28.2.17

Othar Turner and Sharde Thomas

"Mulher é linha curva. Curvo são os movimentos do sol e da lua. Curvo é o movimento da colher de pau na panela de barro. Curva é a posição de repouso. Já reparaste que todos os animais se curvam ao dormir? Nós, mulheres, somos um rio de curvas superficiais e profundas em cada palmo do corpo. As curvas mexem as coisas em círculo. Homem e mulher se unem numa só curva no serpentear dos caminhos. Curvos são os lábios e os beijos. Curvo é útero. Ovo. Abóbada celeste. As curvas encerram todo os segredos do mundo."
- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia"




Picasso

PRIMEIRO CADERNO



O papel registra 
 marcas do esforço -
delicado aprendizado.

tucakors
03.03.2016



(Eric aprendendo Árabe)

Anselm Kiefer - Teutonic Mythology

Azeitonas


Pois às vezes o sabor forte daquelas azeitonas em conserva,
lentamente curtidas em azeite com dentes de alho,
sal e limão, pimenta e folhas de louro,
traz a aragem de um tempo passado: esconderijos nas rochas,
um rebanho, a sombra, o som da flauta,
a melodia da respiração dos tempos de outrora.
O frio de uma caverna, a cabana escondida no vinhedo,
um caramanchão num jardim, uma fatia de pão de centeio
e água do poço.
Você é de lá. Você se perdeu.
Aqui é o exílio. Sua morte virá, no seu ombro pousará a mão experiente.
Venha, é tempo de voltar para casa. 

Amós Oz, "O mesmo mar"

A realidade e o desejo


Olga Orozco - (1920 - 1999)
A realidade, sim, a realidade,
esse relâmpago do invisível
que em nós revela a solidão de Deus.
É este céu que foge.
É este território enfeitado pelas borbulhas
da morte.
É esta mesa comprida à deriva
onde os comensais se sentam vestidos
do prestígio de não estar.
Cada um com seu copo
a medir o vinho que acaba
onde começa
a sede.
Cada um com seu prato
para enterrar a fome que se extingue
sem nunca se saciar.
E dois a dois repartindo o pão:
o milagre ao contrário, comunhão apenas
no impossível.
E a meio do amor,
entre um e outro corpo a queda,
algo semelhante ao bater sombrio
de asas que voltam lá da eternidade,
ao pulsar do adeus por baixo da terra.
A realidade, sim, a realidade:
um selo de fechar as portas todas
do desejo.



Emil Thomas Tomas


27.2.17

The ErlKing

Um haicai é um ai
 meio suspiro
na leve brisa no verde


tucakors

Autumn plants and quail, Sakai Hōitsu (1761–1828).
Um haicai pesa menos que o sonho de um morto.
Raul Drewnick.







Amar alguém que está tão longe de nós como o inicio das inesperadas tempestades. Os amores platónicos que nascem e borbulham em caldeiras de mil perigos. As incontáveis loucuras. Amar o proibido. O risco enorme de sucumbir e nunca consumar o amor, nem tocar a amada. 
O acto sublime de amar uma esfinge, uma sombra, um rosto intocável. O inatingível corpo. O que só vemos sem ver. Uma cegueira sem retorno. O que nos perturba a existência até ao fim dos nossos dias.
Sofremos e fazemos sofrer. Tudo o que vemos é o que não nos é permitido ter. Percorremos estradas e caminhos sempre em busca do que sabemos impossível de encontrar. Uma caminhada ao avesso da razão. A cambaleante, mas enorme vontade. O corpo a desfazer-se.
Não tentem retirar essa loucura sem nome da cabeça do amante. Todas as bruxarias, rezas, promessas e outras mezinhas irão falhar. É coisa atada por cordas fortes e nós impossíveis de desatar.
Por amor da vida.

JORGE FERREIRA


 Ely Art

Fauré: Pavane / Rattle · Berliner Philharmoniker

Assim te espero.

Arif Samman

Quer ser um pouquinho feliz?



