30.1.17

"Moon River" - Jesper Bodilsen - HDfull -

Uma voz

Ferreira Gullar
Sua voz quando ela canta
me lembra um pássaro mas
não um pássaro cantando:
lembra um pássaro voando.
GULLAR, Ferreira. "Uma voz". In:_____. "Dentro da noite veloz". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

Alexander Calder

Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, 
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.
Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (Gótica Ed., 2001), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

Poesia

"... poesia pra mim é a loucura das palavras, é o delírio verbal, a ressonância das letras e o ilogismo.
Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem
seria mesmal. (...) Prefiro escrever o desanormal."
.
- Manoel de Barros, em "Ensaios fotográficos". 2000, p. 63

Jindrich Streit Fotografie



Jindrich Streit
As imagens do artista, feitas entre os anos 1960 e 2000, mostram cenas captadas em vilarejos da República Tcheca, localizados sobretudo na região rural da Moravia, na parte oriental do país. As fotos não se limitam em expor as dificuldades materiais decorrentes de um regime socialista, mas também revelam situações íntimas e muitas vezes insinuam sutilezas sobre relações pessoais.
Nascido em 1946, Jindrich Streit morou a maior parte de sua vida nessas regiões por ele fotografadas, vivência que provavelmente direciona seu ponto de vista nada romântico e tampouco idílico sobre o dia-a-dia nas zonas rurais da Moravia. O artista registra pessoas de seu convívio pessoal e, por isso, é capaz de mostrá-las em momentos de extrema intimidade. Suas imagens enfocam gestos de afeto e amizade e, não raras vezes, cenas que estão no limiar entre o real e o nonsense.
A partir dos anos 1980, Jindrich Streit tornou-se conhecido no mundo todo por ter revelado o modo de vida de uma região ainda pouco vista da Europa central. É autor de mais de vinte livros de fotografia documental, além de ter exibido seus trabalhos em diversos países europeus e nos Estados Unidos, que podem ser conferidos no site do autor.

Os mensageiros


Sylvia Plath

Palavra de lesma em prato de folha?
Não é minha. Não a aceite.

Ácido acético em lata selada?
Não o aceite. Não é genuíno.

Anel de ouro e nele o sol?
Mentiras. Mentiras e uma dor.

Geada numa folha, o imaculado
Caldeirão, estalando e falando

Sozinho no topo de cada um
Dos nove Alpes negros,

Um distúrbio nos espelhos,
O mar estilhaçando seu cinza –

Amor, amor, minha estação.

 Joel Rea 

Reverência


(Flora Figueiredo)
Se não fosse você, eu andaria
a caminho do nada, 
pra lugar nenhum.
Eu erraria por entre vagas abertas,
sobre páginas incertas
de um pobre verso comum.
Se não fosse você, eu perderia
a noção do sol e do vento,
de todo e qualquer elemento
que me induzisse à beleza.
Se não fosse você, eu ficaria presa
na trama dos desafetos,
dos amores incompletos
que o mundo encaixa nos cantos.
Se não fosse você, triste seria
e a memória por certo contaria
minha historia na pobreza de um clichê.
…..e eu certamente me demitiria
dos ternos devaneios da poesia.
Que seria de mim, se não fosse você?

© celdy, Alexander

Le Trio Joubran LIVE SESSION

Um Cartão de Visita


Alberto da Cunha Melo - (1942 - 2007)
Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.
Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.
Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.
É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.
Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.

Aleko - finale-of-the-ballet-aleko-1942 - Marc Chagall

"Se gente não fosse feita pra ser feliz, 
Deus não teria caprichado tanto nos detalhes." 
Ana Jácomo

Abe Toshiyuki (あべとしゆき) (b. 1959) Japan
AnnaAden





Mãos de talco
Mãos de porcelana
Mãos de mãe
De desenhar em pele
De palpar tumores
De testar a dor
Pra curar
Aliviar
Acalmar
Extensão de coração
Da dona
Arlete Franco - Janeiro - 2017

Motorcycle Diaries - De Usuahia a la Quiaca - Gustavo Santaolalla (HD)

Comentários de Orides Fontela sobre seus livros:





1.

"Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda hoje é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas." Orides Fontela



2.
“Helianto, é uma produção sofisticada de uma aluna de Filosofia da USP – pois uma “professorinha” não tem status e nem apareceria – quero deixar claro que, em todos os meus livros, o nada jamais me interessou, e como poderia interessar a quem quer que seja? O problema sempre foi o ser, a forma, a palavra. O silêncio só entra devido ao impasse inevitável. Helianto: Hélios e anto, Sol e flor, terra e sangue, totalidade, círculo. Esta é a idéia mestra de Helianto, que por isto tem como epígrafe uma cantiga de roda. Reconheço que este é meu livro mais “bizantino”. No bom e no mau sentido. Esbaldei-me, usei e abusei de toda a tecnologia aprendida. Sim, li os concretos, mas... era tarde. A espinha dorsal já estava pronta e ereta, e outras influências só poderiam me atingir de raspão. Li Mallarmé, Baudelaire, Góngora. E bem pouco penetrou, o que eu já era, já era. É por isso que não sou nem nunca pude ser uma renovadora e, no máximo, adquiri maestria e forma própria de lidar com aquilo que recebi de meu meio social. Helianto comprova bem tanto a maestria quanto a limitação, mas creio que, na época, sua preocupação com a meta-poesia (a forma, a palavra) não estava tão defasada assim. Mas, apesar do patrocínio de Antonio Candido, o livro foi totalmente ignorado. Azar...Agora mudo de novo, de poeta lida só na USP para poeta conhecida pelo menos em alguns outros estados. Isto levou tempo a valer. ”


