30.3.17

"Mondnacht" Hans Hotter

Peter harskamp





Debaixo da pele
Se defende
Um coração.

* Inger Christensen, Lucas frischknecht



Crônica de campo grande, 29 de março de 2017


Morar em Campo Grande redimensionou a minha maneira de sentir o mundo, revejo as lembranças como manancial intenso, alimento para desenhar, sim a saudade é um instante que se embrenha no coração e sai pulsante em linhas.
Hoje vi e ouvi um vídeo sobre a Paula Rego, artista portuguesa, ela diz “desenhar é uma atividade erótica”, bonita esta imagem do ato de desenhar como entrega profunda, entrega similar ao ato sexual erótico, desenhar requer esse estado sublime de amor e prazer. 
Constança Lucas

Fevereiro

Fevereiro

Escute só, isto é muito sério.
Anda, escuta que isso é sério!
O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação? 
Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.
O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis.
Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão? 
Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah é! Eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você! A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora. 
Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas de nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.
[suspiro]
O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos prefeitos, a esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração, um tanto medo. Metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo, há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas,  por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações. 
De que lado você está, eu não me importo! De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa,  qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.
É… é impossível viver no país de Deus. Isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível, não.
Escuta, isso é sério!
Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.
Portanto, escute.
Isto é muito serio!
Isto é uma proposta aos trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem!
 - Matilde Campilho

Pink Floyd - Two Suns In The Sunset

E agora, o que é que eu faço comigo?
Lia Boká

Às vezes, Lia, faço a mesma pergunta. Não me caibo ou sou toda um vazio sem conta. Depois passa, como tudo passa. Ou quase tudo.


Mercan Dede - Dream of Shams

Esta mulher





Esta mulher a acorda um pranto:
Levanta-se meio dormindo.
Prepara uma leite em silêncio
Cortado por pequenos ruídos de cozinha.
Olha como envolve seu tempo e nele está viva.
Suas horas
Fortemente tramadas
São feitas de fibras resistentes
Como coisas reais: Pão, aveia,
Roupa lavada, Lã tecida......

Circe Maia




ESTA MUJER
autora Circe Maia
A esta mujer la despierta un llanto:
se levanta medio dormida.
Prepara una leche en silencio
cortado por pequeños ruidos de cocina.
Mirá como envuelve su tiempo y en él está viva.
Sus horas
fuertemente tramadas
están hechas de fibras resistentes
como cosas reales: pan, avena,
ropa lavada, lana tejida......
"Pouca coisa são as palavras. No entanto é o que tenho, palavras. E memórias, também elas feitas e desfeitas de palavras."
Manuel António Pina

©Cécile Daladier

Mercan Dede&Yıldız Tilbe (Ft.Ceza) - Tutsak

Pequena Branca: Códigos visuais



Um poeta, editor, mentor e professor, pequeno Martin White (1908-1976) foi cometido ao poético olhar o mundo através do prisma das fotos.

Após a segunda guerra mundial, ele se mudou para Nova York e ensinou os estudantes na Universidade de Columbia até anzel Adams não o convidou para ensinar uma foto em San Francisco.
Pequena Branca foi um dos fundadores da revista abertura e seu primeiro editor.

A fim de garantir que as suas emoções no público, com a ajuda das fotografias do menor branco, usei vários métodos - forneceu as fotos dos textos tinha-os em uma determinada seqüência de significados em código, com a assistência dos personagens.

As fotos foram para ele certas "visual", cartas dirigidas ao público. Técnico e criativo perfeição cada "Cartas" garantido absolutamente exato transmissão de emoções do fotógrafo para o espectador. Neste sentido, ele era o sucessor para as tradições do romantismo alemão do século XIX. Os seus representantes, novalis, Friedrich, também, vi no artista sofisticado descodificador fenômenos da natureza e sua paz interna, um intérprete destes sentidos para a língua do espectador.

Em cada foto você pode meditar por horas, tentando subir na ponta dos pés, alcançar para os estados que foram disponibilizados para o fotógrafo.

