30.4.17

Constant Craving (Cover) – ft. Sienna Dahlen

"Alguém que eu amei uma vez me deu uma caixa cheia de escuridão. Demorei anos para entender que isso também era um presente. " - Mary Oliver


©Hiroshi Yagi 💕

The Lady of the Lake Steals Lancelot


Wharton Esherick


Nevoeiro




O nevoeiro vem 
Com passos de gato. 

Senta-se e olha 
Sobre o porto e a cidade 
No silêncio das patas 
E, então, se move. 

Carls Sandburg
Tradução: Dalcin Lima

Alexey Savrassov; paysage d'hiver

escola de hipócritas



converse com seu guri sobre amizade
converse com seu guri sobre respeito
converse com seu guri sobre auto-estima
converse com seu guri sobre compaixão
e mande seu adolescente para a guerra

Robert Lowell 


Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band


Jean Bergeron


Woven Hand - Ain't No Sunshine HQ

Savoir faire


( Claribel Alegría )
Meu gato preto ignora
que vai morrer um dia
não se agarra à vida
como eu
salta do telhado
leve como o vento
sobe ao tamarindo
e mal o arranha
não o amedronta a passagem das pontes
nem o beco escuro
nem o pérfido lacrau
meu gato preto ama
quantas gatas encontra
não se deixa apanhar
por um único amor
como eu como eu.

Endre Penovác
"Eu quero o meu erotismo misturado com o amor, e o amor profundo que muitas vezes não experimentamos." - Anaïs Nin


Só abria as janelas do meu quarto e entravam o ar, de cor azul, o amor e as flores.
(Marc Chagall)





A. Vivaldi - Cello sonatas RV40/42/46 - Roel Dieltiens (1991)

tudo passa
depois da lua cheia 
melancolia

o que deixei pra depois
ainda carrego

Rose Mendes


O Sempre Abraço


Não faz muito que foram descobertos, na sequidão do que antigamente foi a praia de Zumpa, no Equador. E aqui estão, a todo sol, para quem quiser vê-los: um homem e uma mulher descansam abraçados, dormindo amores, há uma eternidade.
Escavando o cemitério dos índios, uma arqueóloga encontrou este par de esqueletos de amor atados. Há oito mil anos que os amantes de Zumpa cometeram a irreverência de morrer sem se desprender, e qualquer um que se aproxime pode ver que a morte não lhe provoca a menor preocupação.
É surpreendente sua esplêndida formosura, tratando-se de ossos tão feios no meio de tão feio deserto, pura aridez e cinzentice; e mais surpreendente é sua modéstia. Estes amantes, adormecidos no vento, parecem não ter percebido que eles têm mais mistério e grandeza que as pirâmides de Teotihuacán ou o santuário de Machu Picchu ou as cataratas do Iguaçu.
- Eduardo Galeano




O amor - substantivo, adjetivo, muito singular, nem feminino nem masculino, de gênero indefeso.
Dimula (Kiki)

 foto de Louise Ouimet.


Libertango in Berlin Philharmonic 2014 (amazing!!!)

"Deus passou a ser para mim, não o corregedor da moral, o severo guardião da lei, mas o Ser infinitamente variado na sua unidade, capaz de todas as metamorfoses, criador da imaginação, inspirador da fábula, pai e destruidor de milhões de corpos e almas, único ator que não repete diariamente seus papéis".
Murilo Mendes, "A idade do serrote"

O jardim secreto



Eu estava doente, deitada na minha cama de jornais velhos, 
quando você chegou com coelhos brancos nos braços; 
e pombas espalhavam-se por cima, voando para as fontes, 
e caracóis suspiravam debaixo de suas bagagens de pedra... 

Agora sua língua cresceu como aipo: 
Porque do nosso grito de amor, o repolho escurece em sua ninhada; 
a couve-flor pensa em suas crianças pálidas e roliças 
e torna-se branco esverdeado numa luz como do oceano. 

Eu estava doente, desfalecendo com o cheiro dos sachês de chá, 
quando você chegou com tomates, uma boa poesia. 
Fui cortejada. Estou sendo conquistada 
por um despenhadeiro calcário que deixa rascunhos nos meus seios.