25.2.17

“Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar.”
Vincent Van Gogh



Eu queria ver o seu olhar cúmplice de novo
E o seu sorriso mais lindo
Minha areia movediça preferida

Arlete Franco


Foto: Pinterest
Não nos escolhemos mutuamente de forma aleatória. Nós encontramos pessoas que já existem no nosso subconsciente. - Sigmund Freud

CÂNTICO DOS CÂNTICOS

“No esplendor intraduzível das suas metáforas, Gonçalo Salvado preserva na moderna poesia portuguesa a grande tradição do amor, na esteira cintilante do Cântico dos Cânticos, motivo condutor da sua obra, ela própria no seu conjunto um verdadeiro e novo “Cântico dos Cânticos.”
Maria João Fernandes




GONÇALO SALVADO, in CÂNTICO DOS CÂNTICOS, poema de Gonçalo Salvado/desenhos de João Cutileiro em edição bilingue Português/Hebraico (RVJ ed., 2016)
5.
A minha amada é minha e eu sou dela.
Que perfume se oculta em sua pele
que apenas ao aroma da primavera se assemelha?
Que destino existe para meus lábios
que somente sua boca, com um beijo, me revela?
Seu corpo me acolhe numa doce melodia
de puras águas ardendo de alegria.
Suas mãos exaltam em minha pele
a leveza das aves que deixam nos céus
o assombro e o espanto de haver Deus.
Eu sei que as searas se aloiram
quando uma carícia sua ternamente me dedica
e reverdecem folhas mortas no Outono
e rios se azulam de repente
quando me cinge entre seus braços.
A minha amada inclina sobre mim seu rosto
e toda a natureza resplandece
como se acordasse de um longo inverno
coroada de flores fragrantes e coloridas.
A minha amada afaga-me
e sementes estalam na mais escura terra,
brotam árvores altas e frondosas
de longa e fresca sombra apetecida,
com frutos vermelhos a oferecerem-se em seus ramos.
Meus olhos brilham e se transfiguram
quando pressentem sua chegada,
meu hálito sofregamente quer misturar-se
com seu hálito,
meu peito estremecer ao toque suave de seus dedos.
Porque eu pertenço à minha amada
e seu fervor a impele para mim.
De seus lábios para os meus corre o mel
ainda fresco de sua íntima doçura.
E eu bebo em sua boca o silêncio inaudível
de sua própria carne estremecida,
fecundada pelo meu amor imenso
que arde cada dia feliz em suas águas.
5.
אֲהוּבָתִי הִיא שֶׁלִּי וַאֲנִי שֶׁלָּהּ.
אֵיזֶה בֹּשֶׂם מִסְתַּתֵּר בְּעוֹרָהּ עַד
שֶׁנִּדְמֶה רַק לְנִיחוֹחַ הָאָבִיב?
אֵיזֶה גּוֹרָל נִגְזַר עַל שְׂפָתַי עַד שֶׁרַק פִּיהָ,
בִּנְשִׁיקָה, מְגַלֶּה לִי?
גּוּפָהּ קוֹלֵט אוֹתִי בְּמַנְגִינָה עֲרֵבָה
שֶׁל מַיִם טְהוֹרִים הַנִּשְׂרָפִים מֵרֹב שִׂמְחָה.
יָדֶיהָ מַאְדִּירוֹת בְּעוֹרִי
אֶת קְלִילוּת הָעוֹפוֹת הַמּוֹתִירִים בַּשָּׁמַיִם
אֶת הַתַּדְהֵמָה וְהַהִשְׁתּוֹמְמוּת מִקִּיּוּם אֱלֹהִים.
אֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁשְּׂדוֹת הַדָּגָן מִזְדַהֲבִים
כְּשֶׁהִיא מַקְדִישָׁה לִי לִטּוּף בְּרֹךְ
וּמוֹרִיקִים מֵחָדָשׁ הֶעָלִים הַמֵּתִים בַּסְּתָיו
וּמַכְחִילִים נְהָרוֹת לְפֶתַע פִּתְאוֹם
כְּשֶׁהִיא מְהַדֶּקֶת אוֹתִי בֵּין זְרוֹעוֹתֶיהָ.
פְּנֵי אֲהוּבָתִי גּוֹהֲרִים עָלַי
וּפְנֵי הַטֶּבַע מַצְהִיבוֹת כָּל כֻּלָּן
כְּאִלּוּ הָיָה מִתְעוֹרֵר מֵחֹרֶף אָרֹךְ
מְעֻטָּר בִּפְרָחִים רֵיחָנִיִּים וְסַסְגּוֹנִיִים.
אֲהוּבָתִי מְלַטֶּפֶת אוֹתִי וְנִבְקָעִים
זְרָעִים בַּאֲדָמָה הַחֲשׁוּכָה בְּיוֹתֵר,
גְּדֵלִים אִילָנוֹת רָמִים וְעַתִִּירֵי נוֹף
מְטִילֵי צֵל אָרֹךְ וְרַעֲנָן שֶׁתְּאֵבִים לוֹ,
עִם פֵּרוֹת אֲדֻמִּים הַמַּגִּישִׁים עַצְמָם בְּעַנְפֵיהֶם.
עֵינַי בּוֹרְקוֹת וְצוּרָתָן מִשְׁתַּנָּה
כַּאֲשֶׁר בּוֹאָהּ מְשֹׁעָר,
הֶבֶל פִּי חוֹמֵד לְהִתְעַרְבֵּב
בְּהֶבֶל פִּיהָ,
חָזִי נִרְעָד לְמַגַּע אֶצְבְּעוֹתֶיהָ הֶעָנֹג.
מִשׁוּם שֶׁאֲנִי מִשְׁתַּיֵּךְ לַאֲהוּבָתִי
וּתְשׁוּקָתִי הוֹדֶפֶת אוֹתָהּ אֵלַי.
מִשִּׂפְתוֹתֶיהָ אֶל שְׂפָתַי נוֹטֵף הַדְּבַשׁ,
עוֹדֶנּוּ טָרִי מִמְּתִיקוּתוֹ הָאִינְטִימִית.
וַאֲנִי לוֹגֵם בְּפִיהָ אֶת הַדּוּמִיָּה הַבִּלְתִּי נִשְׁמַעַַת
מֵעֶצֶם בְּשָׂרָהּ הָרוֹטֵט
הַמֻּפְרֶה עַל יְדֵי מַאֲהֵבִי הֶעָצוּם
הַבּוֹעֵר מִדֵּי יוֹם, עַלִּיז, בְּקִרְבָּהּ.


