20.8.17

Ali Farka Toure, Ry Cooder - Amandrai

As manifestações de Deus


São imensas para o meu pensamento:
o céu, as estrelas, o mar, a alma humana.
Cabem nos meus olhos,
não na minha razão.
São delicadas para o meu sentimento:
a flor, o pássaro, o teu olhar -
cabem nas minhas mãos
e no meu coração.
tucakors

Rembrandt - Head of Christ - ca.1648

Uma História de Amor e Trevas (Trailer Legendado)

Amós Oz - De amor e trevas (2001) / e-book (Companhia das Letras, 2016)

"Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados.
Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam.
Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu.
Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro.
Quero aquele olhar que não cansa." 
- Caio F. Abreu -


Bahram Hajo - Syrian Artist

Hora grave


Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.
Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.
Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.
Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.
– Rainer Maria Rilke, em “O livro de imagens” (1902). [tradução Paulo Plínio Abreu em colaboração com o antropólogo alemão Peter Paul Hilbert]. Belém/Pará: Jornal Folha do Norte.
– Rainer Maria Rilke, in “Das Buch der Bilder” (1902).


Darin Ahmad - Syrian artist 

A suspeita transforma o homem

O folclore alemão conta a história de um homem que, ao acordar, reparou que seu machado desaparecera. Furioso, acreditando que seu vizinho o tivesse roubado, passou o resto do dia observando-o.
Viu que tinha jeito de ladrão, andava furtivamente como ladrão, sussurrava como um ladrão que deseja esconder seu roubo. Estava tão certo de sua suspeita, que resolveu entrar em casa, trocar de roupa, e ir até a delegacia dar queixa.
Assim que entrou, porém, encontrou o machado – que sua mulher havia colocado em outro lugar. O homem tornou a sair, examinou de novo o vizinho, e viu que ele andava, falava e se comportava como qualquer pessoa honesta.

©Julie Marie Craig


NOTAS AVULSAS.


Velhos não gostam de mudanças. Querem sempre o mesmo lugar à mesa. Saia da minha cadeira. Sento aí desde 1970.
Esse prato, não. Quero meu prato com o rachadinho. E por aí vai.
Alguns velhos têm 30 anos. Muitos velhos gostam de amarrar a calça bem alta, debaixo do sovaco. Velhas usam óculos com corrente.
Todos os velhos são de extrema-direita, menos os que não são.
Alguns velhos usam rabo-de-cavalo, fumam maconha e acreditam em cristais, em 5ª dimensão, em ETs infiltrados e outras porcarias da contracultura.
Têm velhos muito velhos. Têm os velhos de cabelo e bigode pintados.
Velhos dirigem pelo lado direito da pista. Velhos são mandados pra Maceió.
(Carlos Antônio Jordão – 19 - 08 - 2017)

Grupo Corpo - Sem Mim | 2011

"Todo amor não é mais do que um "eu" que transborda."
Guilherme de Almeida
1890/1969

Akira Kusaka Illustration

manhãs de areia


tonicesa badu 

certa vez, me confundia... qualquer querer...
outra vez, me enganava... amar demais...

manhãs de areia...

são manhãs de um jardim sem sol,
na melhor intenção eu fiz meu coração sofrer...

mas agora só há guarida para o que faz viver:
o leite, o mel e o bem querer


 Matsumoto Hiroyuki

Alguém Cantando (Caetano Veloso) com Tonicesa Badu(voz e violão)



Alguém Cantando
Caetano Veloso

Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão

Os dias dos pais



Eu observei meu pai morrer numa tarde.
Eu já o vinha observando morrer há seis meses,
por isso não chorei.
E não chorei no velório, no enterro.
Chorei depois várias vezes.
Uma tarde na roça de inhame.
Uma ou outra vez vendo fotos.
E de uns tempos pra cá tenho chorado,
sem data, à-toa,
em momentos moles pensando no meu filho.