Na frente de nós perfeitamente claro visual e notas, só temos uma responsabilidade para a execução adequada de cada foto.

Pequena Branca; essência de um barco, lanesville, Massachusetts, 1967
9Texto: D. Águias
Traduzido do russo)


O erro da pessoa é pensar que os silêncios são todos iguais. 
enquanto não: 
há distintas qualidades de silêncio. 
é assim o escuro...
Mia Couto.



A PACIÊNCIA E SEUS LIMITES






Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você’.
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.


in 'Miserere'
(Adélia Luzia Prado de Freitas, 1935-, Divinópolis/Minas Gerais, Brasil)

28.3.17

Mercan Dede - Tutsak

A prometida tempestade dos sentidos desabou sobre os nossos corpos e deixou-nos prostrados de exaustão. Os teus perfumes persistem-me, como os da terra húmida do jardim, após a chuva, e, tal um aguaceiro de Verão vem refrescar a secura das pedras, também este cansaço vem distender-nos da tensão acumulada até que as nossas energias se igualem e, olhando-nos, nos pareça estarmos em comunhão com tudo. Eu amo-te mais do que supunha e, em verdade, acredito que é sagrado o caminho que leva dois seres que se amam a encontrar-se, num ponto em que nada haja de mais importante do que o seu amor e é por aí que virá a salvação do mundo e a sua liberdade.
Gonçalo B. de Sousa
27-03-2017


Me beije.
Eu sou uma geometria estranha
De cotovelos e pele,
Uma simetria desequilibrada de
pecado
E virtude. E você.
Eu posso sentir seus olhos
Queimando sobre o
horizonte
Dos meus ombros.
(Sandra Cisneros, My Wicked, Wicked Ways)

A windy day c.1950s - carl perutz

Pink Floyd Mother

LIVRO



Porque de tudo o que havia
ressaltavas tu, inteira, intensa, imersa no fogo,
terrivelmente límpida como uma ode ao trigo,
à beleza,
às rosas de saliva que cresciam
nos assombrados e húmidos canteiros
da minha boca,
.
eu te entendo
como se entende o sangue e a loucura,
como se entende o fogo e o rio,
como se entende a música e o sonho,
isto é,
gostava de te entender como coisa absoluta,
um barco, uma arvore, um farrapo de neve,
.
mas tu és um livro e eu um leitor de ti
que te folheia e saboreia página
a página,
cujo olhar permanece em sacrifício,
esfomeado e livre, sempre
esfomeado e livre,
sendo,
ou muito perto
de ser.
JOAQUIM PESSOA, in OS DIAS NÃO ANDAM SATISFEITOS |Inéditos| (Editora Edições Esgotadas, 2017)


- Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?
- Sim, Senhor; tu sabes que te amo.
- Apascenta os meus cordeiros.
Assim começava a representação da Encíclica "Populorum Progressio", do Papa Paulo VI, no Colégio Santa Teresa de Jesus.

27.3.17

Pink Floyd - Two Suns In The Sunset

A alma


Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.
Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe, vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.
Sou o que fui …
Sou o que serei …
Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então
Sou o que fui.
E sou o que serei.
– Augusto Frederico Schmidt, no livro “Poesia completa: 1928-1965”. [introdução Gilberto Mendonça Teles]. Rio de Janeiro: Topbooks|Faculdade da Cidade, 1995.


Anseios


Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!
Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!...
Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"




Pedro Barroso - "Menina dos olhos d´água"




Menina em teu peito sinto o tejo E vontades marinheiras de aproar Menina em teus lábios sinto fontes De água doce que corre sem parar Menina em teus olhos vejo espelhos E em teus cabelos nuvens de encantar E em teu corpo inteiro sinto feno Rijo e tenro que nem sei explicar Se houver alguém que não goste Não gaste, deixe ficar Que eu só por mim quero te tanto Que não vai haver menina para sobrar Aprendi nos 'esteiros' com soeiro E aprendi na 'fanga' com redol Tenho no rio grande o mundo inteiro E sinto o mundo inteiro no teu colo Aprendi a amar a madrugada Que desponta em mim quando sorris És um rio cheio de água lavada E dás rumo à fragata que escolhi Se houver alguém que não goste Não gaste, deixe ficar Que eu só por mim quero te tanto Que não vai haver menina para sobrar


