25.4.17

VOZES



Eterno é este instante, o dia claro,
as cores das casas desenhadas em aguada rasa,
castanhos e vermelhos quase em declive,
as janelas limpíssimas, de vidros muito honestos.
Este instante que foi e já não é, mal pousei a caneta
no papel: eterno
Sonhei contigo, acordei a pensar
que ainda eras, como é esta janela,
como o corpo obedece a este vento quente, e é ágil,
mas tudo: tão confuso como são os sonhos
Agora, neste instante, recordo a sensação
de estares, o toque.
Não distingo os contornos do meu sono, não sei
se era uma casa, ou um pedaço de ar.
A memória limpíssima é de ti
e cobriu tudo e trouxe azul e sol a esta praça
onde me sento, organizada a esquadro,
como as casas
E agora, o teu andar
acabou de passar mesmo ao meu lado, igual,
e agora multiplicar-se nas mesas e cadeiras
que cobrem rua e praça,
e eu vejo-te no vidro à minha frente,
mais real que este instante, e se Bruege te visse,
pintava-te, exactíssima e aqui.
E serias: mais perto de um eterno
(Eu , que nada mais sei, só o fulgor do breve,
Eu dava-te palavras –
ANA LUÍSA AMARAL, in VOZES (Pub. D. Quixote, 2011)

Arquitetura em vernáculo

 __

Panna Meena ka Kund_ Amber, Jaipur, Rayastán, India | s. XVII

Ambiente ao ano de 1250, foram muitas construções tipo baori, ou vav, nas áreas de gujarat e rajastão (Índia), trata-se de um tipo de construção destinada ao desfrute da água. Concebidos como um bancadas, existem dois tipos: a que se pode chamar de escada, que consiste apenas de uma escada que eleva-se desde a água e o que pode ser equiparada a um actual bancadas, ou seja, construção em degrau em seus quatro lados com água em Meio. Normalmente eram estruturas desenhadas pelos brâmane (casta mais alta) e construída por engenheiros e obreiros sompara. O acesso a essas arquiteturas estava restrito normalmente à aristocracia.

No século XIX foi proibida a sua utilização por considerá-los higiênica, sem levar em conta o seu significado religioso e social. Trata-se de uma construção integralmente hindu que foi respeitada por invasores e que neste momento se encontra em recuperação e reconstrução.

Panna meena ka kund panna mian ki baoli, situa-se na amber, uma cidade do rajastão, e encontra-se atualmente em processo de reabilitação. Foi construída no século XVII, sua construção como a maioria dos edifícios nesta tipologia representou um gesto de generosidade e bondade para com o povo. Panna Mian situa-se sobre um tanque de água cercado em todas as suas faces por lances de escada simétricos. Em seus cantos situam-se umas peças octagonal e no centro um terraço de dois andares. A única decoração da peça é uma imagem de Zezinho masjid (1569) construída por bihar mal em honra de akbar. Desta forma o rei mughal podia orar enquanto visitava rajput.
Trad. Google











ARQUITECTURA VERNÁCULA__

Panna Meena ka Kund_ Amber, Jaipur, Rayastán, India | s. XVII

Entorno al año 1250 , se desarrollaron muchas construcciones tipo Baori, o vav, en las áreas de Gujarat y Rajastán (India), se trata de un tipo de construcción destinada al disfrute del agua. Diseñados como un graderío, existen dos tipologías: la que se podría denominar de escalera, que consta únicamente de una escalera que asciende desde el agua y la que podría asimilarse a un actual graderío, es decir, construcción escalonada en sus cuatro lados con agua en medio. Normalmente eran estructuras diseñadas por los Brahmin (casta más alta) y construida por ingenieros y obradores Sompara. El acceso a estas arquitecturas se encontraba restringido normalmente a la aristocracia.

En el siglo XIX se prohibió su uso por considerarlos antihigiénicos, sin tener en cuenta su transcendencia religiosa y social. Se trata de una construcción íntegramente hindú que fue respetada por invasores y que en la actualidad se encuentra en recuperación y reconstrucción.

Panna Meena ka Kund o Panna Mian ki Baoli, se sitúa en Amber, una ciudad de Rayastán, y se encuentra actualmente en proceso de rehabilitación. Se construyó en el siglo XVII, su construcción como la mayoría de edificios en esta tipología supuso un gesto de generosidad y benevolencia hacia el pueblo. Panna Mian se sitúa sobre un tanque de agua rodeado en todas sus caras por tramos de escalera simétricos. En sus esquinas se sitúan unas piezas octagonales y en el centro una terraza de dos plantas. La única decoración de la pieza es una imagen de Jami Masjid (1569) construida por Bihar Mal en honor de Akbar. De esta forma el rey Mughal podía rezar mientras visitaba Rajput. 


