainte.
Lorsque la nuit m’atteint, je ne compose plus.
Et je mets moins la forme

Eve Eden

13.10.17

"Como el musguito en la piedra, ay, si, si, si...", creación de Pina Bausch

COISAS CONCRETAS



Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve.

Amo as coisas concretas
descobrir seus nomes ao pequeno-almoço:
despertador, chuva na calçada, supermercado,
beijos na siesta,
um copo de vinho, amigos,
as pequenas mãos de meu filho,
pessoas na praça,
tu...

Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas,
como um banquete após o jejum.
Parece-me impossível afastar-me de tais coisas:
colam-se à minha caneta e parece que não consigo sacudi-las.

No entanto,
as coisas concretas não permitem atrasos,
e a massa já está pronta.
Assim é a vida.
Quando o semear do poema começava a germinar,
eis que o mundano vem intrometer-se.
E lá tenho eu que me levantar da mesa,
enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.

MIREN AGUR MEABE
Trad. Amaia Gabantxo


ANDREA KOWCH

Acuarelas José Tapiró 1836- 1913.








mimosa idade:
esse envelhecer
de pequenas vaidades




Авторские куклы Ольги Егупец

Philip Glass - Metamorphosis I - performed by Sally Whitwell

"Um arame farpado fere o horizonte."
Jorge Luiz Borges (1899-1986)





" Aceita-me como eu sou. Só então podemos descobrir um ao outro."
Federico Fellini



Marc Perez




"Accept me as I am. Only then can we discover each other."
Federico Fellini


Talvez menos de um minuto seja suficiente
pra se afeiçoar a uma planta.
Um cacto poderia sorrir uma eternidade
antes de um humano perceber.
Há uma coisa entre o se afeiçoar e o perceber
que deve estar além do perceber.
Contamos coisas ao vento
como quem secretamente deseja que as ouçam?
Como quem deseja a realização de um sonho
no ecoar do desejo?
Como se sussurrando num furo de árvore
pudéssemos nos livrar do peso dos segredos?
Não se deve dizer a uma planta
o que só se diria a si mesmo.
Nem a relva, a água ou o vento
conhecem todos os segredos de uma pedra.
Sequer a mais confiável das pedras
conhece nenhum dos meus segredos.
Cesare Rodrigues


Foto de Abdelghani Faqir

Richard Galliano & Tangaria Quartet - Guarda che luna

Sem esforço desaprender
cada grande coisa útil
que a civilização ensine
fazer troça, rir-se
acrobacias, distrair-se
brincar com o contrário
esquecer para que serve
mentir a respeito a uma planta
inventar um poema.
Quem desconhece as grandes coisas
pode assobiá-las
por si mesmo.
Cesare Rodrigues


Der Leiermann








Der Leiermann Drüben hinterm Dorfe  Steht ein Leiermann  Und mit starren Fingern  Dreht er  was er kann.  Barfuß auf dem Eise  Wankt er hin und her  Und sein kleiner Teller  Bleibt ihm immer leer.  Keiner mag ihn hören,  Keiner sieht ihn an,  Und die Hunde knurren  Um den alten Mann.  Und er läßt es gehen,  Alles wie es will,  Dreht, und seine Leier  Steht ihm nimmer still.  Wunderlicher Alter,  Soll ich mit dir geh'n?  Willst zu meinen Liedern  Deine Leier dreh'n?




A lira Sobre a aldeia É um homem de lira E com dedos rígidos Ele vira o que ele pode fazer. Descalço no gelo Ele cambaleou de um lado para o outro E seu pequeno prato Permanece sempre vazio. Ninguém pode ouvi-lo, Ninguém olha para ele, E os cachorros rosnaram Para o velho. E ele deixa-o ir, Tudo como quiser, Volte e sua lira Não fique quieto. Idade lunática, Devo ir com você? Quer minhas músicas Transforme sua lira?

(tradução: Google Translation


Indo naquele campo, apareciam, de repente...


Autora: Marosa Di Giorgio

Indo por aquele campo, apareciam, de repente, essas estranhas
coisas. Eram chamados por lá, virtudes ou espíritos. Mas, em
Verdade eram a produção de seres tristes, quase imóveis,
Que nunca saíam do seu lugar.
Lugares aparentemente, do outro mundo, e quase eternas,
Porque o vento e a chuva as lavavam e lustravam, cada
 vez mais. Era de se ver aquelas neves, aqueles cremes,
aqueles cogumelos puríssimos... esses desalinhos, esses ovos,
esses espelhos.
Escultura, ou pintura, ou escrita, nunca vista, mas, facilmente
decifrável.
Ao entrelaçá-la, vinha todo o ontem, e tornava-se evidente
o futuro.
Os poetas mais velhos estão lá, onde eu digo.

De "Cravo e tenebrário" 1979




Creation of the world XII by Mikalojus Konstantinas Ciurlionis 1906





Yendo por aquel campo, aparecían, de pronto...
Autora: Marosa di Giorgio
Yendo por aquel campo, aparecían, de pronto, esas extrañas
cosas. Las llamaban por allí, virtudes o espíritus. Pero, en
verdad eran la producción de seres tristes, casi inmóviles,
que nunca se salían de su lugar.
Estancias al parecer, del otro mundo, y casi eternas,
porque el viento y la lluvia las lavaban y abrillantaban, cada
vez más. Era de ver aquellas nieves, aquellas cremas,
aquellos hongos purísimos... Esos rocíos, esos huevos,
esos espejos.
Escultura, o pintura, o escritura, nunca vista, pero, fácilmente
descifrable.
Al entreleerla, venía todo el ayer, y se hacía evidente
el porvenir.
Los poetas mayores están allá, donde yo digo.
De "Clavel y tenebrario" 1979

Dustin O'Halloran's Opus # 20

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
– Do Desejo, Hilda Hilst



Egon Schiele - Study of a Couple, 1912