21.6.17

Alguien a quien una vez amé me regaló
una caja llena de oscuridad.
Me llevó años comprender
que esto, también, era un regalo.




TOBIA RAVA - PERSPECTIVES FUGHE

© Ernest Pignon-Ernest, Antonin Artaud - 1997


© Igor Čoko


Mario Benedetti - Utopías

Cintilam o leito, o voo, a pedra, o sal das árvores ,
as paredes ainda húmidas do mar.
Os sonhos, meu amor, são náufragos, sombras que se agitam,
pássaros, palavras vivas vindas de outras rotas.
A infância!
Há estrelas no limite das águas, casuarinas inclinadas,
areias muito brancas.
E os meus olhos cegos.
mariagomes
jun.2017

NICOLAS de STAEL
o envelhecimento→ é apenas um cansaço de existir.
possui um desgaste físico, traduz uma duração das peças que nos compõem. é ainda uma desistência do desejo de ser um outro e de viajar para outras histórias, para outras identidades.
Coisas do MiaCouto
(em uma entrevista ao G1)

© Dominic Moriarty 2017.

Nils Frahm — Because This Must Be

Consciência


*
Grande consciência é o mar
Líquida calma
Alma em ondas
*
Brumas rendadas
meu céu invertido
O arfar de asas sobre ti
É moldura de anjos
*
Grande pensamento é o mar
Líquido tecer de imagens
Tantos seres:
- miragens
*
Brumas rendadas
meu céu invertido
O arfar de asas sobre ti
é moldura de anjos
*
Grande alegria é o Mar.
*****
Elke Lubitz


© Dominic Moriarty 2017  
a verdadeira ternura não se confunde
com coisa alguma - é silenciosa.
Anna Akhmatova


Sting - Shape of My Heart (Leon)

— O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor.

William Faulkner (1897-1962), citado por Javier Marias , no começo do livro A Bibliotecária de Auschwitz.



Foto: Faulkner, Nobel de Literatura, em 1949 - USA

Like a Roling Stone

Quando, muito empolgados, os Stones foram encontrar Dylan, foram recebidos com uma das frases históricas do rock. "Eu poderia ter feito 'Satisfaction', mas vocês jamais escreveriam 'Mr. Tambourine Man'", vangloriou-se.
Os dois lados demoraram anos para ter um bom entrosamento, mas a amizade pegou no tranco. Eles dividiram palco várias vezes, entre elas a passagem pelo Brasil em 1998, quando Dylan abriu a turnê dos Stones em São Paulo e Rio.
Eles se juntaram no palco, já no set dos ingleses, para cantar "Like a Roling Stone", canção de Dylan de 1965 que Jagger e sua turma tinham regravado três anos antes.
Essa música gera certa confusão nas novas gerações. Muita gente pensa que Dylan a compôs em homenagem à banda, mas isso nem de longe passou por sua cabeça. O título da canção e o nome da banda têm origem na mesma fonte, um verso de "Rollin' Stone", single de 1950 do bluesman americano Muddy Waters (1913-1983), que diz "a rolling stone gathers no moss" ("uma pedra que rola não junta limo").











SUPERTRAMP - HELP ME DOWN THAT ROAD - BY CIEFFE ART PHOTO

ESQUECE-TE DE MIM, AMOR

ANTÓNIO MEGA FERREIRA, in OS PRINCÍPIOS DO FIM- Poemas (1972 - 1992), [Quetzal, 1992], in POEMAS DE AMOR, sel. de Inês Pedrosa, ( D.Quixote, 2000 )

Esquece-te de mim, Amor,
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.