Fibonacci



La secuencia de Fibonacci.__
Hartenfels Castle, Torgau, Saxony, Germany. 
© Uwe Weckelmann.

24.4.17

Hossein Alizadeh & Djivan Gasparyan - Birds

Um dia hei-de servir-te palavras divertidas
e colherei de um campo verde margaridas.
Beijarei tuas mãos, teus peitos, tuas ancas
que cobrirei, depois, com essas flores brancas.
Farei muito amor contigo até de madrugada,
até que a boca saiba a sombra e saiba a nada,
E tudo há-de depois recomeçar do zero.
Beberei de novo a madrugada em desespero
mas antes, gravarei, num dia como este,
o meu e o teu nome na casca de um cipreste.
Então, minha rainha, princesa, meu amor,
já podemos ir desta pra melhor.
Joaquim Pessoa
*
in ANO COMUM

A garota mais beijada

A garota mais beijada
Em Göttingen - Alemanha
É um ritual em Göttingen para trazer flores e beijar que
Gänseliesel, quando o estudo está terminado.
Göttingen é uma cidade universitária na Baixa Saxônia, Alemanha.
É a capital do distrito de Göttingen. O rio Leine atravessa a cidade.

-
© Gudrun Ronsöhr-Hiebel

Em Göttingen - Alemanha
É um ritual em Göttingen para trazer flores e beijar que
Gänseliesel, quando o estudo está terminado.
Göttingen é uma cidade universitária na Baixa Saxônia, Alemanha.
É a capital do distrito de Göttingen.
O rio Leine atravessa a cidade.



The most-kissed girl



in Göttingen - Germany
It is a ritual in Göttingen to bring flowers and kiss that 
Gänseliesel, when the study is finished.
Göttingen is a university town in Lower Saxony, Germany. 
It is the capital of the district of Göttingen. 
The River Leine runs through the town.
-
© Gudrun Ronsöhr-Hiebel

Entendi


Entendi o rasgo do pássaro no medo azul.
Entendi o gosto súbito da tristeza,
um desajeito na vida.
Entendi os princípios mais mesquinhos
do sujeito diante da obra,
a grande pintura,
a música universal,
um desejo de eternidade
na palavra pedindo obséquio
ao papel.
Entendi o discurso
num café pequeno,
bares daquelas cidades também pequenas,
onde se chora o tempo sem saber,
onde os cemitérios recebem
a única harmonia verdadeira.
Entendi o cinema apagado,
as luzes acesas,
o cigarro das tardes antigas,
o adolescente avisado
que crescer ia ser inútil
e seu gosto pelo isolamento.
Entendi o aparato,
todo maquinário do dia,
a implantação do ódio.
Aqueço as flores que morrem em minha mão.
Fiori Esaú Ferrari
"A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento."
Anton P. Tchekov, "A Dama do Cachorrinho"

Arte fotografía de Sarolta Bán.


LÍLIA TAVARES, in EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS (Seda Publ., 2015)
Sou o cais
E esta é a mágoa da tua demora.
Desejo-te como as gaivotas o vento...
*

Kronos Quartet & Alim Qasimov Ensemble - Getme, Getme (Said Rustamov, Az...

Palavra.. Palavra.. Boa ou má, ela precisa de uma palavra, a qualquer preço que se tenha... Obviamente, o silêncio passa por todo o lado mas a palavra não aguenta ponto a caneta...!
Já há uma hora que eu escrevo e séculos de desprezo...! Explodimos das palavras, em todo caso, foi contra os males de toda parte..
Deste mundo ou a justiça seca..
[...]
Temos de fazer qualquer palavra seta..
Silêncio e virtude..
Não é mal pensado.. Hein! E sou mais feliz que sábio..!
Boa ou má é a palavra.. Não se diz que o que queremos e, infelizmente, não se ouve o que queremos..............................................................!

Abdelghani Balahouane
(traduzido do francês pelo google translation)



ARCANO DA SEMANA ☾ RAINHA DE ESPADAS



Ser implacável. É assim que se ganha o próprio respeito nesta semana. Não dando voz ao mimimi dos outros, mas havendo gentileza o tempo todo. Assim, é prudente agir de modo sabiamente calculado sem deixar de ser doce. Saber ser coração sem deixar de ser lâmina.

Porque a semana pode ferver o seu sangue — um senhor teste de frieza tanto aos ânimos quanto aos objetivos. Quem se deixa levar pelo emocional pode cair a qualquer percalço; quem administra o caminho com a cabeça atenta tropeça menos. E chega onde deve.