E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
© Otto Stupakoff



quero esquecer que me desfiz da mobília,
algum tanto de roupas, livros e tinturas
quero esquecer que me acompanharam
somente as lembranças nos retratos
quero esquecer da falta que fazem
os sons e cheiros da maresia
as nuvens carregadas
um pedaço mínimo do céu
quero esquecer do quão inconsolável estou
neste chão estrangeiro, escorregadio
quero esquecer como é insuportável
ter deixado para trás pedaços de mim mesma
e assistir a tantas ilusões desmoronando
quero esquecer a infinita água salgada no horizonte
onde eu morria um pouco a cada dia

Fany Aktinol

Luis Eduardo Aute - Quiereme



Quiéreme, aunque sea de verdad, quiéreme, y permíteme el exceso, quiéreme, si es posible, sin piedad, quiéreme, antes del último beso. Quiéreme, haz que se incinere el mar, quiéreme, como el vendaval que pasa, por el resto de una brasa dentro de un glaciar. Quiéreme, sin el mínimo pudor, quiéreme, con la insidia de la fiera, quiéreme, hasta el último temblor, quiéreme, como quien ya nada espera. Quiéreme, aunque no sepas fingir, quiéreme, que de todas mis flaquezas sacaré la fortaleza para revivir. Sabes bien que jamás te lo he pedido ni jamás te hice un reproche... por lo que esta vez te pido, ya que no es cosa de dos, que tú seas quien me quiera como nunca me has querido esta noche del adiós... Quiéreme, ahora que llegó el final, quiéreme, sin mas puntos suspensivos, quiéreme, aunque venga el bien del mal, quiéreme, como si estuviera vivo. Quiéreme, que no entiendo qué hago aquí, quiéreme, si no quieres que esté muerto, porque todo es un desierto fuera de ti. Quiéreme, que ya empieza a anochecer, quiéreme, aunque sólo sea un instante, quiéreme, y hazlo como otra mujer, quiéreme, como si fuera otro amante. Quiéreme, que mañana ya murió, quiéreme, como si el mundo acabara, como si nadie te amara tanto como yo... Sabes bien... que jamás te lo he pedido ni jamás te hice un reproche... por lo que esta vez te pido, ya que no es cosa de dos, que tú seas quien me quiera como nunca me has querido esta noche del adiós... Quiereme... Quiereme..

“E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor ? … Diadorim tomou conta de mim.”

- João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas.


GUARDAR O FOGO


Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se vêem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor.
JOAQUIM PESSOA, in GUARDAR O FOGO (Edições Esgotadas, 2013)

by Yuri Lisovsky



A imagem da vasilha de comida vazia do Ed... Ele sempre comia em uma vasilha pequena no quarto da frente. O potinho branco de comida do Ed, com detalhes verdes em torno da borda, pedaços de comida de gato seca presos nos lados, ainda está em uma prateleira no quarto da frente.
Os antigos egípcios pranteavam a perda de um gato e raspavam as sobrancelhas. E por que a perda de um gato não pode ser tão tocante e sentida quanto qualquer perda? As pequenas mortes são as mais tristes, tristes como a morte de macacos.
Tob Tyler aconchega o macaco moribundo nos braços.
O velho fazendeiro está de pé diante do muro inacabado.
Os quadros são gravuras em livros antigos.
Os livros se desfazem em pó. (p. 53)
William Burroughs, "O gato por dentro"

aldemir-martins-gato-azul-iii-19871

Anita Baker (Sweet Love) live

MINHA FELICIDADE SOU EU ...