Paulo Gonçalves


"Não me leia assim, com o olho. Você está lendo errado.
Me toque: estou escrito em braille."
- J. Clėo Ribeiro Castro



19.8.17

Grün lembrou que uma das formas de se enxergar Deus de forma positiva é através da beleza, percebendo esse valor no ser humano, na arte, na liturgia. “Às vezes nos esquecemos de fazer a teologia do belo. Pela beleza, conseguimos perceber Deus”, disse o escritor. Segundo ele, a tradição cristã tem muitas imagens positivas de Deus, mas não se deve tomá-las como absolutas, pois são janelas para percebê-lo. “Ele permanece como mistério”, completou.
Anselm Grün


A solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…
Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.
Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.
– Rubem Alves

18.8.17

Hande Yener - Seviyorsun ( Official Video )

El amor es este viaje inútil, pero muy suave, al otro lado del espejo.
Alejandra Pizarnik


Este envelhecer


O vagão.
A palha.
A paisagem.
A fumaça.
A fumaça.
A fumaça.
A solidão das meninas
de mãos dadas.
Os finos pinheiros
vergados sobre o peso
da neblina.
A contração da glote
na hora da morte.
A rouquidão é a entrega
que chega com o tempo.
Não há luta e as rugas
prenunciam rios.
O inverno entra pela janela
mas não tenho mais recursos
pra edificar uma nova humanidade.
Tenho marés, marés, marés.
E o amor não consumado
das madrugadas.
Deus podia ser,
mas a dúvida por trás
da montanha
espalha anjos
e eu de asas decepadas
acendo o cigarro
diante da fotografia.
Ela tem muito tinha cores.
Fiori Esaú Ferrari

TINDI TOUAREG ( ALGERIEN )

Mensagem 22



Já levei
meu ex-voto
pra igreja nossa
senhora da penha.
Sarei da cabeça.
Mas o coração
continua doce
e medonho.

Domingos Barroso

Sven Lundgren


senhor sanhaço
dono da voz e dos espaços
são nove da manhã

quero vestir as palavras
do calor desta visão


sanhaco-de-encontro-azul_Guainumbi-SP-rawa

Abracadabra



Eu costumo invocar uma palavra, uma palavra mágica, uma palavra abre-portas, que é, talvez, a mais universal de todas. É a palavra abracadabra, que em hebreu antigo significa: envia o teu fogo até ao fim. Como homenagem a todos os fogos caminhantes, que vão abrindo portas pelos caminhos do mundo, eu repito agora:

Caminhantes da justiça,
Portadores do fogo sagrado,
Abracadabra, companheiros!

Eduardo Galeano





...


Yo suelo invocar una palabra, una palabra mágica, una palabra abrepuertas, que es, quizá, la más universal de todas. Es la palabra abracadabra, que en hebreo antiguo significa: Envía tu fuego hasta el final. A modo de homenaje a todos los fuegos caminantes, que van abriendo puertas por los caminos del mundo, la repito ahora:

Caminantes de la justicia, 
portadores del fuego sagrado, 
¡abracadabra, compañeros!
Abracadabra (Eduardo Galeano)

Amos Oz - The Nature of Dreams trailer.mov


Ele no ar
Como um perfume de felicidade.
...
Poet Sms

helena la petite

Henry Pether

(active 1828-1865), God's House Tower, Southampton
O estranho em relação à vida é que, embora sua natureza deva ter sido evidente para todo mundo há centenas de anos, ninguém deixou o registro adequado. As ruas de Londres estão mapeadas; nossas paixões não. O que vamos encontrar, ao dobrar essa esquina?
- Virgínia Woolf,in "O quarto de Jacob” / Joseph Wright of Derby Self-portrait (Detail),1765 -



A poesia é a paz
A paz é poesia.

Mohammed Labib
.
La poésie est la paix
La paix est de la poésie.

Mohammed Labib


17.8.17

Villes invisibles by Toufic Farroukh 2017 (Dedicated To Gus Matar)

Dia de outono



Está na hora. O verão foi imenso.
Põe a tua sombra no relógios
E solta o vento nos campos.

Que os últimos frutos estejam cheios;
Dá-lhes mais dois dias ao sul.
Pressione-os para que se maturem, e prove
A última doçura no vinho pesado.

Quem não tem casa agora não vai construir uma.
Mais.
Quem quer que esteja sozinho agora vai permanecer assim por muito tempo.
Tempo.
Vai ficar acordado, ler, escrever cartas longas,
E vaguear as avenidas, para cima e para baixo,
Agitado, enquanto as folhas estão a soprar.

Rainer Maria Rilke





...

Autumn Day

Lord: it is time. The summer was immense.
Lay your shadow on the sundials
and let loose the wind in the fields.