Então atente aos compromissos mais sérios. Corte os devaneios e as pessoas imprestáveis. Seja firme e não mande indiretas — quanto mais suaves e mais profundas as suas palavras, mais consistentes serão os efeitos. Seja implacável com o que lhe atrapalha sem deixar de haver polidez. Compreenda os outros sem se envolver mais do que já se envolve. Sorria, mas não se demore. E aqui não há espaço para falsidade — eu falo de argúcia: de modo firme e sensato você lê melhor o mundo e degola os problemas. Lâmina em punho e coração no devido lugar.

Seja gentil. E implacável.

Texto: © Leo Chioda • www.cafetarot.com.br
© The Bohemian Gothic Tarot • Baba Studio, 2010



Wayfaring Stranger - Jack White - best version EVER!

"Então eu sempre vou inclinar meu coração tão perto de sua alma quanto eu puder."
 - Hafiz, O Assunto Esta noite é Amor: 60 Poemas Selvagens e Doces de Hafiz
Fotokunst Ulrike Adam
“So I will always lean my heart as close to your soul as I can.” 
― Hafez, The Subject Tonight Is Love: 60 Wild and Sweet Poems of Hafiz

Фолькнери - Карчата / Folknery - Karchata (Official video)

Para onde te leva esse fogo,
esse coração a sondar a palavra?
Para onde te leva a transparência dos pássaros?
A que vida?
Mal ou bem, a tua voz é uma rua sem nome.
A tua voz sai das pedras, ascende, leve, à beleza terrível.
mariagomes
Abril, 2017

Oh, como o corpo sabe tudo!





Debaixo do luar, Nós nos deitamos e rimos Como frases corridas, beijadas como elipses e Você me segurou tão perto que eu uso meus ossos para baixo suave contra O grão de sua pele. " - Shinji Moon, A Anatomia do Ser





Underneath the moonlight,
we laid and laughed
like run-on sentences, kissed like ellipses, and
you held me so close that I wear my bones down smooth
against
the grain of your skin.”
― Shinji Moon, The Anatomy of Being

Oh, how the body knows all 
(David P Mcghan)

AMOR COMBATE


Love, de Ana Emanuelly






Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:
O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz de uma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.


JOAQUIM PESSOA, in AMOR COMBATE (Moraes Ed., 1976)

*

O poema dito por José António Moreira:
http://goo.gl/zbldsf

*


(Via Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen)

Só Tinha de ser com você - Tom Jobim e Elis Regina


Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. 
Sem uso,
ela nos espia do aparador.
- Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética; organizada pelo autor, Rio de Janeiro:
Record, 1998.
Dança do universo -
Desfila em meu coração
a lembrança do amigo.

(jiddu)

23.4.17

Folknery - Karchata (Legendado)

*Um único ser nos falta, e fica tudo deserto.
*Alphonse de Lamartine

Poema de Amor


Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.
E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes a velha fábula
do lobo que matou o cordeiro
e lhe roeu as entranhas,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheces-te
e te guiou - mal ou bem.
Depois, sabes, estou enjoado
desta farsa.
Histórias, fábulas, amores
tudo me corre nos ouvidos
a fugir.
Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada,
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou.
Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz.
...Quero-me só, a sofrer e arrastar
a minha cruz.
Fernando Namora, in Retalhos

Words - Ane Brun

Vire um pouco mais
A grande manivela
Os dias estão à procura de significado
Para partir, finalmente,
Nas horas do dia
Um pouco menos de amargura
Um pouco mais de sol
Um pouco menos de pesar
Um pouco mais de calor
Um pouco menos de inocência
E ainda assim eu sou o único
E ainda assim eu sou assim
Mais uma oportunidade,
Eu tento ser alegre
Sendo menos antiquada
Suavizo uma ruga
Coloco o batom
E  adiciono o açúcar
Em vez de sal
Eve Eden



Eve Eden



Tourne encore un peu plus
La grande manivelle
Les jours cherchent un sens
Pour enfin s’écarter
Des heures de la veille
Un peu moins d’amertume
Un peu plus de soleil
Un peu moins de regrets
Un peu plus de chaleur
Un peu moins d’innocence
Et pourtant je suis celle
Et pourtant je suis telle
Une opportunité
J’essaie d’être plus gaie
D’être moins déphasée
Je défroisse un faux pli
Remets du rouge à lèvres
Et rajoute du sucre
A la place du sel
Eve Eden

amor


meu presente do indicativo
meu verbo amar
minha beatriz
minha flor minha raiz
meu serafim demoníaco
minha pop star
minha praça da matriz
meu losango antônimo ditongo tritongo
minha prosa poética
minha ênfase
minha filmografia
minha série derivada
meus sons gorjeios
minha dialética
minha tese antítese síntese
meu pó de perlimpimpim
minha lâmpada mágica
minha menina amendoim
vc é meu amendoinzinho....
amor.
Sérgio Villa Matta