Meus olhos têm um poder absurdo de me tirar de mim. Meus ouvidos me enganam ao me fazer ouvir coisas estranhas a mim. Minha mente me faz delirar e alucinar coisas que eu não deveria. Não posso sair de mim. Sou o que tenho. Tenho que me contentar comigo. Sempre busco o que me falta quando me volto para fora de mim. Penso, porque ainda não sou. Meus sentidos - fora de mim - são carentes. Não posso descontentar de mim. Não tenho garantias fora de mim. Nada e nem ninguém pode resolver o problema que tenho comigo - mesmo porque ninguém está ileso desse mesmo problema. Não posso buscar o que me falta na falta do outro. Tenho que gostar de mim com o que tenho. Tenho que gostar de mim com o que sou. Tenho que gostar do que vejo em mim. Tenho que gostar do que ouço em mim. Tenho que gostar do que penso de mim. Tenho que gostar do que está sob o meu poder. Não posso buscar fora o que não sou - mesmo porque não domino o que não me pertence. A felicidade é meio autista. A felicidade é redundante. A felicidade é focal. Não posso viver lugares que não são meus. Não posso trocar o que tenho pelo que não tenho. Não posso trocar o que me é seguro por algo que nem sei se será meu. Minha felicidade é o que tenho. Quem vier, não é para complementar. Quem chegar, é para dividir. Fora isto, é só expectativa, frustração e angústia.
Evaristo Magalhães - Psicanalista



Lembrete diário


1- olhar a realidade como ela é.
2- a tentação de desistir será muito mais forte mesmo antes da vitória.
3- a mente é a raiz da qual todas as coisas crescem. Se você consegue entender a mente, tudo o resto está incluído.
4- a cabana onde te estás a rir é mais reconfortante que o palácio onde te aborreces.
5- sempre olhar as coisas pelo lado positivo, se não o há, esfrega os lados escuros até que brilhem.
6- mantenha as mãos abertas, e todas as areias do deserto podem passar por elas. Verifique se estão fechados e tudo o que podes sentir será um pouco de areia.
7- a tua casa é ali onde estão seus pensamentos.
8- o melhor tempo para plantar uma árvore foi há 20 anos. O próximo melhor tempo é hoje.
9- o que determina o estado de felicidade ou infelicidade de cada pessoa não é o evento em si mesmo, mas o que o evento significa para essa pessoa.


Jorge Pinheiro



As cidades e os símbolos - 1



Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável - árvores e pedras são apenas aquilo que são.
Finalmente, a viagem conduz à cidade de Tamara. Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: o torquês indica a casa do tira-dentes; o jarro, a taberna; as alabardas, o corpo de guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos reproduzem imagens de leões delfins torres estrelas: símbolo de que alguma coisa - sabe-se lá o quê - tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo que é proibido em algum lugar - entrar na viela com carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte --e aquilo que é permitido-- dar de beber às zebras, jogar bocha, incinerar o cadáver dos parentes. Na porta dos templos, vêem-se as estátuas dos deuses, cada qual representado com seus atributos: a cornucópia, a ampulheta, a medusa, pelos quais os fiéis podem reconhecê-los e dirigir-lhes a oração adequada.
Se um edifício não contém nenhuma insígnia ou figura, a sua forma e o lugar que ocupa na organização da cidade bastam para indicar a sua função: o palácio real, a prisão, a casa da moeda, a escola pitagórica, o bordel. Mesmo as mercadorias que os vendedores expõem em suas bancas valem não por si próprias mas como símbolos de outras coisas: a tira bordada para a testa significa elegância; a liteira dourada, poder; os volumes de Averróis, sabedoria; a pulseira para o tornozelo, voluptuosidade. O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes.
Como é realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende-se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão às nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante...
Trecho do livro "As Cidades Invisíveis", de 

Autor?

Imagem: Uma ilustração de "Cidades Invisíveis', de Italo Calvino

26.3.17

Luiza (Tom Jobim) - Raphael Rabello

Literatura Fundamental 15 - Em busca do tempo perdido - Philippe Willemart

Rival



Se a lua sorrisse, pareceria com você.
Você também deixa a impressão
De algo lindo, mas aniquilante.
Ambos são bons em roubar luz alheia.
A boca da lua se lamenta ao mundo; a sua é insensível,

E seu maior dom é fazer tudo virar pedra.
Desperto num mausoléu; você está aqui,
Tamborilando na mesa de mármore, procurando cigarros,
Malicioso como uma mulher, não tão nervoso assim,
E louco para dizer algo irrespondível.