 from The Yosemite Suite, 2010, by David Hockney

São apenas palavras


Eu tinha de mergulhar
nas águas que foram
palavras um dia
e lucidamente
me afogar na indecisão
das coisas.
Me aparelhar do verbo
não dito,
calar o poema
e deixar o intelectual
morrer sozinho
no seu vestido de ouro
e espelhos.
O homem de muita leitura
aprendeu muitas palavras também.
E viciou na sua organização
mental
por isso lhe pesa tanto
a leveza da flor.
Não percebeu que o seu dialeto
se quebrou,
era vidro e se quebrou,
e eu tenho uma língua de cerâmicas,
de mãos postas no barro
e lenhas do forno matricial,
sim, todo intelectual usa apenas
um dialeto,
que jamais será
a língua dos campos que amei,
das grandes praças de silêncio,
a língua do aboio vale mais
que um ensaio sobre a desesperança,
a língua do aboio
tem uma gramática
que foge aos meu olhos,
ela retira o sangue vivo,
ela participa da mesa
e comensais brindam
a descoberta do vento,
a descoberta da morte,
a descoberta do reinado
de métricas de sonho
e alguma cesura de tristeza.
Eu amo a não palavra
do tijolo que chora
nas noites do orvalho,
desprotegido do reboque
e da alegria.
Amo a não palavra
dos moribundos
que odiaram toda a exploração
e sabem que não há saída
pra vida.
Por isso sorriem
com sábio escárnio
e encaram orações
com um encanto
de quem não
duvida
que vai acabar.
Amo esse vento que cortou os prédios
e me beijou o ventre.
Ele veio franco e tão desarmado,
ele veio amansado
de minha terra distante,
veio com a tralha
e a trama de suas cordas,
esses arreios do existir,
ele nada diz,
nada é,
e a única sensação
que tenho
é a de desaparecer
infinitamente
entre grandes blocos
de milênios.
Fiori Esaú Ferrari

South American Getaway B. Bacharach 12 cellos da filarmónica de Berlim.wmv

UNINDO-SE AOS ANJOS



Eu estava cansada de ser mulher, 
cansadas das colheres e panelas, 
cansada de minha boca e meus seios, 
cansada dos cosméticos e das sedas. 
Havia ainda os homens que sentavam à minha mesa, 
à volta da fruteira que eu oferecia. 
A fruteira estava cheia de uvas roxas 
e as moscas pairavam lá devido o cheiro 
e até meu pai vinha com seus ossos brancos. 
Mas eu estava cansada com o gênero das coisas


ANNE SEXTON



"A Barca dos Amantes"


 (Sérgio Godinho/ Milton Nascimento)

Ah, quanto eu queria navegar
Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria conseguir
Trazer a Barca à madrugada
E desfraldar o pano branco
Na que for terra mais amada

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no céu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu vi me fez vogar
De rumos meus, a cais errantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no seu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia


A casa de hóspedes

bane kozic - TreKlens




O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.
Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.
Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.

Rumi (Mestre Sufi do sec. XII)


A FLAUTA E A LUA: POEMAS DE RUMI

autor: Marco Lucchesi


Nascido no atual Afeganistão, no século XIII, e cultuado em todo o mundo, Jalâl ad-Dîn Rûmî foi poeta e mestre espiritual muçulmano, porém não ortodoxo, enraizado no islã, e considerado hoje a mais alta expressão do espírito de convivência entre tradições culturais e religiosas. De reconhecida musicalidade e extraordinária beleza, os versos de Rûmî reunidos nesta edição apresentam-se como o resultado da longa pesquisa do poeta e tradutor Marco Lucchesi, que vem se dedicando com rigor à tradução da poesia e ao estudo de diversos idiomas orientais. No esforço de desvendar o sistema literário persa do século XIII – uma complexa trama que associa o turco, o árabe e o persa –, Lucchesi contou com os especialistas Luciana Persice e Rafî Moussavî para apresentar as traduções de alto nível técnico de parte significativa da obra lírica de Rûmî: poemas extraídos de Divan Shams de Tabrîz, uma obra com cerca de 40 mil versos, além de uma série de quadras – a forma mais popular e musical da poesia persa –, colhidas do volume Rubayat. A flauta e a Lua se completa com estudos críticos dos teólogos Leonardo Boff e Faustino Teixeira, e um vigoroso ensaio fotográfico em torno das terras e paisagens do Irã, Paquistão e Nepal (parte do antigo território persa), assinado pelo fotógrafo italiano Riccardo Zipoli. Como lembra Lucchesi, citando Goethe: "Deus é Ocidente. Deus é Oriente. E Rûmî, essa ponte. Esse traço de união".