 
Rita Dove
Tradução de Dalcin Lima 


Bahram Hajo 



NOITE DO SUOR



Mesa de trabalho, desalinho, livros, o abajur de pé,
coisas comuns, meu equipamento parado, a velha vassoura,
mas vivo num quarto arrumado,
há dez noites tenho sentido cãibras
formigando todo o branco manchado de meu pijama...
Um sal adocicado me perfuma e minha cabeça está molhada,
todo o mundo flutua e me diz que tudo vai bem;
o calor de minha vida encharca-se do suor da noite ─
uma vida, uma obra! Mas a descida vertiginosa
e o egoísmo da existência nos secam completamente ─
dentro de mim há sempre a criança que morreu,
dentro de mim há sempre o seu desejo de morrer ─
um universo, um corpo... nesta urna
a noite animalesca sua toda a ferida da alma.
Atrás de mim! Você! Sinto outra vez a luz
iluminar minhas pálpebras de chumbo,
enquanto os cavalos de cabeça cinza relincham
à procura da fuligem da noite.
Encharcado chapinho-me nos salpicos do dia,
um monte de roupa molhada, amargurado, trêmulo,
vejo minha carne e lençóis banhados de luz,
meu filho se explodindo em dinamite,
minha mulher... sua leveza muda o mundo,
e rompe o filamento de teia preta que vem dos palpos da aranha,
enquanto seu coração palpita e se agita como se fosse o de uma lebre.
Pobre tartaruga, tartaruga, se não posso purificar
aqui a superfície destas águas conturbadas,
absolve-me, ajuda-me, fortificando-me,

enquanto você suporta nas costas a alternação e o peso morto do mundo.

Robert Lowell

* Tradução de Ary Gonzalez Galvão

via http://hotblog7faces.blogspot.com.br/

VELHA ROUPA COLORIDA - BELCHIOR

Velha Roupa Colorida



Você não sente nem vê 
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo 
Que uma nova mudança em breve vai acontecer 
E o que há algum tempo era jovem novo 
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer 

Nunca mais meu pai falou: "She's leaving home" 
E meteu o pé na estrada, "Like a Rolling Stone..." 
Nunca mais eu convidei minha menina 
Para correr no meu carro...(loucura, chiclete e som) 
Nunca mais você saiu a rua em grupo reunido 
O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quero cartaz
No presente a mente, o corpo é diferente 
E o passado é uma roupa que não nos serve mais 
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais 

Você não sente nem vê 
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo 
Que uma nova mudança em breve vai acontecer 
E o que há algum tempo era jovem novo 
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer

Como Poe, poeta louco americano, eu pergunto ao passarinho:
Black bird, Assum Preto, o que se faz?"
E raven never raven never raven
Pássaro Preto, pássaro preto black bird me responde:
"Tudo já ficou atrás"
E raven never raven never raven
Black bird, Pássaro Preto, Pássaro Preto me responde:
"O passado nunca mais"

Você não sente nem vê 
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo 
Que uma nova mudança em breve vai acontecer 
E o que há algum tempo era jovem novo 
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer
E precisamos todos rejuvenescer
E precisamos todos rejuvenescer

https://youtu.be/RA2PmL7hb30

Belchior

O cantor e compositor Belchior, autor de "Apenas Um Rapaz Latino Americano" e "Como Nossos Pais", morreu na madrugada de domingo (30.04.2017) em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, aos 70 anos.






(excerto)
Entender os outros não é uma tarefa que comece nos outros. O início somos sempre nós próprios, a pessoa em que acordámos nesse dia. Entender os outros é uma tarefa que nunca nos dispensa. Ser os outros é uma ilusão. Quando estamos lá, a ver aquilo que os outros veem, a sentir na pele a aragem que outros sentem, somos sempre nós próprios, são os nossos olhos, é a nossa pele. Não somos nós a sermos os outros, somos nós a sermos nós. Nós nunca somos os outros. Podemos entendê-los, que é o mesmo que dizer: podemos acreditar que os entendemos. Os outros até podem garantir que estamos a entendê-los. Mas essa será sempre uma fé. Aquilo que entendemos está fechado em nós. Aquilo que procuramos entender está fechado nos outros.


