31.8.17

Pelo Tempo Que Durar




Pelo Tempo Que Durar foi feita em parceria entre Marisa Monte e Adriana Calcanhotto e está no álbum Infinito Particular, de 2006. 

Nada vai permanecer
No estado em que está
Eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar

Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
E eu pensando em ter você
Pelo tempo que durar

Coisas vão se transformar
Para desaparecer
E eu pensando em ficar
A vida a te transcorrer
E eu pensando em passar
Pela vida com você

Conserta o vazo quebrado, as flores amarrotadas
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Vou me banhar no rio dos meus devaneios,
Antes que ele pare de correr,
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher
Eu amei três vezes num único sonho,
Tudo deriva de mim,
E a circulação é um movimento infinito
Tudo indo em direção ao coração
Nascer dói, viver dói,
Morrer não
Charles Burck


Ph. Сергей Шалыгин
Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados
Dia seguinte
O ranúnculo da esperança não brota
No dia seguinte
A vida harmoniosa não se restaura
No dia seguinte
O vazio da noite, o vazio de tudo
Será o dia seguinte
Carlos Drummond de Andrade
Fotografia de Araquém Alcântara (desmatamento brasileiro)





"Os anjos de seis asas, os serafins (literalmente: os Ardentes), circundam o trono de Deus; cada um deles tem seis asas: duas para cobrir o rosto (por medo de ver Deus), duas para cobrir os pés (eufemismo para designar o sexo), e duas para voar (Isaías, 6, 1-2)."
Excerto, Dicionário De Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant - Editora José Olympio
[Imagem: Gustave Doré: Ilustração para a Divina Comédia, de Dante Alighieri: Paraíso, canto XXXI]



"Viaje e não conte a ninguém
Viva uma verdadeira história de amor
E não conte a ninguém
Viva feliz
E não conte a ninguém ...
As pessoas arruinam coisas bonitas "
Khalil Gibran



林在野




"Voyage et ne le dis à personne
Vis une vraie histoire d'amour
et ne le dis à personne
Vis heureux 
et ne le dis à personne...
Les gens ruinent les belles choses"
Khalil Gibran


Chico Buarque & Carlos do Carmo - fado tropical (letra)





Composição: Chico Buarque
Declamador: Carlos do Carmo
Excerto do filme "Fados", de Carlos Saura

Oh, musa do meu fado 
Oh, minha mãe gentil 
Te deixo consternado 
No primeiro abril

Não sejas tão ingrata
Não esqueças quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal 
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal 

Sabes, no fundo eu sou um sentimental 
Todos nós herdámos no sangue lusitano
Uma boa dose de lirismo...
(Além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em
Torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos
E sinceramente chora...

Com avencas na caatinga 
Alecrins no canavial 
Licores na moringa 
Um vinho tropical

E a linda mulata 
Com rendas do Alentejo 
De quem numa bravata 
Arrebata um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal 
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal 

Meu coração tem um sereno jeito 
E as minhas mãos o golpe duro e presto 
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto 
Se trago as mãos distantes do meu peito 
É que há distância entre intenção e gesto 
E se o meu coração nas mãos estreito 
Assombra-me a súbita impressão de incesto 
Quando me encontro no calor da luta 
Ostento a aguda empunhadora à proa 
Mas o meu peito se desabotoa 
E se a sentença se anuncia bruta 
Mais que depressa a mão cega executa 
Pois que senão o coração perdoa...

Guitarras e sanfonas 
Jasmins, coqueiros, fontes 
Sardinhas, mandioca 
Num suave azulejo

E o rio Amazonas 
Que corre Trás-os-Montes 
E numa pororoca 
Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal 
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
tantas vezes parti
da mesma casa, do mesmo cômodo
era moda, meu amor, um certo desconforto
um olhar de outra vez buscando o outro
isso de não ficar para ver crescer o ovo
do desespero.

era moda, meu amor, fugir nua em pelo
fugir torto, fugir por inteiro.
mas nunca foi moda fugir para nunca mais.
por isso, as tais voltas como colares no pescoço.
por isso, o esboço de não é para sempre ainda não desta vez,
toda vez que a porta bateu estrondosamente.

tantas vezes parti como quem mente, com o olhar de quem nunca se foi.
voltava porque ardia, meu amor,
e de novo partia porque quase nunca encontrava seus olhos
de outra vez para sempre à minha espera.