22.4.17

© Alex Howitt 2012


"(...) Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar.
Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...)
Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele."
(Fernando Pessoa/ Inéditos)

Ry Cooder & V.M. Bhatt - Ganges Delta Blues (A Meeting By The River)

21.4.17


Lua e estrela.mp4

40 graus de febre



Pura? O que significa isso? 
As línguas do inferno 
São torpes, torpes como as três 

Línguas do torpe, obeso Cerberus 
Que arfa ao portão. Incapaz 
De lamber e limpar 

O membro em febre, o pecado, o pecado. 
Crepita a chama. 
O indelével aroma 

De vela apagada! 
Amor, amor, a fumaça rola 
De mim como a echarpe de Isadora, e temo 

Que uma das portas se ancore na roda. 
Uma fumaça tão amarela e sombria
Faz de si seu elemento. Não vai subir, 

Mas girar ao redor do globo 
Asfixiando o idoso e o humilde, 
O indefeso

Bebê na estufa de seu berço, 
Orquídea pálida 
Suspensa em seu jardim suspenso no ar, 

Diabólico leopardo! 
A radiação o embranqueceu 
E o matou em uma hora. 

Engordurando os corpos dos adúlteros 
Como as cinzas de Hiroshima que os devoram. 
O pecado. O pecado. 

Meu bem, passei a noite
Me virando, indo e vindo, indo e vindo. 
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso. 

Três dias. Três noites. 
Limonada, canja 
Aguada, água me deixa enjoada. 

Sou pura demais para você ou qualquer outro. 
Seu corpo 
Me magoa como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna –

Minha cabeça uma lua 
De papel japonês, minha pele folheada a ouro 
Infinitamente delicada e infinitamente cara. 

Meu calor não te choca. Nem minha luz. 
Sou, sozinha, uma camélia imensa 
Ardendo e indo e vindo, gozo a gozo. 

Acho que estou subindo, 
Acho que posso levantar –
Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu 

Sou uma virgem pura 
De acetileno 
Cuidada por rosas, 

Por beijos, por querubins, 
Por qualquer dessas coisas róseas. 
Não você, nem ele 

Nem ele, nem ele 
(Meus eus se dissolvem, anáguas de puta velha) –
Ao Paraíso.

- Sylvia Plath, no livro "Ariel" (edição fac-simile).. [tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo] Campinas-SP: Verus Editora, 2007. 


HELENA



A primeira gota de chuva assassinou o verão.
Molharam-se as palavras que engendraram claridades de estrelas.
Todas as palavras unicamente dedicadas a Ti!
Onde deixaremos os olhos se os últimos olhares se perderam nas nuvens,
E estamos – como se a névoa passasse entre nós –
Terrivelmente sós, rodeados por tuas imagens mortas.

Contra o cristal velamos o novo sofrimento.
Não é a morte que nos renderá posto que Tu existes,
Posto que existe noutro lugar um vento para viver-te eternamente,
Para vestir-te de perto como te vestes distante nossa esperança.

Visto que existe noutro lugar
Uma verde planície que se estende de teu sorriso ao sol,
Dizendo-lhe em confiança que voltaremos a nos encontrar.
Mas uma pequena gota de chuva outonal,
Um confuso sentimento,
O aroma de terra úmida em nossas almas que tanto se separam.

Embora não esteja tua mão em nossas mãos,
Embora não esteja nosso sangue nas veias de teus sonhos,
A luz no céu imaculado
E a música invisível dentro de nós, oh, melancólica
Passageira de quanto nos retém ainda no mundo.
É úmido o ar, a hora do outono, a separação,
O apoio amargo do cotovelo na lembrança
Que aparece quando a noite nos separa da luz,
Pela janela retangular que olha a tristeza,
Que não vê nada,
Porque se fez música invisível, chama na chaminé,
Acerto o grande relógio na parede.
Porque se fez
Poema verso a verso, exalação paralela à chuva, às lágrimas, às palavras.

Palavras não como as outras mas unicamente dedicadas a Ti.


* Tradução de Pedro Fernandes de O. Neto

(Via Hotblog do caderno-revista 7faces)

Big Little Lies: Opening Credits (HBO)

HBO Big Little Lies Theme Music (HD) Michael Kiwanuka - Cold Little Hear...