José Luís Peixoto, in EM TEU VENTRE (Quetzal, 2015)



Fotografia: Helena Canhoto

A viúva da água



O sol canta como a chuva de julho nas folhas de uma palmeira.
Altas nuvens no céu, cintilantes; breves estátuas
de bronze em movimento, quero dizer, abraçadas ao vento
do sul.
.
Sou desta torrente de luz que alcança o esplendor
junto à costa.
A tarde cai com as suas ruínas mais antigas.
As lentas pernas do crepúsculo, entorpecidas e rubras,
arrastam-se pelo horizonte.
.
Sento-me junto às gaivotas.
Tenho um barco sem viagens nos acordes
da minha guitarra.
.
Um olhar enevoado constrói o silêncio,
atira-me a pérola
de uma lágrima por trás da janela.
Despe o meu coração.
Sem palavras, esquecida entre grossas cortinas de sombra,
a mulher vê em mim o dia que finda.
.
Não sou o mensageiro do mar – só trago o rumor
de pulseiras de água.
.
Como ela, também habito a vazia casa do mundo.


Eduardo Bettencourt Pinto,  in EUFEME, magazine de Poesia #2 (jan./mar. 2017




Óleo s/ tela, de ©Matteo Massagrande

29.4.17

Δέσποινα Βανδή - Αν Σου Λείπω | Despina Vandi - An Sou Leipo (Official M...



Clipe GRE-GO gravado no ícone TURCO, no Palácio Çırağan em İstanbul.

DEPOIS DO AMOR



Mais tarde, o compromisso. 
Corpos reassumem seus limites. 

Estas pernas, por exemplo, são minhas. 
Teus braços levam-te de volta para dentro. 

Iscas de nosso dedos, lábios 
Aceitam seu domínio. 

A roupa de cama boceja, uma porta 
sopra vagamente entreaberta 

e suspenso, um avião 
cantarola descendo. 

Nada mudou, exceto 
havia um momento quando 

o lobo, o famélico logo 
que está fora de si mesmo 

deita-se levemente, e adormece. 

Maxime Kumin
Tradução de Dalcin Lima.





Ewa Krepicz

Aafje Heynis: Bist du bei mir by Stölzel (Bach)

CUIDADO COM SEUS SONHOS ...


Temos que tomar muito cuidado com nossas fantasias. Disseram-nos que temos que sonhar com um mundo melhor. Aprendemos que não sobrevivemos sem um projeto de vida. Condenam o sexo sem amor. Em tudo temos que colocar uma aura. Tudo precisa de um véu. O gozo é uma busca. A felicidade é o que está lá. Freud dizia que a pulsão tem um pé no corpo e outro na mente. Lacan dizia de um deslizamento de significantes. Aprendemos que a realidade é chata, que o presente paralisa e que a rotina cansa. Aprendemos que o mesmo do mesmo não leva a lugar nenhum. Será verdade? Será que dá pra viver de gozar só com o corpo e sem a mente? Em tempos de sonhos mortos, imediatos e individuais, sobramos com nossos corpos. Parece que - agora -teremos que ressignificar as relações humanas tendo - não mais o recurso da palavra como mediador - mas o corpo como fio condutor. Venceu a literalidade e a litoralidade. O que era lixo, virou joia rara. Restou-nos o que sempre tivemos e tanto negamos: nossos corpos e tudo o que podemos acessar com ele.
Evaristo Magalhães - Psicanalista
Por que você permanece na prisão quando a porta está completamente aberta ?
Rumi


Barbara Swan

Àngels Margarit / Cia. MUDANCES - Corol·la

"Eu odeio ver poesia em tudo que eu toco. Eu odeio que eu não possa te amar, sem transformá-lo em uma metáfora - que nunca possa ser simples como olhar para você e dizer sim, sim, sim".
- Shinji Moon, "The Anatomy of Being"


"Ô, Luz Solar! O ouro mais precioso a ser encontrado na Terra. "
- Roman Payne


Abdollah Bali Eslami

QUE ISTO SEJA ESQUECIDO



Que isto seja esquecido como uma flor, ou como 
fogo de áureo gorjeio que ninguém já relembre... 
É bom amigo, o tempo, que nos traz a velhice. 
Que isto seja esquecido e para todo o sempre. 