R.E.M. - Everybody Hurts (Official Music Video)




Todo mundo sofre

Quando o seu dia é longo, e a noite
A noite é somente sua
Se você tem certeza [que] já teve o suficiente desta vida
Bem, persista
Não desista de si mesmo, pois todo mundo chora
E todo mundo sofre, às vezes

Às vezes tudo está errado
Nesse momento é hora de cantar junto
Quando seu dia é noite, sozinho, (Agüente, agüente)
Se você tiver vontade de desistir (Agüente...)
Se você achar que teve demais desta vida
Bem, persista

Pois todo mundo sofre
Consiga conforto em seus amigos
Todo mundo sofre
Não se resigne, oh, não!
Não se resigne
Se você sentir como se estivesse sozinho
Não, não, não, você não está sozinho

Se você está por conta própria nesta vida
Os dias e noites são longos
Quando você sentir [que] teve demais desta vida
Para persistir

Bem, todo mundo sofre
Às vezes, todo mundo chora
E todo mundo sofre
Às vezes
Mas todo mundo sofre às vezes
Então agüente, aguente, aguente, aguente
aguente, aguente, aguente, aguente

Todo mundo sofre
Você não está sozinho

A difícil tarefa humana

"A regra é clara. Mantenha o respeito, por você e pelo próximo. Não machuque, não invada a privacidade, não desconsidere nenhuma opinião, não aceite migalhas, não implore afeto. Tenha sensibilidade nos olhos, força nas palavras e confiança nas atitudes"
Ricardo Garcia Domingues