tantas vezes parti como quem erra
era moda, meu amor, os não caminhos
os desencontros, os desenlaces, os ninhos desfeitos.
mas nunca encontrei doçura como esta, das não perguntas,
em tuas mãos de acolher-me sem defeitos,como se recolhesse, do vento,
resquícios de alguma frágil chuva azul.
- Lázara Papandrea

Edvard Munch, Budding Leaves
Continue fazendo um bom trabalho, mesmo que só por um instante, só pelo cintilar desta pequenina galáxia.
- Wislawa Szymborska -



Sibila De Andrade

Quem sabe não enlouqueci um pouco?
Ignorar os próprios limites é como pular a cerca da razão.
Acho que andei traindo a minha sanidade, com o que não posso ser...


- Sibila De Andrade


© Mira Nedyalkova

invisibilidade


essa dor que quando olhas
não compreendes por quê
não é de fratura exposta
é de amor sem resposta
a solidão ninguém vê
* líria porto

Obaidah Zorik 
"“O que é obsceno? Obsceno? Ninguém sabe até hoje o que é obsceno. Obsceno para mim é a miséria, a fome, a crueldade, a nossa época é obscena.” 
- Hilda Hilst


Blue Bird, Nawar Haedar - Syrian Artist

saude - tonicesa badu e leonel generoso





saúde
tonicesa badu e leonel generoso
quero ver, quero ver!
saúde, saúde.
em tudo quanto é lugar:
perceber um mundo, mundo novo
saúde no pensamento, pra pensar na vida: boa!
saúde no coração, prá sentir pulsar de novo
vindo como chuva fina, como água cristalina. quando o dia alumia os olhos do seu amor
saúde no pensamento, pensando como é que pode ser
as cores do seu amor. quero ver, quero ver! em tudo quanto é lugar: saúde, saúde.
saúde no coração, dia a dia
a saúde regendo o mundo, isso pode acontecer... vindo como chuva fina, como água cristalina. sentimento de amor pelos nosso irmãos
verdes serras, virgens matas...
sentimento de amor pelos nosso irmãos! na na na na na a saúde começa nascente dessas águas claras, água segue, enche rio, junta água, cria peixe, cria planta,
na na na na na
junta vida, vida santa! vida sã... saúde, saúde! na mata virgem, saúde na plantação. saúde pela cidade, saúde pelo sertão.



"Bom seria escrever à noite, e viver de dia."
Marcia Fontes
22/08/2017

Aldemir Martins - Vaso de Flores

José Leonilson



–  Na época, a instalação era uma linguagem muito distante do que você vinha fazendo.
– Não tem longe ou perto. É preciso ir tentando e fazendo. Hoje, por exemplo, eu não ia conseguir cortar madeira, bater prego, transportar peso. Pela minha saúde…
– Você poderia delegar essas tarefas a um marceneiro.
– Não. Ou faço eu mesmo, ou faço outra coisa. Por isso, agora faço objetos de pano.
– Há toda uma linhagem de escultores que só trabalham assim. Por que você não passaria a execução da obra para outra pessoa? O problema é a questão da autoria?
– Simplesmente porque eu gosto de fazer. É meu prazer. A obra é conseguir fazer. A gente trabalha com o que tem. Se não é possível fazer alguma coisa, tem que fazer outra. É preciso respeitar isso. Eu já te disse que a obra não é tão importante quanto o aprendizado. É muito importante ir aprendendo com o que se faz.
– A questão do artesanato, do precário,  é fundamental nos seus objetos. Este desenho, por exemplo, mostra uma situação num equilíbrio difícil, próximo da imperfeição.
– É. Acho que nenhum marceneiro nunca aceitaria fazer esse trabalho. Como tem ideias mais rígidas  que as minhas, ele modificaria para a peça ficar certinha e não ficar bamba. Mas eu quero que a coisa fique bamba. Uma das características do meu trabalho é a ambiguidade. A gente falou de sexualidade na semana passada.  Eu dizia que meus trabalhos eram meio gays assim, mas não é isso.  Acho que eles são ambíguos mesmo. Por exemplo, eu trabalho com a delicadeza, uma costura, um bordado. Leda [Catunda] trabalha com aqueles colchões, aqueles monstros.  Isto é uma  ambiguidade em relação a ela como mulher. Assim como os bordados revelam minha ambiguidade na minha relação como homem. Gosto muito dessa forma de pote. Tem a ideia de uma pessoa que está  sendo esvaziada, outras vezes está cheia. Neste desenho, retirei uma frase de um texto da Maria Rita Kehl e acrescentei: “O desejo é um lago azul”, que já é uma frase minha. Eu gosto deste trabalho com uma pessoa se deitando na mão de outra. Sabe o que é estar completamente dominado por outra pessoa? Mas mesmo quando tiranizado ou dominado, você não perde o que é seu.