E se alguém perguntar, dize – foi esquecido 
há muito, muito tempo, 
como uma flor, um fogo, uma surda pegada 
numa neve esquecida há um tempo imenso... 

Sara Teasdale
Trad. de Cecília Meireles


Ulf Lundin‎

Laibach - Tanz mit Laibach (Official video)



Dança Com Laibach

Todos nós somos obcecados
Todos nós somos amaldiçoados
Todos nós estamos crucificados
E estamos todos estragados
Pela tecnologia do encanto
Pelo tempo de economia
Pela qualidade de vida
E pela filosofia de guerra
Um, dois, três, quatro
Irmãozinho, venha dançar comigo
Um, dois, três, quatro
Eu estendo para você ambas as mãos
Um, dois, três, quatro
Meu amigo, venha dançar comigo
Um, dois, três, quatro
Em circulos, isto não é difícil
Nós dançamos com Ado Hinkel
Benzino Napoloni
Nós dançamos com Schikelgrüber
E dançamos com Maitreya
Com totalitarismo
E com a democracia
Nós dançamos com o fascismo
E com a anarquia vermelha
Um, dois, três, quatro,
Camarada, venha dançar comigo
Um, dois, três, quatro
Eu estendo para você ambas as mãos
Um, dois, três, quatro
Povo alemão, venha dançar comigo
Um, dois, três, quatro
Em circulos, isto não é difícil
Yop, yop, yop
Nós dançamos e nós brotamos
Nós pulamos e nós cantamos
Nós caimos e nós protestamos
Nós damos ou tomamos
Amigo americano
E camarada alemão
Nós dançamos bem juntos
Nós dançamos até Bagdá
Um, dois, três, quatro
Irmãozinho, venha dançar comigo
Um, dois, três, quatro
Eu estendo para você ambas as mãos
Um, dois três, quatro
Meu amigo, dance comigo
Um, dois, três, quatro
Em circulos, isto não é difícl
Um, dois, três, quatro

https://youtu.be/Glu9wA4HjE0





a lição das folhas cadentes




as folhas acreditam que 
tal desprendimento é amor 
tal amor é a fé 
tal fé é a graça 
tal graça é deus. 
eu concordo com as folhas.

Lucille Cliftonl 


Tradução do original inglês de Dalcin Lima


工藤尚美

A ausente


Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.
Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer,
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados —
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.
Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que os pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão.
Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão…

– Augusto Frederico Schmidt, no livro “Pássaro cego”. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1930

©Wiley Ware

Sampa (Caetano Veloso) - Raphael Rabello





Paderborner Dom Dreihasenfenster


Eugène Delacroix


Letter from Eugène Delacroix to his paint dealer (dated 28th October, 1827)