3.
“Alba: eu havia conhecido o professor Antonio Candido lá para 70 ou 71, após Transposição, de que ele gostou. Ele leu Helianto e arranjou a publicação, leu também Alba, que acabou prefaciando. Tudo fácil? Que nada! Difícil mesmo era quem, naquele tempo, publicasse poesia. Mas, em 83, a Roswitha Kempf assumiu e o livro emplacou, foi premiado e vendeu. Feliz? Pois sim... Pra mim, era um fim de linha, o ápice da espiral poéticainiciada creio que com Rosácea I, algo de perfeito e, por isso mesmo, ultrapassado e morto. Podiam louvar ou execrar, mas meu problema era – como mudar? Neste momento eu consegui mesmo um livro, algo bastante íntegro, e, por tudo isso... terminal. Voltei a “um passo de”... mas não saí de lá. Única novidade que assinalo em Alba é o início da influência do Zen. Só um “cheiro”, algo sutil, perceptível em certos poemas. Não vou dizer quais. Leiam, pô! “


4.
“Rosácea: o sucesso de Alba talvez tenha prejudicado um pouco a estrutura de Rosácea, pois organizei o livro depressa demais, e o material era bem heterogêneo. Coisas novas, fundo de gaveta e restos de memória. Juntei tudo. Aproveitei o título do livro abortado e a estrutura quíntupla – devo ao Davi a idéia de como organizar o livro – mas, mesmo assim, é meio dissonante. Justifiquei-me usando como epígrafe um koan de Heráclito, isto é, se o universo é bagunça organizada, um “caosmos”, meu livro também poderia ser a mesma coisa, tranqüilamente...E foi em Rosácea que tentei renovar-me, abandonar o sublime (de que, como boa proletária, desconfio paca), assumir o pessoal e o concreto, isto é, condensar as abstrações apresentá-las como imagens, se possível exemplares – algo como Brecht. Em parte consegui, em parte não. Enfim, estou a caminho, uma nova virada, a mais problemática de todas. Agora quero assinalar que Rosácea inclui um livro Zen – isto é, Zen a meu modo – e sonetos (o “Bucólicas”) que não estavam nem em Rosácea I, pura arqueologia. E poemas que ficaram só na memória... Existem ainda os poemas perdidos de Rosácea I? Vale a pena? Creio que não. Resgatei o que sobreviveu e pronto.


Ao jeito romântico


Desce sobre nós uma coisa
espessa,
que é neblina morta,
que toma a estrada torta,
que finca o volume
num ângulo do peito.
Dói a fenda aberta
de poesia inútil.
Úmida e exposta
na vitrine.
É a lâmina do seu sexo,
eu, aguda lua, brinco
no campo de exercer
angústia porque espero
Portugal e seus navios
retornarem à antiga rota,
quando nem éramos
e a dor jamais fora tropical,
a primavera das correntes
marítimas.
Retroceder flores pra que o espaço
em que praticamos
a vida
se torne mata fechada,
cama dos ventos,
abrigos de uma ordem outra.
Ah, veredas dos lábios,
é doce sangrar em decúbito?
As guerras que eu mesmo faço
matam-me em batalha
e sequestro meus estandartes
pra expor na praça minha derrota.
Dançam sobre meu cadáver
espectros de saudade.
Desce no argumento
romântico desta obra falha
uma coisa espessa.
Retiro do coração
a pedra enxuta.
Ela pulsa como a cidade
onde eu existi.
Em alguma paz,
a serenidade
de um quarto desarrumado.
O covil é meu desejo
e morro à parte doente
como um beijo.
Fiori Esaú Ferrari

Mira, conozco un café

Olha, conheço um café, aqui, na esquina, com um grupo que toca músicas do amor, com perfumes de ontem: me convidas...? 