Enquanto não vens nem tu sabes é assim
uma casa que só cheirasse a uvas de setembro
Este quarto esta sala onde o som contínuo é Out of

Nowhere soprado pelo Charlie Parker
Há calma com vento que vem quente enquanto não vens
e podes ter a certeza que o soalho vai ter aroma de estações
A que menos entenderes para melhor a desejares
.
Entretenho-me com uma breve meditação
sobre o perfil de um velho índio apsaroke
e tenho-te rapariga na visão do vale dos bisontes
onde esperas o bafo morno do fim da tarde
ajeitando o lenço na cabeça e sorrindo
entre o voo de alguns insectos
e a recordação destes dedos que te escrevem
.
Não me leves a mal se te falo de coisas tão domésticas
mas neste falar assim é que as plantas destes vasos
crescem para o tecto e é lá que está o éden delas
ainda que o vá sendo sempre o ar e
a luz que tomam
cada dia perto muito perto das menores palavras
com que te aviso do paraíso tão à mão
.
Hoje sinto-me lesma será isto lucidez?
e não tenho sexo nem para as horas
nem lei para esta coisa suave
que é dançar na metafísica como astronauta para lá da gravidade
Cá vou indo menina cá vou indo
e não me peças versos que os não dou
por os não saber fazer ou ler ou nada





ABEL NEVES, in 366 POEMAS QUE FALAM DE AMOR, Antologia organizada por Vasco Graça Moura (Quetzal, 2003)


https://www.youtube.com/watch?v=qBrcY6svyWE
*
https://www.youtube.com/watch?v=1TECW7fhPxI






Fotografia de ©Nick Price

@ Danny Meyers


“Toda vez que a gente quer alguma coisa, e não sabe o quê, então é porque a gente está é com sede dum bom copo d’água, ou carecendo de ouvir música tocada...”
.
- João Guimarães Rosa, da novela “Buriti”, em "Noites do Sertão", no livro 'Corpo de Baile'. 1965.
desafiando 
razão : descrenças : preconceitos 
[loucura : crenças : prepotências]
nas noites mais escuras 
pode-se ouvir um eco vindo de dentro 
do corpo/templo
em que esse Deus habita.
No tempo do silêncio dos homens.


Nydia Bonetti

Happy Birthday, James Norton!

O DESEJO


Sou alérgica ao desejo
como ao mofo, ao mar,
aos gatos, ao leite,
aos lugares fechados, a certas flores.
Sou alérgica ao desejo –
doem-me os olhos,
incham-me as pernas,
o sexo arde
como uma caixa de abelhas
lacrada.
O desejo acende-me
como uma casa incendiada
o desejo me deixa
sem mais nada.
Ana Martins Marques

Muthu Kumar‎

HUBERT von GOISERN & die ALPINKATZEN - Koa Hiatamadl "Live"

O MEDO


os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos
foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida
pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço
luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho
restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar
AL BERTO

© Trine Søndergaard



Anuchit Sundarakiti 2012

Terra




Cuide bem dela, com carinho e amor - ´
é a nossa casa, nosso ninho,
nosso lar.

Nenhuma dor


Minha namorada tem segredos
Tem nos olhos mil brinquedos
De magoar o meu amor

Minha namorada muito amada
Não entende quase nada
Nunca vem de madrugada
Procurar por onde estou

É preciso, ó doce namorada
Seguirmos firmes na estrada
Que leva a nenhuma dor

Minha doce e triste namorada
Minha amada idolatrada
Salve-salve o nosso amor

- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Caetano Veloso).
Gostaria de ver um pouco do teu sonho. Ver como pegas teu gato, sorris para ele, o afagas. Ver como pegas tua cachorrinha, esfregas o nariz no dela, a afagas. Ver se sonhas comigo, se me abraças, se me afagas.
Raul Drewnick


Shozo Ozaki

NEOCANTES Duermete, Fiu Del Alma 1973

XIV


É preciso partir da manhã
para o escuro de Deus.
Das coisas
para as coisas.
Pisar na dor
para o equilíbrio
da terra e os frutos.
É preciso amar sempre
e de novo.
Que os pensamentos voam raso,
embaixo das estrelas.
Não há religião ou ambição
nas profundezas.
Quem ama
corre o risco.
– Carlos Nejar: ‘melhores poemas’. [organização Léo Gilson Ribeiro]. São Paulo: Editora Global, 1997.

P.g. Ehlinger, Vous, qui passez sans me voir...