L_Sem-título_1990 - Leonilson

Saudade


Perde-se tudo. As contas. Os amigos. Os pais e os filhos. Perde-se o momento, a vez, a chance, o trem. Perde-se a vida, os dentes, amores. Casas, chaves, empregos. O Livro dos Mortos. Lâmpadas. O vinil do Milanês.
Perde-se o primeiro desenho da filha. A primeira palavra. O primeiro beijo.
Perde-se o tempo.
Perde-se o controle, caminho, prazos, retratos. Voz. Visão. Movimento, hora, consulta. Vontade e tino. Semana, ano, domingo.
Perde-se rancor. A inocência, o carro, a razão.
Perde-se de tudo neste mundo.
O ódio e o amor. A fé e a descrença, o difícil e o simples. Quem mate e quem socorra. O medo, a sede, a fome, o instante. Basta que nasça. Basta que morra.
Perde-se tudo num movimento constante. O palco e o fogão. O cargo, a delicadeza. Mistério. Quem pare ou quem corra, mesmo que a isso ignore
e perde-se sempre o bastante. Perde-se aquilo que nunca se quis. Que sempre esperou.
Perde-se o que não merecia. O que era tão pouco. Egoísmo. Miséria. Riqueza.
A tarde, o sol, a vergonha. Lágrimas, sangue. O pão sobre a mesa.
Perde-se a cabeça, o faro, o toque, o instinto. A compreensão. A classe.
Perde-se e perde-se. Sempre. Perde-se tudo.
Saudade.
(A.Bolívar)

Xavier Austen

"êxodo XV"

 - poemas para a Palestina - ziul serip
há rachaduras nas paredes
crisântemos não florescem
há um vento soprando breve
nas colinas e em cada cipreste
havia esquecido do céu escuro:
encharcado de fósforo
há frestas neste muro – como atravessaremos?

Luiz Gustavo Pires


Quando Ulisses retorna a sua casa - com sua aparência externa completamente mudada - somente é reconhecido por seu cão: o que de Deus resta no cão reconhece o que de Deus resta no homem - o divino se reconhece no divino do outro. 
Um (buda) sempre reconhece outro (buda) - mesmo na forma de um vendedor de picolés ... de um cão ... de um homem .. de uma pedra.

Wiltonn William Leite


você (tonicesa badu)




você
tonicesa badu

te espero tranquilo. onde vou te procuro,
onde estou te chamo, te chamo... com voz de cantor.
no meu pensamento, no coração
meu amor, te quero!

me espera tranquila. onde vai me procura,
onde está me chama, me chama... a voz é o cantor,
o seu pensamento, seu coração
seu amor, eu quero!

ah!... because the sky is blue
it's make me cry...

menina bonita do céu azul,
da saia rodada, do sorriso blue...
caminhamos juntos neste mundo
bela companheira, velha companheira...

dividimos segredos, acordamos cedo
encontrando um jeito de ser feliz.
feliz..., do jeito que der,
feliz..., o tanto que puder



citações:
"because" de lennon e mccarteney
"refazenda" de gilberto gil
"terezinha de jesus" do povo
"escravos de jó" do povo
Acaso calar-se será apenas silêncio?
E falar será o silêncio que habita na palavra?
Quem abrirá a última porta?
A porta que está por trás de todas as palavras e das portas?
Será o silêncio finalmente?
Ou está em nós a viva voz silenciosa?
Aquela que nos encontra ou a encontramos?
Quando tudo nos deixa?
Quando não resta nada?
A vida inteira se oculta e se procura no vocábulo.
- Hector Berenguer poética