Mira, conozco un café , aquí , en la esquina , con un grupo que toca canciones del amor , con perfumes de ayer: Me invitas ...? 
Nevenka

Poemas

Dá-me amor, me sorri 
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil;
Não me firas a mim porque te feres.
Pablo Neruda

Alexey Zaycev







O que uma lagosta tece lá em baixo com seus pés dourados? 
Respondo que o oceano sabe. 
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?, perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura; e o tempo, entre uvas cor de sangue tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornucópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
Pablo Neruda
Alfons Karpinski - Yellow Flowers on the Piano







Ainda que chova, ainda que doa. Ainda que a distância corroa as horas do dia e caia a noite sem estrelas, o mundo brilha um pouquinho mais a cada vez que você sorri.
Pablo Neruda
Corneliu Dragan-Targoviste







Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Pablo Neruda
Alfred Dunet (1889-1939) 








Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Pablo Neruda
Dennis Miller Bunker (1861-1890)








A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo, ao longe alguém canta. Ao longe.
Pablo Neruda
Художник Станисла́в Миха́йлович Никире́ев (1932— 2007)






NASCE


Aqui cheguei, aos limites
onde não é preciso falar,
tudo se aprende com o tempo e o oceano,
a lua aparecia
com as suas linhas prateadas
e aos poucos desfazia-se a sombra
com um golpe de onda
e na varanda do mar o dia
abre as asas, nasce o fogo
e tudo continua azul como amanhã.
Pablo Neruda
William John Leech (1881-1968)

Carlos Drummond de Andrade - Aforismos 3

Mentira
O avesso da mentira nem sempre é a verdade,
mas outra mentira.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.


Morte
Desde quem mundo é mundo, ninguém se convenceu
ainda que morrer é obrigatório.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Morte
Surpreendemo-nos com a morte como se
ela não fosse o único fenômeno absolutamente previsível.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Morte
Não há vivos; há os que morreram e os que esperam a vez.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Mozart
Não se pode afirmar que a vida de Mozart foi curta,
se ela dura até hoje.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Mulher
É próprio da mulher um sorriso que nada promete
e permite imaginar tudo.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Mulher
O olhar de uma mulher pode revelar tudo que ela esconde,
se o interpretarmos ao contrário.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Mulher
De todas as mulheres do seu passado, o homem costuma
fazer uma síntese que não se parece com nenhuma delas.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Mulher
Todas as mulheres são iguais,
mas cada uma é diferente da outra.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Mulher
A vida do homem pode resumir-se num passeio ao
longo das mulheres que ele amou ou que não entendeu.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Noé
Andar aos pares: fórmula de Noé que raramente dá certo.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Nudez
O nu ideal independe do corpo; está na mente do observador.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Nudez
A nudez é sempre incompleta;
nunca se vê o corpo de todos os lados.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Ociosidade
A ociosidade, mãe de todos os vícios,
também gera alguns prazeres.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Opinião
Não ter opinião costuma ser a mais difícil das opiniões.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007

Orgasmo
O grito do orgasmo é espontâneo,
mas o orgasmo é elaborado.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Pênis
O pênis, caçador que às vezes nega fogo diante da caça.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Pênis
O mérito do pênis é independente
do mérito de quem o porta.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Pênis
Se o pênis contasse tudo que sabe,
a moral seria outra.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Planta
Resta saber se a planta, prisioneira no vaso,
com direito a água e fertilizante, está feliz.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Pornografia
A pornografia é uma segunda escrita do sexo.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Preguiça
Cultivar a preguiça dá trabalho,
porque ela tem os aspectos mais variados.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Razão
Ter razão é tão perigoso que muitos acham
conveniente não ter nenhuma.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Religião
Nem todas as coisas incompreensíveis são religiosas.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007

Saudade
Sentimos saudades de momentos da vida e momentos de pessoas.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Saudades
Também temos saudades do que não existiu, e dói bastante.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Sexo
Esse minúsculo ponto do sexo feminino,
em torno do qual gira a máquina do mundo.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Sexo
O sexo é prazer sentido e transmitido a outro sexo;
do contrário não vale o nome.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Sexo
O sexo ensina-se a si mesmo e não esgota a lição.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Sexo
Dois corpos inseridos um no outro – e a sensação
de que nada mais existe na Terra.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Sociedade
Viver em sociedade requer instinto de formiga,
presas de leão e habilidade camaleônica.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Sofrimento
Há quem se orgulhe de ter sofrido muito,
e por isso se julga superior aos demais.
- Carlos Drummond de Andrade, In: O Avesso das Coisas - 6º Edição, 2007.

Girls 3x07 Beach House Dance Scene.

Sonhos


Los cabalos azules invadiram os sonhos 

e andaram de bicicleta
durante toda a tarde no pátio
onde os verdes beijam os vermelhos intensos
e se ouvia o grito da plena felicidade


Sérgio Villa Matta

Carl Larsson (1853 – 1919) - Lisbeth reading. Red Cactus. 1904

Suas mãos e o instinto do meu corpo

Suas mãos e o instinto do meu corpo
Tarde te devoro!
É o que me aquece,o que me arrefece
Em cada página,dobro meu olhar
O dia dentro de cada dia!
Presa dos meus olhos
Persigo seu perfume
Esse aroma sobre as pupilas do sol
Uma geografia me une a você
O litoral dos seus seios na tarde quente
Nada é tão pleno que não possa ser consumado
O imediato desfolha-se em pétalas
Porque eu te roubo de qualquer ventania!

Célia Maia

Abbott Handerson Thayer (1849-1921 American) • The Sisters 1884 - Detail