O sexo, como ele é



POR RAUL DREWNICK

18/11/2016





Onde se dão certos conselhos aos novatos


Louvo hoje o sexo, suas proeminências e reentrâncias, suas delícias e desmaios, suas olheiras, suas faces encovadas, suas axilas suadas, seus masoquismos e sadismos, suas algemas, seus chicotes, suas libertinagens e suas libertações. Louvo o sexo limpo, o sujo, o deslavado, o oculto, o aberto, o escancarado e o arreganhado. Louvo o sexo real e o virtual, o diurno, o noturno, o soturno, o embargado e o desbragado, o útil e o fútil, o ativo, o passivo, o interativo, o sério e o recreativo. Louvo o sexo como ele deve ser louvado, sem hipocrisia e sem mistificação. E, por ter louvado por décadas e décadas o amor sem sexo, o romântico amor que os poetas cantam, louvo agora, por justiça e gosto, o sexo sem amor.

É antiga a discussão sobre se na literatura é apropriado descrever cenas de sexo. Parece-me uma questão de resposta óbvia. Será o sexo algo que se deva excluir como tema de uma obra de arte? Quando se fala de mau gosto, não há de ser do assunto em si, mas do modo de tratá-lo. Anatematizar o sexo, pura e simplesmente, não tem consistência como argumento. E repudiar livros que falem exclusiva ou quase exclusivamente de sexo é tão ingênuo quanto seria proibir manuais de jardinagem ou culinária, por se fixarem num assunto específico. O interesse por sexo costuma ser tachado como obsessão. Jogaremos pedras em Jamie Oliver por sua insistência em colocar diante de nossos olhos as delícias das massas e da carne?

Os amores impossíveis caíram de moda. O que sobrou deles, ou melhor, a memória do que eles eram, mal dá para o consumo do cinema, do teatro e da literatura. A época é a dos amores possíveis, dos vários amores possíveis. O sexo comanda o espetáculo – e o sexo não tem o estoicismo do amor. O sexo quer ser satisfeito e sua paciência é pouca. Se não lhe abrem a porta à qual foi bater, ele bate à porta vizinha. O amor voltado para um homem só, ou uma única mulher, por toda a vida, não existe mais. O amor não está mais catalogado entre os grandes sentimentos, mas entre as comodidades da vida moderna. O amor é um hábito, como comer ou dormir, uma dessas coisas que se fazem quase automaticamente. O amor tresloucado é hoje incompreensível e ridículo, algo imediatamente relacionado com a ignorância e o atraso.

Otto Mueller - Couple D'Amoreux- 1919

Fiona Apple - Container (The Affair)

Verão


Hélio Pellegrino 
Colho a sombra das coisas
sob o sol
Como quem colhe frutas

Rio, 24/2/80


Lucy Willis
El hogar del corazón es el mar ...
Nevenka


the Derek Truck Band - down dont bother me - (8 of 12)

Canto de nascimento



Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem

seus pequenos sonhos de leite.
- Ana Paula Tavares, em "O lago da lua". Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

Lucian Freud - Pregnant Girl. 1961


raízes


tenho um avô japonês.
quando uma de suas filhas 
[temporãs do casamento com a esposa brasileira] 
fala um alegre "eu te amo, pai", 
ele dá um sorriso doce e tímido 
[daquele em que a boca rasga pouco, mas os olhos apertam bastante]
e responde baixinho:
igualmente.

- eu vim daí. 

- Avoadinha


juntos e à parte



De tudo o que existe, nada é tão estranho como as relações humanas, pensou ela, com suas mudanças, sua extraordinária irracionalidade, pois o desagrado que ela havia sentido já era agora quase amor intenso e arrebatado, mas, tão logo essa palavra "amor" lhe ocorreu, ela a rejeitou, pensando novamente quão obscura era a mente, com suas pouquíssimas palavras para todas essas percepções surpreendentes, essas alternâncias de prazer e dor. Pois que nome se dava àquilo? Era o que ela agora sentia, o retraimento da afeição humana, o desaparecimento de Serle e a necessidade instantânea sob a qual se achavam ambos de encobrir o que era tão desolador, tão degradante para a natureza humana, que todos tentavam enterrá-lo em recato para eximir-se à visão - esse retraimento, essa violação da confiança e, procurando uma fórmula decorosa, reconhecida e aceita, de funeral, ela disse:

"Por mais que façam, não conseguirão, é claro, estragar Canterbury."