Bid the last fruits to be full;
give them another two more southerly days,
press them to ripeness, and chase
the last sweetness into the heavy wine.

Whoever has no house now will not build one
anymore.
Whoever is alone now will remain so for a long
time,
will stay up, read, write long letters,
and wander the avenues, up and down,
restlessly, while the leaves are blowing.

Rainer Maria Rilke

XIII (Trilce)


Penso em teu sexo.
Reduzido o coração, penso em teu sexo
diante do raiar maduro do dia.
Digito o botão da felicidade, está preparado.
E desaparece o sentimento antigo
degenerando com prudência.

Penso em teu sexo, o sulco mais fecundo
e harmonioso que o ventre da Sombra,
embora a Morte possa conceber e gerar
o próprio Deus.

Oh Consciência 
penso, sim, no animal livre
que copula onde quer, onde pode.

Oh , escândalo de mel dos crepúsculos
oh estrondo mudo


Odumodnortse!

César Vallejo




© Jonė Reed

Oferenda


(Laura Casielles)
Toma, este é o meu corpo,
viveu tempestades e tem por dentro bichos pequenos
que pelo nome podiam ser dinossauros.
Toma, este é o meu corpo,
estava-te esperando,
cada manhã o perfumo e amiúde
nem me deixa dormir,
se reparares verás que nas curvas
tem a forma das tuas mãos.
Toma, este o meu braço, teu,
este o meu lábio,
teu,
este é o meu corpo e depois
pele,
entranhas,
teu,
vai pôr-se a chorar de amor,
laranjas, vento,
toma,
este é o meu corpo,
estava-te esperando,
às vezes não estás e não é nada,
às vezes corpo,
às vezes voz.

© Katia Chausheva

The Band - The Weight [Woodstock]

O isis und Osiris- Kurt Moll

Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago.
-Clarice Lispector


Naturfotografie Frank Müller

JÚBILO


Ela dançou no poema
Ela foi lince
Correu
na sarça ardente
apaixonada
Ela viveu
na poesia
e na razão
Desatou com vagares
a madrugada

Maria Teresa Horta
*
Fotografia de Maria Teresa Horta



Com a idade aprendemos
que o amor existe
na confluência de dois verbos:
o verbo recordar e o verbo ensandecer.
A memória mais antiga que guardo do teu rosto
ainda vem prenhe de uma juventude
que eu próprio ajudei a dispersar
no vento
- enquanto lentamente enlouquecia
entre quadros antigos, livros por ler
e a sombra de gatos que percorriam de noite
os telhados do meu desassossego.
A matura idade aproximou-se dos portões
da loucura, desse limiar que reside
entre o desencanto e a mais pura solidão
- e foi aí que inscrevi o teu nome
como se nele coubesse inteira
a eternidade.
Não sei com quantas letras se escreve
a raiz do teu corpo.
Não seu com que outras mãos afagas
a sombra do desejo.
Não sei onde me escondo se perguntas
pelos ecos do passado.
Sei apenas que perdurará para além da morte
o ser inteiro em ti
imperfeito
ausente
mutilado
mas enlouquecendo devagar nas tuas veias.

MANUEL ALBERTO VALENTE, in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2015)

1994_Baudrillard_EcstasyOfPhotography


O Mestre Ryokan vivia numa pequena ermida na montanha. Uma vez, um ladrão entrou para roubá-lo. Olhou à volta e não encontrou nada para roubar. Ryokan, aparentemente profundamente adormecido, estava envolto em um velho cobertor. O ladrão, para não sair de mãos vazias, tirou o cobertor ao monge e fugiu com ela. Ryokan, que não estava tão adormecido como o ladrão tinha, levantou-se gelado de frio e compôs o seguinte poema:

" deixada pelo ladrão
A Lua
Na janela ".