@ Elena Prodnikova


¿ Acaso callar será solo silencio ?
¿Y hablar será el silencio que habita en la palabra ?
¿ Quien abrirá la última puerta ?
¿ La puerta que está detrás todas de las palabras y las puertas ?
¿ Será el silencio al fin ?
¿O está en nosotros la viva voz callada ?
¿Esa que nos encuentra o la encontramos ?
¿Cuando todo nos deja?
¿Cuando no queda nada?
La vida entera se oculta y se busca en el vocablo.
Hector Berenguer Poética

30.8.17

Na ribeira deste rio - Dori Caymmi



Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio.
Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
Numa sequência arrastada,
Do que ficou para trás.
Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.
Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi.
Ele passa e eu confio.
.
2-10-1933
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). – 184.
Não desista, por favor não ceda, mesmo que o frio queime, mesmo que o medo morda, mesmo que o sol se esconda, e se cale o vento, ainda há fogo na sua alma, ainda há vida em seus sonhos. Porque a vida é tua e teu também o desejo, porque cada dia é um novo começo, porque esta é a hora e o melhor momento.
Mario Benedetti



Yayoi Kusama 



No te rindas, por favor no cedas, aunque el frío queme, aunque el miedo muerda, aunque el sol se esconda, y se calle el viento, aún hay fuego en tu alma, aún hay vida en tus sueños. Porque la vida es tuya y tuyo también el deseo, porque cada día es un comienzo nuevo, porque esta es la hora y el mejor momento.
Mario Benedetti
O medo passa de homem para homem
sem saber,
Como uma folha passa seu tremor
a outra.

De repente, toda a árvore treme
E não há vestígios de vento.

Charles Simic
Medo
Língua de madeira
(Antologia da poesia curta em inglês)
Tradução de Hilario Barrero
A Ilha de Siltolá, 2011


Vasile Popescu




El temor pasa de hombre a hombre
sin saberlo,
como una hoja pasa su temblor
a otra.

De repente todo el árbol tiembla
y no hay ni rastro de viento.

Temor
(antología de poesía breve en inglés)
Traducción de Hilario Barrero
La Isla de Siltolá, 2011

Feliz e Saudável - Tribalistas (lyric video)

Entre duas pessoas acontece que, por vezes, raramente nasce um mundo. Este mundo é, então, a sua pátria, mas era a única pátria que estávamos dispostos a reconhecer. Um pequeno microcosmo, onde sempre se pode salvar do mundo a desmoronar-se.
Martin Heidegger a Hannah Arendt





Tra due persone accade che talvolta, molto raramente nasca un mondo.Questo mondo è poi la loro patria, era comunque l'unica patria che noi eravamo disposti a riconoscere. Un minuscolo microcosmo, in cui ci si può sempre salvare dal mondo che crolla.
Martin Heidegger a Hannah Arendt

CEGOS - SUORES


...nesse caminho
de entardecer
os olhos desejosos,
de noite, cego-me
quase que inteiramente,
como o princípio do fim,
pois, tudo que eu quero
é amanhecer - me
dentro
-
fora
-
dentro
-
fora
-
fora
ou
dentro
de
ti...
?
(al2r)

Andre Luis Ribeiro Rodrigues

Muestra Trucha by Guillermo Mena
Quem és tu que queres julgar, / com vista que só alcança um palmo, / coisas que estão a mil milhas?
.
E vós, mortais, guardai-vos de julgar.
Dante Alighieri 
(1265 - 1321)


29.8.17

Misture amizade, ternura, paixão, tara, confidência, respeito, admiração e dependência, e vc está ferrado: o resultado disso é amor.
Fabrício Carpinejar

Sven Lundgren
Por que, eu devia esperar por algum tipo de privilégio? A idade, com seus visíveis desconfortos, chega para todos. Ela atinge um homem aqui, outro lá. O seu golpe sempre atinge uma parte vital. A vitória final sempre pertence ao Verme Conquistador.
Freud, em entrevista com George Sylvester Viereck - 1930

Adam Fuss, For Allegra, 2009

Charles Burck

Dominguei no azul, perdido de mim,
A chuva tamborilou no teu telhado,
Escorreu deixou um legado de papel pintado,
E você não viu, não me viu nele, nem entendeu o recado,
Sou filho do mar, peixe pintado de cores marinhas
Domingo veio antes do sábado, o azul faz tempos que te olha admirado
E eu também.
Charles Burck



Cypress Hill - Insane In The Brain (Official Video)

O deus que aparece nos livros criou o mundo através da palavra. O que ele poderia fazer se ele tivesse mantido o silêncio?