Ele sorrriu; aceitou a frase; cruzou as pernas ao contrário. Ela fez seu papel; ele, o dele. E assim as coisas terminaram. Veio logo sobre ambos essa paralisante cessação de sentimento, quando nada irrompe da mente, quando suas paredes parecem de ardósia; quando o vazio quase dói, e os olhos petrificados e fixos veem o mesmo ponto - uma forma, um balde de carvão - com uma exatidão que é aterradora, pois nenhuma emoção, nenhuma ideia, nenhuma impressão de qualquer tipo surge para alterá-la, modificá-la, embelezá-la, uma vez que as fontes do sentir parecem lacradas e enrijecendo-se a mente, enrijece-se também o corpo; fortemente estatuesco, sem deixar que mr. Serle ou miss Anning pudessem se mexer ou falar, e sentindo-se eles como se um encantador os tivesse salvo, e a fonte fez a vida correr por todas as veias, quando Mira Cartwright, dando um malicioso tapinha no ombro de mr. Serle, disse:

"Eu o vi no Meistersinger, passando bem na minha frente. Seu malvado", disse miss Cartwright, "não merece que eu volte a lhe dirigir a palavra." 

E eles puderam separar-se. 

Virginia Woolf


Anas Salameh - Syrian Artist

um homem e a sua vida



Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer. 

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.

Yehuda Amichai


~ Fabian Perez~ 1967

Quando?

“O que fazer se aos trinta anos, de repente, ao dobrar uma esquina, você é invadida por uma sensação de êxtase – absoluto êxtase! – como se você tivesse de repente engolido o sol de fim de tarde e ele queimasse dentro do seu peito, irradiando centelhas para cada partícula, para cada extremidade do seu corpo? Quando engolirei o sol de fim de tarde?”


Dino Valls


“Quando foi que me ultrapassei? Quando perdi a vocação de me conter dentro do meu corpo, de não extravasar o que há de mais essencial em mim?” “Quando foi?”

Katherine Mansfield, in Felicidade

24.2.17

Madredeus - Pregão




___ Pregão ___
Composição: Francisco Ribeiro

Olha a estrela de Alba
Chama da manhã

Ó manhã, o teu abraço
Oxalá
Me não apague
A paixão da minha alma

Ó paixão
Nem a manhã
Apaga a luz que tem a chama do teu belo olhar

Já é hora da chamada
Alto cantei


E ESSA CHUVA QUE NÃO VEM?


Dodó Soares estava morrendo, mas não tinha medo disso. Apenas gostaria de ver, antes, a 1ª chuva do ano. Era 11de agosto. Naquele tempo chovia cedo, Dodó Soares aguentaria esperar. Toda manhã dava uma voltinha em torno de casa, apoiado num de seus filhos. Gerônimo estava com 24 anos. Era casado, mas morava perto. Uma légua de beiço, por aí. Quase todo dia vinha dar uma olhada no pai. Havia também Adelino e Fátima, mais novos. Dodó Soares vivia em terra própria. Terra pouca mas boa. Terra de cemitério, como se dizia. Tudo ali crescia fácil. Rápido. Dodó Soares tinha câncer no pulmão, e este também crescia rápido. Toda manhã ele olhava pro céu. Havia já algumas nuvens pesadas. Vez ou outra soprava um ventinho quente. Ele mandava Fátima para o rio. Queria notícia das andorinhas, por lá. Se estivesssem voando rente à água, choveria logo. Chegou 18 de agosto e nada de cair água. Dodó Soares ainda conseguia ficar em pé. Andava meio torto, apoiado em Gerônimo ou Adelino. Até mesmo Fátima daria conta de amparar seu pai, ele estava magrinho. Em 26 de agosto trovejou muito, ventou, choveu perto, mas não ali. Três dias depois, Alias Pacu trouxe uma boa nova: seu burro estava andando de lado com frequência. Agora mesmo, vindo para cá, ele tinha feito isso. Sinal certo de chuva. Os Soares ficaram muito felizes. Alias Pacu ganhou bolo de serragem e café. Olhava para Fátima e não acreditava. Fátima tinha virado moça de repente, e era linda. O burro estava certo, choveu de noite, muito. Se levantaram para ver. Fátima abriu a porta. Gerônimo sentou em frente, com seu pai no colo. Magrinho. Menos de 40 quilos. Olhavam para fora. Fátima e Adelino em pé, atrás. Minha chuva!...Jesus louvado!..Isso, pai!... É toda sua!.. Trovejava, ventava. Um vapor frio entrava pelo rancho. De manhã ainda chovia um pouco. Era uma entre muitas chuvas verdes. Só em fins de setembro e princípio de outubro caíriam as chuvas maduras. Dodó Soares não esperaria para ver.
(Carlos Antônio Jordão – 23 – 02 – 2017)
"Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros." 
Ruy Belo