A lua, também, humilha seus súditos,
Mas de dia ela é ridícula.
Suas insatifações, por outro lado,
Chegam pelo correio com regularidade encantadora,
Brancas e vazias, expansivas como monóxido de carbono.

Nem um dia se passa sem notícias suas,
Passeando pela África, talvez, mas pensando em mim.

- Sylvia Plath, no livro "Ariel" (edição fac-simile).. [tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo] Campinas-SP: Verus Editora, 2007.





O amor calcula as horas por meses, 
e os dias por anos; 
e cada pequena ausência é uma eternidade.
- John Dryden

Um corre-corre, um susto:
o arco-íris imprudentemente
debruçado sobre o viaduto


Raul Drewnick

Planos e planos


Planos e planos, eis o que faço.
Sou um pescador de mim.
Isco-me todos os dias.
Garimpo as minhas idéias,
As minhas vontades. Escolho, separo,
Reparo, rearumo, desarrumo, mudo o rumo,
Começo tudo outra vez.
De novo, sempre, necessariamente.
Dia a dia.
Hora à hora.
Planos e plano, eis o que faço,
E às vezes acho que planejamento
De nada é válido.
Tudo tem que ter um toque de improviso,
Que nem aviso, que chega e pronto.
No entanto planejar é preciso e eu preciso
Planejar para não planejar a vida.
Planos e planos, eis o que faço.
Nos descaminhos do mundo.
Nas esquinas universais.
Usar apenas á lógica pode ser lógico,
Mas não essencialmente seguro.
Transdicisplinaria os caminhos.
Planos e planos, eis o que faço.
Dou forma à previsibilidade.
Entender necessidades e vontades,
E imaginar como elas podem ser
Alteradas em diferentes situações.
A vida vivida de rascunho,
Não dá para passar a limpo.
Planejar é preciso mesmo
Que seja do infinito.
Evelyn Almeida Ramos


 Edward Hopper - Scetchbook



Edward Hopper 

Pink Floyd - Green Is The Colour (Official Music Video)

24.3.17

Beth Hart - Caught Out In The Rain

Tendão de Aquiles

Que saudade do meu filho,
desde a antiguidade, antes de Aquiles
apodrecer na terra com Polixena
Não me deixem morrer sem sepultura
e penar eternamente
Eu caibo em um grão de areia,
em qualquer chuva pequena
Não me raspem a cabeça
que as colunas cairão
Que saudade
e essa cidade tão vazia
soterrada em minha mão
Não me joguem numa ilha
onde Antonieta beije a filha
louca
sem reinado e sem ter pão.
(A.Bolívar)




Esta é a página onde o poema não se deu
onde o alfabeto e a tinta se encontram
onde não há nenhum poeta nem acontece o som
as vogais voam sem produzirem eco
abrem o corpo através do espaço aberto
uma nuvem tão terna um espelho tão doce
as crianças celebram-no esquecendo o seu nome

Maria Azenha


Maria Azenha - "Já disse tantas vezes"

“O que a gente deve de deixar para trás é a poeira e as tristezas...”
.
- João Guimarães Rosa, da novela “Buriti”, em "Noites do Sertão", no livro 'Corpo de Baile'. 1965.



Syria Art - Khaled Youssef - Syrian Photographer and Poet
O amor não sabe escrever. O amor é um punhado de silêncio no olhar do outro.
Fernando Coelho

Um poema e um haicai de Natsume Soseki




Na fragrância deste incenso no qual me consumo,
quando estou cansado, aparentemente,
tua alma aparece na fumaça que se retorce e gira
de amor correspondido. Pobre, pobre de mim.
Quem num mundo tão amargo como este
não desejaria na névoa de seus desejos
o fogo de um de teus apaixonados beijos.