keith richards blues acoustic

BEBER

 Carlos Rodrigues Brandão
Vê essa concha? São tuas mãos.
Aperta os dedos com jeito,
mas que um pouco de água te escape.
Antes de tomar dá de beber
a um grão do pó do chão, a um inseto
a uma folha seca, a um galho de canela
a um mito de outros povos, a um duende
a um fio do vento, a um ar do sol
a uma criança e a um velho.
E depois bebe.
O que sobrou é a tua parte
Bebe.
(*)  Fonte: Carlos Rodrigues Brandão. Orar com o corpo. Campinas: Verus, 2005, p. 71.


Deus me persegue

  Joshua Heschel
Deus me persegue em toda parte
Tecendo sua teia em torno de mim,
Brilhando sobre minhas costas/cegas como o Sol.
Deus me persegue como uma floresta densa,
E eu, totalmente maravilhado, sinto meus lábios emudecerem
Como uma criança vagando por um antigo santuário.
Deus me persegue em toda parte, como um tremor
O desejo em mim é por descanso; ele me convocando diz: vem!
Percebo visões vagando como mendigos pelas ruas!
Eu vou com meus devaneios
Como num corredor através do mundo,
Às vezes, vejo suspensa sobre mim a face sem face de Deus.
Deus me persegue nos bondes e nos cafés.
Oh, é somente com a parte de trás dos olhos que posso enxergar
Como os mistérios nascem, como as visões aparecem.
Fonte: Alexandre Leone. Imagem Divina e o Pó da Terra, Humanitas, 2002, SP, FFLCH, p.69 e 70.


© Dominic Moriarty 2017.

20.6.17

Kovacs - The Devil You Know (Official Video)

Cores


Autores desconhecidos
— Fanáticos não têm senso de humor, e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas.

Amós Oz, escritor israelense e co-fundador do movimento pacifista Paz Agora



Best of Buster Keaton's stunts

Depois de
Todo esse tempo
O Sol nunca diz à Terra,

"Você me deve."

Veja
O que acontece
Com um amor assim - 
Ilumina todo o céu ".



- Hafiz



Curves, Mary Grace Svensson

(...) Em um dia distante, quando chegarmos às portas do paraíso, posso lhe garantir que ninguém vai nos perguntar se limpamos bem as rachaduras na calçada. O que é mais provável é que no portal do paraíso queiram saber com que intensidade escolhemos viver; não por quantas "ninharias de grande importância" nos deixamos dominar.
Clarissa Pinkola Estés: A ciranda das mulheres sábias



Imarhan - Tahabort



Virginia Woolf...

" Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indescritivelmente, velha.
Se afundava como uma lâmina nas coisas; e ao mesmo tempo, ficava do lado de fora, observando.
Tinha a sensação constante de estar longe, muito longe, em mar aberto e sozinha."


Denis Sarazhin

Owen Campbell - Wrecking Ball / Days Like This and more (Maroquinerie - ...

TATUAGEM



A luz lembra uma aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha pelas margens da neve.
Penetra sob as tuas pálpebras
E espalha ali suas teias –
Duas teias.

As teias de teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos teus
Como a um caibro ou capim.

Há filamentos de teus olhos
Na superfície da água
E nas margens da neve.