Se a clareza extrema, a indicação perfeita é perseguida, o silêncio é atingido. Aquele paraíso desolado.


Cale a boca. Fazer silêncio. Não são comparáveis.


Uma gramática do silêncio. Uma sintaxe do silêncio. O impossível. Uma série de regras em um território cheio de vazio. Sopra tão cheio.


Por escrito, o silêncio é bidimensional. No ar, o silêncio tem corpo, volume. Às vezes fica atordoado.


Não é tão importante o que podemos dizer. A verdade está integrada no que somos capazes de ouvir.


1952. A gaiola compõe 4'33 ". O intérprete não deve tocar em uma única nota. A palavra "tacão" indica que há silêncio. Três movimentos: o pianista que estreia a peça marca a duração de cada um deles fechando e abrindo a tampa do piano. Tudo isso dura quatro minutos e trinta e três segundos. O público está desconcertado. Alguns até ficam com raiva. Eles terão tempo para descobrir o que a Cage ofereceu: para recuperar esses sons do mundo que a música teria feito desaparecer.


Algumas pessoas sustentam que o silêncio pertence ao domínio da linguagem. O oposto pode ser dito: linguagem como tentativa de libertação fracassada; A liberdade estava no lugar que queria sair.


O silêncio é uma forma discursiva que não admite refutação.


O silêncio não é ambíguo; É complexo. A ambigüidade é em linguagem. Naquela insistência humana em usar um martelo para puxar um parafuso.


A linguagem é uma religião. É necessário acreditar nele para encontrar o significado. A fé é a única condição de existência.


O implícito. Esse suposto híbrido que caminha entre linguagem e silêncio.


Fazer o silêncio é uma condição indispensável para a escuta. O que implica o outro. Uma verdade autônoma.


Eugenia Almeida


Originalmente publicado em Docta - Revista de Psicoanálisis

Ano 13 N ° 11 - Primavera de 2015







Hablar del silencio


El dios que aparece en los libros creó al mundo a través de la palabra. ¿Qué hubiera sido capaz de crear si hubiera permanecido en silencio?

Si se persigue la extrema claridad, la nominación perfecta, se llega al silencio. Ese paraíso desolado.

Callarse. Hacer silencio. No son en absoluto comparables.

Una gramática del silencio. Una sintaxis del silencio. Lo imposible. Una serie de reglas en un territorio repleto de vacío. Estalla de tan lleno.

Por escrito, el silencio es bidimensional. En el aire, el silencio tiene cuerpo, volumen. A veces llega a aturdir.

No es tan importante lo que somos capaces de decir. La verdad se construye en lo que somos capaces de oír.

1952. Cage compone 4´ 33´´. El intérprete no debe tocar ni una sola nota. La palabra “tacet” indica que hay que hacer silencio. Tres movimientos: el pianista que estrena la obra marca la duración de cada uno de ellos cerrando y abriendo la tapa del piano. Todo eso dura cuatro minutos y treinta tres segundos.  El público está desconcertado. Algunos, incluso, se enfurecen. Van a tardar en descubrir lo que Cage les ha ofrecido: recuperar aquellos sonidos del mundo que la música hubiera hecho desaparecer.

Hay quien sostiene que el silencio pertenece a la esfera del lenguaje. Podría decirse todo lo contrario: el lenguaje como un intento de liberación fallido; la libertad estaba en el lugar que se quiso abandonar.

El silencio es una forma  discursiva que no admite refutación.

El silencio no es ambiguo; es complejo. La ambigüedad está en el lenguaje. En esa insistencia tan humana de usar un martillo para sacar un tornillo.

El lenguaje es una religión. Es necesario creer en él para encontrarle sentido. La fe es su única condición de existencia.

Lo implícito. Ese supuesto híbrido que camina entre el lenguaje y el silencio.

El hacer silencio es condición indispensable para escuchar. Lo uno implica a lo otro. Una verdad desatendida.

Eugenia Almeida

Publicado originalmente en Docta – Revista de Psicoanálisis
Año 13 N° 11 – Primavera 2015