Histórias zen




[Imagem: Kazuhiko Fukuoji]

The White Stripes Ball and biscuit

"Sem amor, você terá que correr atrás de todos os deuses da terra, participar de todas as atividades sociais, tentar resolver a pobreza, entrar na política, escrever livros, escrever poemas - você será apenas um ser morto. Sem amor, os seus problemas irão crescer e multiplicar-se ao infinito, mas com o amor, o que quer que façam, não há mais risco, não há mais conflitos. O amor, então, é a essência da virtude."
- Jiddu Krishnamurti


foto da tuca
na praia
pedra quente ao anoitecer
sobram solitários debaixo da lua
Alexandra Lucas Coelho
("vai, Brasil")



"Sem uma palavra de amor.
Sem uma palavra.
Mas teu prazer entende o meu."
Clarice Lispector
excerto do conto "A repartição dos pães"

http://www.revistaprosaversoearte.com/reparticao-dos-paes-clarice-lispector/


"Até hoje eu não entendo. Você fotografa tudo, filha. Mas o seu pai... Ah, como ele estava especial, com aquelas flores no peito."
Raul Drewnick


16.8.17

Baden Powell - ROUND MIDNIGHT - B.Hanighen-Thelonious Monk-C.Williams

"Escribir es una forma sofisticada de silencio."
Alessandro Baricco
.
Via Las cuatro esquinas, una intersección literaria.



[Imagem: Paul Klee, scrittura astratta, 1931]
Como somos impotentes, como aves rendidas, quando somos apanhados pelo desejo!
___ 
Belva Plain


Egon Schiele – Pair Embracing, 1917

Jack White-Power Of My Love (STUDIO VERSION)

... um pouco de possível, senão vou sufocar.
- Gilles Deleuze / White lili
es (1877) by Henri Fantin-Latour -


Ευθύμης Νι




Teimosia


A longa mesa de madeira
sombreada de quietude
no calor da infância
impunha inteira
a rotação da tristeza.
Hélices giravam a flor
do menino louco
que fechava os olhos
pra construir palácios
equinociais de brilhantes.
Assumia velocidades.
Enfrenava a dor.
O cavalo aparteando as crinas,
o fogo das narinas,
o lombo sextavado
de tatuagens hídricas.
O menino louco de ausentar
paz cumpria de detalhes
cada vazio do dia.
Vendia princípios
discricionários
de alegria.
Certa vez, contou aos seus
uns descomedimentos.
Tiraram-no do céu,
puseram-no na mesa.
Foi quando descobriu o lápis e o papel.
Fiori Esaú Ferrari
"... escrever é uma maneira que eu tenho de me completar. Sou como aquele sujeito que não tem perna e usa uma perna de pau, uma muleta. A poesia preenche um vazio existencial. Às vezes, eu escrevo porque quero dizer determinada coisa que eu acho que não foi dita; às vezes, porque me interessa que conheçam meu ponto de vista. Às vezes, escrevo também por prazer.”
- João Cabral de Melo Neto

Jacques Lucas

Borodin's nocturne

A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.

(Ransetsu)
Trad. Herberto Helder


[Imagem: huacaijia.com]

Brisa marinha


A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
...
- Stéphane Mallarmé


O lago


Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha antiga sede.
Ana Paula Tavares, "Amargos como os frutos - Poesia reunida"
.
(Imagem: Ilya Glazunov - Lake of Tears 1988)


Omar Bashir - My Favorite Dance

pecado mortal



machucar o coração de um poeta
é como ferir um passarinho
ou esmagar toda flor

tucakors
agosto 2017

foto da tuca


IZUMI SHIKIBU
Deitada e sozinha
de cabelo negro solto
e emaranhado,
sinto desejo daquele
que primeiro veio me tocar.
*
Não fiques corado!
Todos adivinharão
Que dormimos juntos
Sob as pregas enrugadas
deste manto avermelhado



Mensagem 16


Preciso de muita paciência
e uma fé absurda pra conviver
com a poesia por tantos séculos.
Essa senhora
que me beija
os pés
e fura-me o pescoço
com uma caneta bic
de ponta ultra fina.
Outra coisa,
nem me lembro
da última camponesa
que colhia maçãs e cantava
aquela canção de serpentes.
Domingos Barroso



Abracadabra


Eu costumo invocar uma palavra, uma palavra mágica, uma palavra abre-portas, que é, talvez, a mais universal de todas. É a palavra abracadabra, que em hebreu antigo significa: envia o teu fogo até ao fim. Como homenagem a todos os fogos caminhantes, que vão abrindo portas pelos caminhos do mundo, eu repito agora:
Caminhantes da justiça,
Portadores do fogo sagrado,
Abracadabra, companheiros!
Eduardo Galeano


Beatriz Pagés recomienda: Contra el fanatismo, de Amos Oz