Wallace Stevens
Tradução de Paulo Henriques Britto


Dominique Otte


para vc com todo amor


tem essa chuva chegando no fim do dia
esse voo partindo em mim feito flecha afiada
tem essa palavra engasgada na garganta das horas
tem esse amor aninhado no meu peito feito passarinho benfazejo
tem esses dias lindos
essa festa essa fúria esse fuzilamento lírico de um no outro
tem seus olhos felinos na noite profunda
tem vc sorrindo e bebendo coca zero
e fumando cigarros mentolados
tem essa casa vazia guardando sua presença em mim
tem o macio das mãos o aconchego do corpo nas noites frias
tem todas as nuances de vc ainda aqui comigo agora
nesse preciso instante q fecunda se esgarçando na areia
dos olhos amarelos vibrando vibrando em êxtase

Sérgio Villa Matta

Alejandro Zuleta

-MARLENE KUNTZ- LIEVE LA MIGLIORE ESIBIZIONE LIVE

MÃES


para J. B.
Oh mãe,
aqui no seu colo,
tão bom quanto uma cuia de nuvens,
eu, sua criança gananciosa,
recebo seu seio,
o mar embalado em pele,
e seus braços,
raízes cobertas de musgo
e com novos brotos surgindo
tirando-me risos com cócegas.
Sim, estou noiva de meu ursinho
mas ele tem o mesmo cheiro seu
assim como o cheiro meu.
Pego nos dedos seu colar
que é todo olhos de anjo.
Seus anéis que cintilam
são como a lua na lagoa.
Suas pernas me balançam pra cima e pra baixo,
suas queridas pernas cobertas de nylon,
são os cavalos em que montarei
à eternidade.
Oh mãe,
depois deste colo da infância
nunca mais poderei sair
ao mundo das pessoas grandes
como uma estranha,
algo inventado,
ou vacilação
quando outro alguém
está tão vazio como um sapato.
 Anne Sexton
***

Conforme a biografia de Anne Sexton por Diane Middlebrook, quando ela fazia leituras públicas desse poema, que relata a relação entre três gerações (a filha da persona poética, ela mesma e sua mãe), ela costumava dizer: “o grande tema não é o de Romeu e Julieta. O grande tema de que todos nós compartilhamos é o tornar-se quem se é, de superarmos nosso pai e nossa mãe, de assumirmos nossa identidade de alguma forma” (tradução minha).
Beatriz Regina Guimarães Barboza
Via escamandro

Marwan Kassab Bashi - Syrian Artist

Prisma no olhar
Por-do-sol na cidade
Que nunca dorme.



Sarah Koe (haicai e foto)







Enrico Pieranunzi - Les amants

Poesia é somente evidência de vida. Se sua vida está queimando bem, poesia é a cinza.
.
Leonard Cohen




Herberto Helder - Tríptico (por José-António Moreira)



Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos 
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.


Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. 


Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
herberto helder

19.6.17

John Lennon - No 9 Dream

Bilhete escrito pra rasgar



Sabe, gosto de ouvir Renato Russo. Sobretudo o disco branco, The Stonewall Celebration Concert. Há, ali, meio que um buquê de canções sobre amor e solidão. Sobre o amar. Sobre o sonhar. Fazia tempo que não o ouvia. Um bocado de tempo. Da que hoje o dia amanheceu excessivamente azul. E eu, excessivamente só. E você, excessivamente longe. E mudo. Veio-me uma vontade urgente, irreprimível, de ouvi-lo. O disco. E ouvi e ouvi e ouvi. E pensei, talvez mais do que devia, em você. Em nós. E me senti mais só. Até chorei um pouco. Não, não olhei seus retratos. Há tempo tratei de guardá-los, bem guardados, todos. De volta ao disco. Tantas canções que lhe diriam tanto de mim. Pensei em gravá-lo para lhe mandar, como um presente-surpresa, mas desisti. Você não entende inglês, seria em vão. Aliás, de repente, veio-me uma ideia meio-louca, embora não desprovida de fundamento. Talvez, você perceba, a mim e ao meu jeito de sentir, ser, pensar, querer, rir, escrever, falar, como se em um outro idioma. A você, desconhecido. Alguma língua estranha, arcaica, morta. E não em bom e claro português. Perhaps, em inglês. Um insólito desvio de percepção. Como uma estranha e peculiar alucinação. A mim, em você, restrita. Porque, da língua portuguesa, você é mestre e senhor. Ah, deixa pra lá! Quanta tolice! Bobagens de quem sente saudade. Como canta agora, Renato, I can get along without you very well... Except, perhaps, quando o dia é azul e claro, como esse, e quase esqueço que não devo let you break my heart in two. Again.
Márcia Maia