Myanmar, Orlando Echeverri B.

Por que você escreve poesia?


(à guisa de um metaplágio de Oran Pamuk)
Porque eu cresci lendo poesia
Porque não consigo me relacionar com o mundo de outra maneira
Porque acho encantador enfeitiçar palavras
Porque um dia me disseram que eu era poeta
Por que eu acredito que posso ser poeta
Porque meus amigos são poetas
Porque o verso atiça a minha curiosidade
Porque a curiosidade me leva às palavras
Porque o mundo pode respirar melhor
Porque eu posso respirar melhor
Porque eu me imponho leituras
Porque eu me repito e a poesia aceita
Porque é uma forma de amar as pessoas
Porque é uma forma de eu atrair o amor
Porque um poema me fez descobrir o amor
Porque há um vazio que não me cabe
Porque há uma ausência a se descortinar
Porque o silêncio soluça com o verbo
Porque o verbo é a minha carne que arde
assis freitas

© Heinz Hajek-Halke

3D水墨动画(恬)




Sobre as flores mínimas a fria e chuvosa manhã.
inverno lá fora
os sinos do vento
voando

no cintilar de tudo 
encontro algo mais

Rose Mendes

23.2.17

The Roots - The Seed (2.0) ft. Cody ChesnuTT

"Tão claro e inteiro me falava o mundo, que, por um momento, pensei em poder sair dali, orientando-me pela escuta."
.
- João Guimarães Rosa, do conto "São Marcos", no livro "João Guimarães Rosa: ficção completa". vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 375.



OSCAR KOKOSCHKA,1886-1980,Austrian Painter

por trás (ou a serenidade)


as pernas encolhidas
o tronco de lado torcido
sobre o tecido franco
a casa aberta
o peito transverso apontando
para a hera alta, para o tempo
sem léxico, sem som
do lado de fora
(uma repetição não é apenas
uma repetição)
véspera de tudo, é tarde
depois do muro se esgueira um
platô azul chamado do teu nome
acumulado de espumas aéreas
acumulado das barras suspensas
das saias
é tarde, mas nunca é tarde
o suficiente
(uma repetição não é apenas
uma repetição)
a sola do pé direito sobre o peito
do pé esquerdo,
um nó:
reconheço de volta o corpo
perdido
retendo calor
nos membros desesquecidos
morno, um lírio de óleo inda cuida
na curva baixa das nádegas
de separar as tuas coxas das minhas
Luanna Belmont

Sigal Tsabari (b.1966)


R.E.M. - Shiny Happy People (Official Music Video)



Pessoas ilustres e felizes

Pessoas ilustres e felizes sorrindo
Encontrem-me na multidão
Pessoas, pessoas
Espalhem seu amor por aí
Me amem, me amem
Levem-no para a cidade
Felizes, felizes
Coloquem-no no chão
Onde as flores brotam
Ouro e prata reluzem


Pessoas ilustres e felizes dando as mãos
Pessoas ilustres e felizes dando as mãos
Pessoas ilustres e felizes sorrindo


Todos ao redor, amem-nos, amem-nos
Coloquem-no em suas mãos
Aceitem-no, aceitem-no
Não há tempo para chorar
Felizes, felizes
Coloquem-no em seu coração
Onde o amanhã reluz
Ouro e prata reluzem


Pessoas ilustres e felizes dando as mãos
Pessoas ilustres e felizes dando as mãos
Pessoas ilustres e felizes sorrindo