Lucidez


É uma escada que surge indecisa num portãozinho de ferro
e beira a casa de duas janelas,
colonial.
É uma escada úmida entre o paredão do prédio ao lado
e a casa acostumada à sua umidade,
a casa acostumada às samambaias que se estruturam
nos degraus como antigos organismos
que se dobram no nascimento,
pequenos fetos protegendo-se do devir.
Mas vamos subir,
vamos entrar na casa,
vasculhar a sobriedade sem janelas abertas,
apenas a meia luz do abajur
esquecido num canto
como se tivesse uma palavra suspensa
que não foi permitida.
Prepare-se pra ver um corpo sem missa.
Me dê sua mão,
você não está sozinho
diante da morte do outro.
Dê longos passos no corredor,
sinta os tapetes da sala,
a outorga da suavidade
nos pés apressados,
na angústia da felicidade
pra próxima geração,
a esquisita sensação
de estar entrando
no acontecido,
no que já não é.
Entre no quarto feito
alguém que descobre um útero.
O livro aberto sobre a mesa
é aristotélico.
A classificação das sombras
e a permissão da garoa.
Tem um deus lá fora
que brinca e brinca
e não é adulto.
Olhe o corpo,
com certo susto,
a impressão de prazos vencidos,
o gosto de derrota
diante da brevidade da vida.
Os cigarros da noite anterior
nervosamente pressionados
contra o cinzeiro,
o disco de Pixinguinha
no chiado de depois,
quando o lado B
acaba e a agulha
alcança o infinito.
Sobre a cama,
em estado de putrefação
e delírio,
está a poesia morta.
Sente-se.
Tome o café de gosto
retórico.
O café dos que indiferentes
veem os grandes movimentos
dos oceanos,
os deslocamentos humanos
diante das guerras,
os pactos regados de sangue
inocente.
Cubra com a manta leve
os olhos da poesia.
Os poetas serão procurados,
os insuportáveis poetas
e sua arrogância.
Deixe a casa e vá pra chuva
que teima em chorar.
Tome a rua
sem antes levar
um livro consigo.
Lançará ao lixo
as classificações todas.
Depois, vá livre
onde só os lúcidos
dormem ao movimento
da luz, da brisa, do perfume.
Ganhou um presente:
a lucidez definitiva
de que nada vale.
Fiori Esaú Ferrari
Demora-te em mim
Entre a penumbra e a chuva
Demora-te em mim
No caminho. Em cada curva
Que é meu corpo de luar 
Como se demora o mar
Nas areias. Seu jardim…
Demora-te em mim
Até à pureza do pecado
Demora-te em mim
Num poema. Neste fado
Que é o meu sentir de lamento
Como sente a pele o vento
Essa saudade do fim…
Demora-te no que resta desta hora
Memória ainda morna de onde vim
Para te dizer, sempre demora
Saudade, de te demorares em mim…
jorge du val


Disturbed - The Sound Of Silence [Official Music Video]


O que fazemos é o que somos. Nada nos cria, nos governa e nos acaba. Somos contos contando contos...
- Ricardo Reis ( Fernando Pessoa )




É URGENTE



É urgente
escrever com todos os sentidos.
Todas as memórias são irrecusáveis,
o tempo saboreado,
os sabores intemporais,
os gemidos irrepetíveis das tardes,
o tamanho das noites que se prolonga
longe dos nossos braços,
os silêncios que se permanecem na clara quietude,
a liquidez da areia bebida pelo mar,
o toque leve da tua pele quando escrevemos,
os pés descalços a sentir o caminho.

Porque todas as palavras se saciam
numa fonte
que entre os nossos dedos
não pode secar


Lília Tavares


Ana Moura e Pedro Abrunhosa - Tens os Olhos de Deus



Ana Moura e Pedro Abrunhosa - Tens os Olhos de Deus

Tens os olhos de Deus
E os teus lábios nos meus
São duas pétalas vivas
São rasgos de luz e de paz
E os abraços que dás
E eu preciso de mais
Num céu de asas feridas Preciso de mais
Azuis de sol e de lágrimas
Dos teus olhos de Deus Num perpétuo adeus Dizes: 'Fica comigo
não preciso de mais
És o meu porto de abrigo E a despedida uma lâmina! ' Não preciso de mais
O vento ao corpo
Embarca em mim Que o tempo é curto Lá vem a noite Faz-te mais perto Amarra assim
E cada qual com os seus
Embarca em mim Que o tempo é curto Embarca em mim Tens os olhos de Deus Vê a lonjura que quer
Preciso de mais
E quando me tocas por dentro De ti recolho o alento Que cada beijo trouxer E eu preciso de mais Nos teus olhos de Deus
Não preciso de mais
Habitam astros e céus Foguetes rosa e carmim Rodas na festa da aldeia Palpitam sinos na veia Cantam ao longe que 'sim! ' Não preciso de mais
Embarca em mim
Embarca em mim Que o tempo é curto Lá vem a noite Faz-te mais perto Amarra assim O vento ao corpo Embarca em mim
Que o tempo é curto