*

Queria
renascer tão pequeno
como uma violeta

* Tradução de Pedro Fernandes de Oliveira Neto


So In Love ~ Pascale Lavoie ~ Cole Porter




"vive o momento, não pense ; sente, usa teu instinto, sente a força"
(Mestre Yoda -" a guerra das estrelas).

Sentir: Quantas vezes esquecemo-nos de sentir. Conhecer como nos sentimos, permite-nos guiar nossos pensamentos seguintes, e dirigir a nossa forma de pensar e agir. Quando entramos em contato com a emoção, quando nós sentimos quando a respiramos, longe de qualquer interpretação ou julgamento sobre si mesmo ou sobre os outros, podemos abrir uma porta para a consciência. Nesse ponto de observadores que não se deixam levar pelos altos e baixos da emoção, podemos distinguir a necessidade que há por trás daquela emoção inicial.

Quando somos capazes de permanecer nesse ponto, podemos ver a estratégia que segue nosso ego para satisfazer a necessidade emergente e a profunda necessidade que realmente precisa ser atendido. A estratégia baseia-se em ações, simples coisas que você pensa, diz e faz, como a necessidade de abraçar um amigo; esta necessidade emergente está associada a uma profunda necessidade de amar e ser amado, dar e receber amor, e também Medo de ser rejeitado ou estar sozinho.

Ao ser consciente e sentir, por não agir de forma automática, ao entrar em contato com a profunda necessidade, podemos soltar esse apego à estratégia habitual que empregamos. Desta forma soltamos também o apego ao que aprendemos quando éramos pequenos, aquele pedaço de nossa história pessoal que ativou a nossa necessidade e a emoção aflictiva associada. Nós podemos curar as feridas internas, pois também entramos em contato com a nossa criança interior e desculpe

Extrato e nota completa
http://www.revistaesfinge.com/salud/desarrollo-personal/item/1335-la-atencion-el-poder-de-la-fuerza

Três poemas para duas fotos

E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando tiveres me cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
Antoine de Saint-Exupéry

*

"Mi corazón sombrío te busca, sin embargo,
y amo tu cuerpo alegre, tu voz suelta y delgada. 
Mariposa morena dulce y definitiva,
como el trigal y el sol, la amapola y el agua."
Pablo Neruda

*

Sensação
.
Pelas tardes azuis do Verão, irei pelas
sendas, 
Guarnecidas pelo trigal,
pisando a erva miúda:
Sonhador, sentirei a
frescura em meus pés.
Deixarei o vento banhar
minha cabeça nua.
Não falarei mais, não
pensarei mais:
Mas um amor infinito me
invadirá a alma.
E irei longe, bem longe,
como um boêmio,
Pela natureza, – feliz
como com uma mulher.
Arthur Rimbaud.



Fotos de Abdelghani Faqir

Bebo Valdes & Diego El Cigala - Amar y Vivir

 Quem?
- O Bob Marley.
- Sério?
- Sim. O cara enaltece as drogas e é premiado por isso.
- Um péssimo exemplo para as novas gerações.
- Minha mulher disse que isso é lobby da indústria farmacêutica.
- Sério?
- Sim. Quanto mais drogado no mundo, mais gente precisa tomar remédio.
- Faz sentido. Sua mulher lê pra caramba, né?
- Sim. Ele tem a obra inteira do Sidney Sheldon.
- Ele é bom?
- Sim. Fera. Traduzido até no Japão.
- Minha mulher não lê muito. 
- Precisa, cara. Se a gente não se informar, a indústria do lobby, da Lei Luanê vai dominar tudo. 
- Quem você recomenda além desse Sidnei aí?
- Clarice Lispector. 
- Ela é gringa?
- Não, é daqui. Escreve em brasileiro e tudo. Vou te mostrar minha última tatoo.
- Humm.
- Tá vendo?
- Que língua é essa?
- Hebraico. 
- O que quer dizer?
- É uma frase da Clarice Lispector, que tatuei para homenagear a Valéria.
- Traduz pra mim.
- "Garotos como eu/ Sempre tão espertos/ Perto de uma mulher/ São só garotos".
- Que lindo, cara.
- Top né?


Tom Cardoso