https://youtu.be/Zv7wrnV70J4

Kasabian - Good Fight

Não esqueço mais.
E a última, eu já te contei?
É assim.
Estamos parados.
Você lê sem parar, eu ouço uma canção.
Agora estamos em movimento.
Atravessando a grande ponte olhando o grande rio e os três barcos colados imóveis no meio.
Você anda um pouco na frente.
Penso que sou mais nova do que sou.
Bem nova.
Estamos deitados.
Você acorda correndo.
Sonhei outra vez com a mesma coisa.
Estamos pensando.
Na mesma ordem de coisas.
Não, não na mesma ordem de coisas.
É domingo de manhã (não é dia útil às três da tarde).
Quando a memória está útil.
Usa.
Agora é a sua vez.
Do you believe in love...?
Então está.
Não insisto mais.
.
.
Ana Cristina Cesar. In: "A teus pés", 1982




© Suzon Abu Zafor


Um poema de Edson Bueno de Camargo
"Há um país dentro da gente
um país que mora em nossos sonhos
um país que incorpora outros países,
um lugar em que descansamos versos
feito de palavras e fumos
onde velhos samurais se convertem em monges
e montanhas em poemas. "

Catharsis, Hans Reefman

Nomad - Bombino (2013) [Full Album]

"Tensão sexual é como uma granada de mão sem o pino... Uma hora explode... Os estilhaços geralmente são prazerosos... E mortais...."
Anthony Blacksmith



Diego Velázquez é Vênus ao espelho (1647-51) vandalizados por sufragista Mary Richardson em 1914

Os dias sem ninguém


Al Berto - (1948 - 1997)
os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos
foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida
pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço
luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho
restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar
AL BERTO
O Medo
Lisboa (1998)


Alfred Sisley  Poplars on a river bank - 1882

Early Morning Jazz Mood

 

Reza à montanha em frente que vê todos os dias
quando amanhece.
Os olhos cansados dos pesadelos.
A mangueira e o rio ainda estão lá. As coisas
estão todas em seu lugar. 
As gentes
é que passaram.
Sempre passam as gentes e as nuvens se desfazem
nesse país extremo que chamamos saudades.
Rumamos todos para um exílio sem perdão.
E a lâmina dos dias passa rente às cordas do barco
que range
se esquivando das pedras.

Nydia Bonetti

☀ Kurt Swinghammer (Canadá)

Boca Livre e Chico Buarque - Feito Mistério



Então
Senti que o resumo é de cada um
Que todo rumo deságua em lugar comum
E então eu monto num cavalo que me leva a Teerã
E não me perco jamais
Quando desespero, vejo muito mais
Essa canção me rói feito mistério
Essa tristeza dói
Meu fingimento é sério
Como aéreo é sempre todo o amor
"Feito Mistério"
- Boca Livre
Compositor: Cacaso / Lourenço Baeta

como funciona a ficção



em 28 de março de 1941, Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e entrou no rio Ouse. o marido, Leonard Woolf, era obsessivamente meticuloso, e manteve na vida adulta um diário no qual registrava todos os dias as refeições e a quilometragem do carro. aparentemente, não houve nenhuma diferença no dia em que sua mulher se suicidou: ele registrou a quilometragem do carro. mas, diz sua biógrafa Victoria Glendinning, a página dessa data está borrada, com "uma mancha amarela pardacenta que foi esfregada ou enxugada. Podia ser chá, café ou lágrimas. é o único borrão em todos os anos de um diário impecável". 
Receita de um médico parisiense.
Tradução Paulo Sérgio Oliveirah - do Grupo Cura Ancestral.
"Não, eu não vejo nenhuma razão de lhe prescrever antidepressivos. Você está apenas triste. Um acontecimento doloroso dói , mas a solução pra dor, não é química . Você certamente tem força suficiente para seguir em frente e encontrar os recursos para agir e reagir."

(Via Rose Mendes)